quarta-feira, 31 de outubro de 2007

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Femina corpus

Os homens-modelo são demasiado musculados; prefiro a delicadeza do corpo feminino.








Uma vez mais, daqui.

O corpo humano pode ser tão bonito, não pode?








Fotos colhidas daqui.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Zeitgeist ou a inexistência de Jesus

Não era novidade nenhuma a visão de Cristo como deus solar nem muito menos a reapropriação de certos mitos pagãos pela doutrina cristã. Com este pequeno filme fiquei a conhecer uma teoria mais arrojada. Independentemente do que acredito ou deixo de acreditar não nego o impacto que causou em mim. Fica aqui, para partilha.



O Zeitgeist Movie completo está aqui.

Há cultura em Portimão

A ópera veio a Portimão. Entre 16 e 27 de Outubro, a cidade teve a oportunidade de ouvir La Traviata, Fidelio e a Tosca, depois de na gala da primeira noite ter recordado algumas árias famosas.Para além de organizar esta temporada, a Câmara Municipal teve a feliz iniciativa de oferecer um serviço de acompanhamento de crianças entre os 3 e os 8 anos n' A Turma dos Reguilas. Excelente para quem não tem a ajuda de avós babados, como eu.

Depois das Noites de Ópera, aguardo, impaciente, o Outonos do Teatro, de 2 a 11 de Novembro. Para todas as idades.

Tosca

O C., que não perdeu uma única noite, ofereceu-me um bilhete para Sábado.
As minhas experiências anteriores com a ópera não foram muito felizes mas, por serem antigas, dos tempos idos de estudante em Lisboa, achei que a maturidade dos meus 31 anos me permitiriam usufruir devidamente o espectáculo. Lá me aprumei para ir ver a ópera do Puccini.
Cenário moderno, uma orquestra que tem vindo a melhorar nitidamente, um ambiente muito bom. Mas a música e a história... não tenho pachorra. Não é que a Tosca não seja uma boa ópera. Acredito que o seja. O problema é que eu não consigo apreciar música romântica. Há excepções. Mas a regra é esta: não gosto de música romântica. Não gosto. E depois, com aquela história trágica com amores, ciúmes e morte à mistura... não há pachorra. Não há.

Jorge Amado

Como disse na resposta ao comentário que o Paulo fez ao meu post anterior, a frase que me calhou fica catita mesmo que retirada do seu contexto. O contexto, no entanto, divertiu-me, como me divertem muito os livros do Jorge Amado. A frase remata o 1º parágrafo que inicia o 2º capítulo do «Intervalo para o baptizado de Felício, filho de Massu e Benedita ou O compadre de Ogun»:


O baptizado de uma criança parece coisa muito simples, vai-se ver e não é, implica em todo um complicado processo. Não é só pegar no menino, juntar uns conhecidos, tocar-se o bando para a primeira igreja, falar com o padre e pronto. Se fosse só isso, não seria problema. Mas é necessário escolher, com antecedência, o padre e a igreja, levando-se em conta as devoções e obrigações dos pais e da própria criança, os orixás e encantados aos quais estão ligados, é necessário preparar as roupas para o dia, escolher os padrinhos, dar uma festinha para os amigos, arranjar dinheiro para consideráveis despesas. Trata-se de tarefa árdua, pesada responsabilidade.
Jorge Amado, Os Pastores da Noite

domingo, 28 de outubro de 2007

um seis um...

"Trata-se de tarefa árdua, pesada responsabilidade."
Jorge Amado, Os Pastores da Noite, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1996 [1964].
Eis a quinta frase completa da página cento e sessenta e um do primeiro livro que a minha mão, já longe do alcance dos olhos, conseguiu retirar de uma das prateleiras mais altas da estante mais próxima.
Isto, para não quebrar a primeira corrente em que participo e que até mim chegou através de uma intimação do Paulo. Esta tarefa árdua, pesada responsabilidade, passo-a aos autores de cinco blogues que estão nas minha intropatias:

Tia Adoptada - Desabafos duma Prof
Tulisses - Tulisses
Funcionário Cansado - O Funcionário Cansado
Possidónio Cachapa - Prazer_Inculto
Vieira do Mar - Controversa Maresia

O regulamento está no blogue do André Benjamim mas, para para lá chegar, há que passar primeiro pelo Felizes Juntos. Paragem obrigatória.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Gil Vicente

Parvo:
Ao inferno?! Ieramá!
Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
Pêro Vinagre, beiçudo,
rachador d'Alverca, huhá!
Sapateiro da Candosa!
Entrecosto de carrapato!
Hiu! Hiu! caga no sapato,
filho da grande aleivosa!
Tua mulher é tinhosa
e há-de parir um sapo
chantado no guardanapo!
Neto da cagarrinhosa!
Furta-Cebolas! Hiu! Hiu!
Excomungado nas igrejas!
Burrela, cornudo sejas!
Toma o pão que te caiu!
A mulher que te fugiu
para a ilha da Madeira!
Ratinho da Giesteira!
O Demo que te pariu!
Hiu! Hiu! Lanço-te uma pulha!
Dê-dê! Pica naquela!
Hiu! Hiu! Caga na vela!
Hiu, cabeça de grulha!
perna de cigarra velha,
caganita de coelha,
pelourinho da Pampulha!
Mija na agulha, mija na agulha!


Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno

Resultado

Fiquei boquiaberta ao entrar na sala de aula. Sentada na primeira fila estava a D. Maria José, de olhos colados no Auto da Barca do Inferno.
Tinha chegado um pouco mais cedo e decidiu reservar as horas de Língua Portuguesa para pôr a leitura em dia. De vez em quando lá se lhe escapava uma gargalhada e, ao fim de uma hora e meia, já o livro estava no fim. Quase no fim.
- Então D. Maria José, está a gostar da leitura?
- Ah, stôra, iste é bém mais engraçade que nos resumes.
- Ainda bem que gosta. Já pensou na personagem que vai escolher para fazer o seu trabalho?
- Tava pensande aqui n' alcovitêra. Aquela parte da actualidade é para fazer o quê, exactamente?
- É para apresentar a sua opinião sobre a actualidade da obra, D. Maria José.
- Ah, pôs.... Atão, que ela é bém actual. Alcovitêras conheço-as muitas. E onzenêros também. Atão e esses padres malandros qu'a gente vê nas notícias, hã, stôra? Isto, a bem dizer, acho que era giro se houvesse uma peça de teatro sobre isto.
- Uma representação? Em Lisboa costuma haver.
- Ah, pôs. A gente podia fazer aqui na sala. Ó Mário, tu és o Parvo, lê lá aqui.
- Deixa-me, Zezinha, estou a estudar as conjunções.
- Ah, stôra, aqui o Gil Vicente tinha piada. Há quem diga que foi o filho, né stôra? Mas não interessa. O livro é muito giro.
Não vou nem comentar. Palavras para quê?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Ler + - PNL


Uma passagem pelas livrarias não nos deixa indiferentes à quantidade de livros cuja capa ostenta, orgulhosamente, a validação do PNL. Ler+, em letras, bem visíveis, com as cores principais da bandeira da República Portuguesa.
Um alerta que seria natural se, naturalmente, a escolha dos livros que são supostamente considerados adequados para crianças, fosse mais rigorosa do que muito sinceramente me parece ser. O risco é que, tendo em conta a parca capacidade crítica de um povo que não lê, torna-se muito fácil para as mamãs, os papás, o(a)s educadores(a)s, e todo(a)s o(a)s que acham que vale a pena comprar um livro para as crianças, mais fácil e cómodo, pegar num objecto validado por uma comissão competente e subsidiada pelo governo. Uma coisa séria, portanto. E, por isso, de confiança. Pena estarem incluídos, ao lado de bons títulos, com boas ilustrações, livros que estética e moralmente deseducam o(a) leitor(a). A não ser que sim, que o(a) eduquem, para aquilo que o nosso governo entente (o que quer que isso seja).
Mas quem sou eu, a bem dizer, para contra-opinar a Comissária Isabel Alçada e a Comissária-Adjunta, Teresa Calçada (deixo de fora, por questões óbvias, os representantes do Ministério da Cultura e do Gabinete para os Meios de Comunicação Social)? Ninguém, como já lá dizia o outro. Mas há quem seja. O rigor e a seriedade da Tia Adoptada, que há anos vem dedicando a sua vida ao estudo da Literatura (também) para a Infância, e que está a um passo de defender a sua tese de Doutoramento, dão-lhe uma credibilidade sólida. Independentemente disso, concordo com ela no que diz respeito ao que aqui postou sobre o assunto.
...

