quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Upaaaaaa... E lá vou eu agaaaain!

Malis mala succedunt ...Ou por outra, um mal nunca vem só.

Não chegavam as fustigações da alma. O corpo rebela-se reivindicativo em explosões múltiplas e viscosidades oníricas.
Mas o meu corpo é um templo. Resta-me, por isso, rir dos seus desvarios hiperbólicos e voltar a cantar com a Adrienne Pauly:

(Je veux un mec, par Adrienne Pauly)

sábado, 27 de dezembro de 2008

Perdoem-me...

... a indelicadeza do silêncio e a tristeza que a acompanha.
Foram muitas as tentativas de regresso. Inumeráveis.
... só que as palavras enublam-se e dissipam-se.
Ameaços tímidos de beicinho em Julho, precipitação incómoda de tristeza em Agosto, granizo efervescente de inapetite em Setembro, rajadas fétidas de isolamento em Outubro, tempestade sanguinolenta de apatia desde Novembro. É a minha primeira depressão e estou a curti-la em grande.
E quando regressar a este meu país a este meu reino a este meu império, gargalharemos do que já não é e banquetearemos a mais pura das cabriolices e beberemos néctar de vento e bailaremos ao som de pétalas de malmequer e cantaremos laudes e

Prometo que volto...

..mas primeiro tenho de recolher os pedacinhos de mim...


(daqui)



Villa-Lobos - Vals...

(Heitor Villa-Lobos. Valsa da Dor. 1932)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Estou (novamente) apaixonada!

Era o Jim e era o Alain.
Agora é também o Ned, da série Pushing Daisies
Dá-lhe voz corpo rosto o actor Lee Pace.


Ai!, eu aceitaria aquele malmequer...
(a minha flor preferida)


***

(20 segundos de The Pushing Daisies)

domingo, 20 de julho de 2008

Nós, professores, só temos o que merecemos - take II

As aulas já terminaram mas, ao contrário do que a opinião pública pensa, a sala de professores continua povoada e em estado de sítio à cause de todo o serviço pós-lectivo. Entre os colegas, a Coordenadora do meu Departamento, que é também Professora Titular e membro da Comissão de Avaliação da escola.
Eu - Então explica-me lá essa história assim muito bem explicadinha...
Ela - Mas se já ta expliquei no outro dia...
Eu - Mas explica lá isso melhor que o pessoal levantou logo aquele ruído ensurdecedor e eu deixei de ouvir o meu próprio pensamento.
Ela - Ordens para que a avaliação de todos os professores se situe no Bom.
Eu - E o que é que tu achas disso?
Ela - Que estão a gozar connosco, não?
Eu - Pois eu acho que o Carnaval começou precisamente connosco. Já sabes disso. Eu tinha sugerido que a escola tomasse uma posição. Não tomou. Criou a Comissão de Avaliação, disponibilizou os relatórios, organizou ene reuniões... et voilà. É bem feita.
Ela - ...
Eu - E, depois de toda a trabalheira, aceitamos, assim, na maior da serenidade, que o processo venha a ser divulgado como o grande êxito da avaliação do desempenho docente, como foi feito com as aulas de substituição... Não ouvi nada nas notícias, nem me parecebi de nenhuma reacção sindical. Onde é que eu posso consultar essas dirctrizes de que me falas?
Ela - Vai ao Conselho Executivo. Foi a Presidente que nos passou a informação.

***

Eu - Truz truz...
Ela - Olá, Denise. Diz.
Eu - Posso consultar o documento que vos foi enviado a propósito de blá blá blá...?
Ela - Ah, é um e-mail proveniente da Direcção Regional e não podes consultar...
Eu - Não posso?! Não posso porquê? Não diz respeito à avaliação dos professores? Não me diz respeito? Não podes imprimir e afixar?
Ela - Mas muitas pergunas fazes tu. A tua Coordenadora não te explicou o que há a explicar?
Eu - Explicou o que ela terá entendido que havia a explicar.
Ela - Estás a ser má...
Eu - Não, não estou. Bem, se não posso consultar o tal documento, explica-me lá tu a história assim muito bem explicadinha.
Ela - Mas porquê? És do sindicato?
Eu -Porquê?! Porque, primeiro, sou parte envolvida no processo, estou a ser avaliada, estou interessada em conhecer e compreender tudo em que estou envolvida. E segundo, pretenço, sim, à direcção de um sindicato, mas descansa que não tem nada a ver com o ensino básico e secundário.
Ela - O Ministério solicitou que fosse atribuída apenas a avaliação de Bom e que aguardássemos pelo número de cotas para que pudéssemos passar à atribuição das classificações de Muito Bom e Excelente.
Eu - Ahhhhhh.... ligeiramente diferente do que ouvi.... mas mesmo assim... E... olha lá, eu vou ter Muito Bom como pedi na minha auto-avaliação?
Ela - Pois, não sei. Depende das cotas.
Eu - Depende das cotas?! Não depende do merecimento?
Ela - Ai, Denise!, não compliques...

***

Pequena moral deste apólogo soturno: os professores não se limitam ao ruído e à inércia. Os professores alimentam a sua revolta com o diz que disse que ouviu dizer. A Deniblog é prof.. Não viu o documento. Mas escreveu sobre o assunto. A escrita impulsiva do take 1 que antecede este post acaba por confirmar a regra. Os professores só têm o que merecem...

***

Estou embrulhada com este tipo de trabalho e uns quantos relatórios por entregar antes do início das minhas férias. Só depois, com o fôlego já reposto, meu Vizinho, apresentarei mais demoradamente a minha opinião sobre a Avaliação do Desempenho Docente. Entretanto, há sempre a possibilidade da (re)leitura de posts antigos onde rabisquei, ainda que de leve, sobre o assunto:

domingo, 13 de julho de 2008

Rabiscos e Garatujas

É o primeiro aniversário do nosso RG. Nasceu, já sabemos, do entusiasmo de uma fã do FJ. E com ele nasceu a Deniblog.
Aqui me entrego ao espelho das palavras que me devolvem em luz o reflexo do que sou não no sendo. Aqui me reinvento, me desconstruo, me reconfiguro, me autoficciono. Aqui me descubro. Aqui me surpreendo. Um susto, por vezes. Uma ternura, outras tantas.
É um blogue intimista sem grandes intimidades onde pratico a escrita de um Eu que não é bem como eu mas que sou eu em inversão invertida ou em pleno enantiomorfismo
Água, cobre, prata, planos, esféricos: um arquipélago de espelhos, este meu país, meu reinado, meu império, onde aporta uma população diegética palradora e sorridente que dribla a virtualidade e cria sentimentos reais laços afectos por quem cujo rosto cuja voz cujo pulsar habita a imaginação.
Transparência exacerbada, temem uns. Loucura, devaneio, acusam outros. Com o RG experimentei, pois, os dissabores de quem teima pelo espaço da liberdade ainda que com rota de leitura. Mas com o RG descobri novas alegrias. Com o RG sedimentei amizades. Com o RG criei outras tantas. Com o RG chegou até mim, assim, em carne e osso e pele e cartilagem e voz e olhar e cheiro e tudo, aquele por quem, tamborilante, o meu coração amanhece em anacrusa.


