domingo, 30 de setembro de 2007

Os três P: Pressa, Prece e Preço

Estou com uma comunicação por preparar e com um prazo que termina amanhã.
Estou, também, com uma preguiça mórbida, que me dá sono, assim que começo a pensar em redigir as primeiras linhas. Já recorri à prece, a ver se afugento a malvada.
Mas, já lá diz o ditado... "Fia-te na Virgem...." Preciso de fazer a minha parte. Eu sei. São apenas 7 páginas.
Mas estou com muittttaaaaaaa preguiçaaaaaaaaa!!!!!
Já é da praxe... E o preço é alto.

sábado, 29 de setembro de 2007

...

falo ao teu falo
sussurro-lhe mimos
segredo-lhe ternuras
abraço-o com a boca
fá-lo fá-lo
e o teu falo fala-me
traduz prazer
na vinda de uma onda
ao mar de espuma
que embala o meu abraço
in AAVV, Et Cetera... E Coisas Afins, ed. autor, 1997

E. M. de Melo e Castro

nas tuas mãos : sobre o meu dorso : tigre
nas tuas pernas : sob o meu pénis : trago
nas tuas mãos : sobre o meu peito : astro
nas tuas nádegas : sob o meu pénis : jacto

nas minhas mãos : sobre o teu peito : grito
nas minhas pernas : sob o teu peso : tronco
nas minhas mãos : sobre o teu sexo: fruto
nas minhas nádegas : sob os teus olhos : vergo

nas tuas ondas : dentro de mim : navego
nas tuas coisas : dentro de mim : apalpo
nas tuas febres : dentro de mim : refervo

nas minhas unhas : dentro de ti : encontro
nas minhas fontes : dentro de ti : inundo
nas minhas águas : dentro de nós : orgasmo


«Sonetos do tesão», 3, in Sim...Sim! - Poemas Eróticos, s.l., Vega, 2000; pp. 100-101

Sexo oral com Inês Pedrosa no Felizes Juntos

Incrível, clarividente, forte, muito bom, estonteante.
Publicado no nº 32 do Egoísta e reproduzido aqui.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Português para Estrangeiros 2

PORTUGAL
Do que mais gostam os meus alunos:
azulejos
klima kent
agricultura
festas
musica
comida
pessoas são muito boas
pessoas têm paciençia grande
pessoas boas e alegrias e calmas
Do que menos gostam:
no repeito do velehio
a lingua portuguesa é difícil
assistencia médica
sempre uma grande bicha no centro de saude

Português para estrangeiros 1

Vinte e três inscrições.
12 senhoras e 11 senhores, entre os 16 e os 66 anos de idade. Alemães, ingleses, moldavos, ucranianos, indianos e paquistaneses. Bem humorados e com muita vontade de aprender.

Da diagnose, alguns resultados:
Actual Presidente da República Portuguesa: Cazaco Silves, Cavaco e Silva, Cavaco da Silva, Cavc Silva
Artistas portugueses: Toni Carrera, Ronaldo, Ronaldinho, Rut Marlen
Países cuja língua oficial é a portuguesa: Madeira, Azores, Brasilia, Macão, Cap Vert

Legendagem:

Enquia
Piriciti do Mar

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

ISMAI - Tribunal suspende despedimento

De acordo com o SNESup, o Tribunal do Trabalho competente suspendeu o despedimento de um colega; assunto sobre o qual já eu tinha postado aqui. O Sindicato enviou um comunicado para apresentar esta nova informação e para agradecer aos colegas que têm manifestado o seu interesse pela evolução da situação, chamando a atenção para que os próximos passos pertencem agora à Maiêutica, entidade proprietária do Instituto Superior da Maia (ISMAI).

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

I Congresso Internacional em Estudos da Criança


O Instituto da Criança da Universidade do Minho vai promover o I Congresso Internacional em Estudos da Criança subordinado ao tema "Infâncias possíveis, mundos reais", de 2 a 4 de Fevereiro de 2008.
Vai haver um espaço para comunicações livres cujos resumos deverão ser enviados até dia 30 de Setembro.
Nota positiva: a ausência total do adjectivo "infantil", o que confere, a meu ver, um maior rigor ao evento.
Mais informações aqui.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Elevador com variação

Esta noite houve uma variação. Eu conto.
Entrei, como sempre, num elevador. Mas, desta vez, ...
... era um elevador grande. Tão grande que não consegui ver os seus limites. Tão grande e tão cheio de gente;
... em vez de carregar no botão para subir, carreguei no botão para descer;
... o elevador desceu, desceu, desceu, às profundezas da terra;
... quando parou, a porta empenou. Carregámos para subir, a ver se saíamos noutro piso;
... o elevador subiu, subiu, subiu. Chegou à superfície. A porta abriu-se e apenas uma mulher, que correu, conseguiu sair. A porta fechou-se. Selou-se. Transformou-se em pedra;
... descemos. Saímos num local escuro, cheio de rochas e riachos subterrâneos;
... compreendemos que ali recomeçaríamos uma nova vida, no submundo, e que teríamos de nos organizar em casais, para assegurarmos a sobrevivência da espécie.
Juro, a pés juntos, que há noites em que bebo chá preto, um chá saboroso, muito forte, rico em cafeína, que os meus pais me trouxeram de Goa. Nas noites em que temo adormecer.

Os meus pesadelos de estimação

Descontrolo do corpo
Umas vezes caem-me os dentes; outras, o cabelo; outras em que os membros não me obedecem: quero andar e não ando, quero parar e não paro; outras, ainda, em que me desfaço em merda ou em mijo. Um nojo.
Desta última vez houve uma variação diferente. Não bastava ser eu a protagonista dos meus pesadelos, tinha ainda de arrastar a representação mental dos meus Manelinhos, coitados. Estávamos a ser vítimas de um fenómeno de levitação horrível, que nos paralisava o corpo e nos erguia até ao tecto. Parecia uma cena de um filme de poltergeists que eu só reconheci quando acordei.

Nudez
Nua na rua, nua na escola, nua na praia mais o desespero em tentar esconder a nudez. Desta vez, variação em dó menor, com os Manelinhos a sofrerem ao meu lado. Horrível, estar nua, consciente da deformidade que o meu corpo é, e os meninos a chorarem por tamanha exposição. Os dois agachadinhos, aninhados nas minhas pernas. A minha impotência em esconder os seus corpinhos mais o meu. Acontece, pura e simplesmente, que apareceu um bando de pessoas numa espécie de visita guiada espontânea à minha casa e que nos apanhou na hora em que nos preparávamos para entrar na banheira. Deplorável.

Automóveis
É desastre certo. No início, eu ao volante conduzia a família à queda, de precipícios, de pontes, de lugares inimagináveis. Antes de cairmos, fixavam o olhar no meu, como quem diz “’Brigadinho!...”. Agora, a coisa suavizou. É mais a aflição de querer travar e o carro não corresponder. Resulta, invariavelmente, em choques leves com o veículo da frente. Irritantíssimo!

Elevadores
É sempre assim: entro num elevador e carrego num botão para subir. Às vezes estou sozinha, outras não. O elevador sobe. Quando se aproxima do piso em que é suposto parar, começa-se a ouvir uma musiquinha horrível de suspense e zás!, o elevador não pára. Nem nesse piso, nem em mais nenhum outro. Vai subindo e subindo e subindo e subindo, passa o 10ºandar, o 12º, o 20º, o 50º, o 100º, passa o domínio do razoável. Já todos nos apercebemos que aquele prédio não tem aqueles andares todos. Súbito, pára. Uma fracção de segundos. E depois… depois, é a queda livre, vertiginosa, a lei da gravidade nua e crua.
No início apressava-me a carregar no botão do stop. Depois de muitos sonhos, compreendi que não resultava. Actualmente quem recorre ao botãozinho vermelho são as pessoas que têm a infelicidade de estarem ali, em má hora, no elevador do meu pesadelo. Coitadas. Naquele botão poderia residir a promessa da vida. Se funcionasse. Carregam no botão com força, desesperadas, entontecidas com a dor de saberem o desfecho que se avizinha. Eu, no entanto, já sei qual é a chave para a saída. Passa pela oração. Sento-me no chão do elevador e rezo. Na maior parte das vezes, uma Ave-Maria; noutras, uma oração espontânea. E resulta. O elevador abranda. Pára. Abrem-se as portas. Conseguimos sair. O problema é que às vezes me esqueço dessa chave. Esqueço-me. E lá vamos nós, em queda livre, num desfecho que recuso a testemunhar e que me faz acordar encharcada em suor. De fugir.

