domingo, 25 de novembro de 2007

Joana Amendoeira

Fado e Orquestra

É sempre interessante assistir ao resultado de novas experiências no campo da música. Ontem, em Portimão, estiveram juntos no palco a fadista Joana Amendoeira e a Orquestra do Algarve sob a direcção de Osvaldo Ferreira.
Apesar do timbre quente e da presença em palco, a cantora não me convenceu. Uma fadista em potência, mas muito verde ainda. Posso estar enganada, é verdade. O som não ajudou: os microfones tornaram a voz e as guitarras gritantes e apagaram completamente a orquestra. A OA está cada vez melhor. Gosto do maestro. Sério, sóbrio, competente. Gosto dos músicos, gente bonita que por lá anda: as violoncelistas Kalina Krusteva e Olga Manescu, os contrabaixistas Jean-Christian Houde e Maja Plüddemann, a flautista Stefania Bernardi, o clarinetista Fausto Corneo, o fagotista Eduardo Sirtori, o trompetista Scott Natzke.
Sinto-me orgulhosa por ter uma orquestra assim na minha região.

Intervalo

Digiro a brutal quantidade de informação que hoje me choveu em cima.
Regresso para breve...

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A Maior Flor do Mundo


Reli A Maior Flor do Mundo, para compreender a opinião da Tia Adoptada. Encontrei três pormenores. A haver mais, Tia, por favor, elucida-nos.

1º pormenor: As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas. - o narrador infantiliza a criança logo no incipit do conto, relegando-a para um estatuto menor.
Ressalva - o narrador procura enaltecer a simplicidade das coisas através de um subtil registo irónico. Na segunda frase, Quem me dera saber escrever essas histórias, mas nunca fui capaz de aprender, e tenho pena., estará o narrador a confirmar o quão difícil é redigir um texto simples e aparentemente fácil? Estará ele a valorizar a escrita para a infância? Na página seguinte, o efeito irónico obtido através da preterição leva-me a acreditar que sim: Se eu tivesse aquelas qualidade todas, poderia contar, com pormenores, uma linda história que um dia inventei, mas que assim como a vão ler, é apenas o resumo de uma história, que em duas palavras se diz...

2º pormenor: Na história que eu quis escrever, mas não escrevi, havia uma aldeia (...). Não se temam, porém, aqueles que fora das cidades não concebem histórias nem sequer infantis. - depois da marginalização da criança, estaremos perante uma marginalização dos que não habitam na urbe?

3º pormenor: moral explícita (E essa é a moral da história.) a limitar o exercício hermenêutico do leitor.
Ressalva: Será uma moral tão explícita assim, tendo em conta a linguagem figurada com que se apresenta?

Neste conto gosto da ironia obtida pelas intrusões do narrador e pelo registo metaficcional. Gosto, também, da linguagem poética, que acaba por comprovar a seriedade com que se deve ter em conta a criança.

La gaffe du jour

Resposta numa ficha de avaliação formativa (Ensino Recorrente, unidade 10):

Este enxerto é retirado dos Lusíadas e chama-se porposição onde ele se porpõe a cantar os feitos dos portugueses, mas na minha opinião aquilo era tudo uma lavagem cerebral e eu acho que em vez de porposição este enxerto se devia chamar de Órgulho Tuga.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O Orgulho Hetero da Tagus

Deixei passar dois metros de embasbacada que fiquei quando na estação esbarro com a campanha Orgulho Hetero da Tagus.
Fiquei sem saber o que pensar e como interpretar o slogan. Homofóbico? Descartei essa hipótese. Poderei estar errada, porque tenho problemas sérios em enxergar o que me passa à frente do nariz, mas penso que a homofobia é actualmente defendida por vozes singulares, não por empresas. Em Portugal, uma empresa que ligue o seu nome a uma campanha homofóbica, ou racista, ou fascista estará a celebrar a sua falência. Hoje em dia, a homofobia existe, mas com cautela. Tem-se vergonha de se assumir homofóbico publicamente.
Por pensar assim, descartei a hipótese primeira que me assaltou o pensamento hermenêutico.
Recapitulando, cogitei acerca da possibilidade do recurso à paródia, ao registo irónico, sem propósitos anti-gays. Na verdade, a vontade de afirmação homossexual e as suas campanhas de orgulho gay sempre se me afiguraram um pouco estranhas. Não muito estranhas por considerar que resultam de uma tentativa de combate à discriminação e de apelo à assumpção de uma orientação sexual cuja marginalização não faz sentido. Não muito estranhas, mas um pouco estranhas. Este raciocínio afigurou-se-me, contudo, patético. Qual o objectivo de tamanha paródia ali?
Não sei o que pensar nem sei como interpretar a campanha. Só sei que não terá sido uma campanha muito feliz. Dizem-no, por exemplo, o Paulo , o Tiago, o boss e as Panteras Rosa.

Lisboa

Regresso a Lisboa. A capital faz-me sempre muito bem.
Regresso aos corredores da FLUL, onde tive o privilégio de estudar professoras excepcionais e de ter como companheiros de estudo amigos divertidos e muito inteligentes com quem muito aprendi.
Regresso ao entusiasmo pelo doutoramento em curso, às estantes das bibliotecas. Tenho uma orientadora magnífica que me faz acreditar em mim.
Revisito a FCSH, casa-mãe, onde ganhei o gosto pela investigação literária, onde fiz amizades inolvidáveis, onde secretamente me apaixonei por um professor.
Gosto de Lisboa, pelas memórias e pela poesia que ali respiro.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Enxuta

A vida continua. O Rabiscos e Garatujas também.
Obrigada a: Tia Adoptada, Paulo, Rosário, mãe, mana do meio e Manelinhos.