***
Agradeço ao meu amigo Filósofo-Cientista JFrancisco o post dedicado a este primeiro aniversário: «Mutilações Genitais e Cultura Feminina».

sábado, 12 de julho de 2008

Poesia quase

- A Denise perde-se algures. É assim de quando em quando, já tinha reparado.
Reconheço-lhe a voz. É o Adónis do pastel de nata das 9h30m. Sorrio. Conto-lhe do quase poema.
- Hmmm. Gosta, portanto, de beijos e de poesia.
- Imprescindo-os.
- Ofereço-lhe um poema. Quer?
Foi a excitação de uma fracção de segundo, porque ele irrompeu sem gaguejar:
- É um pastel de nata
E também um galão.
Mas antes, se houver,
uma fatia de melão.
Preparei tudo com o único desejo de não lhe ficar atrás.
- Aqui está como pediu:
Fruta fresca p'la manhã.
Veja lá que me esmerei:
Até tem hortelã!
Mas, sem desarmar, ele rispostou:
- É nítido o seu olhar
Sorriso e voz de mulher...
Mas regresse à cozinha:
Falta aqui uma colher.

... homens...

(Quase) um poema

As mesas ficam por limpar. O meu olhar encontra o gesto, perfeito, no meio da multidão que se doura na areia ensolarada. Quedo-me. Suspendo o meu tempo ali, onde ela levanta o cabelo com ondas cor de mel e inclina levemente a cabeça e lhe cede gentilmente o pescoço. Onde ele com um toque de veludo sem pressas sem horas sem ventos lhe coloca o creme protector. Ela está sentada. É nívea e possui a delicadeza de um sopro de algodão. Não lhe vejo o rosto. Está, todo ele, para o mar. Ele é belo, alto, esguio, jovem. A barba impecavelmente feita. Um tufo de ébano generoso no peito rijo. Sigo-lhe a mão direita. Primeiro o pescoço depois os ombros suave suave as omoplatas as costas por inteiro. São movimentos delicados demorados derretidos.
Termina o gesto. Ela vira-lhe o rosto. Sorri. É bela. Mas ele já está dois passos para a esquerda, sacode as mãos estende-se na toalha do outro lado do guarda sol e enterra os peitorais na areia.

Foi quase um poema. Quase. Porque sem beijo não há um poema.

... homens...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Nós, professores, só temos o que merecemos

Falou ontem a minha titular do fax que a DREAlg enviou a todas as escolas a solicitar que a avaliação dos docentes se situasse no Bom, a propósito de outros pormenores ainda por legislar e/ou divulgar. Por outra: excelentes, muito bons, maus, assim-assim passam, todos, a bons. E está feita a avaliação. Isto assim, contado por ela.
Como já era de esperar, o Departamento levantou-se em burburinho, daquele burburinho muito ruidoso que só nós, professores, somos exímios em criar. Que o Ministério isto, que a Ministra aquilo, que o Governo não sei o quê. E, depois, eu, que até costumo ficar caladinha nestas situações, deixei escapar que o Governo que o Ministério que a Ministra coisíssima nenhuma; que o problema começa aqui, com cada um de nós. Ui! Disse-o baixinho, mas foi o suficiente para me exigirem explicações. E eu dei-as: tu, que te rebelaste contra o concurso para titular, és titular, candidataste-te à vaga; tu, que te indignaste com a avaliação de desempenho docente seguiste as indicações propostas e avaliaste-me; eu, que também me indignei, preenchi o formulário que a escola disponibilizou e auto-avaliei-me; o Conselho Executivo a quem eu fui perguntar por que não se recusava a avançar com a avaliação respondeu-me que não queria prejudicar os contratados onde eu me incluo e zás!, criou uma comissão de avaliação.
Que não, que não haveria nada a fazer. Rispostei: claro que havia tudo a fazer. Tudo. Era não aceitar o que nos parece inaceitável.
Mas aceitámos, não aceitámos? Por que nos queixamos agora?

O Governo o Ministério a Ministra fazem o que acreditam ser o que de melhor podem fazer pelo país. Erram. Errar é humano. E nós erramos, porque sabemos que não é aquele o caminho, mas seguimos, porque, pura e simplesmente, nos mandam seguir assim, por ali, daquela maneira. E este nosso erro é mais grave, muito grave, porque gerido por inconvicções acobardadas.
Sou tresmalhada, mas, confesso, gostaria de ser suficientemente corajosa para sê-lo mais. Muito mais.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Felizes Juntos: primeiro ano

Os rapazes mais bonitos da blogosfera estão de parabéns.
Ah, pois!, o meu Paulo do Zé e o Zé do meu Paulo. Ora, quem mais?
Para os leitores assíduos do meu Rabiscos e Garatujas estes dois dispensam qualquer tipo de apresentação. Sobre o Paulo tenho escrito algumas coisitas, como por exemplo este post. Quanto ao não tenho sido tão assídua, reconheço. E estão os dois de parabéns pelo primeiríssimo aniversário do Felizes Juntos.
O FJ é um blogue especial, como eu já ali afirmara. É, aliás, para mim, o blogue dos blogues, na sequência do qual acabei por me decidir na criação do RG. O que ambos têm em comum é a aventura no exercício da escrita intimista, paixão que nos uniu, a mim e ao Paulo, no seminário d' A Professora. Depois, optámos por caminhos singulares: eu segui o trilho do exagero que me caracteriza - desconstrução, reconfiguração, autoficção, hipérbole e ironia; eles não resistiram às potencialidades da informática. Para além das palavras, o Felizes Juntos presenteia-nos com música e imagens e um pouco de muito. Com Arte que os autores fazem questão de connosco partilhar. Com momentos de reflexão sobre isto e aquilo. Com pausas para humor e com intervalos para suspiros.
O Felizes Juntos comprova-nos um Paulo furacão e um Zé sempre muito bem centrado.
Eu gosto muito, muitíssimo, destes dois gajos e, também, como já se sabe, do blogue com que ambos cantam a felicidade que diariamente controem juntos.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Tobias 2008

Hi, Denise! You look great!
Ora viva! Está com muito bom aspecto, menina!
C'est toi, Denise?! Je te dirais plus jeune que l'année dernière...