Ciclo de pesadelos

Recomeçou. E eu detesto. É a terceira noite seguida mal dormida por causa dos pesadelos. E nem nisso sou original. São pesadelos que me visitam recorrentemente, sem o mínimo pudor pela repetição ad nauseam, tão iguaizinhos a eles mesmos que já me envergonho por me meterem tanto medo, por me fazerem suar a bom suar, por me obrigarem a refugiar no calor do corpo do C., ali tão à mão, por não me deixarem voltar a adormecer sem a luz acesa. São pesadelos com elevadores, com a minha nudez, com o descontrolo total do corpo. São pesadelos muito fílmicos, a cores, com música e momentos de paragem para reflexão sobre o significado dos malditos. São pesadelos muito chatos que me perseguem há mais de dez anos e que eu gostaria de erradicar da minha vida!

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Igor Stravinsky

O Pássaro de Fogo de Stravinsky (1919) - Infernal Dance

domingo, 23 de setembro de 2007

Leituras e Ditados para Formação Musical

Já está à venda.


Tiago Cutileiro

No meu trabalho procuro enaltecer o som enquanto organismo vivo que se transforma e é transformado no tempo. Esta pesquisa (obessão) é contrária aos propósitos comuns da música "normal". Nesta última, a conjugação de sons em elementos melódicos ou harmónicos, cria códigos expressivos e comunicativos que afastam a matéria-prima (o som) da sua essência primordial. Na minha música espero ouvir só o som (a nascer, a viver e a desaparecer) e deixá-lo ser expressivo por si, vivendo na "bolha de tempo" onde ponho tudo a acontecer. Uma Arte que se distancia da Música, ou uma Música que se distancia da Arte.
Useless parte dos conceitos acima apresentados e mistura-se com a palavra, enquanto com, mas articulada com o sentido que ocupa no contexto da frase. Um sentido quase invisível pois a conjugação das palavras nas frases perde-se na lentidão da sua articulação. O texto, "Useless words, things go on the same, day after day" e "Can't bring back time, like holding water in your hand", duas frases retiradas (quase ao acaso) de Ulisses, de James Joyce, pensadas pela personagem principal do livro, enquanto percorre aleatoriamente as ruas de Dublin, parece acentuar toda a efemeridade da vida e da arte que a procura imitar desmascarando a inutilidade de ambas.
Tiago Cutileiro


Este é o texto que Tiago Cutileiro redigiu para apresentar Useless, peça para soprano e orquestra encomendada pela Academia de Música de Lagos e que, integrada no ciclo Concertos da Academia, teve ontem a sua estreia absoluta no Centro Cultural de Lagos. A interpretação foi da Orquestra Filarmonia das Beiras e de Birgit Wegemann como solista, sob a orientação da batuta de Vasco Pearce de Azevedo.
O meu ouvido não está, definitivamente, educado para a atonalidade da música erudita contemporânea. Durante 23 minutos, fui torturada por semibreves ligadas a semibreves ligadas a semibreves ligadas a semibreves. Pelo menos é assim que imagino aquela música escrita.
A minha capacidade auditiva regojiza-se com a música medieval, a renascentista, a barroca (com destaque para Bach, o meu favorito, Scarlatti, Albinoni, Vivaldi, Rameau e Pergolesi), a clássica (Mozart, claro, e Haydn), a transição de Beethoven, alguma romântica (nomeadamente Paganini, Grieg, Chopin, Lizst, Rachmaninoff, Shostakovich e Saint-Saens), a impressionista (Debussy e Ravel), a nacionalista de Bartók, Kodály, Mussorgsky, Rimsky-Korsakov e Villa-Lobos. Depois disso, vou apenas até Igor Stravinky folclórico, neoclássico e serial. Há ainda, claro, Orff e Poulenc e, já noutro registo, Gershwin, Copland, Satie, Bernstein, Piazzola. Vou conseguindo apreciar Messiaen e um pouco de Boulez e de Emanuel Nunes, mas não durante muito tempo.
Não nego a oportunidade de ir a concertos de música contemporânea, mas diz-me a experiência que, regra geral, regresso muito desoladinha. Com a do Cutileiro não foi excepção...

sábado, 22 de setembro de 2007

Palavras Andarilhas

Uma das grandes desvantagens em ter saído de uma certa escola governada por um certo TyrannoRector-Rex e uma certa Fada-Má, sua madrinha, é o facto de já não poder assistir a muitos eventos de interesse inigualável. Ali, sempre que faltava para esse efeito, tinha a oportunidade de repor as aulas depois de uma negociação sempre muito fácil com os meus alunos. Agora, as regras mudaram. Podemos, e até devemos, assistir a congressos ou frequentar acções de formação, mas sempre fora das horas lectivas. O que, em termos práticos, e sobretudo aqui na periferia, me limita muito os movimentos.
Por isso mesmo, estou aqui em casa, em vez de estar em Beja, desde as 9 horas da manhã de ontem. Perdi o Daniel Pennac e as mesas moderadas por Maria Emíla Traça, Maria Teresa Meireles e Maria do Sameiro Pedro. Perdi o Cante dos Contos, a Noite dos Andarilhos, a Estafeta dos Contos, o Festival de Narração Oral e as oficinas à roda da escrita, da leitura, do contar... O programa, como todos os anos, não deixa ninguém indiferente... Um passo em frente, no nosso país.


Fico-me pelo texto de apresentação, que nos dá um cheirinho da magia que se vive em Beja onde os Andarilhos, de há 9 anos para cá, se reunem e transformam a Literatura numa verdadeira festa.
Todos os anos, em Setembro, a cidade acorda ao som dos andarilhos. São mais de duzentos e vêm de longe, em busca do lugar onde moram as palavras.
Chegam como uma revoada de pássaros, para se alimentar do mistério que é a palavra contada e escrita.
Os seus passos, ressoam pelas ruas e as suas vozes, entram pelas frestas das portas e janelas, pelas chaminés e desafiam, quem vive na cidade, a percorrer os caminhos que vão da Biblioteca à Praça.


sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Possidónio Cachapa

A primeira vez que ouvi falar do Possidónio Cachapa, assim a sério, sem contar com o vislumbre do seu nome nas livrarias ou de ouvir falar por A, B ou C, foi através do Baptista-Bastos. Estava eu a iniciar a minha pesquisa para a tese de mestrado, quando encontrei várias entrevistas onde o BB, a propósito da qualidade da actual literatura portuguesa contemporânea, afirmava que Possidónio Cachapa é um dos escritores mais promissores da nossa actualidade. Perante tamanha autoridade, lá fiquei com o bichinho a pulular cá dentro e, assim que defendi a tese, agarrei-me ao Segura-te ao meu peito em chamas. E, francamente, gostei. Vou relê-lo, agora. Quem sabe, não incluo um dos contos no corpus literário a analisar para a minha tese de doutoramento?