Acaia

Aqui [dispo] meu vestido de exílio
E [sacudo] de meus passos a poeira do desencontro

Sophia, «Mediterrâeno», Geografia
(com alteração do pretérito perfeito para o presente do indicativo)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Palavras retrato

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas,
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

Montanha russa

Depois de uma noite mal dormida acordo revigorada, mais forte, com a certeza de saber enfrentar o que por aí vem, como sempre soube fazer.
A manhã esbate-se, a força fraqueja, as ideias atropelam-se, toldam-se-me as memórias. Reergo o espírito, peço vigor redobrado ao Alto, concentro-me em pensamentos edificantes.
Conduzo, engano o pensamento, vence-me, enevoam-se-me os olhos, sustenho a respiração, nem uma única lágrima se verterá. É um exercício que faço amiúde, com êxito, de há largos anos para cá.
Revigoro a confiança, olho para o futuro que quero construir. Sinto-me perdida, segura-me um passado que durou metade da minha existência. Regresso à prece, mas sem grande convicção. Enxoto o miserabilismo, a autocomiseração, tento verter em discurso a confusão que me vai na alma. Fraquejo. Retorno ao choque do dia anterior.
O que se faz, como se faz, quando o nosso amor já não é correspondido?

domingo, 18 de novembro de 2007

Hoje ...

tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer tou pra morrer

Ana Paula Moreira - 2

instante
passagem
silêncio ou apenas o rumor do instinto


Ora, para além da competência profissional, a Ana Paula revela-se como artista. Podemos conhecer parte do seu trabalho no seu blogue que voltou a estar de portas abertas ao público.
A sua poesia é uma poesia de afectos, com uma linguagem depurada e aforismos originais. As linhas das pinturas afiguram-se-me todas elas femininas e maternais. Mesmo as de traço minimalista. Quero livrar-me do C., ter uma casa só minha e torná-la mais bonita com os quadros que quero comprar.
Fica aqui uma brevíssima selecção feita por mim e pelos Manelinhos. E o convite para uma passagem, mais demorada, no blogue da Ana Paula Moreira.


A minha escolha: Doucement

A escolha do Nuno: Estudo sobre a Primavera

A escolha do Tomás: Silêncio Azul

Ana Paula Moreira - 1

Já queria ter escrito este texto há mais tempo. Mas antes tarde que nunca. Esta dedicatória deixou-me embavecida. Arregaço as mãos. O propósito concretiza-se hoje. Aqui está ele.
Conheci a Ana, ou Paula, ou Ana Paula na tal escola governada pelo tal TyrannoRector-Rex e pela tal Fada Má. Cruzávamo-nos nos corredores e eu, nova por ali, balbuciava um tímido «Boa tarde, como está?». Impressionava-me pela boa disposição, pela desenvoltura, pela beleza. Anos mais tarde, a vinda da grande Célia (também quero escrever sobre ela) revolucionou o meu mundo de relações e ampliei o meu grupo de amigos. No Anti-stress team, lá estava a Ana Paula, divertida e maluca como a nunca tinha visto. E passei a tratá-la por tu. Vistas bem as coisas, é uma moça nova, com 6 anos a mais do que eu.
A Ana Paula acreditou em mim. deu-me razões e deu-me raspanetes. fez-me crescer.
Deixou-me ler a sua tese, com um título todo pomposo sobre odor e discursividade do sujeito. Fiquei muito impressionada com a qualidade e cheia de vontade em pegar no trabalho e citá-lo num ensaio que ainda quero redigir. Com ela organizei colóquios, corrigi textos de alunos para inserir num site anexo ao da escola, conheci alguns lugares nocturnos do sotavento algarvio e compreendi que no que respeita a opiniões sobre certos sítios e certas pessoas, nem eu, nem a Tia Adoptada nem a Cath (também quero escrever sobre elas) estávamos afinal sozinhas. Incentivou-me a escrever um blogue. Nessa altura eu só conseguia escrever palavrões e fui adiando. Até que com o Felizes Juntos lá desentupi.
Nas reuniões do Conselho Científico, piscava-me o olho, sorria, mandava esse eme esses, defendeu-me numa querela sobre psicologia, linguística e psicodrama que me tramou a vida. Fazia-me rir.
Eu saí sem querer; a Ana Paula porque quis. Procuramos ambas reconstruir a vida profissional.
E sei que vamos conseguir. Com muito êxito, claro.

Concorrência desleal...

Jovem, bonita e talentosa.
O meu coração está despedaçado.

sábado, 17 de novembro de 2007

José Saramago...