As boas-vindas dos clientes da casa e a boa-disposição dos mais recentes que com ela já simpatizaram.

Regressei ao Tobias e o RG só ficará a ganhar: não tardarão aí Les Gaffes du Jour.

sábado, 5 de julho de 2008

Bio(?)combustíveis

O ocidente não pode preocupar-se com o destino do Ambiente e, ao mesmo tempo, desligar-se do destino de outros povos.
HR

Qual a relação entre produção de etanol, biocombustíveis, civilização ocidental, ecologia, alimentação, inflação, pobreza, miséria, fome, lóbis, política e desflorestação?
Por que se inquietam instituições como Food and Agriculture Organization, Banco Mundial, União Africana ou Earth Policy Institute?
Quando compreenderemos que tudo, mas tudo, tudinho, está interligado e que cada um de nós é parte e solução dos problemas que afligem a humanidade?

Leiam o artigo das páginas 2-4 da Newsletter nº 24 do Instituto da Defesa Nacional, «O Desastre do Biocombustível», assinado por Henrique Raposo e, depois, vá, alimentem o depósito do vosso veículo com o milho que está demasiado caro para atestar o estômago de alguns biliões de famintos....

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Actualização

Não é preguiça nem má vontade. Fico sempre muito destrambelhada no que toca a emoções e às vezes surpreendo-me em plena montanha-russa. Aproveito a calmaria para reiterar o meu pedido de desculpas ao Francisco que lançou o repto e a todos e todas os/as que têm acompanhado com algum interesse a sucessão de posts que tenho vindo a dedicar à L(T)PI - Literatura (também) para a Infância.
Terminei o ponto 2 e convido-vos para o debate aberto na caixa de comentários. Já me conhecem: aceito e agradeço sugestões, rectificações e, sempre que necessário, um bom puxão de orelhas.

Segue-se o ponto 3: Cânone e Actualidade (Literatura Lusófona Contemporânea). Preparem-se, TUlinho e André!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Um baobá para o TUlinho

(... um dia destes sou que reclamo mimos!
Isto diz-me ele no messenger, já depois da meia-noite, entre risos, cumplicidades e tontarias muito só nossas)

É óbvio que quando mimamos não esperamos pela retribuição. Nem, muito menos, exigimo-la. Como em tudo o que é verdadeiro, autêntico. Simpatia. Amizade. Paixão. Amor. Por aí adiante. Acontece que, quando há sintonia no gesto, no olhar ou, simplesmente, no respirar, algo se vai cultivando, sedimentando, e a vontade de mimar quem nos mima é pura e simplesmente incontornável.

O TUlinho oferece-me flores. Aqui e ali. Não daquelas envoltas em papel transparente, com um laço vistoso, e que enchem os cofres desta ou daquela florista. Nada disso. O TUlinho é menino, mas vai longe. As flores que me oferece são das que gosto: as colhidas pela espontaneidade convidativa do momento. Melhor: as que se insinuam por palavras, vírgulas e disposição no espaço da linguagem. Essas não se arrancam do solo. Não murcham. Não definham. São perenes. Gosto de flores. Gosto de gestos. Gosto de palavras. O TUlinho ou o intui ou já o sabe. Leu, viu, sentiu que eu não estava bem. Os amigos mimam-se nestas ocasiões. Presentificam-se. O TUlinho é meu amigo. E ofereceu-me, assim, em tríade maior, Violetas e outras flores para a Denise.

Para ti, T., uma árvore, também toda ela erecta por palavras:

Um pé de rosa amputado dura quanto durava no chão a saliva de minha avó. Melhor plantar uma árvore. A sua saúde pode simbolizar a vitalidade do amor. Um grande amor, um baobá.
Suleiman Cassamo, Amor de Baobá

Baobá

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Parabéns, gémeos

Hoje é dia de festa! O CyberCultura e Democracia Online e o CyberPhilosophy festejam o seu 1º aniversário. Formam a casa virtual do meu ilustre amigo filósofo-cientista J Francisco Saraiva de Sousa que connosco partilha as restantes divisões: o CyberBiologia e CyberMedicina e o NeuroFilosofia.
Sobre este espaçoso T4, que descobri em princípios de Abril, já havia redigido umas breves linhas. A propósito da minha incapacidade em explicar o conceito de sensualidade... Mas hoje é dia de centrar todas as atenções aos gémeos aniversariantes, ao blogger-pai, à casa acolhedora de portas sempre tão generosamente abertas.
Eu gosto da casa do F. Ali habitam intelecto, conhecimento, boa-disposição e afecto. Aprendo o que não sei e relembro o que já nem sabia saber, conheço novas e diferentes perpectivas que consolidam ou refomulam as minhas, brinco e rio também. Gosto do Francisco. É o exemplo vivo da humanidade que às vezes esquecemos nos académicos e nos intelectuais. Admiro-lhe a escrita veloz e sólida, mesmo que nem sempre acompanhe ou concorde com que que advoga. Admiração séria. Mas a simpatia nasceu no espaço dos comentários, onde se equilibram muito saudavelmente realismo e quixotismo, simpatia e um humor que, embora involuntário, lhe dá aquela pontinha de charme.
Na casa do F. conheci os seus amigos que agora também são meus: o André, do Brasil, muito atento e muito amável; a vaporosa Papillon, de uma completude muito rara, já em vias de extinção; o Manuel, meu Vizinho, que me preenche os dias e os sonhos.
Gosto da casa do F.
Hoje é dia de festa e aqui ficam os meus parabéns.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Dádiva