A propósito de uma das nossas divergências hermenêuticas, cheira-me a que a história d' A Galinha Ruiva levou a etiqueta errada.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Letras? Que tretas! - Cap. III

Mudança de cena: sai a D. Maria José.
Viro-me para a turma. Sete marmanjos com a caneta pendente, boquiabertos, a olhar para mim.
Puxo dos galões da ironia (4 anos a penar num mestrado sobre o assunto para alguma coisa terão servido). Com a mão na cintura, vocifero:
- E o que é que vocês estão a olhar? Toca a estudar senão seguem o mesmo caminho!
Foi uma noite muito produtiva. Nunca os vi a trabalhar tão afincadamente.

Letras? Que tretas! - Cap. II

- Atão, stôra, já viu o meu trabalho?
- Já vi sim, D. Maria José. As notícias não são muito boas. Vai ter de refazer tudo.
- Ai nã pode ser, atão porquê?
- Ora, há aqui um ponto, verdade seja dita, em que quase lhe dava os parabéns. No início quase acreditei que a senhora escrevia muito melhor do que fala.
- Ai, mas é verdade, isso aí escrevi eu tudo sozinha. Deu cá uma trabalheira!!!!
- POis, então aconselho-a a apresentar queixa à SPA.
- À quê?!
- Sociedade Portuguesa de Autores. É que, veja só, descobri que alguém plagiou o seu trabalho em, pelo menos, dois sites: Nota Positiva e NetSaber.
Silêncio
- Bom, mas passando a coisas graves, da sua lavra... Veja aqui a bibliografia... Como é que faz um trabalho sobre o Auto sem ler o Auto?
- Ah, isse, stôra, nã tenho tempo pra essas coisas. Tá a ver, eu trabalhe todo o dia.
- Pois, eu sei como é, mas tem de ler.
- Mas eu li os resumos.
- Não chega, D. Maria José. Tem de ler. É nisso que está a ser avaliada na disciplina.
- Ah, mas eu já fiz um trabalho de História sobre o tempo do Camões e não li Os Lusíadas.
Ai, a gota d'água. Não. Controlo-me.
- Minha senhora. Eu sou Professora da Português. Nem de História, nem de Ciências, nem de Matemática. Português. Leia o programa e veja a responsabilidade acrescida de um professor de Português. Tenho aqui a lista dos tópicos que quero nesse trabalho. Se achar que não consegue, fazemos um teste.
- Ai, mas eu tenho um trabalho muito difícil, trabalho com facas. Tenho de acordar muito cedo, e com as aulas à noite...
- Então sabe do que estou a falar. Se as não manuseamos bem, cortamo-nos.
Azedou.
- Prontes, prontes, já vi que é muito exigente. Quer obrigar-me a ler. Se quisesse, com boa vontade, passava-me e isto ficava arrumado.
- Pois, mas a boa vontade ficou pelo caminho, minha senhora. Restou a exigência. E o brio pela profissão.

Letras? Que tretas! - Cap. I

Dar aulas à noite safa-me dos casos de indisciplina com a nova geração adolescente e deixa-me o calcanhar de Aquiles numa paz que me tranquiliza. Mas quando um adulto se lembra de argumentar, as coisas podem azedar. E azedam.

Ensino Recorrente, 3º Ciclo, Língua Portuguesa, Unidade 12. A Coordenadora informou-me de que habitualmente, nas últimas unidades , os alunos preferem um trabalho escrito a um exame final. Ora, a senhora D. Maria José não foi excepção. Antes que o Diabo pudesse esfregar o olhito e eu arregaçasse as mangas para lhe entregar um guião, aparece-me toda catita com um volume de 10 páginas sobre o Auto da Barca do Inferno. Lá controlo a ebulição que me corre nas veias e folheio o que me chega às mãos. Estrutura: Introdução (1 pg.); Resumo (8 pgs.); Conclusão (1 pg.); Bibliografia (1 pg.).
- Ó D. Maria José, não era bem isto que eu tinha em mente...
- Ah, stôra, isse se der pra um 10 já fique conténte. Tá a ver, nã tenho muite tempe, e com essas coisas, prontes, tá a ver, nã tá?
Novo exercício de controlo. Respiração pausada.
- Sim, tou a ver. Tou a ver tudo, D. Maria José.

Quase

Mas quando ouço a tal vozinha, quase que me derreto. Ao ser mãe novamente, com a experiência que agora tenho, não poderia cometer os mesmos erros. Ser mais mãe, que os Manelinhos são filhos de todos. Ponho a mão na consciência e logo se me desvanece a ideia. Não me parece que com os Manelinhos tenha passado no teste da maternidade. Sou má, muito má. Deixar a alminha nascer no seio de uma mãe mais mamã.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Idades

Quando há bebés à baila, como o caso da vinda do Duarte, são raras as pessoas que resistem à tentação de me perguntarem para quando outro bebé. Dependendo da disposição, amareleço o sorriso, encolho os ombros ou respondo com uma daquelas frases fabricadas. "É um bocado difícil com a instabilidade no emprego", "Com dois fiquei despachada", "Depois sobra para os avós por causa dos horários", "Isto agora com o divórcio..." são algumas das que mais utilizo. Outras há, mas passemos ao que interessa. E o que interessa é a verdade. Verdade verdadeira, sem esboços de autoficcionalização pelo meio.
Ora, como intróito à verdade verdadeira, começo com uma analepse. Quando era solteira queria ter 4 filhos. Obviamente porque eu com os meus irmãos somos 4. Depois de os Manelinhos nascerem fiquei tão encantada que achei que seria feliz com uns 10 filhos. Um sonho que me obrigaria a ficar em casa com eles e, por isso, salvo a sorte num desses jogos de lucro fácil, impossível de se concretizar. Um ano mais tarde, e durante muito tempo, senti que mais um bebé completaria a família. Mas muitos outros factores se intrometeram. O C. ainda estava a recuperar o fôlego de ser pai de gémeos, eu a meio de um mestrado que me custou a parir, os avós e a tia do meio sobrecarregados por causa dos desencontros dos horários, os Manelinhos a sobreviverem np meio da confusão. Depois do mestrado, veio o desemprego, mais o divórcio, mais a instabilidade de colocações e a nova rotina académica por causa do doutoramento. O certo é que as coisas acalmaram e hoje, a bem dizer, poderia ser mãe outra vez. Pensámos em adopção, mas na verdade, uma vozinha me diz que uma alma está ainda à espera da minha decisão para fazer parte da família. Uma vozinha que o C. também teima em ouvir.
Tudo muito bonito. Afinal, como muitas vezes me atiram à cara, tenho apenas 31 anos. É por volta desta idade que a geração actual junta os trapinhos e começa a procriar. Tinha eu 23 quando dei o nó e 24 quando se me rebentaram as águas.
Respeitando o sistema de medição do tempo e tendo em conta a esperança de vida dos dias de hoje, 31 anos não é uma idade muito ruim para se ter um filho. Mas a verdade verdadeira é outra e tem a ver com a minha idade real. Ou por outra, a minha idade mental.
De há um ano para cá sinto-me muito mais velha. Poderei mesmo especificar: terei entre os 45 e os 55 anos. Afirmo-o sem suspiro algum. Sem mágoa. Sem pena. Ou euforia. Era só o que faltava. Afirmo-o como constatação. Parece-me ter vivido muito tempo. Tanto tempo, que saí da moda, sem paciência para as última tendências no que ao look diz respeito, para as saídas nocturnas, para as palermices que se faz de vez em quando com os amigos. Ando a levar a vida muito a sério, mesmo quando vou brincando por aqui e ali. Ando sem paciência. Ponto final.
Não sei se para isto contribuiu o facto de ser a mais velha dos irmãos e, por isso, com responsabilidades acrescidas. Ou por ter feito a primária em três anos e ter ido para o ciclo um ano antes da idade convencionada; isto é, por ter ficado, até ao final da licenciatura, em turmas onde os colegas eram mais velhos que eu. Ou por no mundo profissional encontrar maior apoio em colegas com mais 10, 20 30 anos do que eu. Não sei.
Sinto-me a meio da vida. De uma vida que gosto de viver. Mas já velha. Velha demais para ter outro filho.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Memórias de mãe

