segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Balanço

Exortava Santo Agostinho à prática diária do exame de consciência, caminho privilegiado para a autognose. Gostaria de o fazer mais amiúde, mas sei que, na passagem de ano, como em qualquer transição de um ciclo para outro, se torna inevitável o balanço que todos nós acabamos por fazer.
Fica a síntese do meu 2007.

Janeiro
Entrei em 2007 desempregada, sem direito a subsídio de desemprego e de mal com o C. Confiante, contudo, na bonança que sucede à tempestade e no meu sindicato que avançara com uma acção judicial para reintegração na instituição que continua a ser regida pelo TyrannoRector-Rex .

Fevereiro
Consigo ficar colocada numa oferta de escola. Ensino Francês a um bando de selvagens.

Março
Faço 31 anos. Sinto-me velha. Mas quero chegar aos 100.

Abril
Apresento uma comunicação sobre Baptista-Bastos num colóquio internacional organizado pela FLUL e outro, sobre Torga, na UÉvora. Foi bom para o ego.

Maio
Dão entrada na Conservatório do RC os papéis do divórcio por mútuo consentimento. Não por falta de amor, mas sim pela constatação do desgaste gerado por uma relação insuportavelmente conflituosa.

Junho
Fico lelé. O trabalho de fim de ano lectivo é tão desgastante que o médico me receita um suplemento em cápsulas amarelinhas.

Julho
Destaco, neste mês:
1. O nascimento do Rabiscos Garatujas;
2. A minha ida a Tormes - a oportunidade de aprender um pouco com o simpático Luíz Fagundes Duarte, o charmoso Carlos Reis, a apaixonante e apaixonada Elena Soler; de conhecer pessoas tão bonitas e interessantes; de visitar Tormes in loco.

Agosto
O termo do contrato na escola não me conduziu a uma nova situação de desemprego graças ao Tobias que me fez descobrir outras qualidades minhas que estavam adormecidas.

Setembro
Estou oficialmente divorciada.
Desespero com a lentidão das listas de colocação.
Fico colocada na 1ª cíclica com horário nocturno e incompleto a 30km de casa. Fico feliz.

Outubro
O mês da calmaria.
O mês em que nasceu o Duarte.

Novembro
O divórcio saiu do papel e visitou-me, de uma forma abrupta, crua, horripilante.

Dezembro
Compreendo que 2007 foi, para mim, o fim de um ciclo. Fui afastada de um emprego que me preencheu a alma durante 7 anos e do homem amado por quem vivi nos últimos 15 anos da minha vida. Em ambos os casos houve choro e ranger de dentes. Mas, também, a manutenção da dignidade.
Sei que tenho amigos. Dos bons.

Em 2008 a vida pode piorar: fico com cancro ou paraplégica, a morte visita alguém de quem gosto, em Setembro regresso ao desemprego, quebro laços de amizade, um meteorito cai sobre a minha casa,um raio fulmina o meu carro, etc, etc, etc

Mas pode melhorar. Vai melhorar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Caridade

Esta é a máxima que os espíritos evoluídos nos sugerem, mas o que é caridade? Muitos de nós possivelmente definem-na pela moedinha que se dá a um sem abrigo. Mas isso é esmola, não é caridade! (incipit de «Fora da caridade não há salvação», in Blog de Espiritismo).

Sou espírita e muito longe da santidade. Por isso, e embora saiba que não é a solução, às vezes dou esmola. No dia 24 um mendigo pedinchava em plena Rua Direita. Não há muitos mendigos em Portimão. Os Manelinhos, que não estão habituados, ficam sempre muito chocados com a pobreza assim tão escancarada. Às vezes partilhamos comida, quando regressamos das compras. Mas nesse dia estávamos apenas a passear. Vésperas de Natal. Não pode o coração de um homem se alegrar momentaneamente com uma garrafa de vinho ou um maço de cigarros? Um euro para o Tomás e outro para o Nuno colocarem no chapelinho.
O Tomás avançou. Colocou a moeda e balbuciou um "Feliz Natal". O velho desdentado, roto, sujo, podre e mal-cheiroso esticou os braços, agarrou no menino e pregou-lhe um beijo ruidoso nas duas faces. Fiquei tão atordoada, que não consegui salvar o Nuno. Já estava ele, de braços abertos, a aproximar-se do velho imundo.
Em casa desinfectei-lhes a cara com álcool.
Sem explicações.
É que eu dei a esmola; eles fizeram caridade.

Prima

Cruzei-me com uma prima maluca na baixa da cidade. Não consegui atravessar a rua a tempo. Ela apanhou-me. Fiquei a saber que:
- o filho, que só tem 25 anos, já é licenciado em engenharia civil;
- ela anda muito amiga de pessoas de alto nível da política;
- uma prima nossa está doente porque, desconfia ela, lhe puseram qualquer coisa na bebida porque é amicíssima do António Costa;
- o Mexia da EDP é nosso primo porque casou com uma prima duma prima duma prima não sei do quantos;
- o apelido dela é de origem italiana, pelo que será certamente descendentes dos romanos;
- os algarvios são mouros e, por isso, mais inteligentes que os do norte;
-, aliás, os europeus são inteligentes porque são descendentes dos indianos;
-, pois então, os alemãos são indianos;
- quem começou a 2ª Grande Guerra foram os belgas e não os alemães;
- a raça negra é a menos inteligente;
- a raça negra vai desaparecer da face da terra num espaço de mil anos;
-, contudo, não devemos matar os negros;
- não devemos falar sobre o atentado que vitimou Benazir Butto, porque a cor da nossa pele nos pode meter em sarilhos;
- estou muito escura e que devo pôr uma máscara de leite e farinha para aclarar a pele;
- os meninos, embora tenham um pai branco, estão muito queimados;
- pensava que eu tinha 17 anos (sim, tive filhos aos 10).

É sabido que não convém contrariar os loucos. A tudo disse amém. Depois, fugi.

Sinonímia

Cozinha. Hora d'almoço.
Nuno -Não estás a exagerar no alho?
Eu - Não. Há até uma canção que é assim: "Bacalhau quer aaalho / É o melhor tempêêêroo..."
Nuno, de olho arregalado - Ahhhhhh. Disseste um palavra feia!
Eu - Eu?!?!? Qual?
Nuno - Posso dizer?
Autorizo.
Nuno, baixinho - Ca-ra-lho.
Eu - Temos de limpar esses ouvidos. Escuta lá, devagarinho: "Ba-ca-lhau-quer-aaa-lho / É-o- me-lhor-tem-pêêê-roo..."
Nuno - Ahhh!
Entra o Tomás.
Nuno - Más, a mamã ensinou-me uma canção tão gira, escuta lá: "Bacalhau car aaalho / É o ingrediente que se põõõe..."

Vizinha

Ela - Ó minha vizinha, você deve ter a idade da minha filha, não?
Eu - Não sei, minha vizinha. Que idade tem a sua filha?
Ela - 44 anos.
Eu - Sim, sim, estou perto disso.
Eu em pensamento - Puta.

Gaiola

Sufoco, num espaço triste de 500 m2. Estou proibida de receber seja quem for cá em casa.



Desenho de Mariana Massarani (retirado daqui)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Blogues de Elite

Agradeço ao Paulo e ao Zé a inclusão deste blogue nos seus 5 de Elite. Para além da vaidadezinha, visitou-me também a emoção pela leitura das duas linhas que explicaram a escolha do Rabiscos e Garatujas.
Gostaria de adoptar o mesmo critério de selecção destes meus amigos, mas são poucos os bloggers que conheço pessoalmente e de quem sou amiga. Amizades a parte, listo os cinco blogues que considero uma referência. O autor do meme explica as regras muito bem explicadinhas no seu blogue PutsGrilo!com.



Felizes Juntos, o blogue do Zé e do Paulo, de quem eu tanto gosto e cujo entusiasmo contagiante motivou a minha aventura na blogosfera.


Ana de Amesterdam. Gosto da vertente intimista, da linguagem depurada e despudorada, dos pormenores em que me revejo (as origens, a crianças) embora reconheça uma amargura que dispenso na minha vida.


A Vida em Deli, do Constantino, tão bonito que me deixa tonta. Gosto da hibridez do discurso meio jornalístico meio intimista que me traz um pouco da terra longínqua dos meus antepassados.