... completou ontem 85 anos. Conheci-o na escola, com a leitura obrigatória do Memorial do Convento. Fiquei fã desde o primeiro parágrafo. Seguiram-se, ainda por respeito a compromissos académicos, O que farei com este livro? e O ano da morte de Ricardo Reis. Uma admiração crescente a apelar à lei das prioridades. Poupando na comida, os cobres que os progenitores me iam enviando da terrinha permitir-me-iam alimentar o espírito. Sempre fui grande adepta de bibliotecas. Mas para estudo. Quando gosto, tenho de ter. E se puder ter, então tenho mesmo. Foram anos de dietas malucas, com barras de Twix a enganar a fome, muita água para controlar a celulite e alguns desmaios no autocarro que me levava da Portela ao Campo Pequeno. Descobri que podia poupar também no passe L1. O único sacrifício seria o de descer duas paragens antes e de atravessar as barracas que nunca me intimidaram. Talvez pelo cheiro a especiarias, pelas cores dos saris estendidos em varais improvisados, pelos risos de crianças da minha cor que brincavam sob o olhar atento dos adultos. Um sacrifício que se tornava doloroso quando saía atrasada para a faculdade, quando chovia ou quando vinha carregada com livros e malas de viagem. Um dia um avôzinho mandou-me parar. Parei. Estava escuro, mas não tive medo. Falou-me em hindi. Abanei a cabeça. Sou goesa, mas nem hindi nem concani. Num português esforçado ralhou comigo, que era perigoso andar sozinha de noite e que me ia levar à paragem do autocarro. Dissuasão impossível. As mãos amareladas do tabaco pegaram na minha mala de viagem pesada e, determinadas, acompanharam-me até ao local onde eu esperaria o 83.
Cada livro que eu compro tem uma história que só eu sei. E a biblioteca do Saramago que fui adquirindo tem muitas histórias. Como a história de como eu e o C. andávamos a comprar livros repetidos e achámos que bastava uma colecção para a nossa família e que fui eu que cedi porque ele já tinha mais livros e também mais poder de compra e por isso poderia ser ele a completar a dita colecção; e a história de como continuei deliciada com a escrita do Saramago para os mais novos; e a história da sua vinda a Portimão para apresentar um dos seus romances na Biblioteca Municipal e de como descobri que às vezes é preferível sermos nós a construir a imagem de um autor do que apanhar uma tremenda desilusão com o homem de carne e osso.


Gosto do Saramago. Mas do Saramago escritor.

Vovó Lili - 2

Hora de deitar. O Nuno começa o frim-frim filosófico:
- O que é desta vez, homem?
- Gosto tanto da vovó... Vou ter tanta pena quando ela morrer...
- Gente ruim não morre... - Ia dizer, mas não digo. Controlo-me, não quero atiçar o fogo em horas tão tardias.
- Toda a gente morre mais cedo ou mais tarde. Não comeces. Dorme. - Seca e directa, como quem não dá muita importância ao assunto.
- Eu sei que ela vai morrer um dia, mas eu não quero que ela morra já enquanto eu sou tão pequenino.
O beicinho tremelica. Tenho de ser rápida.
- Olha, reza. Pede a Deus que te deixe ficar mais tempo com a tua avozinha, que não a leve tão cedo para o Céu.
Safei-me bem. Ele fecha os olhos e prepara-se para orar.
Mas há um demónio, um maldito de um demónio, que me domina alma desde que me conheço, que anda à coca e que é mais forte do que eu.
- Desculpa Nuno, enganei-me. Tens é de fazer esse pedido ao Diabo, porque no dia em que a tua avó morrer vai direitinha para o Inferno.

Foi uma noite longa, muito longa, a desfazer o emaranhado de prantos, a explicar metáforas e ironias, a reconhecer que às vezes não tenho limites. Foi uma noite longa. Eu mereci.

Vovó Lili - 1

O calcanhar de Aquiles dos Manelinhos é a vovó Lili, minha mãe, que às vezes maltrato só pelo prazer de ver a reacção das pestes.
- A vovó telefonou e mandou beijinhos para os meninos.
- Ela é tão linda, a nossa avó...
- Raio da velha, que nem em Lisboa vos deixa em paz.
Veneno destilado. A reacção é imediata.
- Não chames de velha à nossa avó!!!
- Pois, a nossa avó não é velha.
É um veneno poderoso e, quando administrado nas doses certas, é altamente eficaz. A minha alma sorri de satisfação.
Eis, quando não, a resposta inesperada, directa, de um Tomás indignado:
- A vovó não é velha. É idosa. Ouviste bem? I-do-sa!

Je est l'autre

A fórmula rimbaudiana, com o artigo alterado, como título de uma história real:

Estou em casa só com o Nuninho. O Tomás saiu com o C. A meio dos afazeres, acho estranho que se entretenha durante tanto tempo sozinho. Apanho-o rodeado de brinquedos na divisão errada.
- O que fazes aqui, diabo? Sabes perfeitamente que não se anda a espalhar brinquedos pela casa.
- É que ali no quarto não tenho espelho.
- E por que raio estás tu a brincar à frente do espelho?
- O Tomás não está, mamã. Faz de conta que aquele ali no espelho é o Más.


Calei-me, voltei para a cozinha, deixei-o onde e como estava.
Bem feita para mim que já devia saber que os meus filhos sabem perfeitamente o que fazem.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

13º Congresso do Algarve

Este é o segundo dos três dias em que que no 13º Congresso do Algarve se discutem assuntos subordinados aos temas «Voltar ao mar», «Região com futuro» e «Fórum dos Descobrimentos». Já cumpri a minha parte. Correu muito melhor do que eu esperava. À falta de arte e engenho para coisas mais artísticas, dedico os meus trabalhos de investigação a pessoas que pretendo homenagear. O Algarve em «Miss Beijo» de Lídia Jorge é dedicado à Ana Cristina Coelho, mulher sábia, culta e inteligente, de armas e coragem, com uma sensibilidade de arrepiar a medula óssea.

Livrinho de actas já publicado. Ler, com atenção, o ensaio da página 233.

Leitura obrigatória...

... é uma nova coluna que o Rabiscos e Garatujas apresenta no lado direito. Há quem lhe chame de "selecção actualizada do que se escreve por aí". Há algum tempo que ando a namorar essa ferramenta do Google sem saber, contudo, como a utilizar. Vai daí, o Paulo, autodidacta nestas coisas, e bom professor por sinal, explicou-me tim tim por tim tim o que e como fazer.
Apesar dos e-mails de agradecimento privados, nunca é demais agradecer publicamente a prontidão de um amigo que me ajudou a construir uma ponte do Rabiscos e Garatujas para as mais recentes novidades de leitura obrigatória.