Ver o Duarte, tão pequenino, com um projecto de vida totalmente novo pela frente, é triplamente comovente: pela sempre grata oportunidade de poder ver o belíssimo ponto de evolução em que o ser humano nos é apresentado e que medeia a fase da concepção e, oxalá, a dos últimos dias de uma velhice feliz; pelos afectos inerentes à minha condição de tia; pelas recordações que tenho como mãe.
O Duarte é muito pequenino, com uma fragilidade impressionante. Não me lembro de ver assim os Manelinhos, embora os números indiquem que eram mais pequenos ainda, em peso e comprimento. Lembro-me, porém, de outras coisas. Lembro-me de que ...
... os vocalizos do Nuno bebé mais pareciam tentativas de canto e que acalmavam o Tomás que parecia gostar muito de ouvir o irmão;
... eram muito sorridentes e simpáticos. Até hoje não conheci outro bebé assim.
... antes de saberem falar já reconheciam o caminho para a nossa casa e para a dos avós. No caminho que mediava a creche e as duas casas havia uma encruzilhada. O caminho da esquerda levava-os aos pais, o da direita aos avós. Nesse momento, os Manelinhos eram todos eles expectativa e, invariavelmente, desfaziam-se em lágrimas assim que o carro tomava a estrada da esquerda;
... nunca esconderam o ar de desapontamento quando era eu que os ia buscar à escola. Tinham sempre a esperança de ir com a vovó. Ainda hoje;
... o Nuno começou a falar primeiro que o Tomás; nos dois primeiros anos, serviu-me de tradutor. «Nuno, ajuda a mamã... o que é que o Tomás está a dizer?» O Tomás repetia ao irmão o que me acabara de dizer e o Nuno, tirando a chucha da boca, traduzia, olhando-me como quem acha aburdo que eu não comprenda o discurso, claro como água, do seu irmão. «É isso, Tomás, o que o mano acabou de dizer?». «Xim»;
... o Tomás aprendeu a ler primeiro que o Nuno, com 5 anos. O Nuno chamava por ele, para que lhe lesse alguma palavra em que estivesse particularmente interessado ou quando achava que eu o estava a enganar. A autoridade era o Tomás a quem cabia confirmar, ou não, o que dizia a mamã. Ainda hoje, no que diz respeito a computadores e a filmes;
... uma das primeiras palavras que aprenderam a dizer foi «Batita-Batos». É que cresceram com a minha tese de mestrado. Não havia hipótese;
... me chamavam de «mamã Denise» (como se tivessem outra...);
... até aos 4 anos não queriam outra história que não a da Branca de Neve;
... tinham uma fixação pelo movimento circular da máquina de lavar a roupa. Pegavam nas cadeirinhas de palha e sentavam-se, de mão dada, a olhar para o tambor a rodar. Quando o programa chegava à centrifugação era a excitação total;
... também gostavam de pegar num garrafão de cinco litros e, com os rabos de fraldas bem assentes no chão, agitavam-no e deliciavam-se a ver as bolhinhas que se formavam na água. Até ao dia em que o garrafão se rebentou e me inundou a cozinha;
... para eles, a Bolacha Maria era «Bolacha Ave Maria»;
... sempre preferiram fruta e iogurte aos doces e porcarias afins;
... não conseguiam sair do quarto sem arrumar todos os briquedos e colocar os chinelinhos bem alinhados, à maneira que eles lá entendiam que era suposto ser. Desesperante, quando estava com pressa.
... o Tomás, quando se zangava, achava que me insultava chamando-me de indiana;
... o Tomás até há bem pouco tempo dizia que quando fosse grande iria ser gay e que, nos entretantos, aproveitava para namorar com meninas. Já lhe conheci mais de 8 namoradas;
... o Nuno teve apenas uma namorada que o trocou pelo Tomás. Hoje em dia diz que tem muito tempo e que está à espera de conhecer uma moça especial, mais bonita e mais simpática que todas as que conheceu.

Outras coisas haveria a acrescentar. Fá-lo-ei, à medida que me for lembrando.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Homossexualidade 3

Ora, e ainda sobre o assunto, as investidas mais ferozes à minha paciência provieram das diversas doutrinas religiosas que continuam a condenar a homossexualidade.
Aceito que pessoas ignorantes, acríticas e de horizontes limitados, comandadas pelo peso de uma cultura que lhe foi imposta, ousem exprimir os seus pensamentos homofóbicos . Incomoda, mas aceito. Fico com pena de tamanha tacanhez.
Não aceito, porém, que pessoas instruídas, com responsabilidades morais acrescidas, e supostamente iluminadas com as sucessivas leituras de textos doutrinários, considerem a homossexualidade como um pecado. Parte de mim procura justificar tamanha absurdidade com o facto de que as religiões não são mais do que interpretações dos sinais que consideramos divinos e que, como tal, absolutamente falíveis. Mas a outra parte, que se impõe, não aceita falhas graves que condicionam o pensamento e atitude de massas inteiras. Sobretudo quando o Amor é um conceito indissociável do conceito de Deus.
Uma viagem pela internet levou-me ao Armário X, mais concretamente à página intitulada «As Religiões e a Homossexualidade». Como é óbvio, não resisti a clicar no que ao Espiritismo diz respeito. Parece-me um trabalho sólido e credível e que toca num ponto que considero essencial. A diversidade de opiniões sobre o assunto no seio da Doutrina comprova que, efectivamente, tudo depende da interpretação humana - realidade que se acentua no Espiritismo por não se estruturar em hierarquias tão cómodas nas outras doutrinas religiosas.
Estava a preparar um comentário mais demorado sobre esta questão quando encontro o blogue Garoto Espírita. Em cinco pequenos posts datados de Dezembro de 2006 sobre Espiritismo e Homossexualidade, tirou-me as palavras da boca. O Rafael entretanto cresceu e criou um novo blogue: Ponto Zero. A visitar.

Homossexualidade 2

Tinha eu o assunto arrumado na cabeça e sobre ele não tinha o hábito de pensar muito, até que o Felizes Juntos mudou este meu não hábito.
Verdade seja dita, o Paulo havia já contribuído para a coisa, graças ao tema de investigação para a sua tese de mestrado. Nunca, até então, atentara ao homoerotismo na literatura; nem ao hetero, a bem dizer. Sabia, apenas, que o erotismo, sem prefixos, é terreno fértil no universo literário e, claro, artístico em geral.
Depois, com o Felizes Juntos, descobri
1º, a homossexualidade do Paulo. Por acaso achava estranho um moço tão jeitoso não ter namorada. E afinal, é como se diz por aí, os gajos bons ou são casados, ou são padres ou são gays;
2º, um universo de blogues gays muito rico e interessante;
3º, da existência desse universo na blogosfera, uma necessidade de afirmação que compreendo como resultado de séculos de repressão.
Sobre a homossexualidade, na primeira pessoa, um texto de leitura obrigatória, de que cito o 1º parágrafo:
O mundo caiu-me aos pés quando reconheci a minha homossexualidade. Era, então, a pior coisa que me podia acontecer. Todavia, depressa aprendi a amar seres, simultaneamente, iguais e diferentes. Assumir a sexualidade, positivamente, é crucial para avançarmos no nosso conhecimento. Mas não deixa de ser complicado: intrometem-se imagens sociais, preconceitos, punições... E pior que essa censura cultural é a autocensura que nos impede de agir e gritar somos diferentes! Ela é, talvez, o maior impedimento para a nossa evolução individual e colectiva. Temos receio de chocar, preferindo o silêncio. Mas o silêncio acarreta complexos, desenquadramentos, problemas emocionais.
O texto integral, aqui.

Homossexualidade 1

Teria uns 12 ou 13 anos quando me apercebi que era possível a união de pessoas do mesmo sexo. Lembro-me perfeitamente que esse conhecimento operou, em mim, um sentimento absolutamente neutro, sem qualquer tipo de euforia ou de condenação como mais tarde descobriria noutras pessoas. Constatei tamanha possibilidade e ponto final.
Pouco tempo depois, passei por um período, felizmente breve, em que confundi maricas e homossexuais. Quando, por fim, compreendi a distinção entre duas formas de ser que nada têm a ver uma com a outra, formulei a minha teoriazinha sobre o assunto, não estivesse eu na em plena adolescência. Ora, para os meus 16 anos, o ser humano não seria nem homossexual nem heterossexual, mas antes bissexual. O que determinaria as suas relações seria a afinidade espiritual com o(s) outro(s); por outras palavras, a chave estaria no amor. Uma teoria bonita, erguida pelos parâmetros da minha própria experiência. Apaixonada pelo C., pensava eu que se ele fosse mulher, então eu seria homossexual, pois o meu amor por ele ultrapassava a dimensão corpórea da condição humana. Uma teoria bonita, pois, não fosse o facto de ter constatado que a dimensão corpórea faz parte da condição humana e que não pode ser ignorada. O convívio com os outros mostrou-me que amor e sexo podem ser (como o são muitas vezes) dissociáveis e que, assim, existem os heterossexuais, os homossexuais, os bissexuais e, até, os assexuais.
As coisas ficaram assim arrumadas na minha cabeça e sobre o assunto não voltei a pensar, excepto quando importunada por reacções homofóbicas de infelizes que se cruzam na minha vida, decerto para testar a minha paciência. Um teste a que estou sempre a reprovar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Duarte


Algumas horas depois do seu nascimento

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O meu mapa astral

Estive a ver, aqui, o mapa astral do Duarte. Balança com ascendente em Caranguejo. Espreitei os dos Manelinhos. Com pequeníssimas diferenças, são ambos Virgem com ascendente em Leão. E, obviamente, não resisti a revisitar o meu. Os rabiscos não me dizem grande coisa, mas é um mapa bonito, não é?