Volta à Vida em 80 Mundos, também no domínio do intimismo. Escorreito e divertido, revela o mundo pela perspectiva de uma "viajante por escolha" que está "na aviação, por profissão".


Skyborg. Fala de coisas sérias como se fossem brincadeiras. Faz-me rir pela ironia sarcástica e plos palavrões qu lhe dão um toque especial.



***
E ainda não foi desta que escrevi sobre a minha ida a Lisboa. Sobre as pessoas com quem estive em Lisboa. Sobre os meus afectos.
Amanhã talvez.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Trinta e um anos

Consegui, finalmente, explicar às manas e ao mano que abomino a troca de prendas no Natal. Horrorizados, acham que já está a surtir efeito a lavagem cerebral da seita em que me meti! Disse-lhes que para o próximo Natal estamos a planear um suicídio colectivo, para nos entregarmos em sacrifício nos braços do redentor. Comigo é assim. Começam a aparvalhar e eu dou corda. Ameaçaram-me tirar os meninos. Bem, ao menos sei que zelam por mim e que me é afinal permitido enlouquecer, que os gaiatos não ficam mal.
Custa muito perceber que depois dos trinta uma mulher já se aventura na defesa das suas convicções? Ok, eu corrijo. Uma mulher não. Eu.
Ihih.

O nosso Natal...

... foi muito bom!
Aproveitei a ausência do C. e dos avós para afastarmos as festanças da praxe e nos recolhermos na essência do Natal. Pusemos uma mesa bonita no centro da sala e aprumámo-nos para pensarmos no e com o aniversariante. A escolha da ementa foi a três: canja, pela mamã; bacalhau à Brás, pelo Nuno; arroz doce pelo Tomás. Ementa seguinte: Sopa de legumes (mamã), arroz de marisco (Tomás), doce de laranja (que o Nuno repescou numa revista num dia em que fui ao cabeleireiro)
Sem árvore, sem presépio, sem a absurdidade de prendas. Com espírito. A rigor.

Pequenos goeses

1. Há mocinhos goeses tão bonitos, não há?
2. Cantam mal que sa farta!
3. Os pais filmam pior ainda!
4. Será que o 5º pequeno cantor é meu primo?

Sítio do Picapau Amarelo

Sempre gostei muito desta música, mas escolho esta abertura(de 1978) porque o Tomasinho acredita piamente que, nesse tempo, as imagens do livros se mexiam como mostra o videoclip. Espreitem lá.
...
É tão tontinho, este meu filho!

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Querido Pai Natal

São duas cartas que patenteiam algum grau de consciência. Alguma coisa, os meninos vão aprendendo comigo. Afinal, não sou tão má mãe quanto isso. Transcrevo-as. Erros, idem.




Porteime mal
Quando a minha mãe estava no escritorio portava-me mal.
Quando o Nuno queria uma coisa e eu queria outra u Nuno e eu guereavamos.
Quando eu chamava nomes á minha mãe ela ficava furioza.
Porteime beim
Eu porteime beim na minha festa com os meus convidados.
Quando a minha mãe lava o carro portome beim.
Quando jogo compotador porto beim.
Tu podes escolher os brinquedos.
Tomás

Eu pulem em casa, mexi no computador da minha mãe, mexi os papeis da minha mãe.
Eu porteime bem na casa da minha avó, No modelo porteime bem, portome bem na escola.
Tu podes escolher o que devo receber de brinquedos.
Nuno

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Convite

Apesar dos seus 50 mil habitantes, Portimão consegue ser uma cidade pequena.
Esta tarde cruzei-me com o senhor da pensão. Um velho beiçudo, com cheiro a cebola e de pele castanha como a minha.
- Boa tarde. Por acaso, a senhora não quer vir beber um café comigo?

Acho que, pela primeira vez na minha vida, consegui pronunciar um não firme, absoluto, e sem azo a segundas interpretações.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Uma festa peculiar

Queria vir escrever sobre a minha ida a Lisboa, mas a noite de ontem foi diferente e inverto a ordem de Cronos.

Foi ontem a festa do CEBV. O ambiente era tão bom e os Manelinhos estavam a aguentar-se tão bem que me fui deixando ficar. Saímos, passava da meia-noite. Chegados às portas de casa, procurei as chaves na mala. Nada. Com muita calma, voltei a procurar. Nada. Retirei o telemóvel, a carteira, o bloquinho, a caneta, os lenços de papel, os batons, a escova e a pasta de dentes, o frasquinho de perfume, o penso higiénico de emergência, berlindes dos meninos e a restante tralha que habita a minha malinha. Nada.
Telefonei para o meu cunhado com quem deixei uma cópia para situações de emergência. Mas, claro, àquela hora já estava a dormir.
- Meninos, vamos fazer uma festa!
A solução para 1. não lhes mostrar o quão incompetente e irresponsável consigo ser quando tenho duas crianças sob a minha alçada; 2. não permitir o gáudio do C. com mais uma das minhas azelhices.
Eu - Vamos dormir fora, que tal?
Tomás - Boa!!!
Nuno - O que estavas a procurar na mala?
Eu - O nome da residencial.
Nuno - Ah, pensava que eram as chaves.
Tomás - Ela veio até aqui a casa para nos pregar uma partida! Que fixe! Vamos dormir num hotel?
Perante o saldo da minha conta bancária, a alternativa foi outra.
Por 20 euros, encontrámos um tecto no centro da cidade. Por 20 euros, em Portimão, dá para imaginar a qualidade do quarto e da residencial em questão...
Dormimos encolhidinhos e aproveitámos os primeiros raios de sol para ir buscar as chaves benditas à do Tio Pedro.

Enquanto lhes dava o banho, o Nuno fixou-me o olhar.
- Mamã... não fiques triste, mas eu não gostei muito da festa. Para a próxima, ficamos cá por casa, está bem?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Lisboa


Depois de terminar as aulas às 23 horas, chegar a casa trinta minutos depois, enganar o desconforto com um resto de sopa, deitar os meninos, preparar as malas e dar uma última arrumação à casa, acredito que será um pouco penoso acordar às 4h30 para apanhar o autocarro das 6h20. Mas vai valer a pena.
Eu e os Manelinhos vamos arejar o espírito com a poesia da capital.
Vamos repetir uma coisa que adorámos fazer um dia: andar de metro, de eléctrico, de combóio, de autocarro e de barco também. Vamos flanar pelas ruas. Vamos conhecer a Byblos. Vamos estar com pessoas de quem gostamos muito.
Vai ser muito bom.

Regresso prometido para sexta-feira.

Grafologia...

O Paulo partilhou a infomação e eu não resisti a espreitar o resultado sobre moi. Foi este:


Coincidência, ou não, sou eu sim (excepto a segunda frase e o final da penúltima).

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Os maus da fita

Lê-se a seguinte notícia, na pág. 11 da Dica de 15 de Novembro (sim, o semanário do Lidl):

Os "lobos" dos contos infantis têm de continuar a ser maus e a morrer
O "lobo" tem de continuar a ser "mau" nos contos de fadas e "o pau deve ser atirado ao gato" nas canções infantis para que as crianças aprendam a distinguir o bem do mal, defende o pediatra
Mário Cordeiro, que acaba de lançar um novo livro onde pretende contestar a forma politicamente correcta como as histórias e as canções tradicionais infantis tendem a ser contadas e cantadas às crianças hoje em dia. "Acho que deve ser como sempre foi. Não se devem suavizar as histórias. Quando se fala de lobos, reinos ou príncipes encantados nas histórias de 'Era uma Vez', isso significa o próprio percurso da vida", explicou Mário Cordeiro em entrevista à Agência Lusa. Na história dos "três porquinhos", as casas de palha, madeira e tijolo significam as várias etapas da vida do indivíduo, em que há uma evolução e estruturação social e pessoal, exemplifica o pediatra. "A casa de tijolo transmite a noção de que o trabalho e a segurança são necessários à brincadeira e ao lazer", sustenta. Mas, segundo o pediatra, essa casa deve ter sempre a chaminé e um caldeirão de água a ferver onde o lobo morre, já que a presença destes elementos na história lembram sempre a vulnerabilidade do ser humano e a sua capacidade para superar situações. "Porque se o porquinho vivesse num 'bunker' sem chaminé não poderia cozinhar e, logo, morreria de fome", explica. Da mesma forma, o lobo da história tem de morrer e não se deve contar uma versão em que a fuga é a solução, até porque isso deixa a porta aberta para a possibilidade de um regresso. E por mais cruel que pareça, também as várias histórias em que morre a mãe de uma personagem devem ser contadas tal e qual, para preparar os filhos para uma vida própria e autónoma. E é também por isso que as mães, segundo Mário Cordeiro, são substituídas por madrastas más, para deixar de haver um pólo de segurança. A falta de definição entre o bem e o mal pode levar a um medo de crescer, que, segundo o médico, é a causa de grandes problemas na adolescência. No fundo, Mário Cordeiro tentará explicar «o medo de crescer», dando aos pais ferramentas para se responsabilizarem na definição de limites para os filhos. «É fundamental uma criança conhecer os limites da sua relação com o outro», afirma.
(…).