Obrigada, Paulo!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O dobro

- Denise, olha o problema que eu fiz SOZINHA!!!
Bianca, 8 anos, 3º ano do Ensino Básico. Uma letra redondinha, escrita a caneta negra no quadro branco.

A Carla tem 72 balões. A Joana tem o dobro da idade da Carla. Quantos balões tem a Joana?

Um prémio para quem souber a resposta.

Guitarra portuguesa

Foi um concerto e tanto. Como aperitivo, a Sinfonia em Si bemol de Carlos Seixas. Depois, guitarra portuguesa e orquestra. Fernando Lapa, Sérgio Azevedo, Paulo Soares, Virgílio Caseiro, José Firmino e Eurico Carrapatoso interpretados por Paulo Soares e pela a Orquestra Clássica do Centro sob a direcção de António Sérgio Ferreira.

Desta vez , os compositores portugueses contemporâneos convenceram-me. A alma vibrou.

Ingleses

A propósito deste traste, o C. contou-me que na Orquestra da região, muito multicultural, todos os músicos se sabem desenrascar em português. Todos, com uma única excepção: os ingleses.
Para quê o esforço, se a sua língua materna é a língua universal?
Não gosto de estereótipos, mas parece-me que estou a ver um padrãozinho.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Um num milhão

Há oito anos que sou professora e por mim já passaram muitos alunos. Tive sempre uma boa relação com eles e, embora o meu calcanhar de Aquiles seja o controlo da indisciplina, tenho tido êxito no trabalho de aprendizagem com aqueles que realmente querem aprender. Na formação de adultos, o processo simplifica-se. Há, à partida, uma forte motivação intrínseca que estimula a aprendizagem e anula comportamentos indisciplinares.
Mas hoje estive para morrer.
Na aula de Português para Estrangeiros, nível iniciação, apresentei a regra da conjugação dos verbos regulares no presente do indicativo. Em trinta alunos, um, de nacionalidade inglesa, não compreendeu. Procurei explicar de uma outra maneira. Entendeu que eu devereria apresentar a explicação em inglês. Recusei-me. Há franceses, guineenses, alemães, russos, ucranianos, moldavos e paquistaneses na sala de aula e nem todos compreendem inglês. Por respeito a eles não o poderia fazer. Pedi-lhe que observasse a lógica, o padrão, da conjugação. Num inglês cerrado, defendeu que em vez de aprender verbos deveria era estar a exercitar conversação com os colegas. Ainda tentei explicar que para conversar é preciso saber conjugar alguns verbos; que depois dos malditos verbos passaríamos à construção de frases curtas e a diálogos breves. Não consegui. A professora tem um método francamente mau, a professora deveria tirar um curso intensivo de caligrafia, em Inglaterra há um método chamado Linguaphone,´é mais fácil aprender chinês do que português consigo, blá blá blá blá blá.
Todos os restantates alunos compreenderam a lógica, redigiram frases curtas com outros verbos e leram-nas em voz alta. Todos os outros alunos têm um dicionário e uma gramática à mão. O Sr. David é uma ilha que dispensa dicionário ou gramática porque há sempre alguma alma caridosa que lhe vai traduzindo o que a cabra da professora se atreve a dizer em português.
É um num milhão mas fodeu-me o juízo e a noite toda.

domingo, 11 de novembro de 2007

Cansaço

Foi um fim-de-semana cansativo que começou logo na 5ª feira.

Tarde de 5ª feira:
Vai preparando o violino que eu vou só levantar a mesa. Já aí vou ter. O Tomás deve ter andado de olho no arco durante as últimas semanas. Só pode. Ao apanhar-se sozinho com o dito, tê-lo-á achado incrivelmente semelhante à espada que eu nunca lhe comprei. Só pode. O que sei é que, da cozinha, ouvi um som. poq. E, depois, um silêncio sepulcral. Espectáculo bonito de ser ver, na sala. O Nuno a esfregar a cabeça. As partituras, no chão, substitutas cómodas do giz que a minha geração usava para desenhar as linhas do avião. O Tomás a colocar qualquer coisa na caixa do violino. Era o arco. O arco do violino tamanho 1/4. O arco do violino da escola de música. O arco, partido, oscilante, desgrenhado.
Corremos as lojas de música. Não há arcos, só encomendando. Encomendemo-lo. O mais barato custa 26 euros. Pois seja. Só chega na semana que vem. Éu espero.
O estudo mantém-se. Em pizzicato.

Noite de 5ª feira:
Nova crise de choro do Nuno. É um filósofo que escolhe muito mal as horas para pensar sobre a vida. Durou até às tantas, com intermitências várias durante a noite.

Manhã de 6ª feira:
Acordo com os Manelinhos na minha cama, o que não é normal em dia de semana. Olho para o despertador. Parado. Já passam duas horas das 7. Ficam em casa. Já não vale a pena irem à escola.

Hora de almoço:
Foi a primeira vez. Mas há sempre uma maldita primeira vez. Esqueci-me da panela ao lume. Era uma fumarada e um cheiro insuportável cá por casa. Fomos às sopas.

Tarde de 6ª feira:
Birra dos Manelinhos. A quererem ir à feira de S. Martinho. Que prova à minha paciência. Que prova.

Manhã de Sábado:
Na porta da aula de Expressão Dramática, o Tomás lê o apelo às inscrições para as aulas de ballet. Cruza os braços, bate o pé, chama-me de mentirosa. Há anos que me pede que o inscreva no ballet. O ballet aqui por baixo é muito ranhoso. Recuso-me a pagar aulas ranhosas. Sempre lhe disse que aulas de ballet só em Lisboa e, por isso, não pode ser nada. Já lá diz o provérbio, a verdade é como o azeite....Vou ter de o levar a assistir a um espectáculo com os alunos dessas aulas, para que saiba do que eu o quero poupar.