Nasceu!

Esta madrugada, à meia-noite e meia, nasceu, finalmente, o Duarte. Pequenino, com 47 cm e 2,445 kg.
Das duas fotografias que recebi deu para ver que é um bebé muito bonito. O Nuno contou, ainda, que a benjamim se portou muito bem, apesar das pequenas complicações que foram surgindo pelo meio.
Os avós babados e a mana do meio já seguiram para a capital. Eu e os Manelinhos esperaremos até Sábado para nos juntarmos ao resto da família. Até lá, vou consolidando a preparação dos meninos para a partilha da vovó com o priminho que acabou de nascer.
Bem-vindo ao mundo, Duarte!

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Agustina...

... está de parabéns pelo seu 85º aniversário.
O meu primeiro contacto com ela foi através d' A Sibila que aos 16 anos detestei. Julgo que por ser uma leitura escolar obrigatória (e já se sabe que tudo o que é obrigatório enjoa) e, ainda, porque a professora da disciplina vergonhosamente assumiu, logo no início, que não gostava do livro (um deslize infeliz de quem pode marcar a diferença). Arquivei, então, a Agustina na prateleira da letra B, ao lado do Bocage.
O primeiro ano na faculdade reservava-me porém uma surpresa deslumbrante. Com o programa em torno da ficcionalização da História, a professora de Cultura Portuguesa, Ana Maria Ramalhete, apresentou-nos as Adivinhas de Pedro e Inês. Só então vislumbrei o requinte da ironia, o domínio da língua, o alcance da retórica de Agustina. Seguiram-se os romances mais próximos: Fanny Owen, Um Bicho da Terra, A Monja de Lisboa e A Corte do Norte. Ao reler A Sibila com outros olhos, amaldiçoei a minha verdura intelectual do ano anterior.
No 3º ano, o estudo do romantismo literário português com Maria Fernanda de Abreu aguçou-me as potencialidades hermenêuticas. Regressei a Agustina com redobrado apetite e peguei no Vale Abraão.
De então para cá, revisito-lhe os contos e algumas crónicas, com a esperança de reencontrar alguma tranquilidade na vida para retomar o fôlego que requerem os seus romances.
Agustina veio para ficar. A letra B preenche três prateleiras, mas há uma folga que a distancia da letra C, o lugar guardado para os livros que ainda não conseguimos comprar.

Actualidade: Guerra Junqueiro

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Guerra Junqueiro, Pátria

Ideia de difusão retirada daqui.
Ideia de postagem original aqui.

domingo, 14 de outubro de 2007

Domingo bom

Um dia de sol magnífico.
As bicicletas sairam da garagem e eu e o Nuninho desenferrujámos as pernas logo pela manhã.
Um almoço tranquilo em família.
Uma visita à Fnac, para tocar, cheirar e espreitar os livros que não consigo comprar.
Passagem pela praia ao entardecer com um pôr-do-sol magnífico a esconder-se lá para as bandas de Lagos.
A oportunidade de estar um pouco com a mãe e o pai e a mana do meio que me ofereceu um conjunto de maquilhagem levinha levinha como eu gosto.
O divertimento em ler o que os Manelinhos foram adiantando quanto ao Natal. O Tomás quer «dez tissarte de Portogal», o Nuno prefere «uma plei es teixon».
Vou-me enfiar debaixo dos lençóis com o C. e aproveitar o resto deste Domingo tão bom!

sábado, 13 de outubro de 2007

Red Bull

Recebi este alerta por e-mail e não sei se é verdade. Cheira-me, antes, a tentativa de boicote à Red Bull. Mas se fôr verdade, estou tramada, pois usei e abusei durante a licenciatura, quando fazia directas para estudar Linguística, o meu então calcanhar de Aquiles. A verdade verdadeira, porém, é que nunca senti efeito nenhum e nas minhas directas de hoje prefiro o chazinho que a mãe me trouxe de Goa. Uma pedra!
A RED BULL foi criada para estimular o cérebro de pessoas submetidas a um grande esforço físico e em "coma de stress". Nunca para ser consumida como uma bebida inocente ou refrescante, a RED BULL é uma Bebida energizante, comercializada a nível mundial com o slogan:"Aumenta a resistência física, agiliza a capacidade de concentração e a velocidade de reacção, dá mais energia e melhora o estado de ânimo". Tudo isso pode ser encontado numa lata de RED BULL, "a bebida energética do milénio!"A RED BULL conseguiu chegar a quase 130 países de todo o mundo com uma facturação anual acima de 21 bilhões de euros na venda de 3 bilhões de latas. Os jovens e o desporto foram os símbolos eleitos pela marca para caracterizar a sua imagem, dois segmentos atractivos que foram cativados pelo estímulo causado pela bebida.Foi criada por Dietrich Mateschitz, um empresário de origem austríaca, que a descobriu por acaso, durante uma viagem de negócios a Hong Kong , quando trabalhava para uma empresa fabricante de escovas de dentes.
Uma lata de 250 ml, contém 20 gramas de açúcar, 1000 mg de taurina, 600 mg de glucuronolactona, 80 mg de cafeína e vitaminas do complexo B.
A França e a Dinamarca acabam de proibi-la por ser um cocktail da morte, devido aos seus componentes de vitaminas misturadas com "GLUCURONOLACTONE", química altamente perigosa, que foi desenvolvida pelo Depto de Defesa dos USA, durante os anos 60 para estimular o moral das tropas americanas no Vietnam. Os seus efeitos eram como se fossem o de uma droga alucinógenea, que acalmava o stress da guerra. Entretanto os seus efeitos no organismo dos soldados foram devastadores - alto índice de casos de enxaquecas, tumores cerebrais e doenças do fígado.
Apesar de tudo, na lata de RED BULL ainda se lê entre os seus componentes: GLUCURONOLACTONE, catalogado medicamente como um estimulante.
Mas o que a lata de RED BULL não diz são as consequências do seu consumo, que obriga a colocar uma série de ADVERTÊNCIAS:
É perigoso tomá-la se, em seguida, não se fizer exercíco físico, já que a sua função energizante acelera o ritmo cardíaco e pode provocar um enfarte fulminante.
O risco de se sofrer uma hemorragia cerebral, porque o RED BULL contém componentes que diluem o sangue para que seja mais fácil ao coração bombear o sangue e assim se poder fazer esforço físico com menos esgotamento.
É proibido misturar RED BULL com álcool, porque a mistura transforma a bebida numa "Bomba Mortal" que ataca directamente o fígado, levando a zona afectada a incapacidade de jamais se regenerar.
Um dos componentes principais do RED BULL é a vitamina B12, utilizada em medicina para recuperar pacientes que se encontram em coma etílico; daí o estado de excitação em que se fica após tomá-lo. É como se estívessemos em estado de embriaguez.
O consumo regular de Red Bull provoca uma série de doenças nervosas e neurológicas irreversíveis.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Parabéns, N.

É o marido da benjamim e, assim, meu cunhado. É um fixolas divertido e bem-disposto. É da Guarda, caçou a minha mana na Covilhã e foram viver para Lisboa, onde ela conseguiu emprego como Engenheira Civil e onde ele conseguiu um quadro de escola numa EB1. São poucos os professores-homens que leccionam no 1º Ciclo e pouquíssimos os que realmente gostam do que fazem. Pois o N. adora trabalhar com os miúdos e está constantemente a actualizar os seus conhecimentos científicos e pedagógicos. É muito boa pessoa e casou-se com uma pessoa muito boa. Está a dias de conhecer o Duarte que na barriga da mãe já tem dado as suas preocupaçõezitas. Mas hoje o dia é dele e, por isso, parabéns, N.