Há uns anos atrás (Beja, 2000), num encontro sobre Literatura para Crianças, dizia Olga Fonseca, docente na ESE da Universidade do Algarve, numa comunicação intitulada Em Louvor das Bruxas, das Madrastas e de Outros Trastes:

É às madrastas que compete obrigar as crianças a desempenharem tarefas que lhes desagradam mas que são vitais para que se tornem independentes, tal como acontece no conto da Gata Borralheira, em que a heroína é obrigada a desempenhar as tarefas que estavam então associadas ao perfil de uma boa dona de casa. (...). Numa leitura mais superficial podemos, pois, entender a obrigatoriedade de desempenhar todas as tarefas como uma preparação para o matrimónio. Uma leitura simbólica mostrar-nos-á que a Gata Borralheira está a organizar a sua vida interior, a arrumar as ideias, a separar o instintivo e inato, do racional e adquirido, a criar a sua individualidade.
É às madrastas que compete obrigar as crianças a abandonarem o aconchego familiar, tal como acontece no caso de Branca de Neve. (...) Também na versão tradicional de "A Gata Borralheira", anteriormente referida, há uma passagem que acho muito bonita, em que a madrasta ordena à menina que mate a vaquinha (que a protegia). A menina fica muito triste, sem saber o que fazer, mas a vaquinha tranquiliza-a e diz-lhe que, depois de a matar, vá lavar as tripas ao rio. A menina assim faz e vê sair, rolando, de entre as tripas, uma bola de ouro que a menina persegue. Não me alongarei muito no simbolismo desta passagem, mas parece-me que é fácil aceitar que, ao mandar que a menina mate a vaquinha protectora, a madrasta está a dizer-lhe que corte o "cordão umbilical", cresça e que construa a sua própria vida.
(...)
É, normalmente, a madrasta, a bruxa ou um monstro quem impõe um interdito ao herói ou heroína dos contos maravilhosos. A proibição é respeitada durante um certo tempo até que acaba por ser transgredida, ao que se sucede uma punição. Mas essa punição é aparente porque, uma vez mais, uma leitura ou audição mais atenta do conto permitir-nos-á verificar que foi a transgressão que permitiu ao herói ou heroína atingir a felicidade.
(...)
(...) não é por não ouvir falar em papões ou bruxas que a criança deixa de ter medos. O medo é natural nela. Crescer é uma coisa linda mas difícil por isso é natural que cause medo. Os papões , as madrastas, as bruxas dão um corpo a esse medo, permitem que ganhe uma forma compreensível aos seus olhos. Mas para continuar a cumprir a sua "missão histórica", as personagens que aqui louvei têm que continuar a provocar ódios e medos. Não podem ser amaciadas, suavizadas nem traduzidas em linguagem de adultos (trauma, complexo de Édipo, complexo de intrusão, anima e animus, etc.); têm que continuar a ser uns trastes.


Também Manuel António Pina opinou sobre o assunto:

Quem tem medo de papões e de papoas
Ainda não chegou à conclusão
Que as bruxas más às vezes são boas
E que as fadas boas não.
(...)


UMa anula carta de denúncia de contrato

A Universidade da Madeira anulou, quase no limite do prazo de impugnação contenciosa, uma carta de denúncia de contrato enviada (já fora de prazo) a uma Leitora, todavia com serviço atribuído.
Merece realce a serenidade com que a colega foi desempenhando ao longo de quase três meses as suas tarefas, enquanto aguardava que a Reitoria retirasse a sua comunicação de denúncia.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Estratégias

No Parque da Juventude, juntam-se umas 8 a 10 crianças para brincarem à "apanhada". Depois de alguns minutos, descubro algumas estratégias. Há um miúdo que não sai da segurança do coito; há uma miúda que, quando fica a apanhar, não corre, anda devagarinho, como quem nem está a jogar, e assim apanha muito facilmente os mais desprevenidos; há um miúdo que, quando sente que está prestes a ser apanhado, estica muito os braços e numa fracção de segundos, zás!, apanha o que o tinha apanhado. Os meus Manelinhos são uns batoteiros. Hoje estavam vestidos com uma roupa muito parecida, o que ajudou imenso à batota. Têm duas estratégias que resultam da força que os une. 1ª - Trocam os nomes, baralham os outros meninos e, zás!, apanham qualquer um deles muito facilmente. 2ª - Quando um fica a apanhar, o outro aproxima-se e, muito discretamente, pede-lhe para ser apanhado. Os outros não se apercebem e fogem do Manelinho errado.
Findo o jogo confrontei-os com a batota.
- São os planos B e C, mamã.
- Qual é o A?
- Perguntar, a quem parece distraído, quem é que está a apanhar. Depois, zás!

Tinha preparado um sermãozinho sobre a imoralidade da batota. Mas calei-me.

Metáfora

Hora de leitura.
Releio O Conto da Ilha Desconhecida. À minha frente, o Tomás tem em mãos o Como se Vence um Gigante, do António Torrado. O Nuno, ao seu lado, debruça-se sobre um um livrinho da Ulmeiro, Como se Fazem os Bebés.
É um momento de silêncio. E é bom. Mas há sempre a excepçãozinha...

Nuno - Oooolhaaa! Olha, Más! "O pénis do homem entra na vagina da mulher. Isso é muito agradável para o homem e para a mulher."
Tomás - Eu também tenho uma metáfora. Olha: "O vento era uma vassoura enorme."




Sobre Como se Fazem os Bebés, aqui.

Mnham!

O meu primeiro arroz doce ficou muito bom. As minhas primeiras sardinhas assadas, também.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Promessa

Tirei a manhã para a limpeza da casa, o início da tarde para o meu cumpadri e a namorada, o resto do dia para os Manelinhos. A noite estaria reservada para o trabalho e, claro, para os meus rabiscos, as minhas garatujas.
Só que...
... o Tomás adoeceu. Depois do brufen e do maxilase, dos aerossóis e dos pingos no nariz, adormeceu.
... o Nuno esteve a fazer, comigo, o meu (e nosso) primeiro arroz doce. Pediu-me, nos entretantos, para desligar o computador e me deitar ao mesmo tempo que ele. Prometi-lhe que assim o faria. Que só precisava de escrever uma coisinha, pequenina, para poder dormir descansada.
Está aqui, ao meu lado, à espera...

...

Não lhe vou fazer a desfeita, pois não?

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Acampamento

Agora que somos três em casa, não convém dormir num quarto tão distante dos dos Manelinhos. Recuso a autorização que o C. me deu para dormir no seu espaço, contíguo ao dos nossos filhos. Durante os próximos dias, o sono festeja-se no quarto do Nuno. Puxámos a cama do Tomás e estendemos um colchão no chão para a mamã. É uma festa, que inclui diálogos gemelares em estado de semi-sonambolismo.

3 da manhã
- Mamã...
- Hmmmm?...
- Podemos ter um animal?
- ...
- Mamã...
- Que é, Tomás?
- Podemos ter um animal?
- Já temos dois peixes...
...
- Mamã...
- Dorme...
- Eu quero um animal com patinhas.
- Eu também...
(Virgem Maria, agora são os dois...)
...
Nuno - Pode ser um bicho da cera?
Tomás - O que é isso?
Nuno - É uma lagarta que quando se transforma em borboleta, faz cera. Ca buuuuurro!
...
Tomás - Mamã, podemos ter um bicho da cera?