Tarde de Sábado:
Os Manelinhos estão a acabar os trabalhos de casa. Há séculos que lhes peço para não trabalharem na mesa da cozinha. Na mesa da cozinha estava uma chávena de café com leite por levantar. A lei da atracção é incontornável. O livro do Nuno ficou alagado. As mãos, a camisola e as calças do Tomás também.

Noite de Sábado:
Os dedos dos Manelinhos grudaram-se à moldura da porta da casa dos avós onde entenderam que haveriam de dormir essa noite. Foi um batalha dura, mas eu venci.

Manhã de Domingo:
O Tomás acordou todo "transpirado, mamã. Estava cá um calor." Na linguagem do Tomás, transpiração é metáfora de urina. Em lençóis de uma muda nova.

Domingo inteiro:
correram, saltaram, brincaram, gritaram, choraram, cantaram, rebolaram, suaram, riram, dançaram ....


Estou cansada e a semana está a começar.


Poliglotismo

Boa tarde em...

... basco: Arratsalde on
... bielorusso: Dzien' dobry
... checo: Dobré odpoledne
... esperanto: Bonan tagon
... húngaro: Jó estét
... japonês: Oshimai nasai mashi
... mandarim: Xiao wu hao
... russo: Dobry den
... tétum: Loraek diak ou Loraik kmanek
... turco: Iyi ö-glenler
... galês: Pnawn da


Encontrado na Jennifer's Language Page.

La gaffe du jour - 2

- Não é afternuno, Tomás. É afternoon.
- Ahhhh, já percebi!
- Diz lá então.
- Good aftertomá!

La gaffe du jour - 1

Num jogo de "fala e repete" em inglês, com os Manelinhos.
- Vá, um de cada vez. «Como te chamas?» What's your name?
- What's your name?
- Muito bem, Nuno. Agora tu, Tomás.
- What's your name?
- A resposta: My name is... e acrescentam o vosso nome.
- My name is Nuno.
- My name is Tomás.
- Muito bem. Para dar os bons dias: Good morning!
- Good morning!
- Good morning!
- E como se diz «Boa tarde?», mamã?
- Good afternoon!
- Good afternoon!
- Muito bem Nuno. Agora tu, Tomás.
- Good aftertomás!

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Ser professor

A propósito da carta aberta que o Paulo divulgou no Felizes Juntos, lembrei-me de um texto que me chegou por e-mail há algum tempo e cujo vídeo já colocara aqui.

Ser professor em Portugal - Missão quase impossível

Esta é uma profissão em que se trabalha em casa (de graça, entenda-se) aos Sábados, Domingos, feriados, madrugada adentro e, muitas vezes, até nas férias. Férias, sim, e sem eufemismos, que bem precisamos de pausas ao longo do ano para irmos repondo forças e coragens. De resto, é o que acontece nos outros países por essa Europa fora, às vezes com muito mais dias de folga que nós: 2 semanas para as vindimas em Setembro ou Outubro, mais 2 para a neve em Novembro, 3 no Natal mais 3 na Páscoa, 1 ou 2 meses no Verão.
É a única profissão em que se tem falta por chegar 5 minutos atrasado.
É uma profissão que exclui devaneios do tipo "preciso de sair meia hora mais cedo" ou o corriqueiro "volto já" colado na porta fechada em horas de expediente.
É uma profissão de enorme desgaste. Ainda há pouco tempo foi divulgado um estudo que nos colocava na 2ª posição, a seguir aos mineiros, mas isto, está-se a ver, não convém a ninguém lembrar.
É uma profissão que deixou de ser acarinhada ou considerada, humana e socialmente. Pelo contrário. Todos os dias somos agredidos na nossa dignidade ou mesmo fisicamente. Enxovalhados em praça pública, atacados e desvalorizados, na nossa pessoa e no nosso trabalho.
É uma profissão cujos agentes têm de estar permanentemente a 100%. Não se compadece com noites mal dormidas, indisposições várias ou rpoblemas pessoais.
É uma profissão em que, de 45 em 45, ou de 90 em 90 minutos, se tem de repetir o mesmo processo, exigente e desgastante, de chegar a horas, de conquistar várias vezes, ao longo do dia, um novo grupo de 20 a 30 alunos e todos ao mesmo tempo.
É uma profissão em que é preciso ter sempre a energia suficiente (às vezes sobre-humana) para, em cada turma, manter a disciplina e o interesse, gerir conflitos, cumprir progressos, zelar para que haja material de trabalho, atenção, concentração, motivação e produção.
É uma profissão em que sofremos, ainda, a angústia do nosso próprio desempenho, pelo insucesso dos alunos, o qual depende, igualmente, de factores que não controlamos.
Será bom que a opinião pública comece a perceber que para além das "poucas" horas lectivas e do trabalho feito na escola (acompanhamento de alunos em visitas de estudo, acções de formação, seminários, reuniões...), os professores também trabalham em casa, que é o único sítio que lhes oferece verdadeiras condições para a preparação das aulas e a elaboração e correcção dos testes.
Se é professor sabe o quão verdadeiro é o o texto acima registado.
Se não é, creia que é verdade e apoie quem está a lutar simultaneamente pela dignificação da Carreira Docente e por uma educação de verdadeiro sucesso.
Acarinhe os professores. Eles precisam do seu apoio.

Goeses

Via mail pela mana do meio, as características do goês típico. A resvalar para a verdade.

You know you are a Goan when...