Possidónio Cachapa e o seu TOMÁS-TEIMOSO

Possidónio Cachapa anunciou no seu Prazer_Inculto a saída do primeiro número de Tomás-Teimoso, um livro para crianças (e também , por que não?, para nós, adultos) com ilustrações de Luís Henriques. O anúncio, publicado a 8 de Junho de 2007, tem como título «Livro infantil». A dúvida que por ora aqui coloco, com a promessa de depois postar uma reflexão mais alongada, é a de, conhecendo a qualidade literária de Possidónio Cachapa como conheço, o Tomás-Teimoso ser, efectivamente, um "livro infantil". Os académicos debatem-se sobre a nomenclatura a atribuir ao conceito em si. Na minha opinião, muito resumidamente, um bom livro para crianças agrada também os adultos porque, precisamente, de infantil não tem nada. Aliás, as crianças desdenham infantilidades porque se sabem seres íntegros. Muito íntegros.
Para já, deixo um repto à Tia Adoptada, especialista nestas questões, para que coloque aqui um comentário sobre o assunto ou o alongue um pouco mais num dos seus blogues.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Ensino do Português

A Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação abriu um Fórum com as recomendações elaboradas por Carlos Reis, Comissário Nacional da Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, e um espaço de discussão com relatórios em formato pdf.

Aquilino, ainda

Depois d' O mistério do Panteão, gostaria de partilhar o que sobre o assunto nos fala Possidónio Cachapa, no seu Prazer_Inculto, a 19 de Setembro de 2007.

1999-2007

Depois de oito anos de namoro e de quase oito de casamento, estou juridicamente divorciada.
O coração não estava lá muito alegre, mas não me dêem nem os parabéns nem os pêsames. Na prática, continuo como antes com uma excepção importante: ao que parece, a convivência a dois está muito melhor.
Pontos nos ii, estou amantizada. O que não me parece nada mal ;-)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Incipit de um conto para todas as idades

Era uma vez um burro, verdadeiramente cor de burro a fugir, rijo de cascos, fino de orelha, boa boca, com uma malha arruçada na testa que lembrava o malmequer e a estrela-do-mar. O dono, moleiro exacto na maquia, trazia-o muito bem tratado, pois não havia melhor para carregar as taleigas, com ele no meio das taleigas, e tropicar lesto como se não levasse mais do que penas em cima do lombo. O meritório e guapo burrico tinha, porém, um defeito, um enorme defeito. Não era teimoso como um burro, o que estava na ordem natural das coisas, nem como dois burros, nem ainda como dez, mas como cem burros a um tempo. Quando porfiasse meter por determindado caminho não havia vozes, ralhos, arrocho que fossem capazes de o fazer desistir do seu burrical intento.

Aquilino Ribeiro, «História do burro com rabo de légua e meia», in Arca de Noé - III classe

Aquilino

Encontrei-a na entrada sobre Aquilino na Wikipédia e não posso deixar de a citar:

É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor.
(Salazar, sobre Aquilino Ribeiro)

No meu país, no meu reinado, no meu império...

... não há Panteão Nacional, nem se gasta cá o dinheiro dos contribuintes em cerimónias de pompa e circunstância perante cadáveres.
No meu país, no meu reinado, no meu império, ainda sem nome, cada cidadão tem muito valor. Aquele que, por algum motivo, se destaca terá a sua melhor homenagem na subjugação de Cronos às suas proezas.
Dixi.

O mistério do Panteão

Agora, e a propósito da trasladação dos restos mortais do nosso Aquilino para o Panteão Nacional, recupero algumas interrogações que me acompanham desde que sou gente (isto é, desde que tenho consciência filosófica).
Embora reconheça a notabilidade de dimensões nacionais de algumas personalidades que se foram distinguindo no nosso país (sabendo, perfeitamente, que essa notabilidade é sempre discutível), não compreendo muito bem o processo de selecção dos eleitos a sepultar no Panteão. No nosso, descansam, actualmente, 4 dos 19 Presidentes da República Portuguesa (sem contar com as presidências interinas): Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Óscar Carmona e Sidónio Pais. Desculpem, mas tenho um carinho especial pelo Teixeira Gomes. Por que não ele também? E os restantes, já agora? Quanto aos escritores, estão os túmulos do Almeida Garrett, do João de Deus, do Guerra Junqueiro e, agora, do Aquilino. 4... e eu nem comento... Dois ilustres ainda: a saudosa Amália e Humberto Delgado, o general sem medo.
Quando, por algum motivo, as ossadas não são recuperáveis, erguem-se cenotáfios; coisa que não me incomoda particularmente... No Panteão, encontramos a evocação de Luís de Camões, de Pedro Álvares Cabral, de Afonso de Albuquerque, de Nuno Álvares Pereira, de Vasco da Gama e do infante D. Henrique.
Independentemente do processo de selecção, o que me intriga verdadeiramente é a importância que se dá aos restos mortais na homenagem que se pretende fazer a quem quer que seja. Um procedimento que não se alinha nem com a concepção monista nem com a concepção dualista da vida. Em ambas, um corpo morto deixa de ter qualquer significado; em ambas, no que se refere à história de cada indivíduo, o que verdadeiramente sobrevive à irreversabilidade do tempo são os feitos que o tornaram único e notável.
Por isso, não vejo qual a necessidade de honras de estado perante túmulos. É que o que verdadeiramente importa está aqui fora, perto de nós, ao alcance de cada um...
No caso de Aquilino, que melhor homenagem a de saber que continua vivo sempre que é lido, no século XXI, XXI, XXII e por aí adiante?
Tenho esperança, Marianinha, que algum dia, já eu longe do mundo, as leias e te façam sorrir. E, no ocaso como estou, consolo-me à ideia que nesse sorriso perpasse a vibração de animula vagula blandula do que fui, e se vai diluindo e afundando no golfo do tempo como as estrelinhas que abrem e fecham a pálpebra sonolenta na praia areada de uma noite de Verão.
Aquilino Ribeiro, excerto da dedicatória d' O Livro de Marianinha, dedicado à neta Mariana

Capuchinho dos tempos modernos

Depois da leitura da Cinderela dos Tempos Modernos, os meus alunos mostraram do que são capazes:

A mãe fez um pitéu para a pita levar à cota.
A mãe visou a pita para ter cuidado na floresta porque havia à solta um animal basofe bué mau e quê. Então, lá foi a pita a caminho. Na floresta, encontrou um lobo que se chibou de um atalho, sendo uma grande peta. Mas a pita, confiando no lobo, seguiu o atalho. Dando o lobo de frosques pelo caminho mais recto, bateu na porta do cubico da cota a dizer que era a pita com um pitéu bué de bom. Quando a cota abriu a porta, o lobo saltou-lhe em cima e pitou-a numa trinca, gamou umas roupas e cubou na cama dela.
Quando a pita chegou com o pitéu, abancou-se ao pé da cama e começou a perguntar: "Escuta lá, sócia, para quê uma bocarra dessas?". O lobo respondeu: "Para te pitar melhor!", e jogou-se a correr atrás da pita.
Entretanto, um caçador que andava ali a rondar, ouviu o sonoro e espetou um balázio na testa do lobo, tirando depois a cota que estava refundida na pança do lobo.
Texto de David Sousa e Vítor Oliveira



(ilustração de Catarina Carneiro de Sousa)

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Prós & Contras: a Educação em debate

Foi ontem, na RTP1, sob o tema "O que muda na educação?"
Não se pode negar a destreza mental, a acuidade verbal, a inteligência de Maria de Lurdes Rodrigues, a nossa ministra da Educação. Pena que as suas políticas (com excepção de apenas umas quantas) continuem a contribuir para o agravamento da crise na Educação ; pena que a sua preocupação com o aluno a cegue para os restantes agentes educativos; pena a sua nítida aversão aos professores; pena a tendência para o despotismo; pena a demagogia e as verdades incompletas.
Nota alta para José Manuel Canavarro, correcto na postura e no conteúdo das afirmações.
Nota baixa, baixinha mesmo, para Fátima Campos Ferreira. Como sempre.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Gama e Camões...