(Deixo de fingir que estou a dormir. Passo a estar morta.)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Férias

O C. partiu de férias e só regressa em Janeiro. Pensa ele que desconheço o seu destino. Vou fazer-lhe o gosto, fingindo que não sei que foi para Itália.
Esfrego as mãos de contente. Durante um pouco mais que 15 dias vai haver paz, sossego e harmonia cá por casa. Eu e os Manelinhos vamos passar o nosso primeiro Natal sem discussões nem crises de mau-humor. Vamos poder ter o nosso ritmo, fazer mais barulho que o habitual, ter um pouco mais de liberdade. Sobretudo, e repito, vamos ter mais paz.

(Só me falta compreender por que raio sinto uma ponta de saudade de ver por aqui, a deambular pela casa, o homem que de há uns tempos para cá deixou de me dirigir a palavra.)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Fernanda Botelho - II

Ao limpar o pó da biblioteca, descobri que, afinal, já tinha lido outro livro da Fernanda Botelho. As Contadoras de Histórias.
É uma vergonha, mas tenho de admitir. Nem sempre fixo o nome do autor ou da autora, nem sempre memorizo o título do livro, nem sempre me lembro da história que li.
Fica apenas, por vezes, a sensação de prazer ou desprazer que a leitura me proporcionou.
Deste livro, lembro-me de ter gostado da verve metaficcional, da escrita sobre a escrita do conto, da reflexão genológica, da reflexão sobre a o registo escrito do discurso oral, da presença da ironia.
Como me esquecera do nome das contadoras, abri o livro. Ana, Eva, Isa.
Agora, está novamente na minha mesa de cabeceira.
É por estas e por outras que gosto de limpar o pó da biblioteca (e não só).



terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Fernanda Botelho



Chegou a hora de Fernanda Botelho.
Dela, apenas li Gritos da minha dança. Gostei.


(...)

Às vezes tenho divertidos pensamentos aforísticos, os quais, às vezes, já o eram antes de o serem por obra minha. Como, por exemplo esse de que a vida é o princípio da morte. Até podemos acrescentar que a morte é o princípio da vida, embora eu, muito sinceramente, acredite que não deve ser o princípio de coisa nenhuma, nem dela própria. Caso, porém, seja o começo de qualquer coisa, quer seja dela própria, quer de uma vida virtual, então penso que a morte é um negócio de que todos nós temos de colher dividendos. É negócio condenado à florescência.
Penso também, que a morte é a amnésia total e irreversível quanto ao reino da terra. Mas será? E, se o não for, a morte é um inferno em vida eterna. Mas será?
Penso (logo existo) que tenho de existir para pensar melhor todas esta eventualidades. E entretanto vou dançando este meu fado de lamúrias e de dúvidas metódicas (?), que não sei se é ou não princípio ou fim de não sei quê.
(Declaro que escrevi este fado com prestimosa voluntariedade e com a devida dispersão melancolicamente carnavalesca, recheada de joviais máscaras, distorcidas, põe máscara, tira máscara, e sempre lá fica a máscara. Vá-se lá entender! Por isso fica assim mesmo. O texto e a máscara. E viva a dislexia da (in)coerência!)

«Fado dançado», in Gritos da minha dança, Lisboa,Presença, 2003; p.68.

Agricultor - II

(Manuel, Ilha das Cores)

Agricultor - I

Terça, 4 de Dezembro
Meu querido diário, está a chegar ao fim de mais um dia de trabalho e como é habitual, aqui estou eu a escrever mais umas linhas, para te contar a ti meu amigo, como correu o meu dia hoje.
Hoje mais uma vez levanteime cedinho para ir ao mercado, estava frio como é normal, depois vim com a minha mãe para casa, comi o pequeno almoço e arranquei como meu tractor para Vale Parra, para desvirgar e escraficar quatro vinhas, estava muito frio, levei um cachecol e um casaco muito quentinho, um boné e os óculos, mesmo assim o frio passava, mas enfim, lá cheguei.Um dos donos da vinha já estava lá á minha espera,mal cheguei começei logo a tirar o cachecol e os óculos e comecei a trabalhar, ao meio da manhã chegou o dono da última vinha ao pé de mim. Eu disse-lhe, que só me faltava limpar mais uma vinha e acabar a que estava a limpar, para ir para a vinha dele. Entretanto ele foi logo pôr algum adúbo na vinha para ficar enterrado com a lavora.
Quando cheguei à vinha dele, ele já tinha espalhado o adúbo todo, mais uma vez, começei logo a trabalhar, tirei a lenha da vinha e depois dei mais duas passagens com o escraficador.
Ao longo da manhã, apareceram uma data de pássaros para comerem os bichinhos da terra, mas o que mais achei engraçado, foi uma caturra que apareceu nessa última vinha e punha-se a mexer na terra lavrada com o bico para encontrar comida, depois vim para casa, já passava do meio dia, quando cheguei a casa, abasteci o tractor e fui almoçar, logo depois do almoço, fui limpar a minha vinha, cheguei de novo a casa às dezassete e trinta, voltei a abastecer o tractor, fui tomar banho, jantei e fui estudar, para fazer o exame de Português, ás desanove e vinte vim para a exscola, tive a estudar um bocadinho de ciência sociais e Formação Cívica, depois estive a estudar mais um bocadinho para português e agora aqui estou eu, a fazer o exame de Português.
E assim é um dia na vida de um agricultor.

Mário xxxx
Apesar da ortografia, da pontuação, da sintaxe e de tudo o resto, sinto-me orgulhosa.
A primeira composição do Mário tinha 5 linhas. Dois meses depois, após vários exercícios de escrita e de reflexão sobre a escrita, escreve-me este texto parao exame da Unidade 6.
O Mário tem 29 anos, é agricultor e estudante do Ensino Recorrente. Levanta-se às 3 da manhã para as vendas no mercado. Durante o resto do dia trabalha a terra. Não lê jornais, não ouve rádio, não vê televisão. À noite, entre as 19h20 e as 22h55 está na escola. Não falta a uma única aula.
Apesar de tudo, sinto orgulho, muito orgulho, por este meu aluno.

La gaffe du jour

Nuno: Quando eu for grande também quero ir a Goa, lá na Índia.
Tomás: E eu quero ir ao Canadá. A Shania Twain mora no Canadá.
Nuno: E eu vou visitar a terra onde a mamã nasceu.
Tomás: Posso ir contigo?
Nuno: Sim, mas temos de levar um mapa para não nos perdermos. Fica muito longe...
Tomás (a coçar a nuca): Onde fica, Nuno, que eu já esqueci?
Nuno (a revirar os olhos): Fica no Çambique, Tomás, no Çambique! Pôxa, que és burro!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Metrónomo

Alturas há em que eu deveria pensar antes de abrir a boca...

Os Manelinhos mostram-me, orgulhosos, os progressos no estudo do violino. Preparam as peças que vão tocar, juntos, na audição de Natal.
O ensaio corre bem.
Tão bem, que digo com grande solenidade:
- Bem, parece que chegou a hora.
A pergunta não tarda (são tão previsíveis, os meus Manelinhos!...):
- Hora do quê, mamã?
- Vocês andam a tocar tão bem, que chegou a hora do metrónomo.
-Do quê?!
- Do me-tró-no-mo. Estou muito orgulhosa dos meus meninos.
Sorriem.
- Mas o que é?
Levanto-me, dirijo-me ao escritório do C. Seguem-me. Olham, curiosos, para a caixa.
Sento-me. Respiro fundo e, com a maior seriedade, anuncio:
- Este é um instrumento de iniciação. Só o utilizam os estudiosos que querem vir a ser grandes músicos. Foi assim com o vosso pai.
- Como se usa, mamã?
- Tira-se a tampa. Lá dentro há um pêndulo. Enfia-se num ouvido até atravessar para o outro lado, que é para limpar a cera toda e ficarem com ouvidos de artista.
Tiro a tampa. Mostro-lhes o pêndulo.
O Nuno arregala os olhos.
-Vai doer?
- Um pouco. Se quiseres podes chorar.
O Tomás mantém-se no seu silêncio. O Nuno fixa-me o olhar.
- Eu tenho medo mamã, mas se tu achas que é melhor...
Comovo-me. Abraço-os. Digo-lhes que são uns tontinhos. Pergunto-lhes se acham possível que alguma vez a mamã fizesse uma coisa assim.