· Your house smells like fried onions and fried fish.
· No matter where you go in the world you will find another Goan named D'Souza or Fernandes.
· When you tell your parents you got 98% in an exam and they ask you what happened to the other two percent. · Your mother has a minor disagreement with her sister and doesn't talk to her for ten years.
· Everyone is a family friend.
· You went to a university as far away from home as possible. You still came back home to live with your parents after you had finished.
· You fight over who pays the dinner bill.
· You don't understand what "No thank you" means after you have offered food to someone ....and yet you keep on insisting.
· You have to outdo your friends with something that is bigger, better and more expensive, even if you can't afford it.
· You're walking out of customs at the airport and you see all 25 members of your family who have come to pick you up.
· You get very upset when airlines refuse to accept your luggage that is only 80 lbs. overweight.
· You ask your Dad a simple question and he tells you the story of how he had to walk miles barefoot just to get to school.
· You have annoying nicknames like Petus, Babush, Bostiao, Butu.......
· You are really confused whether or not you are Portuguese.. ....heaven forbid..... Indian.
· Your parents push you to get married all the time but find all other races other than Goan unacceptable.
· No one ever seems to call ahead of time to say they are coming over for a visit.
· You miss a Goan dance and your parents tell you there were lots of young people there.
· You see pictures of the Caribbean and you say "It's just like Goa ."
· You call everybody who's brown and not from Goa 'BINTAKAR' and make fun of them in Konkani.
· Two minutes into a conversation you tell a stranger you have 2 acres and 20 coconut trees.
· You are comfortable going for a holiday back to Goa in May... just to sample the mangoes, sorpatel and Goa sausages.
· You are well versed in property law even though you're a welder by profession and haven't passed 10th grade.
· You have six middle names most of which you can't pronounce.
· Your entire family is constantly fighting over property they inherited from somebody else.
· You interject 'what', 'men' and 're' in every line of your conversation.
· You make the sign of the cross before driving over bridges.
· You eat last night's curry the next morning.
· Lastly, you are certainly not Goan if you don't eat pork, dance, drink Feni and drive.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Vida em Deli e Ana de Amsterdam

Gosto de revisitar a Índia na net e de me demorar nos sites que me levam a Goa. O melhor, em língua portuguesa, é o SuperGoa. Quanto a blogues, descobri, já há largos meses, dois de que fiquei fã.
Constantino Xavier, correspondente do Expresso em Nova Deli, fala de como é A Vida em Deli e um pouco por toda a Índia. Testemunho de pormenores políticos, económicos, sociais, históricos ou culturais, o blogue não abandona, porém, o discurso na 1ª pessoa, o que lhe confere o registo afectivo. Descobri, ainda, que não é só o blogue que é interessante. O miúdo tem pinta. Muita pinta. (ver mais abaixo)
O outro blogue, de visita quase diária também: Ana de Amsterdam. As origens goesas da autora permitem algumas intermitências da Índia. Mas o programa do blogue é outro. Um blogue que é uma casa, diz a postagem de hoje. É um blogue de registo intimista, de auto-configuração retórica. Um exercício de depuração da linguagem. Um blogue-inspiração.

(Constantino Xavier)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Mando Goemcho - II

Uma versão mais moderna...
... e mais estragada.
Minha bela Rita Lobo.

Mando Goemcho - I

Com Rita Lobo - 1963


segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Depois da Índia

Um outro motivo que me impeliu à leitura do dito Loucos... foi a consciência do impacto da viagem à Índia na minha vida.
Foi em Dezembro de 1997, tinha eu 21 anos.
Durante três semanas, amaldiçoei o calor, a humidade, as impressões gustativas e olfactivas, os costumes, a (diferença na) civilização. Foram três semanas a agradecer a vinda do Vasco da Gama àquela terra remota de onde partiram os meus avós rumo a outra colónia portuguesa que os meus pais a contra-gosto abandonariam em meados de 70. Agradecia, pois, a política da dilatação do Império, que me havia permitido crescer e viver na Europa civilizada.
Afirma R. Airault que o viajante é submetido, quando da sua chegada à Índia, a um choque cultural que parece obedecer à lei do "tudo ou nada": é a sedução ou a repulsa porque, diz-se, não se bate à porta da Índia: é-se aspirado ou rejeitado. Facto que constatei nos meus companheiros de viagem: não houve meio-termo.
O regresso a Portugal e à normalização do quotidiano reservava-me, porém, uma surpresa inédita. Em mim se impregnava uma memória sinestésica; a Índia regressava comigo, na sua limpidez das 6 horas matutinas, na solaridade dos dias, no vermelho da terra, nas cores mil dos saris e das feiras e dos anúncios publicitários pintados nas paredes, nas buzinas alegres dos riquexós modernizados, no odor a especiarias e a terra húmida, verde, farta, na quietude das noites mornas, na luz e no ritmo das raves e das hippies' parties, na doçura dos idosos, nos olhares indiscretos dos mais jovens.
Durante três semanas, demarquei bem o limite que distanciava o eu do eles. Regressei com um nós. O olhar, aqui no ocidente, perante mim mesma e perante os outros, mudou. Gosto da minha pele castanha. Gosto do meu apelido. Gosto de ver indianas de saris e tatuagens de hena. Gosto de festas com chamuças e papaddis e caril e sarapatel e chacuti e xeque-xeque e alvás e bebinca e doces de grão. Gosto de ver pessoas a dizer sim como quem diz talvez. Gosto da tonalização das vogais átonas. Gosto de ouvir mandós.
Há cheiros que revisito apenas na memória. A mistura de especiarias com incenso em cada casa, em cada esquina, em cada rua de Goa; o cheiro doce das mangas em Quepem. Revisito a humidade verde das madrugadas tropicais em Santa Cruz.
Assim vou regressando a Goa, à Índia que conheço.
Ponho a hipótese de a Índia ser toxicógena, diz R. Airault, agir como uma verdadeira droga, levando à dependência psíquica e física. "Ele amava a Índia, ela tinha-o intoxicado," lemos em Parias de Pascal Bruckner... Existem, de facto, várias analogias entre o produto Índia e o produto tóxico. Quando se conhece este país, parece que lá se volta sempre. Da primeira vez podemos ter náuseas, sentir nojo, até vómitos, e depois é a "lua de mel": o paraíso, a atemporalidade, a sensação de poder absoluto. Finalmente pode levar, depois de nos ter martirizado o corpo e a alma, até à decadência total e à morte. Esta analogia ilustra-se com a descrição das três etapas da experiência toxicomaníaca descritas por Claude Olievenstein:
- O flash. É o encontro com a Índia, que altera a noção do tempo vivido.
- O planeta.É a estadia neste outro planeta que é a Índia. "Aí tudo é permitido e tudo é ousado. Tudo parece banhar-se num grande ralenti, numa doce atmosfera de calor."
- A descida. É o regresso. "Pouco a pouco, por patamares, o sujeito reintroduz-se na vida real. De um mundo cósmico ou fantasmático passa ao seu mundo quotidiano e pessaol (...) O toxícómano é totalmente reintroduzido no tempo e no espaço dos outros. Aceitar esta situação aparece ao sujeito como algo de intolerável, tanto mais que a recordação está lá, depressa embelezada, acessível e realizável." (C. Olievenstein, Écrits sur la toxicomanie, PUF, 1975) Não tem então senão uma ideia: regressar a esse algures.
Estou pedrada. Está visto.