I Congrès Luso-Espagnol d’Études Francophones

Com o tema «Discontinuités et Confluences des regards critiques dans les études francophones», decorreu na FCHS da UAlg entre os dias 10 e 12 de Outubro. Convidados de honra: Daniel-Henri Pageaux , que falou sobre comparatismo e francofonias; Alicia Yllera, com uma conferência intuitulada «Rabelais et L'Espagne, ou Rabelais chez les 'indalgos bourrachous marranisez'»; e Maria Alzira Seixo, que encerrou o Congresso com «Leçons de Proust. Comment lire les oeuvres dont on n'aime pas parler».
Ao longo deste três dias foram apresentadas, em sessões paralelas, 73 comunicações sobre Língua e Linguística, Literatura e Cultura Francesas/Francófonas, Didáctica do Francês Língua Estrangeira e Estudos Comparados.
Senti a falta da Gorete que também ali deveria estar para falar de Georges Bernanos...
A minha «séance parallèle» decorreu hoje à tarde e comigo na mesa estiveram Francisco Lafarga (Presidente da APFFUE) , Alfonso Saura (Universidade de Murcia) e Lénia Marques.
Deixo aqui o resumo da minha comunicação, dedicada a Olga Fonseca e Catherine Simonot, amigas e colegas da ESE.
Les poètes français dans la plume de António Ramos Rosa
Cette communication vise présenter la réception de la poésie française de la modernité au Portugal du 20ème siècle, à travers la production littéraire de António Ramos Rosa.
Référence singulière de la littérature portugaise contemporaine, Ramos Rosa se distingue dans ses innombrables travaux artistiques, théoriques et traductologiques. Attentif aux nouveautés philosophiques et littéraires dans le monde, cet auteur démontre une particulière affection pour la culture française sur laquelle il insiste en développer son métier de traducteur. Restreindrant au milieu littéraire, cette dévotion a permis la réception au Portugal de plusieurs textes d’Artaud, Breton, Eluard, Gide, Camus, Vigée, Tardieu, entre d’autres. Après la publication de quelques traductions dans des périodiques littéraires, Ramos Rosa présente au public lusophone la poésie de Paul Éluard dans une anthologie en 1963. Ce travail d’intermédiation lui rendrait, quelques années plus tard, le Prix de Traduction de la Fondaction d’ Hautvilliers pour le Dialogue des Cultures.
Avec l’exercice de traduction, Ramos Rosa a incorporé dans sa création poétique les voix des autres tout en édifiant un parcours singulier d’une voix singulière. Effectivement, la citation directe et les hommages explicites y sont recourrants et reconnaissables comme la contamination esthétique de quelques images ou stratégies rhétoriques. Néanmoins, les dialogues intertextuels n’indiquent aucune clôture du poète par ses modèles. Profitant des leçons du symbolisme et du surréalisme, Ramos Rosa en profite pour travailler la langue dans un procès de vidage dépuratif du langage pour présenter sa propre vision du monde.
Cette communication vise la présentation d’une réflexion sur l’impact de l’activité de traduction sur l’acte créatif ; la présence, explicite ou subtile, de quelques noms de la poésie française dans la poétique ramos-rosienne et, encore, les chemins d’individuation choisis par un auteur dont les œuvres viennent d’êtres présentées au public francophone depuis 1987, avec la traduction de Un astre : un poème.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Adeus, D. Ana

Estava adoentada. Uma operação que não correu como devia. A morte chegou, inesperada. O marido, como era de esperar, inconformado, consumido pela dor de ver partir a mulher amada ao lado de quem envelheceu.
A D. Ana foi a minha professora primária. Acompanhou-me o crescimento, esteve presente nas minhas núpcias e, por ser amiga da minha mãe, nunca esteve longe de mim. A D. Ana era uma senhora muito boa, de uma tranquilidade rara de se encontrar hoje em dia.
Lembro-me da minha primeira aula com ela. Entrei directamente para o 2º ano e não sabia o que era a tabuada. Ela lá me explicou e pediu-me que em casa fizesse a tabuada do 2. Só que se esqueceu de me dizer para parar no 2x10. Orgulhosa, no dia seguinte, mostrei-lhe o resultado do meu labor que chegara às centenas avançadas. Foi a primeira das muitas vezes que a vi levar as mãos à cabeça. Voltaria a repetir o gesto, continuadamente, nas aulas de Matemática (eu não percebia a filosofia dos problemas) e nas aulas de Religião e Moral. As minhas perguntas deixavam o padre muito nervoso e ela acabou por me pedir para evitar colocar tantas dúvidas.
Uma vez deu-me uma reguada. Fiquei tão ofendida que deixei de falar com ela durante dias, até que a minha mãe me obrigou a pedir desculpas, o que fiz, contrariada, claro está. Ora ela batia-me e eu é que pedia desculpas... Fui lá a casa e tudo acabou num belo lanche e revistas do Tio Patinhas à minha disposição. (Eu adorava a BD da Disney; mais tarde trocá-la-ia pela do Maurício).
Pois a D. Ana foi-se e deixa muitas saudades. O que me vale, pelo menos a mim, é saber que que a reverei, um dia, quando também eu partir.
Espero que o marido consiga recuperar minimamente da dor da despedida e que prossiga, recto, pelo tempo que lhe resta até ao dia do reencontro.

Pedro Severo

Também a 9 de Outubro faz anos o Pedro. É um ano mais novo que eu. Por isso, ontem fez 30 anos. Um homem.
Foi meu colega na Alliance Française em Lisboa, há uns bons dez anos. Estudava Direito na Universidade de Lisboa e era um dos rapazes mais cultos que conheci em toda a minha vida. Sempre gostei muito dele. Ficávamos horas a conversar na paragem do autocarro pela noite dentro, depois das aulas na Alliance. Eu deixava passar os 19 que seguiam para a Portela e ele ignorava os 17 que passavam. Às vezes, chovia a bom chover, e era um conversar que não acabava mais.
Para além de culto, o Pedro era muito meigo e sensível e com um sentido de humor muito refinado. Um encanto.
Há dez anos atrás amava a política; social-democrata assumido admirava o Adriano Moreira, o Mário Soares e o António Barreto; gostaria que fosse feito um filme d' O Senhor dos Anéis e de me compreender (segundo ele era o seu passatempo mais recente). Sobre isso dizia ele que conhecer-me seria mais ou menos como desmontar e voltar a montar um boneco da Lego. Nunca cheguei a compreender muito bem o alcance destas palavras...
Perdi-o da minha vida quando regressei ao Algarve, casei e tive filhos. Foi das coisas mais estúpidas que fiz, a de me ter permitido afastar dos meus amigos. Perdi-lhe o rasto. 10 anos depois até tenho vergonha de o procurar.
Ficam as saudades.
Muitas.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Parabéns, C.

O C. faz hoje 38 anos.
Conheci o C. quando tinha 14 anos. Impressionou-me logo: alto, magro, culto, inteligente. Precisamente o perfil de homem que me faz arregalar o olho. Mas como tinha 7 anos a mais em cima e era professor na escola de música que eu frequentava, releguei-o para o foro das fantasias próprias de quem é adolescente e está semi-enamorada. A vida é engraçada e o certo é que me pediu em namoro, eu aceitei e desde então estamos juntos.
Mentiria se dissesse que com ele a vida me foi correndo às mil maravilhas ou que formamos um casal perfeito e invejável. O certo, porém, é que me parece ter encontrado o homem talhado para mim, com todos os defeitos incluídos. Não há homens perfeitos, e só aceitamos e aturamos determinadas situações se assim o entendermos. O que contrabalança todo o lado complicadinho do C. é a grandeza que lhe encontro na alma. Só por isso, sinto que a minha vida ficou muito mais rica com tudo o eu vivi com ele, incluindo as ocorrências menos boas, que me fizeram estar atenta a certos pormenores da condição humana, que me enrijeceram a alma, que me calejaram o coração.
Poderia enumerar e comentar aquilo que me desgosta no C. De nada me serviria. Mais, a vida ensinou-me a não enumerar coisas feias, relegá-las para um cantinho da memória, perto do esquecimento. Atentarmos ao que nos faz feliz e reconhecê-lo é muito mais interessante e torna-nos muito mais felizes.
Ora, é verdade que o C. é uma pessoa complicada. Tão complicada que, por vezes, se torna difícil de aturar. Há quem elogie a minha santa paciência; há quem se lembre que os artista são, regra geral, complicadinhos. Mas o C. tem uns trunfos grandiosos que só não vê quem se deixa desanimar com o seu lado perverso.
O C. possui a rara capacidade de reconhecer os seus erros e de os verbalizar quando verdadeiramente arrependido. A bem dizer, acho que nunca conheci ninguém com tamanha capacidade. Eu mesma, embora reconheça alguns erros, envergonho-me e muitas vezes resisto à parte da admissão. Pois o C. reconhece, o que não significa que mude. Mas esse reconhecimento é, penso eu, um passo importante para a valorização do outro e para qualquer modificação interior.
O C. é também muito generoso no que diz respeito ao perdão. Pode não ter razão nenhuma, mas a partir do momento em que se sente ofendido tem dois caminhos: ou continua ofendido ou perdoa. O C. não é resistente ao perdão e quando perdoa, perdoa mesmo, sem vestígios alguns de ressentimento ou de rancor.
O C. é muito culto e muito inteligente e com ele tenho aprendido muita coisa. É um homem que lê muito e que, por isso mesmo, consegue tornar as suas conversas sempre tão interessantes, permitindo a partilha das leituras que eu ainda não consegui fazer. Bibliómano (e isto não é uma virtude) não resiste ao apelo das livrarias e dos alfarrabistas. Uma vez adquirido, o livro é seu e só seu.
O C. enriquece-me também espiritualmente. Com ele fui cultivando o gosto pela oração e pelo estudo teológico. Não se cansa de pensar, comigo, em voz alta, as passagens que nos vão parecendo incongruentes na Bíblia ou nos estudos teóricos de várias doutrinas religiosas.
Mais: o C. apoia-me quando decido ir à luta. O seu apoio foi determinante para que eu me decidisse a recusar a proposta imoral do TyrannoRector-Rex e me aventurasse numa dura mudança de vida profissional.
Quase nunca partilhamos a mesma opinião, seja em política (ele continua a achar que eu sou perigosamente extremista, de direita...), em religião, em arte, nas coisas práticas do quotidiano, nos assuntos do amor. Mas gosto de o ouvir filosofar em torno da defesa dos seus ideais.
O C. foi o único rapaz que se interessou por mim, que olhou para mim e que se apaixonou por mim. Que me fez acreditar que posso ser bonita aos olhos de alguém e suficientemente interessante para que alguém se decida a partilhar o corpo e a vida comigo.
O que sou hoje deve-se, e muito, ao C. Contas feitas, com ele vivi mais de metade da minha vida. Não sei se o futuro me permitirá continuar ao seu lado, mas reconheço que aprendi muito, muitíssimo, com ele. E, por isso, aqui fica o meu mais profundo agradecimento.
Parabéns, C.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Deslize