É então que ouço o Tomás.
Abraçado a mim, soluça, num choro tão sentido e tão genuíno que me deixa terrivelmente envergonhada...


(Às vezes sou mesmo parva...)





domingo, 9 de dezembro de 2007

Goa

Lá foram o pai e a mãe e a mana do meio, com malas, malinhas e malões, para a terra das cores vivas, a terra das especiarias, a terra de chão vermelho. A terra onde as madrugadas são mornas e cheirosas, onde os homens andam de mãos dadas e as mulheres abrilhantam o cabelo com óleo de côco. Vão visitar os primos e as primas, vão comer doce de grão, caju, manga, bebinca, ambotic, peixe recheado com molhos picantes. Vão ouvir a Missa do Galo em concani, beijar os pés do Menino que em romaria visita as casas da paróquia, tirar os sapatos nos templos hindus, fazer tatuagens de hena. Vão se banhar nas águas quentes de Anjuna, Vagator, Calangute, Calva e D. Paula onde o bafo quente pode ser o de uma vaca qualquer que se aproximou demais depois de deixar alguns presentes à beira-mar. Vão à praça onde a comida se espalha no chão e é embrulhada em folhas de jornal, vão à feira de Mapusa, vão andar de riquexó, vão regatear preços, vão às raves da Goa Trance.
Em Dezembro, quando os vejo partir, fico com pena de ser professora e de só poder ter férias no mês de Agosto.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Jennifer Love Hewitt - BareNaked

Sou fã da JLH desde o anos 90. Descobri-a na série «Party of Five». Não perdia um episódio.

Jim Clancy e Melinda Gordon

(David Conrad e Jennifer Love Hewitt)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Estou apaixonada...

... por um «ser de papel» que saltou do guião para o pequeno ecrã. Chama-se Jim Clancy. É meigo, compreensivo, amigo e tem o tal sentido de humor que não dispenso. Uma pena ser fictício.
A série: Entre Vidas. O actor que lhe dá o rosto: David Conrad. Belo. Belíssimo.





segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O Sr. David

Depois da revolução que se iniciou na minha vida, de um fim-de-semana atribuladíssimo e da preocupação em conseguir conciliar o horário de trabalho nocturno com a nova rotina dos Manelinhos, não há pachorra para aturar um verme chamado David.


Take 1
Depois de se recusar em aulas anteriores a ir ao quadro abrir a lição, hoje prontificou-se em fazê-lo. Com um sorriso nos lábios, escreveu em letras garrafais: vegisemia licao. Ocupou o quadro inteiro. Na primeira contagem até 10, lá lhe pedi comedição. Contrargumentou com a falta de vista. Nova contagem até 10. Comecei por corrigir, que depois do v se segue um i.
-But there is an e there.
- Sr. David, eu disse i. i em português não é a mesma letra que em inglês. O Sr. David pôs um e.
- Não compreendo.
Soletrei-lhe as vogais.
- Não compreendo.
Escrevi as vogais e voltei a soletrar.
- Não compreendo.
Os restantes 24 alunos estavam à espera. Decidi corrigir tudo no fim. Mandei-o continuar.
Terceira Decembre de 2007.
Murmurinhos.
Recomecei a contagem até10. Mandei-o sentar. Apaguei tudo. Peguei no giz e escrevi: Aula nº 20 (vinte) ou 20ª (vigésima) aula. Segunda-feira, 3 (três) de Dezembro de 2007. Virei-me para a turma e com um sorriso bem ensaiado falei:
- Sr. David. Há 20 aulas que abrimos a lição no quadro. Na próxima sessão vem ao quadro outra vez. Vai ver que é capaz.

Take 2
Legendagem de figuras, a propósito de profissões.
Ex. Ele é agricultor. Trabalha no campo.
- Compreendem?
- Sim, professora. - Respondem todos, à excepção de um.
- Sr. David?
- Yes?
- Compreende?
- Talvez.
- Talvez?! Ou sim ou não. Compreende ou não compreende?
- Talvez.

Take 3
- Vamos exercitar a conjugação dos verbos. Façam como no exemplo:
Ele é agricultor. Trabalha no campo. / Eu sou agricultor. Trabalho no campo.
Ele é vendedor. Vende roupa. / Eu ....
- ... sou vendedor. Vendo roupa.
- Muito bem. Compreenderam. Façam o mesmo para as restantes frases.
- I don't understand.
- Não compreende, Sr. David?
- No, I don't see the point. Can you repeat it in english?
- Não, Sr. David. Basta olhar para o exemplo. Eu também não explico em russo, nem em alemão, nem em francês, nem em urdu para os seus colegas, pois não?, e eles compreenderam.
- What?!
Desespero...
- Denise - interrompe-me a Elizabeth que é escocesa- eu explico. Look David, you have to change He to I... bla bla bla ...
- Oh, really?!

Take 4
Eu - Muito bem, conseguiram fazer o exercício. Agora apenas oralmente, vamos usar a 2ª pessoa do singular- tu. Vejam o exemplo: Mamoudou, tu és agricultor, trabalhas no campo. Agora, o Mamoudou vai escolher uma profissão e dirigir-se a um colega.
Mamoudou - Annalena, tu és vendedora, vendes roupa.
Annalena - Nataliia, tu és arquitecta, fazes projectos.
Nataliia - David, tu és professor, ensinas.
David - I'm completely lost.

Como professora sou muito paciente. Aturo este tipo de incidentes em alunos com alíneas, em alunos que faltaram e procuram recuperar o fio à meada, em alunos analfabetos, em alunos que se encontram em plena adolescência e cuja rebeldia é compreensível e até motivo de diversão. Não aturo isto em sexagenários frustrados com um curso superior em engenharia de uma merdice qualquer.

Tarot

Nunca fui de tarots mas, não sei o que me deu (ok, se calhar até sei...), de há umas semanas para cá deu-me para isso. Visitei pela segunda vez uma página que me arrepiou por parecer falar especificamente para mim. Deixo a transcrição. Como não consegui copiar as imagens originais, repesquei outras cartas no Clube do Tarô.

O Seu Momento Atual


A Casa de Deus

O que diz a carta:
O Arcano 16 mostra que a mudança está em seu momento trazendo a quebra de velhas crenças. Os acontecimentos inesperados poderão abalar a sua confiança. A perda de dinheiro, de segurança ou de um afeto, lhe trarão sofrimentos, mas não se revolte. Somente depois que passar pelo choque inicial sentirá o alívio, abrirá sua mente que o libertará dos velhos conflitos ou imagens que enganosamente lhe trazia tranqüilidade. A CASA DE DEUS comunica que o rompimento foi provocado pelo Universo para que possa buscar o fortalecimento, a avaliação da sua própria consciência. Siga em frente. A única certeza que terá é que não cometerá o mesmo erro novamente.



Os Caminhos a Seguir


A Roda da Fortuna




A Renovação



A Justiça

O que dizem as cartas:
A RODA DA FORTUNA não tem princípio nem fim, sua função é girar incessantemente simbolizando a eternidade, numa atividade que significa progresso e mudança. Esta carta mostra muitas situações que poderão se apresentar no momento, trazendo uma nova oportunidade para ganhar ou perder; isto significa que o problema que está vivendo ou passando esta chegando ao fim. Nada é permanente na vida, por isso ter consciência que tudo possui movimento é acreditar em mudanças. O Arcano 10 está indicando um impulso novo e contagiante, que poderá se manifestar em sua vida profissional ou sentimental.
O Arcano 13 A RENOVAÇÃO simboliza toda transformação, mostra claramente que terminou um grande ciclo, e que novas situações estão se apresentando, simbolizando o renascimento do seu próprio "Eu" e até mesmo do seu próprio objetivo, esta carta não representa a morte física. Ela traz a abertura de um caminho, de uma porta, para uma mudança inesperada. Não permita que sensações ou sentimentos como; perda, fracasso, alteração, mude bruscamente a confiança em si mesmo. O fim traz necessariamente um recomeço. A transformação o fará descobrir outros talentos que muitas vezes ficam escondidos. Despedir do passado é estar se libertando para buscar um futuro.
Equilíbrio, imparcialidade e intuição são um conjunto de atitudes que deverá utilizar para julgar os atos tanto seus como dos seus semelhantes. A carta da JUSTIÇA lembra a lei da causa e efeito, toda ação gera uma reação onde você deverá estar preparado, por isso a imparcialidade é fundamental. O Arcano 8 lhe mostra claramente que seu destino não consiste em esconder a sua natureza instintiva por trás de uma virtude incolor, mas, sim, enfrentar abertamente as situações tanto no plano material como sentimental. Lembre-se julgar é supor, condenar é culpar.