Até há bem pouco tempo atrás eu acreditava na possibilidade de uma candidatura ao grau de santidade. Afinal, nunca me amedroentei com o factor morte. Pelo contrário. Não fossem os meus pais segurarem-me, nem teria chegado à puberdade, tal era a vontade de partir para o mundo espiritual onde eu cria piamente pertencer. Se bem se lembram, bastava voar daquela janela. Depois, sempre houve o desprendimento pelos bens materiais. Nunca me faltou verdadeiramente o essencial, mas eu sempre me imaginei despojada de tudo e, contudo, heroicamente erguida. A verdade é que para a estupefacção de alguns não carpi com o desemprego súbito; e para a surpresa de outros me tenho segurado muito bem sob o meu novo tecto com a respectiva perda de comodidades múltiplas. Há sempre a preocupaçãozinha. Óbvio. O vestido que não foi ainda este ano porque eles continuam a crescer e são sempre a prioridade. O livro da lista interminável. As lentes de contacto. O rigoroso cumprimento da lista na ida à mercearia. Mesquinhices que nem chegam a afligir, porque a mana engordou mais um bocadinho e acaba por oferecer o vestido do ano passado, porque a biblioteca municipal não está assim tão ruim quanto isso, porque os óculos até ajudam a disfarçar as olheiras, porque quando a dispensa esvazia e eles pedem mais alimento há sempre o recurso aos avós. Mesquinhices que até ofendem...
... esta, a minha santidade...
Mas a vida dá-nos muitas lições e uma delas é a da humildade. Terei, porventura, capacidade para suportar as provações materiais. Porventura. Mas a minha faina é outra. E assim que a descubro compreendo que a santidade, essa, já era. Nem sequer me atrevo a pensar, ao menos, na beatificação. Eu não posso revolucionar o mundo porque estou, ainda, a aprender a minha revolução interior. Os beatos e os santos querem-se serenos, confiantes, pacientes, dulcíssimos. Pensam em longo prazo. Vêem mais além. Ora eu até sei do mais além, como sei perfeitamente que não há mal que sempre dure... Isto quando estou tranquila, confiante e muito doce. O problema é quando me viro ao avesso. E tal é a tempestade, a ventania e os maremotos e a erupção vulcânica, tal é a actividade atmosférica, marítima e geológica que turbilha dentro de mim que a poeira em que me vejo embrulhada me impede de enxergar um palmo à frente do nariz. Fico completamente cega. Entro em desespero. Soltam-se-me os sentimentos e ficam assim, à babujinha dos poros e dos olhos e da voz à espera de uma oportunidade que eu nunca dou. Não expludo. Impludo. Dá há uns seis anos para cá aprendi a dominá-los muito bem. Enfrento-os. Açoito-os. Esbofeteio uns quantos. Outros são decapitados. A alguns espeto umas boas alfinetadas nas pupilas avermelhadas. Muitos acabam pregados numa folha de papel reservada para a lareira do Natal. E há os que sobrevivem em carne viva e sem unhas: pairam por aqui no blogue dos tropos. Mas moem muito, os malfadados. Uns brutos duns exagerados. Hipérboles com ênfase. Agora experimentem juntar-lhes a Lua Cheia e a TPM... Combinação explosiva.
Estas minhas intempéries resultam, regra geral, com tudo tudinho o que tenha a ver com afectos. Família, amizades, paixões. Um beicinho, um malentendido, uma resposta mais rude, um olhar carregado, o silêncio, a ausência inesperada. Pronto. Fico sem dormir. Fico sem comer. Fico sem vontade de nada. Destrambelho. Há por vezes mapas e bússolas e placas de orientação. De tudo isso me socorro. A minha lucidez costuma ser uma excelente co-piloto e assim tenho conseguido manter o rumo.
E sempre a meu lado os formidáveis que brindam a cada uma das minhas vitórias e que me amparam ao mínimo desequilíbrio. Os meus amigos e as minhas amigas. Há os que se apercebem de uma ligeira ondulação no meu temperamento ameno. Há os que sorriem e sentem o cheiro a esturricado pelo meu fogo ariano. Há quem, em pleno messenger, e sem me conhecer pessoalmente, me tenha garantido pensar em abrir uma excepção só para mim nas suas incredulidades astrológicas, porque eu sigo em frente e zás!, mergulho de cabeça, mesmo antes de testar a profundidade das águas. Há quem me saiba nervosinha e tempestiva e me berre para me acalmar. Há quem fuja. Há quem me diga muito torcidinha como os cornos de certas cabras. Sou eu. Mas não firo ninguém. Apesar de também me compararem a uma granada que deixa estilhaços em tudo quanto a rodeia. Por isso corrijo: procuro não ferir ninguém. Impludo. O problema é que, por vezes, há quem habite dentro de mim...
Eu tenho amigos e amigas do melhor. A minha dádiva. Chegam-me por carta, por mail, por telefone, por blogue. Chegam-me também assim, em carne e osso, com um abraço do tamanho do mundo. E eu compreendo que não estou sozinha. Ajudam-me a vencer este monstro que habita em mim e, em menos de dois tempos, o demónio vira gente e de gente passa a santa. Outra que não a Santa Denise, padroeira das escolhas mal feitas.

(eu sou uma privilegiada e mereço setecentas e noventa e três e meia impiedosas vergastadas sempre que ouso soltar o mais ínfimo dos queixumes)

***

Hoje amainei ao piano. Soltei a força com Lizst. La Chapelle de Guillaume Tell. Fiquei extenuada e recordei-me de quando estudara esta peça. Trabalhara imenso com uma professora que com a força do seu ataque conseguiu partir uma das cordas mais grossas do piano. Trabalhei muito e foi uma ovação no concerto final que apresentei no Museu das Janelas Verdes.


Depois acalmei com Bach. Eu amo Bach. O maior dos maiores. Prelúdio e Fuga em Lá menor. O cromatismo sempre mexeu muito comigo. A mão esquerda está perra, mas suavizei.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O meu silêncio...

... tem os seus motivos: eu não estou bem.

Sempre sobrevivi muito airosamente às provações materiais. Passam-me ao lado. Posso ficar desempregada, posso não conseguir renovar o guarda-roupa, posso ter de me conter na aquisição de livros. Posso, até, passar fome. Fica aquela preocupaçãozinha a pairar. A certeza, porém, de que melhores dias virão.
Mas não me alucinem a afectividade. Fico destrambelhada. Inteiramente fodida. Pior que uma barata tonta. O meu calcanhar de Aquiles. Também sei que sobreviverei, mas a relatividade do tempo é soberana e acena-me com uma eternidade dolorosa.