... foram o heróis que os Manelinhos escolheram. Sempre tiveram um fascínio por Luís de Camões e pelas aventuras de Vasco da Gama que descobriu a terra de onde vieram os avós da mamã. Leio-lhes excertos d' Os Lusíadas. Eles gostam de ouvir, de ver o volume, de tocar no livro. Ficam impressionados com a estátua em Lisboa. Gostam de Camões, ponto final.
Luís de Camões, que o Nuno escolheu, é ilustrado por Danuta Wojciechowska, a mesmíssima ilustradora de O Gato e o Escuro de Mia Couto, de Ynari, A Menina das Cinco Tranças de Ondjaki e de A Procura do Ó-Ó Perdido de Pascal Sanvic, entre outros. A primeira vez que me apaixonei pelos seus desenhos foi com o Fala Bicho de Violeta Figueiredo cujos poemas foram musicados por Eurico Carrapatoso por encomenda da Antena 2.
Vasco da Gama, escolhido pelo Tomás, foi ilustrado por Carla Nazareth. A ilustração que aqui reproduzo encontra-se na página 12. Carla de Nazareth é a ilustradora das Histórias de Cantar da Margarida Fonseca Santos que os meus Manelinhos já sabem de trás para a frente, à roda do piano que o pai toca para os acompanhar. Encontrei os seus Esbocilhos numa viagem na blogosfera. Já o adicionei às minhas intropatias.

domingo, 16 de setembro de 2007

Nomes com História…

… é o título da nova colecção de 12 livros que a Zero a Oito lançou num exclusivo Continente/Modelo: Viriato, Vasco da Gama, D. Leonor, Marquês de Pombal, Egas Moniz, Luís de Camões, Nuno Álvares Pereira, Inês de Castro, Afonso de Albuquerque, Santo António, Infante D. Henrique, Santa Isabel.
Os textos são de Ana Oom, as ilustrações de autores vários, a revisão técnica da Associação de Professores de História. Antes do texto, um poema de Inês Pupo sobre o herói de que o livro fala. Antes, ainda, a apresentação da colecção:
“Muitas foram as personalidades que se destacaram e que contribuíram largamente para o desenvolvimento e reconhecimento do nosso país. Inspirada nestes protagonistas e em episódios marcante da sua vivência, surge a colecção Nomes com História.
Estas narrativas têm por principal objectivo dar a conhecer tais personalidades aos leitores mais novos, não pretendendo ser uma apresentação exaustiva das suas biografias, mas apenas uma primeira abordagem dos seus feitos. Cada livro da colecção concentra nas suas páginas os mais marcantes acontecimentos históricos, considerados fidedignos pela Associação dos Professores de História, mas também por muitos factos fantásticos, fruto da imaginação da autora.
Para complementar estas histórias, encontra no final de cada obra duas secções complementares: a secção “No tempo de…”, com mais alguns dados sobre a vida da personagem em destaque, sobre a História de Portugal e sobre a História do Mundo, e a secção “Será que sabes?”, onde o jovem leitor poderá pôr à prova os seus conhecimentos, respondendo a perguntas sobre a narrativa apresentada.
A escolha das figuras abordadas, em cada um dos livros desta colecção, foi elaborada unicamente em critérios editoriais, de acordo com o espírito global da colecção.”
Esta colecção, à semelhança da “Era uma vez um rei” (já lançada pelo Expresso, também assinada por Ana Oom e ilustrada por André Letria), avança na linha da biografia e permite um primeiro contacto das crianças com a História de Portugal através das artes literária e pictórica.
O primeiro impacto perante os livros enquanto objecto é muito positivo. São livros de capa dura, com belíssimas ilustrações, com um tipo de letra e um espaçamento que respeitam o leitor, seja ele de que idade for.

As novidades da Zero a Oito

Na minha ida semanal ao Continente, e na visita imprescindível à secção dos livros, descobri que a Zero a Oito acabou de lançar uma nova colecção para crianças: “Nomes com História”, um exclusivo Continente/Modelo.
Já conhecia a Zero a Oito da revista Batatoon à venda nas bancas, do livro-CD da Leopoldina que o Continente promoveu e da colecção “Era uma vez um rei” que saiu no Expresso.
É uma editora que me parece muito credível no trabalho que vem desenvolvendo para as crianças, mas ainda não consegui ler (nem ouvir) qualquer comentário de especialistas no assunto. É bem possível que não tenha pesquisado convenientemente...

...

O poema popular
É de todos, não do povo
Misterioso como o mar
E perfeito como um ovo
in AAVV, Et Cetera... E Coisas Afins, ed. autor, 1997

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Esperança

Mais um passo relativamente à atribuição de subsídio de desemprego. Notícia recebida pelo SNESup:
Segundo anuncia a comunicação social, o Orçamento do Estado vai passar a financiar na íntegra as despesas públicas com prestações familiares, subsídio de desemprego e pensões antecipadas, designado pelo Governo como “sistema de protecção social de cidadania”. Para o efeito, o Orçamento do Estado transferirá para o Orçamento da Segurança Social as importâncias necessárias. Até agora o subsídio de desemprego era, em termos técnicos, considerado financiado pela Taxa Social Única patronal. Quem não tem "contribuições registadas" vê recusados pela Segurança Social os pedidos de subsídio de desemprego. Assim sendo, ao criar-se em 2000 o subsídio de desemprego de que beneficiam os professores dos ensinos básico e secundário, o Ministério da Educação teve de começar a pagar uma contribuição para a Segurança Social que preenchia esta função. Todos os Governos desde então, incluindo o actual, têm rejeitado alargar este esquema ao ensino superior e à generalidade da Administração Pública. Uma vez que tal implicaria que todos os Ministérios começassem a pagar. O dinheiro não tem cor, mas até agora a guerra de "capelinhas " entre as Finanças e a Segurança Social, vinha sendo, ao que parece, e em conjunto com a falta de vontade política, uma das razões que bloqueavam a generalização do subsídio de desemprego. Com a modificação legislativa agora anunciada pelo Conselho de Ministros (comunicado infra) a generalização do subsídio de desemprego não implica que o Orçamento do Estado tenha de pagar ao Orçamento da Segurança Social uma contribuição por cada um dos 700 e tal mil trabalhadores da Administração Pública. Só tem de pagar, a título de transferência e não de contribuição, o montante que servirá de contrapartida ao subsídio de desemprego daqueles que percam efectivamente o posto de trabalho. Vamos a ver se, criadas já novas bases para a solução técnica, aparece agora a vontade política.

Comunicado do Conselho de Ministros de 13 de Setembro de 2007

O Conselho de Ministros, reunido hoje na Presidência do Conselho de Ministros, aprovou os diplomas seguintes:

3. Decreto-Lei que estabelece o quadro do financiamento do sistema de segurança social

Este Decreto-Lei, que dá cumprimento ao disposto no Acordo de Reforma da Segurança Social, vem, na sequência do disposto na nova Lei de Bases da Segurança Social, estabelecer o novo quadro genérico do financiamento do sistema de segurança social, procurando delimitar e discriminar as receitas e despesas de cada um dos sistemas em que aquele se decompõe: por um lado, o sistema de protecção social de cidadania; por outro, o sistema previdencial.O objectivo último subjacente a esta clarificação prende-se com a necessidade de tornar mais transparente e rigorosa a gestão financeira do sistema, pela delimitação precisa das responsabilidades em matéria de financiamento que devem caber, por um lado, ao Estado nas transferências realizadas para a área não contributiva da segurança social e, por outro, aos trabalhadores e entidades empregadoras que, através do pagamento de contribuições sociais, suportam os encargos com o sector contributivo. Estabelece-se, designadamente, que as despesas com prestações que tenham uma especial vocação redistributiva – o caso das prestações familiares –, pela sua integração agora no sistema de protecção social de cidadania, sejam financiadas, em exclusivo, por transferências do Orçamento do Estado e deixem de ser, como sucedia até aqui, financiadas também por contribuições dos trabalhadores e das entidades empregadoras.Assim sendo, e concretizando o princípio da adequação selectiva, clarifica-se a existência de duas formas de financiamento. Enquanto o sistema de protecção social de cidadania é financiado por transferências do Orçamento do Estado e por consignação de receitas fiscais, o sistema previdencial tem o seu financiamento nas receitas provenientes das contribuições sociais, pagas pelos trabalhadores e entidades empregadoras. Particularmente inovadora e importante é, ainda, a distinção, no sistema previdencial, entre a componente de gestão em repartição e a componente de gestão da reserva pública de estabilização em capitalização, evidenciando-se, nos termos já previstos na Lei de Bases da Segurança Social, o papel desta última enquanto garante da estabilização financeira do sistema em causa.