Conclusão

O Eremita


A Temperança


O Carro




O que dizem as cartas:
O EREMITA mostra que é necessário ter muita prudência , pois está fragilizado por fases e situações que devem ficar no passado Deve buscar o silencio para repensar novas situações, encarando os fatos e situações difíceis como um fator positivo para o seu crescimento O Arcano 9 representa a chama da sabedoria absoluta que arde em cada mortal, essa luz o envolverá e será capaz de caminhar sozinho, porque ninguém poderá fazer isso por você O Eremita lhe dá a seguinte mensagem: tenha um ponto de partida dentro de você, use a sua intuição com a razão, não duvide dos seus potenciais, continue na busca de encontrar o seu caminho com equilíbrio assim estará acreditando na sua luz interna.
A TEMPERANÇA significa qualidade ou virtude, esta carta lhe avisa que somente com harmonia, equilíbrio, paz interior conseguirá o progresso em seu caminho. O Arcano 14 mostra que deve agir com felicidade, alegria, mas acima de tudo tratar bem a si mesmo e olhar mais para o seu lado positivo. A partir desta postura estará em comunhão harmoniosa com o seu ambiente, podendo ser beneficiado com novas amizades sociais ou profissionais, ligações felizes desde que não tenha o desequilíbrio emocional ou qualquer forma de oportunismo. Tenha bom senso e acrescente uma pitada de tempero em sua vida.
Simbolicamente O CARRO representa a sua caminhada através do seu Destino. O Arcano 7 significa que a hora do grande salto para a frente é chegado, as forças estão lhe impulsionado para a direção certa, onde obterá realizações e sucesso. Esta carta é a única que mostra que é chegado o momento de despertar, confiar e acertar; o seu progresso virá com energia, força de vontade , desejo de empreendimento e até mesmo deverá estar dispostos a correr riscos. Lute por seu ideal, o triunfo será verdadeiro.

Palavra-Chave

A Imperatriz

O que diz a carta:
Continue mantendo a sua "razão". Estando forte e seguro conquistará o que quer.

Chico Xavier no Pinga Fogo em 1971

A benjamim e o meu cunhado querem saber um pouco mais sobre a doutrina que me afastou da Igreja Católica e que me fez revigorar a fé. O diálogo é, por vezes, difícil, quando sinto o preconceitozinho escondido a mostrar as garras ou a respiração sustida dos meus pais. Viajei pelo Youtube à procura de uma forma mais fácil de lhes mostrar os princípios básicos de uma doutrina que não chega a ser religião. Encontrei uma série de 6 vídeos interessantes que acabei por reencaminhar para a Casa da Boa Vontade.
Do Espiritismo, passei para a psicografia e da psicografia para o Chico Xavier. Encontrei excertos de um programa brasileiro de 1971 chamado Pinga Fogo. Nessa emissão, como convidado de honra estava o Chico e não resisti a partilhar alguns momentos aqui no Rabiscos e Garatujas. Um sobre a perspectiva espírita (para ser mais correcta, a perspectiva de Chico e de Emmanuel) sobre a homossexualidade – assunto a que tenho sido mais sensível por causa do Paulo e, mais recentemente, de outras pessoas amigas; dois sobre a psicografia – na prece inicial que o Chico faz em silêncio é comovente a onda energética que contagia parte do público que ora também; por fim, uma passagem que testemunha o inolvidável sentido de humor do saudoso médium brasileiro.

Homossexualidade

Pinga Fogo (1971)

Psicografia - I

Pinga Fogo (1971)

Psicografia - II

Pinga Fogo (1971)

Chico e o caso do avião

Pinga Fogo (1971)

domingo, 2 de dezembro de 2007

Regresso

E com o aniversário do meu mano regresso ao Rabiscos e Garatujas.
Com mais aventuras dos Manelinhos, as novidades do dia-a-dia e as deniblog's philosophies que até eu gosto de ler.
Também gosto de ler os comentários.
(perceberam a indirecta, não perceberam?)

sábado, 1 de dezembro de 2007

Parabéns, maninho

Chama-me de cota, mas é apenas três anos mais novo do que eu. Tenho uma vaga recordação de o ter pegado ao colo quando chegou da maternidade; de a minha mãe me dizer para eu ficar quietinha no sofá negro onde me mandou sentar; de ter sustido a respiração para não me mexer e não deixar cair o bebé.
O meu mano cresceu, faz 29 anos, é bem mais alto do que eu e é tão bonito tão bonito que fico sempre inchada quando dizem que é parecido comigo.
Eu e o mano somos opostos. Ele diz-se de direita mas age como se de esquerda, pensa-me de esquerda e critica-me por agir como se de direita. É um ateu profundo que se escandaliza com a minha fé. Acha que letras são tretas e que é na tecnologia que está o progresso da humanidade. Ficou irritadíssimo com o meu voto no último referendo. Irrita-se, aliás, com qualquer conversa que tem comigo. Eu também me enervo. Não conhece o Rabiscos e Garatujas nem está interessado em conhecê-lo. As minhas irmãs encarregam-se de o pôr a par da últimas postagens.
Quando éramos crianças envolvíamo-nos em rixas desagradáveis. Ele de punho cerrado, eu a tentar acertar na parte onde a dor num rapaz pode fazê-lo desejar morrer. Éramos o desepero dos meus pais.
Quando era pequenino gostava de lhe ler as legendas dos desenhos animados e de lhe ensinar as coisas da escola. Divertia-me com os raciocínios que posteriormente descobri, com Piaget, serem característicos do seu estádio de desenvolvimento. Na escola primária deram-lhe uns quantos sugos. De língua de fora e num trabalho minucioso partiu-os aos bocadinhos. Explicou, depois, numa alegria contagiante, que os tinha multiplicado e que agora tinha muitos muitos muitos sugos.
Na escola primária ninguém o queria na sua equipa de futebol; era conhecido pelos auto-golos que constantemente se lhe escapavam. Conseguia, porém, fazer parte de uma das equipas. Não o podiam excluir; afinal, era o filho da «senhora porfessora». Conseguimos sempre muitas coisa, é verdade, pelo simples facto de sermos filhos da «porfessora» mais temida da escola da aldeia.
Na escola primária desquilibrou-se, caiu e partiu um braço. Depois das lágrimas, o orgulho por ser diferente, pelos mimos, pelos cuidados. Osso reparado, gesso fora, pulou de alegria pela liberdade reconquistada, saltou escadas, lances inteiros, tanto pulou e tanto saltou que voltou a cair. Uma semana depois da última visita ao médico, regressava, para engessar o outro braço.
Na escola preparatória fez amizade com um colega de cadeirinha de rodas. Gostava de o empurrar. Uma vez o entusiasmo e a velocidade foram tais que o desgraçado foi projectado a alguns metros de distância. Ficaram-se, felizmente, pelo susto.
Teve uma adolescência complicada que nos pareceu uma eternidade. Ainda hoje me pergunto se já cresceu. Acho que não. Talvez por ser gajo. Talvez por ser ele.
Foi com o meu mano que percorri a cidade e os arredores de bicicleta. Num desses passeios desequilibrei-me e caí num canal de rega numa horta dos Montes d' Alvor. No mesmo passeio, desequilibrei-me e caí quando um autocarro me ultrapassou. Ele, perdido de rir.
O meu mano é divertido, brincalhão, com um sentido de humor extraordinário, muito meigo e comoventemente dedicado.
A ida para Coimbra aumentou o fosso ideológico que nos separa, mas o amor que nos une cria várias pontes. Tantas, tantas, e tão fortes, que tornam seguras as travessias e nos desautorizam todo e qualquer sentimento de vertigem.
Tenho duas manas e este irmão. E um coração cheio. Os filhos únicos não sabem o que perdem.
Parabéns, maninho.

domingo, 25 de novembro de 2007

Joana Amendoeira

Fado e Orquestra

É sempre interessante assistir ao resultado de novas experiências no campo da música. Ontem, em Portimão, estiveram juntos no palco a fadista Joana Amendoeira e a Orquestra do Algarve sob a direcção de Osvaldo Ferreira.
Apesar do timbre quente e da presença em palco, a cantora não me convenceu. Uma fadista em potência, mas muito verde ainda. Posso estar enganada, é verdade. O som não ajudou: os microfones tornaram a voz e as guitarras gritantes e apagaram completamente a orquestra. A OA está cada vez melhor. Gosto do maestro. Sério, sóbrio, competente. Gosto dos músicos, gente bonita que por lá anda: as violoncelistas Kalina Krusteva e Olga Manescu, os contrabaixistas Jean-Christian Houde e Maja Plüddemann, a flautista Stefania Bernardi, o clarinetista Fausto Corneo, o fagotista Eduardo Sirtori, o trompetista Scott Natzke.
Sinto-me orgulhosa por ter uma orquestra assim na minha região.