Mantenho-me em pausa por aqui. A escrita, agora, em caneta no diário de papel que em Dezembro alimentará a fogueira das palavras a esquecer.

Por ora, tenho andado assim:


Dizem que a mudança ajuda a espairecer. Vou experimentar. Está na hora de trocar a roupa interior. Esta já enjoa.

sábado, 7 de junho de 2008

Três poemas

Durante a minha ausência de sensivelmente uma semana, três poemas numa linha muito diferente da erótica a que vos fui habituando.

*
O javali
Pastava versos de Virgílio
No bosque sagrado de Diana
Sob a abóbada lunar
Saboreava os númens da deusa casta

Veio o Obélix...
e comeu-o

*
Aquele Formiga de barbas
Que sobreviveu
À Primeira
E à Segunda Guerra Mundial
E ao bombardeamento de Tel-Aviv
E aos horrores da Bósnia-Herzgovina
E escapou a incontáveis sapatadas
Faleceu ontem
Às cinco da tarde
De pura velhice

(Não há funeral, porque as formigas não se enterram)


*
Pica pica
Picalarica o Pica-Pau.

Ui! O meu dedo!

in AAVV, Et Cetera... E Coisas Afins, ed. autor, 1997
(com pequeninas modificações
)

... e até ao meu regresso!...

Sílvia

Ela chegou ao RG graças ao estonteantemente belo Constantino Xavier. E gostou. Da forma como escrevo, de como me redesenho e, em particular, da etiqueta Manelinhos. Gostou e ficou. Tanto, que do blogue ao mail foi um passo. E por mail fomos timidamente construindo uma amizade muito simpática.
A Si mora em Inglaterra. Ali estagiou em arquitectura. Ali ficou. Regressa a Portugal de quando em quando pela família, pelos amigos, mas também pela terra lusa. Saudade.
Desta vez conseguiu uma promoção imperdível para o Algarve. Ora, logo onde! Troca de contactos telefónicos, indicações combinadas à exaustão, pus-me à estrada. Foi a primeira vez que conheci pessoalmente uma cyberamiga. Só fiquei a ganhar, garanto-vos.
Foi muito fácil reconhecê-la, porque já nos havíamos lançado numa alegre partilha de fotos a cores. Mas a Sílvia é muito mais bonita ao vivo. Tem uns olhos grandes húmidos e pestanudos, um sorriso encantador e um timbre de voz muito agradável. Para além do mais é autêntica, espontânea, simpática e bem-disposta.
Foi um almoço prolongado, na companhia do sobrinho bebé e da mana mamã que comprovou a informação genética contida no rol de qualidades anterior. Contou-me a mana Sara ter-se dedicado recentemente ao cultivo de uva graúda. Sorri. A net tem me trazido gente do campo. Gente simpática, bonita e muito interessante.
A Sílvia regressará ao Algarve. O tempo falará por si, mas creio que estão lançadas as sortes para aquilo a que se chama Amizade.

Entretanto, entre mails e RG, a Sissi também pára no Lendas e Legendas, o blogue dos filmes e dos livros, escrito a 10 mãos.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Literatura (também) para a Infância - II. 2. Breve História

O aparecimento, no âmbito da chamada, ‘literatura escrita’, de textos de literatura infantil constitui um fenómeno historicamente recente, mas as raízes da literatura infantil produzida e recebida oralmente afundam-se na espessura dos tempos e apontam para matrizes várias: mitos, crenças e rituais religiosos, ivariantes ou ‘constantes antropológicas do imaginário’, símbolos ligados ao trabalho e às suas relações com os ciclos da vida da Natureza, a contecimentos históricos... Narrativas, canções, adivinhas, etc., destinadas a educar e a satisfazer ludicamente as crianças têm circulado assim oralmente, desde há muitos séculos, por toda a Europa, transmigrando de região para região, sofrendo adaptações ou modulações em função das épocas, dos espaços geográficos e das comunidades sociais, sem que lhes possa assinalar quase nunca uma autoria razoavelmente identificada (em muitos casos, aliás, tem de se concluir pela ocorrência de fenómenos de poligénese).
Vítor Manuel de Aguiar e Silva

Recupero estas palavras de V. M. de A. e S. que sintetizam sempre tão bem a estreita relação da actual Literatura (também) para a Infância com as suas raízes mais ancestrais: a Literatura Tradicional de Transmissão Oral.