Medo

O que faz uma depressão...
Depois da pequena Vanessa, da Joana, da Madeleine, do Filipe e da Maria João e do exemplo que eram as suas mães antes de, não posso, decididamente, recuso-me, determinantemente, a cair, jamais, em depressão...

4 Gigas...

... em ficheiros temporários foi o que o meu cumpadri Rui apagou do meu disco rígido. O CP tem andado lentinho e ele veio dar uma espreitadela. Ok, confesso, aqui a dótora não percebe muito de computadores. Há dois anos que não limpava o desgraçadinho mas, pelos vistos, 4 gigas é demais. Deu para ver pelas gargalhadas do Rui e daquele com quem partilho a casa, o corpo, a alma e dois filhos. Disse-me o C. que 4 gigas de ficheiros temporários equivalem a 4 toneladas de merda aqui por casa.
Não sei se é verdade, mas imagem não foi das mais agradáveis. Só por isso já aprendi a correr o CCleaner.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Tulisses

Há blogues que visito amiúde por gostar das pessoas que os escrevem e daquilo que vão escrevendo. É público e assumido que sou fã do Felizes Juntos, responsável directo pela génese do Rabiscos e Garatujas. Há algum tempo que me tem visitado a vontar de falar das minhas outras intropatias. Hoje apetece-me falar do Tulisses. Acabo de passar por lá e encontrar uma promessa cumprida que eu gostei de ler.

Gosto do blogue por muitas razões, a começar pelo título. Sempre gostei muito dos jogos que a língua permite que se façam. Tulisses tem algumas tolices próprias da idade do jovem adulto que as escreve. São tolices palerminhas que me divertem e me fazem lembrar que já fui jovem e tola e do quão divertido era ser jovem e ser tola. Mas o blogue é, essencialmente, o relato da viagem do Tiago, qual Ulisses, pela vida que ele optou por reconstituir por palavras. Com um registo diarístico, o blogue mostra-nos a importância da Literatura para o Tiago. Ali desfilam as palavras de autores que adoro, como Mia Couto, Flaubert, Luandino Vieira, Nuno Júdice, Sophia, António Gedeão, José Gomes ferreira, Fiama, Alexandre O'Neill e Cecília Meireles, entre outros. Mas o Tiago não é só leitor. Para além de manter o blogue, o Tiago escreve a sério (pressuposto que escrever blogues não é coisa séria... que mal!). Prosa e poesia. E eu gosto.

Conheci o Tiago em Fevereiro ou Março deste ano. Inscreveu-se, como eu, no Seminário de Ensino da Literatura lá na FLUL. É calmo e calado. Mas quando fala, fala bem. Falhei a apresentação da sua leitura de um conto da Lídia Jorge que ele teve a gentileza de enviar por mail (Ser e ainda não ser: oscilação e iniciação em «O Belo Adormecido» de Lídia Jorge).
Gosto destas partilhas, porque é assim que eu vou aprendendo.

Do Tulisses, um post de que gostei particularmente, aqui.

A minha escola nova

As primeiras impressões são muito positivas. Fui hoje apresentar-me e fiquei muito bem impressionada com o espaço físico, muito arranjadinho, calçado de pedra, gaiolas com passarinhos nos espaços exteriores, barcos algarvios expostos como monumentos. Muito bonito.
Melhor impressão com o pessoal, a começar na secretaria onde fui muito bem recebida. No Conselho Directivo, grandes sorrisos nas boas-vindas, apresentações, os "tus"disparados que ainda vou estranhando - reminiscências dos anos em que estive numa certa instituição governada por um certo TyrannoRectorRex e outros predadores hierarquicamente inferiores.
Para aumentar o gáudio: horário exclusivamente nocturno. O que significa: redução das probabilidades de comportamentos indisciplinares (é o meu calcanhar de Aquiles), tempo para dar e vender com os meus Manelinhos, tempo a optimizar para o avanço no doutoramento.
Felicidade acrescida com a notícia de que vou retomar uma experiência que iniciei o ano anterior: a leccionação de Português para Estrangeiros.
Que pinta!
Melhor, melhor, só as 22 horas do horário completo... Mas posso adiantar que me sinto feliz. Muito feliz!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Emprego ao quadrado!

Duas boas notícias no mesmo dia.
A primeira chegou-me pelo Paulo que me telefonou por volta das 10h00m. Fiquei colocada! 18 horas, grupo 300, 3º Ciclo, Armação de Pêra! São 30 minutos de carro. Nunca mais chega amanhã para conhecer a escola, saber o horário, saber as turmas a que vou leccionar.
A segunda: fui recrutada como formadora numa escola profissional sedeada em Lisboa mas em forte expansão no Algarve. Por ora, começo com duas horas semanais, aos Sábados.
Petit à petit...

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Síndrome McCann

Antes do caso Madeleine, já eu tinha horror à ideia de desaparecimento de um dos meninos. Antes do caso Madeleine, antes do caso Joana, antes mesmo de eles nascerem. Era um medo que eu tinha, aliás, enquanto criança, o de ser levada por alguém para longe dos meus pais e do meu mundo.
O caso Madeleine é um caso metonímico, é o caso-criança-desaparecida. E julgo que tenha sido isso que justifica o que se viu nas ruas de Portimão nos últimos dias. Foram dias insuportáveis para quem teve de ir tratar de assuntos na cidade. O trânsito, as ruas fechadas, a concentração de pessoas, os serviços demorados porque estavam todos com um olho no trabalho e o outro na TV. Um horror.
Malas feitas, o regresso à Inglaterra devolveu a normalidade às ruas da minha cidade. Quanto às ruas dos nossos interiores, cada um fale por si.
A fazer um ponto da situação, o regresso do Prós e Contras, com a malfadada Fátima Campos Ferreira, e o desditoso título «São os McCann culpados?». Nota negativa para os convidados principais, pela forma vergonhosa como diminuiram as intervenções do psiquiatra forense espanhol pelo simples facto de terem entendido o que quiseram entender e deixaram no ar as verdadeiras afirmações do homem que veio propositadamente, de Madrid, ao programa português para trazer alguns contributos possíveis à luz da sua especialidade.
Sobre o caso Madeleine enquanto caso Madeleine, um post muito interessante, no Controversa Maresia: «a saga dos macaine». Leitura recomendada.

Síndrome McCann

- Mamã, estava ali um senhor de mota a olhar para nós.
- O que queria ele, Tomás?
- Não sei, só estava a olhar. Era uma mota grande.
- Gostas de motas, é?
- Sim, eu queria muito que tu tivesses uma mota.
- Então, e se o senhor da mota te dissesse: "Olá, menino, gostas da minha mota? Queres vir dar uma voltinha?" o que fazias, Tomasinho?
- Então, mamã, eu ia e dizia "Muito obrigado"!
Fiquei doente. Para morrer.