domingo, 4 de novembro de 2007

Prólogo

Foram vários os motivos que me prenderam à leitura do Loucos pela Índia. O prólogo ajudou:

Uma velha lenda hindu conta que houve um tempo em que todos os homens eram deuses. Como abusaram desse poder, Brama, o mestre dos deuses, decidiu retirar-lho e escondê-lo num lugar onde lhes seria impossível encontrá-lo. Sim, mas onde?
Brama convocou em conselho os deuses menores para resolver o problema.
- Enterremos a divindade do homem, propuseram eles.
Mas Brama respondeu:
- Isso não chega, porque o homem vai cavar e encontrar.
Os deuses replicaram:
- Nesse caso, escondamo-la no fundo dos oceanos.
Mas Brama respondeu:
- Não, que mais cedo ou mais tarde o homem vai explorar as profundezas do oceano. Acabará por a encontrar e vai trazê-la para a superfície.
Então os deuses disseram:
- Não sabemos onde a esconder, porque parece não existir sobre a terra ou debaixo do mar um lugar onde o homem não possa chegar um dia.
Mas Brama respondeu:
- Eis o que faremos da divindade do homem: vamos escondê-la no mais profundo dele mesmo, porque é o único lugar onde ele nunca pensará em procurar.
E depois desse tempo, conclui a lenda, o homem explora, escala, mergulha e escava, à procura de qualquer coisa que se encontra dentro de si.

sábado, 3 de novembro de 2007

Lido e recomendado

Loucos pela Índia ou delírios de Ocidentais e sentimento oceânico.
Autoria de Regis Airault e tradução de Ana Isabel Mineiro. Com a chancela da Via Óptima.
O que se lê na contracapa:
"A Índia enlouquece ou os loucos é que vão à Índia?"
Um psiquiatra, Régis Airault, constatou que, de Mumbai a Goa, de Deli a Pondichéry, uma verdadeira síndroma indiana atinge todos os Ocidentais - na sua maior parte adolescentes e jovens adultos - que vão a este país. Aí, mais do que em qualquer outro lugar e de uma forma mais espectacular, parece que a nossa identidade vacila.
Pessoas até então indemnes a qualqeur desordem psiquiátrica sentem subitamente, sem tomar drogas, um sentimento de estranheza e perdem contacto com a realidade. O mais curioso é que quase todos estes problemas não têm continuação. Chegado a casa, o viajante guarda mesmo deles uma boa recordação e, algum tempo mais tarde, não tem senão uma ideia na cabeça: voltar à Índia...
Então o que é que nos atrai na Índia? Porque é que lá somos tão frágeis? E o que nos ensina sobre nós mesmos esta expreriência, que transforma em profundidade a nossa visão do mundo?



sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Dia dos fiéis defuntos

Compreendo que a Igreja dedique um dia àqueles que já partiram e que exorte os fiéis à oração pelas suas almas. É um dia simbólico, já que a prece deverá ser diária e não anual. Qualquer religião advoga o poder da oração sincera, sentida, autêntica. O que não compreendo é que os crentes se desloquem aos cemitérios e embelezem as campas com flores cheirosas e coloridas. Reminiscências do paganismo pré-cristão. Não bate a bota com a perdigota acreditar na existência de uma dimensão extracorpórea e insistir em praticar o culto junto a um corpo morto, em estado de putrefacção.
Eu não vou a cemitérios. Acho que por lá não há nada, excepto vermes e campas que são verdadeiras obras de arte. Quando morrer não gastem tostões com caixões ou crematórios. Acho que existem ainda as valas comuns. Peço apenas a oração, do sítio onde estiverem, que me dê forças para continuar a minha caminhada.
Não bate a bota com a perdigota, também, um estado laico continuar a marcar como feriados algumas celebrações religiosas, como a de ontem. Ainda que a população portuguesa seja maioritariamente católica, sabemos que esse catolicismo não passa do baptismo ou da primeira comunhão ou do matrimónio faustoso. Pelo menos aqui no sul. O nosso povo, maioritariamente pseudo-católico, não acredita em Deus, mas pelo sim pelo não...