Encontrei no alfarrabista , por dois euros, Estas são as Letras de Mário Castrim, com ilustrações a preto e branco de José Miguel Ribeiro. Um livro sobre as letras do alfabeto português, datado de 1996. Achei piada aos caligramas para o A e para o S; os Manelinhos divertiram-se com o ritmo e o nonsense das letras B e T e, ainda, com o humor do Q, ; gostei, muito francamente, dos poemas feito a partir do O e do R. Mas houve um deslize, um deslize a preto e branco, de que não gostei nada. O texto referente à letra E é um diálogo entre pai e mãe sobre o futuro do filho de ambos, um problema resolvido pelo próprio filho. Atentando à ilustração, horrorizo-me com os dois primeiros desenhos. 1º: O pai chega a casa do trabalho. O que faz a mãe? Passa a ferro. 2º: Está a família sentada no sofá. O filho vê televisão, o pai lê o jornal. O que faz a mãe? Tricota.
Não tenho nada contra homens a chegar do trabalho e mulheres a passar a ferro ou a tricotar. Não tenho nada contra o José Miguel Ribeiro. Nada mesmo. Antes pelo contrário. Faz umas coisas muito giras, com muita pinta. Mas irritam-me sobremaneira os estereótipos que perigosamente vamos apresentando às nossas crianças.

domingo, 7 de outubro de 2007

Quando uma mulher consegue amar duas colheres de pau

Na verdade, embora não sejam propriamente maus alunos, os Manelinhos não são brilhantes, nem muito menos alunos aplicados. Constato-o todos os dias, quando fazem os trabalhos de casa, fora o que me vai dizendo a professora de ambos. Às vezes converso com eles sobre o assunto. O diálogo de hoje foi assim:
- Então, na escola, o que acham, vocês são bons alunos?
- Nem bons nem maus - diz o Nuno.
- Mas qual é o problema?
- A escola dá muito trabalho - diz o Tomás.
- Mas vocês não compreendem o que a professora explica?
- Sim, compreendemos, mas temos algumas dificuldades nos exercícios.
Sorrio, acho piada à palavra "dificuldades" saída da boca do Nuno.
- Que dificuldades? Têm dificuldades em Língua Portuguesa?
- Sim - diz o Tomás - eu tenho dificuldade em fazer a letra bonita.
- E eu dou muitos erros.
- E a ler?
- Não, a ler lemos os dois muito bem.
- E a Estudo do Meio?
- É fácil.
- E a Matemática?
- Nisso somos excelentes. Os melhores da turma. Somos os primeiros a acabar os exercícios e está sempre tudo muito bem.
Não saem nem ao pai nem à mãe, está visto.
- E há alguma disciplina onde estejam mesmo muito mal?
- A Expressão Plástica...
- Porquê? como sabem?
- Porque fica sempre tudo muito mal feito. Quando foi no Dia da Mãe, a professora viu os nossos trabalhos e pôs assim as mãos (o Tomás põe as mãos na cabeça) e disse assim muito alto: «Ai, moços danados, vocês vão matar a vossa mãe de desgosto!»
Sustenho a vontade de rir. E ainda bem, porque de imediato, D. Nuno, muito sério, olha-me nos olhos:
- A colher da Mariana ficou perfeitinha. Ficaste com um desgosto com aquela nossa prenda, mamã?
Levanto-me. Vou buscar as duas colheres de pau, com lã amarela a fazer de cabelo, uma cara sorridente pintada na parte convexa e uns camarões colocados no cabo, mas virados para a parte côncava.
- Estas são, meus filhos, as colheres de pau mais lindas que alguma vez alguém me ofereceu. Têm a cara pintada do lado oposto e a pintura borrada e são estas as colheres de pau que eu queria para mim. A vossa professora pode ter gostado da da Mariana, mas, para mim, as vossas estão perfeitas e jamais as trocaria por qualquer outra colher do mundo.
- Nem por uma de ouro?
- Nem de ouro, nem de prata, nem de marfim. Estas colheres bonitas fizeram os meus Manelinhos para mim.

Acho que fui convincente. Disse-mo o abraço apertado que se seguiu.

Em casa de ferreiro, espeto de pau

- D. Mamã, tem de vir à reunião da escola, preciso de falar consigo.
Foi assim que D. Nuno me abordou hoje de manhã. Estava a brincar à escola com o irmão. Ele, o professor, o Tomás, o aluno.
- Ora, Sr. Professor, diga lá o que se passa.
- O seu filho está com sérios problemas. Recebeu os recados que enviei para casa?
- Recados? Não, Sr. Professor.
- Então, olhe, tenho aqui uma cópia. Pode ler.
Abri o caderno com curiosidade. Estavam, lá, realmente uns recados, por baixo de exercícios saídos da imaginação dos meus Manelinhos.
1º Recado: «Dona Mamã, o Tomás não ouvio o professo»
2º «O Tomás continua a dar erro»
3º «tem mesmo asertesa qu ele passe de Ano? Passa ___; Não passa de Ano: ____»
4º «este é o trabalho de casa e este e a pocaria do seu quaderno»
5º «O Tomás não pasa di ano e ele não está atento e dá moitos erro.»
- Está a ver, minha senhora? O seu filho é um desgosto.
Suspirei. E lá o confrontei:
- Mas ó Sr. Professor, como quer que o meu filhinho não dê erros, se o senhor escreve com tantos erros?
O Nuno arregalou os olhos. Olhou para os recados. Uma segunda leitura é sempre uma segunda leitura. Mas o fedelho não desarmou. Com a mão na cintura, respondeu com prontidão:
- Minha senhora, o seu filho deixa-me tão nervoso, tão nervoso, que eu já nem sei o que faço! Por favor, leve-o e não volte nunca mais!
Guardei os recadinhos para a posteridade.
Ficou a lição também: com uma mãe professora de português.... Bem diz o ditado «Em casa de ferreiro..."

A preto e branco

Ontem passou na TV o filme Fado, História de uma Cantadeira de Perdigão Queiroga com Amália Rodrigues. Abanquei-me no sofá, com os meus Manelinhos, um de cada lado. Passaram-se os 10 primeiros minutos até que o benjamim lá verbalizou a interrogação que lhe ia na alma:
-Porque é que não há cores no filme?
- Porque é antigo, Tomasinho.
- Antigo?
- Sim, do tempo dos meus avós, vê lá tu!
Silêncio, novamente. Dois minutos. Depois, o benjamim desabafou:
-Coitados dos de antigamente. Já viste mamã?, era tudo cinzento. Os meninos na escola não podiam ter lápis de cor...

Regresso

Ir à praia com este tempo tem sempre os seus quês.
Mas chá, mel, limão e mimos, muitos mimos, deixaram-me melhor.

Estou de volta :)

sábado, 6 de outubro de 2007

Dói-dói

Estou com dores de garganta. Tantas tantas que não posso falar muito. A ver se bebo muito chá e regresso amanhã com mais energia...