Intervalo

Digiro a brutal quantidade de informação que hoje me choveu em cima.
Regresso para breve...

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A Maior Flor do Mundo


Reli A Maior Flor do Mundo, para compreender a opinião da Tia Adoptada. Encontrei três pormenores. A haver mais, Tia, por favor, elucida-nos.

1º pormenor: As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas. - o narrador infantiliza a criança logo no incipit do conto, relegando-a para um estatuto menor.
Ressalva - o narrador procura enaltecer a simplicidade das coisas através de um subtil registo irónico. Na segunda frase, Quem me dera saber escrever essas histórias, mas nunca fui capaz de aprender, e tenho pena., estará o narrador a confirmar o quão difícil é redigir um texto simples e aparentemente fácil? Estará ele a valorizar a escrita para a infância? Na página seguinte, o efeito irónico obtido através da preterição leva-me a acreditar que sim: Se eu tivesse aquelas qualidade todas, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei, mas que assim como a vão ler, é apenas o resumo de uma história, que em duas palavras se diz...

2º pormenor: Na história que eu quis escrever, mas não escrevi, havia uma aldeia (...). Não se temam, porém, aqueles que fora das cidades não concebem histórias nem sequer infantis. - depois da marginalização da criança, estaremos perante uma marginalização dos que não habitam na urbe?

3º pormenor: moral explícita (E essa é a moral da história.) a limitar o exercício hermenêutico do leitor.
Ressalva: Será uma moral tão explícita assim, tendo em conta a linguagem figurada com que se apresenta?

Neste conto gosto da ironia obtida pelas intrusões do narrador e pelo registo metaficcional. Gosto, também, da linguagem poética, que acaba por comprovar a seriedade com que se deve ter em conta a criança.

La gaffe du jour

Resposta numa ficha de avaliação formativa (Ensino Recorrente, unidade 10):

Este enxerto é retirado dos Lusíadas e chama-se porposição onde ele se porpõe a cantar os feitos dos portugueses, mas na minha opinião aquilo era tudo uma lavagem cerebral e eu acho que em vez de porposição este enxerto se devia chamar de Órgulho Tuga.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O Orgulho Hetero da Tagus

Deixei passar dois metros de embasbacada que fiquei quando na estação esbarro com a campanha Orgulho Hetero da Tagus.
Fiquei sem saber o que pensar e como interpretar o slogan. Homofóbico? Descartei essa hipótese. Poderei estar errada, porque tenho problemas sérios em enxergar o que me passa à frente do nariz, mas penso que a homofobia é actualmente defendida por vozes singulares, não por empresas. Em Portugal, uma empresa que ligue o seu nome a uma campanha homofóbica, ou racista, ou fascista estará a celebrar a sua falência. Hoje em dia, a homofobia existe, mas com cautela. Tem-se vergonha de se assumir homofóbico publicamente.
Por pensar assim, descartei a hipótese primeira que me assaltou o pensamento hermenêutico.
Recapitulando, cogitei acerca da possibilidade do recurso à paródia, ao registo irónico, sem propósitos anti-gays. Na verdade, a vontade de afirmação homossexual e as suas campanhas de orgulho gay sempre se me afiguraram um pouco estranhas. Não muito estranhas por considerar que resultam de uma tentativa de combate à discriminação e de apelo à assumpção de uma orientação sexual cuja marginalização não faz sentido. Não muito estranhas, mas um pouco estranhas. Este raciocínio afigurou-se-me, contudo, patético. Qual o objectivo de tamanha paródia ali?
Não sei o que pensar nem sei como interpretar a campanha. Só sei que não terá sido uma campanha muito feliz. Dizem-no, por exemplo, o Paulo , o Tiago, o boss e as Panteras Rosa.

Lisboa

Regresso a Lisboa. A capital faz-me sempre muito bem.
Regresso aos corredores da FLUL, onde tive o privilégio de estudar professoras excepcionais e de ter como companheiros de estudo amigos divertidos e muito inteligentes com quem muito aprendi.
Regresso ao entusiasmo pelo doutoramento em curso, às estantes das bibliotecas. Tenho uma orientadora magnífica que me faz acreditar em mim.
Revisito a FCSH, casa-mãe, onde ganhei o gosto pela investigação literária, onde fiz amizades inolvidáveis, onde secretamente me apaixonei por um professor.
Gosto de Lisboa, pelas memórias e pela poesia que ali respiro.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Enxuta

A vida continua. O Rabiscos e Garatujas também.
Obrigada a: Tia Adoptada, Paulo, Rosário, mãe, mana do meio e Manelinhos.

Acaia

Aqui [dispo] meu vestido de exílio
E [sacudo] de meus passos a poeira do desencontro

Sophia, «Mediterrâeno», Geografia
(com alteração do pretérito perfeito para o presente do indicativo)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Palavras retrato

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas,
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

Montanha russa

Depois de uma noite mal dormida acordo revigorada, mais forte, com a certeza de saber enfrentar o que por aí vem, como sempre soube fazer.
A manhã esbate-se, a força fraqueja, as ideias atropelam-se, toldam-se-me as memórias. Reergo o espírito, peço vigor redobrado ao Alto, concentro-me em pensamentos edificantes.
Conduzo, engano o pensamento, vence-me, enevoam-se-me os olhos, sustenho a respiração, nem uma única lágrima se verterá. É um exercício que faço amiúde, com êxito, de há largos anos para cá.
Revigoro a confiança, olho para o futuro que quero construir. Sinto-me perdida, segura-me um passado que durou metade da minha existência. Regresso à prece, mas sem grande convicção. Enxoto o miserabilismo, a autocomiseração, tento verter em discurso a confusão que me vai na alma. Fraquejo. Retorno ao choque do dia anterior.
O que se faz, como se faz, quando o nosso amor já não é correspondido?

domingo, 18 de novembro de 2007

Hoje ...

tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer

Ana Paula Moreira - 2

instante
passagem
silêncio ou apenas o rumor do instinto


Ora, para além da competência profissional, a Ana Paula revela-se como artista. Podemos conhecer parte do seu trabalho no seu blogue que voltou a estar de portas abertas ao público.
A sua poesia é uma poesia de afectos, com uma linguagem depurada e aforismos originais. As linhas das pinturas afiguram-se-me todas elas femininas e maternais. Mesmo as de traço minimalista. Quero livrar-me do C., ter uma casa só minha e torná-la mais bonita com os quadros que quero comprar.
Fica aqui uma brevíssima selecção feita por mim e pelos Manelinhos. E o convite para uma passagem, mais demorada, no blogue da Ana Paula Moreira.