O conceito de Literatura que se reduz aos conceito de livro e de escrita é, como nos alerta Aguiar e Silva, a negação, a desmemoriação de um património ancestral tão antigo quanto a própria humanidade, porque o ser humano o é pela linguagem e porque pela linguagem se narra e se reinventa, a si e ao Outro, a tudo o que o rodeia. E muito embora o conceito de Infância só recentemente tenha sido alvo de uma atenção mais sistémica, a produção literária a ela especificamente ou também destinada, assim como a por ela apropriada, inscreve-se nessa antiguidade em que o Verbo era ouvido e apreciado em comunidade. Não se confunda, pois, e independentemente da entidade receptora, História da Literatura com História do Livro.
Sabe-se que na Literatura primordial a palavra imbuía-se de magia e de fantasia. Através dela se exercia o poder da protecção e o da ameaça, através dela se abençoava e se maldizia, através dela se perpetuavam os feitos de outrora e se profetizavam os feitos futuros. A imagem e a consciência do self, do mundo e da relação entre ambos construía-se em articulação com a consolidação de um sistema de valores cuja apreensão era mais eficaz quando o registo simbólico e metafórico era utilizado na reconfiguração do real empírico em real textual.
Mantendo a função lúdica como função primordial da manifestação da Arte, a Literatura já nesses tempos remotos desempenhava uma função pedagógica e social: reforçava os valores constituintes de uma comunidade através do recurso ao exemplum e sedimentava os laços de união entre os seus membros.
A transmissão era feita, como se sabe, oralmente e, assim, a palavra passava de boca em boca e de geração em geração. Os registos escritos mais antigos que chegaram até nós datam de breves séculos antes de Cristo e provêm do território oriental: Índia, China, Egipto e, ligeiramente depois, Grécia e Roma. Recordo alguns títulos conhecidos como Panchatranta, Hitopadesa, Bai Juan Zhuan, Calila e Dimna, Sendebar, Barlam e Josafat ou As Mil e Uma Noites cuja divulgação se deu apenas no séc XVIII da nossa era graças a uma tradução e adaptação francesa de Galland. Havia, também, os mitos que, posteriormente dessacralizados, originaram os contos agora chamados tradicionais de transmissão oral e, posteriormente, começaram a surgir as lendas nas suas mais variadas concretizações.
Estas narrativas, não sendo contadas especificamente para as crianças, eram por elas também ouvidas, já que se integravam no grande grupo comunitário que se reunia depois dos trabalhos diurnos para o convívio junto à fogueira. Eram as estórias que se disponibilizavam, sem outras alternativas como as da actualidade. No entanto, é plausível que essas estórias agradassem o público mais jovem, devido aos ingredientes com que se teciam (aventuras, maravilhosos, fantástico, mágico) independentemente da configuração mais prosaica ou mais poética.
Há quem advogue nítidas semelhanças entre a mente da criança e a mente do homem de outrora, no que à imaturação da capacidade de abstracção diz respeito. O discurso metafórico veicula mais eficazmente valores, ideiais e normas de conduta que oralmente se adaptavam aos contextos, e que, com o surgimento da escrita se cristalizaram, tornando-se por vezes inadequados no que à vertente educacional diz respeito.
Quando hoje falamos de Esopo, Basile, Perrault ou La Fontaine, esquecemos, porém, que: 1. não foram eles os autores das narrativas compiladas; 2. os seus destinatários não eram as crianças; 3. muitos dos valores por elas transmitidos cairam em desuso.
No período romântico, a atenção votada à infância permitiu readaptações que se afigurassem mais adequadas. Assim o fizeram os irmãos Grimm, por exemplo. Por outro lado, foi a partir desse período que começou a florescer uma produção escrita especialmente destinada às crianças e um reconhecimento canónico mais ou menos consensual onde o sonho e a contrafactualidade se sobrepôs à poética aristotélica e horaciana.
Assim, ao lado dos clássicos da Literatura pensada para as crianças - Peter Pan, Alice no País das Maravilhas ou Pinóquio, entre outros – coexiste toda uma literatura que por elas tem vindo a ser apropriada: as rimas ancestrais, os mitos mais remotos, os contos tradicionais, as lendas, as fábulas consagradas por Esopo, Fedro e La Fontaine, Amadis de Gaula, O Ciclo do Rei Artur, e outros romances de cavalaria, D. Quixote, Robinson Crusoé, As Viagens de Gulliver, O Senhor dos Anéis e por aí adiante.
Ignorar a História da Literatura, seja ela para crianças ou não, a História da Arte, das Mentalidades, a História, enfim, é circunscrever a potencialidade receptora do texto literário, insentando-o de uma memória que lhe é intrínseca e descontextualizando-o na sua relação dialógica com outros tempos, outros saberes e, assim, dezenraizando-o de si mesmo.

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Sugestões de leitura
(ordenação alfabética por autor; datas das edições que tenho em casa)

COELHO, Nelly Novaes. Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil, S. Paulo: Quíron, 1985.
COSTA, Maria José. Um Continente Poético Esquecido - As Rimas Infantis, Porto: Porto Editora, 1992.
DIOGO, Américo António Lindeza. Literatura Infantil - História, Teoria, Interpretações, Porto: Porto Editora, 1994.
GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à Literatura Infantil e Juvenil. S. Paulo: Pioneira, 1984.
SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e. «Nótula sobre o Conceito de Literatura Infantil», in SÁ, Domingos Guimarães de. A Literatura Infantil em Portugal, Braga: Editorial Franciscana, 1981.
TRAÇA, Maria Emília. O fio da Memória - Do Conto Popular ao Conto para Crianças, Porto: Porto Editora: 1992.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Infância revisitada - aquele tempo sem tempo do Paulo

Eu destemi-me com o «Da queda de uma heroína». Chegou a vez do meu Paulo do Zé. Já não era sem tempo! (É que, para além de ser todo bonitão, o Paulo é um homem cheio de virtudes e cultiva a arte do bem escrever).
A sua história de vida intitula-se «Uma memória de infância» e esta semana foi lida pelo Miguel Guilherme e brevemente comentada pela linda Inês no História Devida da Antena 1.

Para ler e ouvir.

Literaturas Africanas

Havia lançado, na caixa de comentários deste post, um desafio ao TUlinho.
O TUlinho é um moçoilo às direitas. Aceitou o repto e zás!, escreveu o «Literaturas africanas em questão» para me/nos explicar as subtilezas das diferentes designações a que este tipo de literatura é sujeito.
Convido-vos à leitura do texto e, já agora, a uma visita ao blogue, o Tulisses!

(O meu TUlinho é um querido. Por tudo. Mas também porque dedicou o post a mim!)

terça-feira, 3 de junho de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - II. Conceitos: Literatura (também) para a Infância

1.3.1. Terminologia

Correndo o risco de ser lida como perigosa lacaniana, afigura-se-me inevitável uma reflexão sobre a terminologia que adoptei quando aceitei o repto do meu amigo filósofo-cientista JFrancisco. A linguagem verbal concretiza, através da língua, as representações mentais com que estruturamos emoção e cognição. Uma reflexão séria sobre este instrumento vital permite um maior rigor na expressão do pensamento e dos sentimentos. Uma maior adequação, também, do acto comunicativo.
Ora, não foi aleatoriamente que optei por utilizar a expressão Literatura (também) para a Infância como referente linguístico do fenómeno literário sobre o qual me comprometi a escrever. Esta área de estudos não se tem pautado por uma adopção pacífica e consensual da terminologia e eu procurarei justificar a minha opção.