Hora do chá (acrílico sobre tela)
14/11/2006

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

No Dia Mundial do Professor...

No Dia Mundial do Professor, "Ser professor em Portugal"

No Dia Mundial do Professor, "What Teachers Make" de Taylor Mali

"What Teachers Make, or
Objection Overruled, or
If things don't work out, you can always go to law school"


He says the problem with teachers is, "What's a kid going to learn
from someone who decided his best option in life was to become a teacher?"
He reminds the other dinner guests that it's true what they say about
teachers:
Those who can, do; those who can't, teach.

I decide to bite my tongue instead of his
and resist the temptation to remind the other dinner guests
that it's also true what they say about lawyers.

Because we're eating, after all, and this is polite company.

"I mean, you¹re a teacher, Taylor," he says.
"Be honest. What do you make?"

And I wish he hadn't done that
(asked me to be honest)
because, you see, I have a policy
about honesty and ass-kicking:
if you ask for it, I have to let you have it.

You want to know what I make?

I make kids work harder than they ever thought they could.
I can make a C+ feel like a Congressional medal of honor
and an A- feel like a slap in the face.
How dare you waste my time with anything less than your very best.

I make kids sit through 40 minutes of study hall
in absolute silence. No, you may not work in groups.
No, you may not ask a question.
Why won't I let you get a drink of water?
Because you're not thirsty, you're bored, that's why.

I make parents tremble in fear when I call home:
I hope I haven't called at a bad time,
I just wanted to talk to you about something Billy said today.
Billy said, "Leave the kid alone. I still cry sometimes, don't you?"
And it was the noblest act of courage I have ever seen.

I make parents see their children for who they are
and what they can be.

You want to know what I make?

I make kids wonder,
I make them question.
I make them criticize.
I make them apologize and mean it.
I make them write, write, write.
And then I make them read.
I make them spell definitely beautiful, definitely beautiful, definitely
beautiful
over and over and over again until they will never misspell
either one of those words again.
I make them show all their work in math.
And hide it on their final drafts in English.
I make them understand that if you got this (brains)
then you follow this (heart) and if someone ever tries to judge you
by what you make, you give them this (the finger).

Let me break it down for you, so you know what I say is true:
I make a goddamn difference! What about you?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Rabiscos divertidos

A Nath enviou-mos por e-mail. Partilhei-os com alguns amigos. O Paulo sugeriu que os colocasse aqui. Por que não? Enjoy!

video

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Eu e o meu stress

Saio da escola às 22h55m. A escola fica num local ermo, não há vivalma. Armação de Pêra não é uma vila propriamente populada quando o Verão se despede. Não consigo deixar o aluno sozinho, à espera do pai. Faço-lhe companhia. Ó stôra, vá-se embora, quistaqui é uma seca e tá frio. E eu deixava um rapaz tão bonito aqui sozinho ó David? Sorri, encolhe os ombros, procuramos afugentar o desconforto do frio com palavras. O pai tarda, mas chega. Meto-me no carro, acelero. Chego a Portimão meia hora mais tarde. Faço um desvio na rota habitual. Os Manelinhos dormem hoje com os avós, tenho de lhes levar a roupa do dia seguinte, mais as mochilas e o material para a escola. Senta-te filha, um pratinho de sopa. Não pai, já é tarde. E o sindicato? Novidades do sindicato? Ó pai, que é tarde. Sorvo uma tigela de sopa, pego no saco da roupa que os meninos sujaram na escola, rumo para casa. Estaciono o carro. Está um maldito de um cão ali fora. Não sei se é mau e por isso aguardo, não me vá morder. O raio do cão não desabelha. Saio do carro, com o saco da escola mais o saco da roupa mais um guarda-chuva para bater no cão se se atrever a atacar. Não ataca, rodo a chave, abro o portão, tranco o portão, abro a porta, tranco a porta, chego a casa. Já passa da meia-noite. C. está entusiasmado a compor um concerto para piano e orquestra. Pede-me para ouvir os primeiro compassos. Sentada. Sento-me, ouço, ouço-o, volto a pegar nos sacos, despejo a roupa no balde da roupa e sigo para o meu escritório. Releio atentamente as sugestões dos colegas do sindicato. Faço a lista dos documentos em falta, redijo uma declaração, procuro os comprovativos em como fui professora do ensino superior nos últimos três anos, separo a declaração do centro de emprego. Pormenores a propósito da minha candidatura a umas das bolsas da FCT. Está tudo. Antes de encerrar o computador não resisto a uma visita aos blogues de estimação. Espreito as visitas à Casa da Boa Vontade, tardo-me no Ana de Amesterdam e no Felizes Juntos. O sono vence-me. São duas da manhã. C. ressona. Tapo a cabeça com a almofada, conto carneiros, peço ajuda ao meu anjo da guarda. Desespero. Levanto-me, vou para a sala. São quase três horas. Está muito escuro, tenho medo, levanto-me, ligo a luz. Estou a adormecer, acho que adormeci, o despertador toca. Cinco horas. Arrasto-me até ao duche, semi-adormeço no duche, escolho umas calças e uma t-shirt, não umas calças e uma sweat, o soutiã está desajustado, componho as alças, desço à cozinha, ia tomar o pequeno-almoço mas já não há tempo, nunca tive jeito para as alças dos sutiãs. Subo, faço uma festa a C., desço, agarro numa maçã e saio disparada, ainda tenho de passar pelo multibanco e comprar o bilhete, para além de procurar um lugar jeitoso para o estacionamento. Safo-me à risca, como sempre. São 6h20m em ponto. O autocarro parte. Penso em repor o sono. Mas é difícil. Há uma criança no autocarro, muito desperta, com vontade de tagarelar. Sorrio, penso nos meus Manelinhos. Chego pedrada a Sete-Rios, com vinte minutos de atraso em relação ao horário previsto. Apresso-me, linha azul e depois a amarela para a FLUL. Uma fila dos diabos nos Académicos. É sempre assim, nos primeiros dias das matrículas. Compro o boletim de incrição e levo 14 bofetadas pelo seguro escolar. Levanto o impresso das propinas, saio da FLUL, vou à CGD, onde a fila é desesperante, levo 750 chicotadas pelas malditas propinas, regresso à FLUL, passo pela reprografia para ficar com uma cópia dos documentos, regresso à fila dos Académicos. Estou inscrita, mas preciso de uma declaração para entregar à FCT. Não é declaração, é um certificado de inscrição, mas tem de comprar o impresso, toma lá, mais 8 bofetadas. Vá lá beber um cafezinho e volte daqui a pouco. São 11h 40m, lembro-me que não tomei o pequeno almoço. O que vai ser menina? Uma meia de leite e um paõzinho de leite com fiambre. Ora aqui está menina. Sento-me numa das mesas verdes. Lembro-me da PMorão, do Paulo, da Inês, da Sofia, da Cláudia. Sinto saudades. Regresso aos Académicos. D. Arlete, veja lá se a sua colega... Ah, só um momento doutora (não gosto nada quando a D. Arlete me chama de doutora), só um momento doutora, ora aqui está, boa sorte para a bolsa. Corro, já passa do meio-dia. Linha amarela, linha verde, Caixodré. Mapa na mão, galgo a 24 de Julho. Porra, a D. Carlos I ainda é longe. Já não vale a pena apanhar bofetadas com um táxi, se fechar à hora d'almoço já fechou. Não fechou. São quase 13h, entrego os papéis, está tudo em ordem. C. telefona. É para ir buscar os meninos ou vão os teus pais? Não, vais tu e deixa-os com eles, almoçam por lá. Fiquei de ir ter com a minha mana, o Duarte está quase a nascer, ela está de baixa e sente-se sozinha. Como se vai da 24 de Julho para Odivelas? Caixodré, linha verde, Campo Grande, 201. Encontro a Raquel no metro. Apanhada em flagrante, então em Lisboa e não dizes nada?! Sabes lá, Rakelita, é uma corrida contra o tempo. Penso em todos a quem prometi visitar e ainda não visitei. Odivelas, 15h30m. Parece que temos de ir para o hospital. Não me trames a vida, cabra. O Duarte não se está a mexer muito, temos de ir só para ver se está tudo bem. Dá para meter uma sopa no estômago mais três colheradas de feijoada. Ajudo-a a fazer a mala, não vá ter de ficar por lá. A caminha de um dos meus meninos já está montada para o Duarte. Ainda lá estão as marcas dos dentinhos das pestes. A banheira também. Um rol de roupas que a cunhada da minha mana desencantou, outro tanto comprado em lojas várias. Chega o cunhadão e leva-nos para o hospital. Vejo o tempo a passar. Está lá a mãe, está lá o pai, o que raio está ali a tia a fazer? Falta uma hora para o autocarro das 18h30. Estou em Algés, apanho o comboio, depois o metro e consigo comprar o bilhete. Tenho 5 minutos, tenho fome e tenho de ir à casa-de-banho. Opto por esvaziar a bexiga e com sorte consigo comprar um saquinho de pipocas. O autocarro sai a horas. Não sinto as pernas não sinto os ombros não sinto o estômago. Mastigo as pipocas que não me sabem nada bem, colam-se-me aos dentes, fecho os olhos, tento dormir mas não consigo. O coração bomba. Maldito stress. Passamos a ponte sobre o Tejo, lembro-me de Entre-os-Rios, amargo. Estou um pouco enjoada, mas aguento a viagem, aproveito para pensar em coisas parvas a ver se me divirto comigo mesma. . O carro está no mesmo sítio, aviso a minha mãe de que estou a chegar e que quero levar os meninos para casa. São 21h30m. Come uma sopinha, minha filha. Não pai, estou com pressa, quero ir para casa... trago a sopa em dois goles, sabe-me bem, peço-lhe que me pague as 750 chicotadas das propinas, ele paga. O Tomás voltou a ter bolinha amarela no comportamento, furou a garrafa de água em vez de estar com atenção ao que dizia a professora, o Nuno já sabe os meses do ano mas o Tomás não sabe porque fez birra e a vovó disse que o problema ia ser dele com a professora. Por que te portas mal Tomás? Porque quero, eu gosto de ser mau. Eu não sou mau, pois não mamã?, tive bolinhas verdes a tudo. Que bom, Nuninho. São 22h00m, amanhã têm de acordar às 7h, vamos lá, não andem descalços para não se constiparem... Posso ser eu a lavar os dentes primeiro? Não, eu! Quem foi o primeiro da última vez? Eu! Não, eu! Ó mamã, o Tomás está a fazer um dedo feio para mim. Chegamos a casa. C. continua a compor. Beijnhos dados, sobem para o quarto, não sem antes de lavarem os dentes. Não quero lavar os dentes. Ó Tomás, não sejas porco, vai lá lavar os dentes. Ai, esqueci de fazer a cama do Nuno, podes dormir com o Tomás? Ele não dorme na minha cama. Não sejas egoísta, Tomás, a cama do Nuno está por fazer porque dormiste lá e fizeste chichi nos lençóis. Por que estás a chorar Nuno? Porque tenho saudades da minha cama. Vamos lá fazer a cama, então. Por que está a chorar ainda, Nuno? Porque tenho pena de ti, coitada, tão cansada a fazeres a minha cama. Não faz mal, quando eu for velhinha tu fazes a minha. Por que choras ainda Nuno? Não quero que tu fiques velhinha. Ai, Nuno, se eu ficar velhinha é bom sinal é sinal que não morro nova. Não quero que morras. Quanto a isso não há nada a fazer. O corpo tem de morrer. Eu depois fico à tua espera, combinado? E tu manténs-me viva na tua memória, falas de mim aos teus filhos e aos teus netos, ok? Vá, agora pede ao teu anjo-da-guarda para ficar contigo até adormeceres, que eu estou rebentada e tu, Tomás, pensa bem se queres continuar a ser mau, que és tão lindo, não sei para quê quereres ser mau, pede lá ao teu anjo-da-guarda para te iluminar essa cabeça. É a minha hora, a hora do duche, ao som de Smetana que C. está a ouvir enquanto compõe. A cama chama-me, mas o vício do blogue é terrível. Vejo as novidades do Paulo. A Tia Adoptada deixou-me um mail, sei que correu tudo bem com a sua comunicação. Tenho saudades dela. Sei que o Duarte também está bem. O puto tem sentido de humor, está-se a ver. C. já foi para a cama. Espero que não esteja com ideias, que hoje leva um não redondo. Acho que vou fazer tempo, escuso de lhe atirar com o não, que levo logo com o blogue de volta, e com razão.
Da próxima vez que for a Lisboa, é para falar com a minha orientadora e meter-me na biblioteca, noutra corrida contra o tempo, e sentir remorsos por não poder, uma vez mais, cumprir as promessas das visitas. Para já, tenho de dormir, amanhã acordo às 10 prás 7.
É a vida :)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Lições de vida