Pai

Pedra do meu nome
Asa estendida ao horizonte
Igreja do meu corpo onde me aninho e descanso

Os Manelinhos no seu 7º aniversário





segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Parabéns, pai

Nasceu em 1940 e por isso é sempre muito fácil recuperar os cálculos para a sua idade. Sessenta e sete, portanto. Com mais de metade da vida vivida e mais uma quanta por viver.O meu pai é pequenino como manda a tradição goesa, sorridente, com o olho luzidio e uma energia que o torna imparável.
Desenhador de profissão, procurou passar para nós o seu amor pelo mundo artístico. Tornava vivos, com as suas memórias, os quadros do seu irmão e meu tio pintor, zelou para que tivéssemos uma educação musical, acompanhou sempre de muito perto todo o nosso percurso académico, incentivou-nos sempre a querer um pouco mais. É com um orgulho embavecido que olha para os quatro filhos e sente, no fundo da alma, que a sua missão foi cumprida. E bem.
O meu pai olha para os pormenores e procede às devidas análises, às vezes demasiado longas, sobre o que vai observando. Gosta de dar o seu conselhozinho mas não sem uma explicação aprofundada. Pedimos-lhe, invariavelmente, que comece pelo fim.
O meu pai é fã dos filhos. Esteve sempre na fila da frente em todas as audições de piano e violino em que actuámos. Houve uma altura que formámos um quarteto de violinos, conhecido pelo nosso apelido que mistura italiano e português com cheirinho a especiarias, e lá estava ele, a escutar-nos durante os ensaios, a assegurar-se da decência do vestuário, na primeira fila do concerto.
É um pai presente, muito presente, às vezes até demasiado presente. Estou a lembrar-me das matrículas na faculdade onde, até ao final, porque vinha comigo, passava por caloira. Estou a lembrar-me da minha apresentação no meu primeiro emprego de longa duração. Lá fui eu, com o pai, pois claro... Acho que os meus irmãos também o tiveram assim, tão interessado nas suas coisas, que tinha de as ver de perto, em primeira mão.
É o primeiro a ler os meus textos, a comprar as revistas onde tenho publicado alguns ensaios, a querer saber do desenrolar da situação deplorável numa certa instituição governada por um TyrannoRectorRex. Também ele contribuiu para esta coisinha que cá tenho aproximada a uma auto-confiança quase excessiva. Sobre isso tenho de postar um dia.
Quando éramos pequenos, enfiava-se nos nossos lençóis, dava-nos mimos, contava-nos histórias à noite, até perdermos o medo, até vir o sono, até estarmos mimados. Isto, vezes quatro. Quando tínhamos pesadelos, era por ele que gritávamos. Quando ainda não sabíamos nos desenvencilhar na casa de banho, era por ele que gritávamos. Quando nos magoávamos nas brincadeiras que coloriam as nossas vidas, era por ele que. E, ainda, quando tínhamos fome, quando queríamos brincar, quando sei-lá-o-quê. A minha mãe estava reservada para o apoio nos momentos de tristeza e na busca de informação escolar, académica e enciclopédica.
O meu pai gosta de animais, guarda as migalhas de pão e de fruta para os pardalitos vizinhos. O meu pai gosta de plantas e tem um jardinzinho no seu apartamento que se prolonga pelas escadas do piso. O seu sonho pessoal de feliz contemplado com uma módica quantia de um qualquer jogo da Santa Casa é uma porção de terra, um terreno maneirinho para ter a sua horta, o seu jardim, as suas plantas. É um gosto muito dele que irrita a minha mãe e que não contaminou nenhum dos quatro filhos, todos eles muito urbanos.
Mas há uma esperança. E a energia não se lhe esgotou. Olha muito atentamente para os Manelinhos, netos primogénitos, que crescem, diz ele, parecidos ao avô. E aguarda, pacientemente, pela chegada do primo dos meninos, do Duarte, da Benjamim da família. Criou quatro filhos e vê-se, no olho brilhante, claro como água, a alegria de ser avô.
É o meu pai.
Nota: Bonitas homenagens ao pai, na blogosfera, aqui, aqui, aqui e aqui .

domingo, 9 de setembro de 2007

A festa dos Manelinhos

Repudio as celebrações dos aniversários que agora estão na moda. O post anterior deixou-o claro. Poderia ter convidado os 22 colegas dos meninos mais uns quantos amigos de outras lides. Podia pagar 10 euros por cabeça e levá-los a uma certa casa duns traquinas aqui em Portimão que está muito na moda. E pagar umas bejecas aos papás que não conheço de lado algum mas que ficam lá a pairar, a olhar para e pelos filhos. Não podia, aliás, porque estou desempregada. Mas se pudesse não o faria. O ano passado organizámos uma caça ao tesouro na praia. Foi divertido, mas não para repetir. Optei, então, por uma sugestão muito simpática que o Nuno e o Tomás lançaram: um piquenique em Monchique. Que delícia! Há quanto tempo eu não fazia um piquenique! Foi parte da família mais chegada e três dos quatro padrinhos. Contas feitas, catorze: seis crianças mais oito adultos. Prendas: uma vaquinha generosa para duas bicicletas e uns mimos que se traduziram em dois jogos para pc, três livros e dois capacetes para os velocípedes.
Foi muito bom, o convívio calmo com as pessoas de quem realmente gostamos, a degustação serena das iguarias que levámos, o verde da paisagem, o cheiro a eucalipto, o som da água das fontes.
Eles gostaram e eu sinto-me cansada mas feliz.

Festas de anos

Hoje, quando uma criança faz anos, os papás convidam o mundo inteiro para a festinha do rebento. A criança entrega um convite a todos os colegas da turma, a alguns vizinhos, aos amigos da catequese, a outros tantos da escola de música, sem esquecer os das práticas desportivas. Como não há casa que aguente, os convidados vão recambiados para locais especializados e com gente especializada em festas infantis. Infantis mesmo. Sem o mínimo respeito pela pessoa que a criança é, apesar de toda a boa vontade do comité da organização. Um disparate de doces, um desparrame de gente, uma dispersão de presentes. A criança afoga-se na gula, sufoca no consumismo, sem olhar a quem. Os brinquedos desfilam a uma velocidade vertiginosa, não se abriu ainda completamente o primeiro embrulho, já o olhar, as mãos, o corpo se apressam para o segundo de uma pilha de vinte, trinta, quarenta, conforme o número de convidados. São prendas a pontapé, que lhe ensinam a facilidade com que hoje se pode adquirir o que quer que seja e que é idêntica à facilidade com que se podem estragar e substituir. A facilidade com que entram e saem as pessoas da sua vida. A velocidade de tudo. Finda a festa, o regresso à limpeza e ao sossego do lar, o conceito de festa a sedimentar, ano após ano, numa geração que não sei como ou se será afectada por estas pequenas loucuras dos papás e das mamãs que querem tudo tudo tudo para os seus meninos.

Parabéns, Manelinhos

Os meus Manelinhos fizeram, no passado dia 7, 7 anos. Só hoje consegui encontrar alguma tranquilidade para os meus rabiscos e as minhas garatujas. Prometi-lhes estar o máximo de tempo com eles e, desde então, andamos todos muito atarefados na organização de um piquenique que os dois há muito me vêm pedindo. É já hoje, em Monchique.
Os meus Manelinhos enchem-me a vida, o corpo, a alma. Desde que nasceram que compreendo a felicidade total das mães que optaram dedicar toda as suas energias à educação dos seus filhos. Se pudesse, fá-lo-ia, organizando, porém, o tempo para que continuasse a desfrutar do prazer de ler e de praticar os meus exerciciozinhos de hermenêutica. Os Manelinhos são, para mim, uma felicidade que não consigo verbalizar. Quem ama sabe como é.
Reconheço que como mãe deixo muito a desejar. Tive sorte com os filhos que me calharam, não sei se eles terão tido sorte com a mãe que lhes calhou. Mãe-ausente, mãe-nervosa, mãe-galinha, mãe-possessiva, mãe-exigente, mãe-impaciente. Não sou uma mãe que se enfia nos lençóis com eles, porque, pura e simplesmente, quando se deitam é para dormirem, não querem cá intrusos no seu espaço. Gosto de lhes contar histórias, mas enervo-me quando desconversam, embora saiba perfeitamente que é uma desconversa muito a propósito da história que estão a ouvir. Não construo com eles castelos na areia nem fico curvada à babujinha, à cata de conchas, búzios e outros tesouros do mar. Não tive o prazer de os pegar logo ao colo, assim que nasceram, por causa da anestesia da cesariana e porque eram dois e eu estava sempre tão cansada e não tinha forças para ter os dois ao mesmo tempo no colo e porque ficava com remorsos se pegasse só num mesmo sabendo de o outro viria a seguir... enfim, os primeiros tempo foram complicados, sobretudo pela minha falta de jeito e inexperiência que ainda hoje me incomoda. Mas é a mãe que consigo ser, com muito amor a transbordar por todos os poros e muita vontade de melhorar.
Os Manelinhos são muito bonitos, esguios como o pai, morenos como a mãe, com traços de ambos. Ficámos sem saber se são gémeos monozigóticos ou dizigóticos. São muito parecidos, quase confundíveis, com o mesmo grupo sanguíneo. Estavam numa mesma placenta, mas com um saco aminótico para cada um. Vivemos bem nessa ignorância.
São muito amigos um do outro e dificilmente ficam muito tempo separados. Era suposto cada um ter o seu quarto, por uma questão de individuação. Qual quê. De manhã encontrava-os a dormir juntinhos, até que o Tomás pediu para partir a parede que separava os quartos. Não parti a parede, claro está. Foi mais fácil colocar a sua cama no quarto do Nuno que é ligeiramente maior. Mesmo assim, continuo a apanhá-los, juntinhos, abraçadinhos, na mesma cama.
De um apetite voraz, elegem a fruta como alimento favorito e não desdenham um bom petisco, uma iguaria nova ou, simplesmente, um pequeno boião de iogurte. Vorazes, também, na tentativa de compreender o mundo. É um rol de perguntas de encher a cabeça. E não é só o aparelho fonador que não pára. É o corpo inteiro. Têm um bicho-carpinteiro que cresce com eles e ao qual ainda não me consegui habituar.
Um sentido de humor impressionante, uma candura enternecedora, uma simpatia autêntica, uma inteligência sobretudo emocional. São o Nuno e o Tomás, os meus Manelinhos, meus filhos, e deles eu muito me orgulho.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Madre Teresa