Literatura Infantil
É a expressão mais comumente usada no Brasil e não raras as vezes utilizada em Portugal. Nos países francófonos, porém, só muito raramente se fala de Littérature Enfantine e nos anglófonos não existe o conceito de Childish Literature.
Se pensarmos um pouco na polissemia do adjectivo infantil poderemos encontrar razões de sobra para um descarte consciente. “Relativo a crianças”, é certo. Mas também “pueril”, “ingénuo”, “inocente” com toda a aura pejorativa de que a palavra se pode rodear. Existiam, antes, professoras primárias e educadoras infantis (uso aqui propositadamente a flexão no feminino, por uma questão de maior número de profissionais mulheres na área). Concluiu-se, posteriormente, que as primeiras nada tinham de primário e que no perfil das segundas não caberia a imaturidade. Passou-se a falar de professoras do primeiro ciclo e de educadoras de infância. O mesmo se passa com a Literatura que permite também às crianças uma participação na esfera da recepção. Uma Literatura digna e dignificante que não se compadece com a imaturidade dos diminutivos floreados ou a retórica paupérrima porque demasiado simples no sentido de simplista. Uma linguagem que tranca o receptor, uma linguagem que não é libertadora, não é nunca uma linguagem literária, mas sim uma linguagem infantil, no sentido etimológico da palavra – incapaz de loquência.
Um outro aspecto a considerar relaciona-se com a ambiguidade que o adjectivo encerra, relativamente à (in)definição da esfera da produção / esfera da recepção. Literatura feminina é literatura feita por mulheres? Para mulheres? Questões falaciosas porque a feminilidade reside no próprio texto? Literatura gay, literatura negra... os rótulos falam por si... Literatura infantil é literatura produzida por crianças ou para crianças? Literatura das crianças? Ou residirá a infantilidade no seio do discurso?
Em nome do meu conceito de rigor científico, repudio a ambiguidade que vislumbro na expressão Literatura Infantil.
Literatura para a Infância
Esta expressão, de que há a variante Literatura para Crianças, coloca a tónica do acto comunicativo no canal da recepção.
A expressão é, no entanto, um tanto incoerente, antitética, ouso afirmar, no sentido em que a Literatura enquanto Arte não pode se compadecer com a circuscrição da sua liberdade ao tipo de receptor.
Por outro lado, sabe-se que nem toda a Literatura a que as crianças aderem foi necessariamente produzida para elas, assim como outras obras há que, criadas para o universo adulto, foram alvo de uma apropriação inesperada e, eventualmente, como me alertou a Tia em conversa ao telefone, haverá obras propositadamente pensadas para crianças que terão sido por elas ignoradas e acolhidas pelos adultos. O próximo post desta série demorará sobre estas questões.
Literatura (também) para a Infância
A expressão foi-me apresentada há alguns anos pela sua autora, a Professora Olga Fonseca, da Universidade do Algarve.
Soou-me bem. Os parênteses demonstram uma preocupação em salvaguardar os seguintes aspectos:
1º - É uma Literatura que pode ter sido criada efactivamente em função da criança ou não, tendo sido por ela posteriormente apropriada;
2º - É uma Literatura para tod@s; uma Literatura que, pela flexibilidade da linguagem com que se constrói e pelos valores elevados, sejam eles estéticos ou éticos, que deixa transparecer, permite a inclusão da criança no seio da recepção;
3º - É uma Literatura que recentra a noção de infância, na medida em que não segrega os receptores pela sua faixa etária ou estádio de desenvolvimento nem os exclui da qualidade a que os adultos almejam para si mesmos. É uma expressão que devolve a dignidade à criança e a percepciona como membro importante de uma comunidade.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Tenho andado assim...

... com sôdades...


(Ai, que saudade d'ocê. Por Badi Assad)


Não se admire se um dia um beija-flor invadir
A porta da tua casa, te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo ai que saudade d'ocê

Se um dia você lembrar escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio com frases dizendo assim:
"Faz tempo que eu não te vejo,quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijos, ai que saudade sem fim."

(E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro
Eu chorando pela estrada mas o que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina eu gosto mesmo é d'ocê)*

* A parte entre parênteses não interessa (para já).

domingo, 1 de junho de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - II. Conceitos: Literatura (também) para a Infância

1.3. Literatura (também) para a Infância
Reconhecendo que os conceitos de Literatura, Literariedade e Infância resultam de estruturas sociais e culturais, contextualizadas em espaços e tempos precisos, o que conseguirei eu escrever sobre o conceito de Literatura (também) para Infância? E qual a necessidade dos parêntesis e onde os fui desencantar? Questões de terminologia também por reflectir.