A minha escolha: Doucement

A escolha do Nuno: Estudo sobre a Primavera

A escolha do Tomás: Silêncio Azul

Ana Paula Moreira - 1

Já queria ter escrito este texto há mais tempo. Mas antes tarde que nunca. Esta dedicatória deixou-me embavecida. Arregaço as mãos. O propósito concretiza-se hoje. Aqui está ele.
Conheci a Ana, ou Paula, ou Ana Paula na tal escola governada pelo tal TyrannoRector-Rex e pela tal Fada Má. Cruzávamo-nos nos corredores e eu, nova por ali, balbuciava um tímido «Boa tarde, como está?». Impressionava-me pela boa disposição, pela desenvoltura, pela beleza. Anos mais tarde, a vinda da grande Célia (também quero escrever sobre ela) revolucionou o meu mundo de relações e ampliei o meu grupo de amigos. No Anti-stress team, lá estava a Ana Paula, divertida e maluca como a nunca tinha visto. E passei a tratá-la por tu. Vistas bem as coisas, é uma moça nova, com 6 anos a mais do que eu.
A Ana Paula acreditou em mim. deu-me razões e deu-me raspanetes. fez-me crescer.
Deixou-me ler a sua tese, com um título todo pomposo sobre odor e discursividade do sujeito. Fiquei muito impressionada com a qualidade e cheia de vontade em pegar no trabalho e citá-lo num ensaio que ainda quero redigir. Com ela organizei colóquios, corrigi textos de alunos para inserir num site anexo ao da escola, conheci alguns lugares nocturnos do sotavento algarvio e compreendi que no que respeita a opiniões sobre certos sítios e certas pessoas, nem eu, nem a Tia Adoptada nem a Cath (também quero escrever sobre elas) estávamos afinal sozinhas. Incentivou-me a escrever um blogue. Nessa altura eu só conseguia escrever palavrões e fui adiando. Até que com o Felizes Juntos lá desentupi.
Nas reuniões do Conselho Científico, piscava-me o olho, sorria, mandava esse eme esses, defendeu-me numa querela sobre psicologia, linguística e psicodrama que me tramou a vida. Fazia-me rir.
Eu saí sem querer; a Ana Paula porque quis. Procuramos ambas reconstruir a vida profissional.
E sei que vamos conseguir. Com muito êxito, claro.

Concorrência desleal...

Jovem, bonita e talentosa.
O meu coração está despedaçado.

sábado, 17 de novembro de 2007

José Saramago...

... completou ontem 85 anos. Conheci-o na escola, com a leitura obrigatória do Memorial do Convento. Fiquei fã desde o primeiro parágrafo. Seguiram-se, ainda por respeito a compromissos académicos, O que farei com este livro? e O ano da morte de Ricardo Reis. Uma admiração crescente a apelar à lei das prioridades. Poupando na comida, os cobres que os progenitores me iam enviando da terrinha permitir-me-iam alimentar o espírito. Sempre fui grande adepta de bibliotecas. Mas para estudo. Quando gosto, tenho de ter. E se puder ter, então tenho mesmo. Foram anos de dietas malucas, com barras de Twix a enganar a fome, muita água para controlar a celulite e alguns desmaios no autocarro que me levava da Portela ao Campo Pequeno. Descobri que podia poupar também no passe L1. O único sacrifício seria o de descer duas paragens antes e de atravessar as barracas que nunca me intimidaram. Talvez pelo cheiro a especiarias, pelas cores dos saris estendidos em varais improvisados, pelos risos de crianças da minha cor que brincavam sob o olhar atento dos adultos. Um sacrifício que se tornava doloroso quando saía atrasada para a faculdade, quando chovia ou quando vinha carregada com livros e malas de viagem. Um dia um avôzinho mandou-me parar. Parei. Estava escuro, mas não tive medo. Falou-me em hindi. Abanei a cabeça. Sou goesa, mas nem hindi nem concani. Num português esforçado ralhou comigo, que era perigoso andar sozinha de noite e que me ia levar à paragem do autocarro. Dissuasão impossível. As mãos amareladas do tabaco pegaram na minha mala de viagem pesada e, determinadas, acompanharam-me até ao local onde eu esperaria o 83.
Cada livro que eu compro tem uma história que só eu sei. E a biblioteca do Saramago que fui adquirindo tem muitas histórias. Como a história de como eu e o C. andávamos a comprar livros repetidos e achámos que bastava uma colecção para a nossa família e que fui eu que cedi porque ele já tinha mais livros e também mais poder de compra e por isso poderia ser ele a completar a dita colecção; e a história de como continuei deliciada com a escrita do Saramago para os mais novos; e a história da sua vinda a Portimão para apresentar um dos seus romances na Biblioteca Municipal e de como descobri que às vezes é preferível sermos nós a construir a imagem de um autor do que apanhar uma tremenda desilusão com o homem de carne e osso.


Gosto do Saramago. Mas do Saramago escritor.

Vovó Lili - 2

Hora de deitar. O Nuno começa o frim-frim filosófico:
- O que é desta vez, homem?
- Gosto tanto da vovó... Vou ter tanta pena quando ela morrer...
- Gente ruim não morre... - Ia dizer, mas não digo. Controlo-me, não quero atiçar o fogo em horas tão tardias.
- Toda a gente morre mais cedo ou mais tarde. Não comeces. Dorme. - Seca e directa, como quem não dá muita importância ao assunto.
- Eu sei que ela vai morrer um dia, mas eu não quero que ela morra já enquanto eu sou tão pequenino.
O beicinho tremelica. Tenho de ser rápida.
- Olha, reza. Pede a Deus que te deixe ficar mais tempo com a tua avozinha, que não a leve tão cedo para o Céu.
Safei-me bem. Ele fecha os olhos e prepara-se para orar.
Mas há um demónio, um maldito de um demónio, que me domina alma desde que me conheço, que anda à coca e que é mais forte do que eu.
- Desculpa Nuno, enganei-me. Tens é de fazer esse pedido ao Diabo, porque no dia em que a tua avó morrer vai direitinha para o Inferno.

Foi uma noite longa, muito longa, a desfazer o emaranhado de prantos, a explicar metáforas e ironias, a reconhecer que às vezes não tenho limites. Foi uma noite longa. Eu mereci.

Vovó Lili - 1

O calcanhar de Aquiles dos Manelinhos é a vovó Lili, minha mãe, que às vezes maltrato só pelo prazer de ver a reacção das pestes.
- A vovó telefonou e mandou beijinhos para os meninos.
- Ela é tão linda, a nossa avó...
- Raio da velha, que nem em Lisboa vos deixa em paz.
Veneno destilado. A reacção é imediata.
- Não chames de velha à nossa avó!!!
- Pois, a nossa avó não é velha.
É um veneno poderoso e, quando administrado nas doses certas, é altamente eficaz. A minha alma sorri de satisfação.
Eis, quando não, a resposta inesperada, directa, de um Tomás indignado:
- A vovó não é velha. É idosa. Ouviste bem? I-do-sa!

Je est l'autre

A fórmula rimbaudiana, com o artigo alterado, como título de uma história real:

Estou em casa só com o Nuninho. O Tomás saiu com o C. A meio dos afazeres, acho estranho que se entretenha durante tanto tempo sozinho. Apanho-o rodeado de brinquedos na divisão errada.
- O que fazes aqui, diabo? Sabes perfeitamente que não se anda a espalhar brinquedos pela casa.
- É que ali no quarto não tenho espelho.
- E por que raio estás tu a brincar à frente do espelho?
- O Tomás não está, mamã. Faz de conta que aquele ali no espelho é o Más.


Calei-me, voltei para a cozinha, deixei-o onde e como estava.
Bem feita para mim que já devia saber que os meus filhos sabem perfeitamente o que fazem.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

13º Congresso do Algarve

Este é o segundo dos três dias em que que no 13º Congresso do Algarve se discutem assuntos subordinados aos temas «Voltar ao mar», «Região com futuro» e «Fórum dos Descobrimentos». Já cumpri a minha parte. Correu muito melhor do que eu esperava. À falta de arte e engenho para coisas mais artísticas, dedico os meus trabalhos de investigação a pessoas que pretendo homenagear. O Algarve em «Miss Beijo» de Lídia Jorge é dedicado à Ana Cristina Coelho, mulher sábia, culta e inteligente, de armas e coragem, com uma sensibilidade de arrepiar a medula óssea.

Livrinho de actas já publicado. Ler, com atenção, o ensaio da página 233.

Leitura obrigatória...

... é uma nova coluna que o Rabiscos e Garatujas apresenta no lado direito. Há quem lhe chame de "selecção actualizada do que se escreve por aí". Há algum tempo que ando a namorar essa ferramenta do Google sem saber, contudo, como a utilizar. Vai daí, o Paulo, autodidacta nestas coisas, e bom professor por sinal, explicou-me tim tim por tim tim o que e como fazer.
Apesar dos e-mails de agradecimento privados, nunca é demais agradecer publicamente a prontidão de um amigo que me ajudou a construir uma ponte do Rabiscos e Garatujas para as mais recentes novidades de leitura obrigatória.

Obrigada, Paulo!