As notícias mais recentes sobre Madre Teresa de Calcutá revelam as suas dúvidas sobre a existência de Deus e a crise de fé que terá durado todos os anos que a missionária albanesa esteve na Índia, ou seja, 50 anos, meio século.
Esta crise que coloca em causa a existência de Deus, uma crise pela qual só não passa quem não pensa, eleva a nobreza desta mulher extraordinária e revelam a verdadeira caridade que exerceu durante toda a sua vida.
É fácil q.b. apregoar a palavra de Jesus, afirmar a quatro ventos a crença e a fé e descansar à sombra da palavra. Difícil, mas muito difícil, frutificar a palavra com a vida como exemplo. Mas a grande nobreza é, mesmo sem acreditar, sem ver no outro o irmão espiritual, sem se importar com a existência ou a não existência do Pai Supremo e das Suas leis, dar de si, das profundezas mais autênticas do coração, encontrar-se consigo mesmo na troca voluntária de uma vida de conforto pela vida da doação total ao outro, no aqui e no agora. Isso sim, é a santidade.
E são estas pessoas sem fé e rectas, verticais e boas; estas pessoas libertas do conceito de Deus que exercem a divindade entre nós; são estas pessoas que para mim têm mais valor.
Conheço muitas assim. Só para dar um cheirinho, os meus pais (com uma fé esquecida), os meus irmãos, a prima Raquel, a Teresa Seq., a Maria João, a Cath e, claro, a Tia Adoptada. Mas há mais, muitas muitas mais.

Pavarotti, 1935-2007

Nunca liguei muito a Luciano Pavarotti porque, muito sinceramente, nunca gostei de vozes masculinas no canto lírico. Não posso, porém, deixar de reconhecer que o mundo perdeu um grande senhor. Fica a riqueza que nos deixou na memória colectiva.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Cegueira

O pior cego é o que não quer ver. Sabedoria popular que hoje dolorosamente comprovei como verdadeira.
Atarefada na cidade, de loja em loja, em demanda do que finalmente acabei por adquirir no último estabelecimento que visitei, poucos minutos antes do fecho do comércio: as fatídicas 19 horas.
Súbito, mesmo à minha frente, do outro lado da rua, a uns 10 metros, uma fulana exactamente vestida como eu. Espreitei-a de cima a baixo, dos pés à cabeça. Sandalinha igual, calças, t-shirt, até o raio do penteado. Olhei-a com um desdém incontido até que os olhares se cruzaram . A desgraçada foi mais longe e fixou o seu olhar no meu que acabei por desviar primeiro.
Regojizei-me, contudo, no íntimo, pelos visíveis quilos a mais da outra. Um contentamento maldoso que durou uns cinco segundos. É que, ao atravessar a rua, vislumbrei o espelho e reconheci a outra que afinal era eu...

Domínio do terror no ensino superior

O SNESup divulga mais um vergonhoso capítulo do actual panorama do ensino superior público português:
Um colega do ISMAI enfrenta o horror do reingresso na instituição de onde fora despedido, depois da vitória em tribunal em primeira e segunda instâncias. É mais um caso de perseguição descarada, apoiada por um abuso de poder que se vai tornando assustadoramente comum no nosso país.
Vale ao colega, Professor Associado Adriano Brandão, a resilência da idade e o apoio do SNESup que tem apresentado um trabalho louvável na defesa dos interesses dos professores do Ensino Superior.
Pormenores desta história escabrosa aqui e aqui.

Os três D: Denise Desempregada e Desolada

É quarta-feira e eu lá corri a espreitar as cíclicas. Descobri a Nota Informativa sobre a colocação de docentes nas necessidades residuais que a Direcção-Geral dos Recursos Humanos da Educação colocou ontem na Documentação de Suporte da Área dos Candidatos.

Cito os três últimos pontos:

8. Na fase das colocações cíclicas, a DGRHE promoverá a colocação dos docentes nos seguintes termos:
§ Docentes dos quadros ao abrigo do despacho nº 16 735/2007, DR (2ª série) nº 146, de 31 de Julho (até à segunda cíclica);
§ Docentes dos quadros de zona pedagógica sem colocação efectiva (até à terceira cíclica);
§ Docentes contratados (de acordo com o disposto na Portaria das colocações cíclicas, a publicar no DR, e publicitada na página da DGRHE.
9. Procurando assegurar que todos os docentes dos quadros ficam com horário lectivo atribuído, a DGRHE promoverá, após a terceira cíclica, a colocação dos docentes dos quadros de escola (opositores ao destacamento por ausência da componente lectiva – DACL) e dos QZP, que naquela data ainda se mantenham sem colocação efectiva e manifestaram no formulário de candidatura, de uma forma voluntária, a intenção de serem colocados em escolas numa área mais abrangente do que aquela para a qual teriam que concorrer.
10. A DGRHE garantirá a colocação dos docentes nos horários pedidos pelos Agrupamentos/Escolas antes do início das aulas.

Descobri, pois, que nem tão cedo serei colocada. É o que dá, não passarmos de resíduos...
Amanhã, lá vou eu, ao fundo de desemprego, a ver o que respondem a quem no ano passado ficou colocado em oferta de escola em finais de Janeiro e com horário incompleto...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Subsídio de desemprego

Um lembrete do SNESup para a pouca-vergonha nacional:

As filas para o Subsídio de Desemprego
O que se passou com o concurso 2007/2008 para professores do ensino básico e secundário seria já de si uma tragédia social se apenas dissesse respeito a recém diplomados em formações da área do ensino, mas é-o muito mais por abranger também professores com tempo de serviço no sistema, sendo a maior parte deles professores profissionalizados.
As Federações Sindicais de Professores têm razão em manifestar a sua preocupação com a situação e em chamar a atenção para as dificuldades de atendimento às longas filas de professores que vão requerer subsídio de desemprego.
Fica-lhes mal porém omitirem que aos docentes do ensino superior que ficam desempregados nem sequer é reconhecido o direito de estarem nessas filas. Por terem ficado de fora da solução negociada em 1999.
Nota: Vi, agora, que não sou a única revoltada, enojada, escandalizada com a dita pouca-vergonha. A Tia Adoptada teve o mesmo impulso que eu.