A decisão de emigrar não é fácil. Ir para longe do país onde nascemos, onde crescemos, onde construímos a nossa identidade; ir para longe dos amigos, dos familiares, dos que nos são queridos; ir para longe do mundo que conhecemos. Mais difícil: emigrar para um país completamente estranho, com hábitos completamente estranhos, onde se fala uma língua completamente estranha e recomeçar, com esperança, força e optimismo.
As aulas de Português para Estrangeiros não me deixam esquecer do quão terá sido difícil para os meus pais deixarem Lourenço Marques e a Ilha de Moçambique, ou para os meus avós, que atravessaram o Índico de Goa até Moçambique, ou para os meu tetra-tetra-tetra avós, que terão saído de Itália para a terra cujo caminho marítimo foi descoberto pelo Gama. Na história da minha família há uma veia andarilha que não sinto pulsar em mim. Gosto de Portugal, apesar de todos os quês, e não me apetecia nada ter de cumprir a tradição legada pelas gerações que me antecederam. Só de pensar dói.
Por isso, admiro a coragem de quem sai do país que ama para recomeçar a vida noutro canto do mundo. São pessoas com muita força, que se recusam a aceitar as contrariedades da vida. Com essas pessoas me cruzo diariamente. Na rua, no café, na escola.
Nas aulas de Português para Estrangeiros há dois tipos de estrangeiros que querem aprender português: os que vêm viver a reforma que nesta praia lusitana solarenga lhes parece um pouco mais choruda e os que se viram obrigados a fugir da guerra ou da inflação, da fome, da desgraça; os que têm de aprender novos ofícios e calar apesar de saberem muito mais do que os mandam calar; os que arregaçam as mangas porque querem sobreviver.
Este ano, nas minhas aulas de Português para Estrangeiros, a Alyna, mestre em Matemática e antes docente no ensino superior, limpa quartos num empreendimento turístico; a Ana, que é contabilista, é empregada de limpeza em casas de famílias; o Volodymyr, mestre em Física e anteriormente docente do ensino superior, é motorista de pesados; a Victoria, enfermeira de obstetrícia, é empregada de mesa; a Olena, professora de Inglês, está desempregada.
Alguns, coitados, vivem na ilusão que nós, portugueses, somos muito boa gente...
E eu, quando me falam da vida deles, do antes e do agora, sem que a voz se lhes amargue ou se torne num fio de queixume, sinto-me ruborizar, num rubor que as indianas de pele castanha tão bem sabem esconder...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Feliz Dia Mundial da Música!

Hayley Westenra -Bachiana Brasileira No. 5, Aria (Cantilena) - Villa-Lobos

Feliz Dia Mundial da Música

(«Lascia ch'io pianga». Rinaldo. G. F. Händel. Por Hayley Westenra)

Feliz Dia mundial da Música!

Bachiana Brasileira Nº 2 de Villa - Lobos.

O Algarve em «Miss Beijo» de Lídia Jorge - as epígrafes

Outrora não havia o ruído das estradas, os céus só de muito longe a longe eram riscados pelas rotas dos aviões, e as partidas eram feitas em grandes navios, com lenços brancos a acenar e longos mugidos que amarravam para sempre os corações amantes às pedras dos cais. Os soutiens das mulheres eram agudos como se fossem funis, e os sapatos dos homens rangiam à medida das suas passadas como se fossem de tábua. A música que se escutava era ainda predominantemente executada em presença, os lábios e os dedos próximos, a vibrarem contra os instrumentos, objectos então familiares nas nossas vidas. Hotel era ainda uma realidade mágica que só tinha consistência nos filmes americanos, e o telefone, um objecto de luxo que distinguia os senhores das vilas. Transpor distâncias geográficas, breves que fossem, era ainda uma tarefa assinalável.
Lídia Jorge

A nossa civilização é como um ser humano a caminhar na proximidade dum precipício.
Guy Coq

O Algarve em «Miss Beijo» de Lídia Jorge

Missão cumprida!
Espantada a preguiça, peguei num trabalho que fizera para o Seminário de Ensino da Literatura, revirei-o, melhorei-o, adaptei-o. Cortei umas ideias. Acrescentei-lhe outras. Nove páginas, que não me parecem muito vergonhosas. A apresentar no 13º Congresso do Algarve, organizado pelo Racal-Clube.
Resumindo:
Quais as consequências do turismo desenfreado e do impacto nas gentes locais? Como é vista essa realidade na literatura e qual o seu contributo para o progresso da sociedade? Procurarei reflectir sobre estas questões a partir da leitura de um conto de Lídia Jorge.