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Toussaints' day

Sopa de Todos os Santos
Salada de beatos
Lulas recheadas à São Cristóvão
Arroz da terra de Krishna
Tarte de natas
Bolo de chocolate
Café
Licor de limão
Medronho caseiro
Seis adultos, dois Manelinhos mais os convivas espirituais invisíveis.
Pavarotii, Carreras, Plácido Domingo à vez; Il Divo; as 4Estações do compositor portimonense contemporâneo.

Foi um dia bem passado.

Eu e o meu corpo

Era inevitável que ao colocar tanta fotografia de nus não acabasse por olhar para mim mesma. Era inevitável. Olhei para mim mesma. Corrijo. Olhei para a imagem que de mim o espelho me devolve. É um espelho grande que na sua moldura bege preenche a parede mais iluminada da nossa suite.
É um corpo com história. Um corpo que me deu alguns desgostos no tempo em que eu ainda lhe dava alguma importância. Um corpo que não reconheço como meu e que me surpreende sempre que para ele tenho de olhar.
Decidi-me pela distância para me poupar a surpresas que a nada nos levam e passei a olhar-me ao espelho apenas quando absolutamente indispensável. E assim, limitando-me às exigências do rosto, há muito que não visito o meu corpo. Daí alguns sustos e outros mal-entendidos que tal quando comigo me cruzo nas montras ou superfícies espelhadas.
Ora, o meu corpo tem sofrido tanta modificação quanto o recheio que o acompanha. Rememorar a infância é um excelente exercício de se saber outro no eu que se é. Somos uma história e a cada mudança sabemos que repetimos o contínuo processo de auto-alienação. O meu corpo é também uma história e nas suas linhas encontro o fio de Ariadne que me reconstitui enquanto gente.
A cor do meu corpo e a sua altura parca conta-me a história da terra remota das especiarias onde se enraizam as minhas origens. Encontro o stress do dia-a-dia na pele ressequida e na madeixa de cabelos brancos que teimo em não pintar (essa madeixa tem uma história; uma história que mete o C. pelo meio dos meus 15 anos e o meu 1º desgosto de amor com pai e mãe à mistura). As olheiras marcam as noites mal dormidas: trabalho acumulado ou medos nocturnos ou crises de choro dos Manelinhos ou o ressonar do C. ou outro evento magno qualquer. As mãos relembram o trabalho a que não posso fugir na lida da casa, com a multiplicação dos detergentes obrigatórios e as sucessivas imersões em água corrente. São mãos de mãe, que também trabalha com giz; mãos que já tocaram piano e violino, finas, macias, delicadas. O tempo em que a magreza me incomodava, nos 35 quilos à entrada na faculdade e nos 40 no dia do casamento. A gravidez gemelar pôs-me mais 10 em cima, mudou-me as feições, agora mais bolachudas, e riscou-me o corpo todo. Rios de estrias, nas nádegas, no ventre flácido, nos seios mancos (o Nuno foi sempre mais voraz; o Tomás, comedido).
O C. tem vindo a testemunhar de perto todas estas mudanças que o não incomodam minimamente. A mim incomodam, às vezes. Outras vezes não, porque este meu corpo que espreito não é meu. É como se não fosse, porque nele não me reconheço.

Beleza

O post anterior é a minha resposta ao choradinho do Paulo. Dei-me conta, porém, do quão me foi difícil satisfazer-lhe a vontade. A explicar por partes.
Gosto muito de fotografia e, especialmente, a que perspectiva a beleza do corpo humano. Gosto de ver como se pode olhar as mãos, os pés, os olhos, os cabelos e mantê-los em estado de arte. Quanto a particularidades, o corpo feminino esteve sempre em vantagem perante os meus olhos. Os meus cadernos da secundária e dos primeiros anos de licenciatura mostram-no bem, pelas imagens que, recortadas de revistas várias, eu ia colando aqui e ali.
Arte à parte, nunca me coibi de seguir uma rapariga com o olhar.
Sem chegar a ser inveja, coisa feia e ruim de se ter, olhar para a beleza de um pormenor ou mesmo da totalidade de um ser é uma forma de absorver essa beleza que gostaríamos de possuir. Na colecção de imagens que eu ia mentalmente fotografando e recortando e colando e guardando na secção visitável da memória, fui compondo o meu ideal de beleza física. Nessa secção, outras relíquias fui armazenando também. Nestes mundos utópicos que gosto de criar refugio-me quando as coisas correm mal. Finjo que sou isto ou aquilo ou que sou isto e aquilo, consoante o dia, a hora e a temperatura.
A minha absorção do bicho homem é feita doutra maneira. Decidiu o destino que eu cegasse aos 15 anos, idade com que comecei a namorar com o C.. Só lá muito de vez em quando recuperava a visão, mas de forma cruel e não produtiva.
Não consigo apreciar a beleza masculina a frio, sem o contacto directo do olhar e do olfacto. Mais, um homem, para me fazer virar a cabeça, precisa primeiro de falar para ser aprovado em dois requisitos: o timbre da voz e a inteligência. Nem a 7ª Arte me ludibria: a beleza de um actor advém da personagem que interpreta, conclui eu, ao descobrir que noutros filmes a beleza se pode esvair.
Talvez por tudo isto se explique a morosidade e a dificuldade com que fui seleccionando as imagens precedentes.
Com uma fuga propositada ao rosto, porque um rosto sigulariza e ser-se singular, comigo, só ao vivo.
Todos nós somos amputados, incompletos, imperfeitos. Esta minha incapacidade é uma das minhas amputações.