La gaffe du jour

Os Manelinhos foram visitar-me ao Tobias. Quando chegaram, estava eu a falar do meu blogue aos patrões. Blogue aqui, blogue ali, e vira-se o patrão para os meninos:
- Então e os meninos? Também têm um blogue?
D. Nuno revelou a sua costela algarvia no melhor que há. Rápido come um raie, respondeu com uma prenúncia de meter invéjá qualquer pescador d’Alvor:
- Um bloque?! Só um bloque!? Ná, a gente tem muites bloques!!! Um com a capa do Astérix, outre com linhas, outre aos cadradinhes, mas ê goste mais do bloque do homem-aranhã!

Regresso

Regressei ao Tobias, mas já sem a força do início. Mais murchinha e sem grande paciência para os clientes, pedi ao patrão para me deixar hoje na cozinha, a tratar da loiça. É engraçado imaginar as pessoas que estão por trás de um cálice com batôn; de um cinzeiro com o que resta de um Silk Cut; de um prato besuntado de ketchup e com a salada por comer; de um prato sem vestígios de salada e a porção de batatas intacta; de barquinhos de papel enfiados numa chávena do café; de um copo de água sujo com areia; de pacotinhos de açúcar desfeitos em bocadinhos; de pacotinhos de açúcar rasgados no topo, com requinte, esticadinhos, direitinhos, alisadinhos; de uma garrafa de água enchida com conchinhas, búzios, algas e areia; de um pratinho com gelado derretido; de palhinhas mordiscadas…
A patroa diz que eu na cozinha atrapalho. Acho que amanhã vou recambiada para a esplanada…

Um poema de E. Pitta

Tacteio as horas
à tua procura.

Quando te encontro,
girassol do meio-dia,
baloiça-te na voz
um desejo de tâmaras.

Inclino-me e soergo-te,
transpiras e dás fruto.

Eduardo Pitta, in Poesia Escolhida

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Eduardo Pitta...

... gostou do Rabiscos e Garatujas! Na visita diária ao Da Literatura, descobri o link para o meu blogue na coluna de «Política & Cultura».

Conheci Eduardo Pitta através do Paulo que defendeu uma interessantíssima e muito bem escrita tese de mestrado intitulada A Anatomia do Desejo Refractário na Obra Literária de Eduardo Pitta. Comecei pela poesia (Poesia Escolhida, 2004), espreitei o ensaio (Comenda de Fogo, 2002), segui a prosa (Os Dias de Veneza, 2005) e revisito-o nos dispersos que vai publicando aqui e ali. Passeio diariamente pelo seu blogue e assim me vou intelectualmente enriquecendo com o que por lá se vai postando. Não sou a única. O sitemeter acusa mais de 600 mil visitas. E, embora nem sempre quantidade sinonimize qualidade, aqui a proporção é justificável.
Em carne e osso vi-o uma vez, há uns anos, num seminário da Profª Paula Morão, a propósito de uma apresentação (sempre tão deliciosamente nervosinha) do Paulo. Falou-nos das suas preocupações estéticas e esclareceu-nos sobre o que não há para esclarecer sobre o seu laboratório de escrita.
Eduardo Pitta tem pelo menos quatro coisas em comum comigo: o elemento fogo do signo, o berço em Lourenço Marques (embora de lá tenha partido antes de eu ter nascido), o amor pela Literatura e, claro, a reverência pelo trabalho do Paulo ;-)

Sonhos

Gostaria de conseguir compreender alguns sonhos recorrentes que tenho desde a adolescência. Uns de elevadores em queda livre, outros de automóveis que não consigo travar e outros, menos assustadores, mas mais nojentos, onde não controlo a necessidade de urinar ou defecar. Incomodam por serem recorrentes e por me deixarem perturbada durante a manhã inteira...

domingo, 2 de setembro de 2007

Praia

Gosto do sabor do sal na minha pele, dos grãos de areia fina a escorregarem-se-me por entre os dedos, do calor do sol a queimar-me o corpo, do branco espuma, dos castelos de areia semi-desfeitos, da linha no horizonte azul, do movimento das ondas, do marulho quando se transformam em espuma, dos risos das crianças, do cheiro a maresia.

Inventário

Sete mares em rodopio
Sol ardente e sem frio
Um menino a chapinhar
A mãe fera a zangar
Quente a areia ressequida
Onda vinda onda ida
Uma vela em alto mar
Marinheiros a acenar
Muitas bifas em topless
Um H que ama um S
Sal salgado a boiar
Uma bóia a se afogar
Toalhas no chão deitadas
Muitas pessoas molhadas
Óculos escuros a mirar
Um assobio um corar
Meninos baldes e paz
Quanta calma quantas pás
Peixe-aranha a espreitar
Criancinha a chorar
Salva-vidas a correr
Uma multidão a ver
Sal de lágrimas e mar
Misturado num olhar
Búzio lindo a ouvir
Um mar calmo a rugir
Oceano e maresia
Transformado em poesia

Mãe

Mãos-monumento de passarinho
Amor incandescente ancorado no vento
Elmo forte feito ninho

sábado, 1 de setembro de 2007

Parabéns, mãe

Nasceu há precisamente 56 anos.
A minha mãe é uma goesa bonita de pele clara e olhos verdes. Tem os seus defeitozinhos, é claro. É mimada, caprichosa e rancorosa; quando as coisas não lhe correm bem, as lágrimas rebentam-se-lhe nos olhos ou então a tromba salta cá para fora, arrastando-se indefinidamente pelo chão. Pior, pior, as duas coisas juntas, que resultam num indescritível poder de chantagem emocional. Há outros defeitos menores, como a actual dependência pela família que recusa a admitir e um conformismo e passividade crescentes que dela se têm vindo a poderar. Justifica-se ela com o cansaço da velhice. Mas ainda lhe hei-de dar a volta.
Fora isso, é uma mãe perfeita que acredito ter sofrido muito com o meu crescimento rebelde q.b. que acabou por ser guiado a bom porto, acho eu.
É uma mãe que soube equilibrar a doação total com as privações educativas, que soube mostrar a necessidade de se fazer escolhas na vida, que demonstrou o raciocínio na ordenação de prioridades. A minha mãe ajudava-me nos trabalhos escolares e como boa professora que é soube sempre até onde ir para não transformar os meus trabalhos nos seus trabalhos. Nunca se cansou de me oferecer livros e explicar-me o mundo que me rodeia. Quando perdeu a capacidade de me explicar a matéria da escola, mostrou sempre uma grande vontade de actualizar os conhecimentos, uma vontade que perdura até hoje e que contribuiu, decisivamente, para a minha actual auto-confiança.
Permitiu que, em casa, eu tivesse estrondosas experiências gustativas com as suas confecções goesas e com as suas experiências culinárias portuguesas: chamuças, caril, sarapatel, chacuti, xe-xeque, bebinca, bática, mas também bacalhau, feijoada, canja, caldo verde e mil e uma sopas, pataniscas, cozido à portuguesa, e por aí adiante. Fanática pela limpeza, preparou-me para um casamento com outro fanático por limpezas.
Muitas vezes, enquanto criança e adolescente, vi-a como a encarnação do Mal, bruxa, madrasta. Foi essa sua faceta mais repugnante que me deu a rectidão e a solidez que hoje possuo. Mais tarde, a Tia Adoptada demonstrar-mo-ia através da hermenêutica da Literatura (também) para a Infância.
Estragou-se com os netos... Mas pelo que tenho ouvido, é sempre assim com todas as avós.
Esta homenagem à minha mãe acaba por ser uma homenagem a mim mesma, porque o que sou deve-se ao que a minha mãe é e demonstrou ser. Gosto do resultado do seu trabalho, ou seja, de mim, do meu irmão e das minhas irmãs. Foi, claro, um trabalho de equipa e sobre o meu pai postarei noutro dia. Por ora, e aos dois, um muito obrigada.
Nota: Bonitas homenagens à mãe, na blogosfera, aqui e aqui.