Partamos do princípio que a Literatura é apenas só uma. Fenómeno estético com repercussões éticas , como a Arte em geral. Existem, depois, especificidades perante as quais não conseguimos ficar indiferentes. A Arte é plural. A Literatura, ainda que una, também o é. Sobre o assunto, e a propósito da eventual existência de uma Literatura Gay, já havia escrito estas breves linhas, enriquecidas pelos excelentes e sempre pertinentes comentários da Tia do meu coração, que se alongaram a propósito de um poema do Eduardo Pitta. Entretanto, o meu Paulo do Zé escreveu, no FJ, este texto bastante esclarecedor que me obrigou à necessária rectificação.
No que diz respeito à Literatura (também) para a Infância, convém sublinhar, e disso faço questão, que a sua essência é exactamente a mesma da Literatura. Porque, pura e simplesmente, é Literatura. A singularidade reside na esfera da recepção: a infância.
Durante muito tempo, e ainda hoje para os mais desprevenidos, este tipo de Literatura, porque associada à Infância, é marginalizada com o prefixo para- e assim considerada menor. Há textos e textos e muitos deles, escritos ou orais, insultam a dignidade das crianças e de cada um de nós. Mas esses textos, apesar de serem divulgados e ampliados como arte pelo marketing capitalista que visa o consumo desenfreado da massa metabolicamente reduzida (ah, JFrancisco, mas como eu deliro com estas suas expressões!) não são textos literários. São lixo. Um insulto. Uma vergonha.
Na verdadeira Literatura (também) para a Infância, a sua essência, os valores estéticos e éticos, não é reduzida a borboletinhas e florinhas e desenhos coloridos. A verdadeira Literatura (também) para a Infância responde às necessidades e às expectativas dos seus receptores, onde se incluem as crianças.
Acredito, por isso, que se torna irrisória a teima com que se aventura a esfera da produção. Muito em voga aliás. Hoje, todo o escritor que se preze tem de escrever pelo menos um livro para o público de tenra idade. Resta saber se o público adere a estas sucessivas invectivas. Regra geral adere, porque foi deseducado e porque, também para isso, contribuem mecanismos de intelectuais reconhecidos em quem, em caso de dúvida, que é constante, é costume atribuir o voto de confiança. Os avanços científicos da psicologia e da neurologia permitem-nos compreender o que, o como e o por que dos interesses das crianças. Diacrónica e sincronicamente. Não acenam, porém, com receitas que antecipem os êxitos de vendas.
A Literatura (também) para a Infância fala directamente com a infância. A Literatura (também) para a Juventude fala directamente com a juventude. Hoje. Mas ontem também. E dado o carácter perene e universal da Arte, amanhã certamente. Com a óbvia oscilação crítica a que a clepsidra convida. Assim, textos inicialmente destinados a adultos foram apropriados por crianças e textos especificamente produzidos para elas ficaram soterrados no esquecimento e no pó das prateleiras. Não convém, ainda, esquecer a dimensão individual de cada criança (da sua competência linguística, literária, ideológica...) que se deleita com textos de uso supostamente exclusivo do adulto. Fronteira fluídicas, portanto.
Sendo um ser em formação, as escolhas literárias, artísticas (como tudo em geral) deverão ser criteriosa e responsavelmente orientadas. Tarefa destinada aos pais, aos educadores, aos professores. Aos dirigentes políticos, com certeza. Mas também a cada um de nós, co-responsáveis pelo progresso da humanidade e determinantes na elevação da exigência estética e cultural de cada um dos actos da nossa sociedade.
Para além da sua função lúdica, o fenómeno artístico, e literário, deverá desempenhar uma função pedagógica a vários níveis, num convite sério à aprendizagem, ao crescimento intelectual, afectivo e emocional. A Literatura, como a Arte, permite mudar a vida e mudar de vida. Permite a reinvenção. Do self. E, na sua interação com o Outro, do mundo.
Sobre a verdadeira essência da Literatura e sobre o perigo da redução do ser humano pela palavra, recupero as seguintes palavras de Carlos Drummond Andrade:
A partir de que ponto uma obra literária deixa de constituir alimento para o espírito da criança ou do jovem e se dirige ao espírito do adulto? Qual o bom livro para crianças que não seja lido com interesse pelo homem feito? Qual o livro de viagens ou aventuras, destinado a adultos, que não possa ser dado a crianças, desde que vazado em linguagem simples e isento de matéria de escândalo? (...) Será a criança um ser à parte? Ou será a literatura infantil algo de mutilado, de reduzido, de desvitalizado – porque coisa primária, fabricada na persuasão de que a imitação da infância é a própria infância? Vêm-me à lembrança as miniaturas de árvores com que se diverte o sadismo botânico dos japoneses; não são organismos naturais e plenos, são anões vegetais. A redução do homem que a literatura infantil omplica dá produtos demelhantes. Há uma tristeza cómica no espectáculo desses cavalheiros amáveis e dessas senhoras não menos gentis, que, em visita a amigos, se detêm a conversar com as crianças de colo, estas inocentes e sérias, dizendo-lhes toda sorte de frases em linguagem de gente grande, apenas deformada no final das palavras e educadas na pronúncia... Essas pessoas fazem oralmente, e sem o saber, literatura infantil!
Argumenta a Tia Adoptada, por incansáveis vezes e sempre muito bem, que aquilo que não é bom para nós, adultos, não será, obviamente, bom para as crianças. E é verdade. Para elas, tendemos a reservar o melhor bocado. O que lhes agrada, se de qualidade, também nos agradará. E assim deverá acontecer com a Arte, com a Literatura, cujas funções não se confinam às de ordem estética, lúdica. Efectivamente, cada texto encerra uma ideologia centrada na própria natureza literária ( num convite a reflexão metalinguística, importantíssima para o reconhecimento e recriação do mundo e de si mesmo através da linguagem) ou extrapolando-a em estímulos de dimensão ética, política, sociológica e culturalmente responsabilizadora. As raízes da actual Literatura (também) para a Infância mantêm viva a arte da memória cultivada oralmente noutros tempos. Nos dias de hoje, a escrita tornou preguiçosas as mentes contemporâneas. Mas há, ainda, réstias de esperança que bruxuleiam aqui e ali e se reavivam na recuperação de um património tradicional de transmissão oral que não está, apesar de tudo, esquecido e perdido. Por outro lado, os estudos relativos ao desenvolvimento da criança, o cultivo da literacia, e a facilidade da difusão editorial permitiram a multiplicação de oferta onde se encontram objectos-livro francamente muito bons.
Sem querer abusar do recurso à citação, não posso deixar de dar voz a Vítor Manuel de Aguiar e Silva que expõe magistralmente a seguinte síntese:
(...) a literatura infantil, quer oral quer escrita, tem desempenhado uma função relevantíssima, atendendo aos seus destinatários, na modelização do mundo, na construção dos universos simbólicos, na convalidação de sistemas de crenças e valores. E, mais à frente, remata que Aprender a conhecer a língua materna, os seus mecanismos sintácticos, semânticos e pragmáticos, equivale a modelizar de modo mais consciente e livre o mundo, os realia, porque toda a servidão espiritual, intelectual e moral, sobretudo a que se ignora a si mesma, é indissociávle de uma manipulação, de um terrorismo da linguagem.

A Literatura (também) para a Infância desempenha um papel vital na edificação da Grande Recusa de que fala o JFrancisco no seu blogue principal (CyberCultura e Democracia Online) e na qual cada um de nós tem o dever moral de participar.

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Sugestões bibliográficas (ordenação alfabética por nome de autor; datas das edições consultadas)
- Apelo sempre em aberto ao contributo de V. Exas leitores e leitoras deste blogue -

ANDRADE, Carlos Drummond. Confissões de Minhas, Rio de Janeiro: Aguilar Editora, 1964.
CARVALHO, Bárbara Vasconcelos de. A Literatura Infantil – Visão Histórica e Crítica, S. Paulo: Global Universitária, 1987.
COELHO, Jacinto do Pardo (dir.). «Infantil, Literatura» in Dicionário de Literatura, 2º vol., Porto: Figueirinhas, 1983; 468-475.
COELHO. Nelly Novaes. A Literatura Infantil, S. Paulo: Quíron, 1984.
DIOGO, Américo A. Lindeza. Literatura Infantil – História, Teoria, Interpretações, Porto: Porto Editora, 1994.
GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à Literatura Infantil e Juvenil, S. Paulo: Pioneira, 1984.
LESNIK-OBERSTEIN, Karín. «Defining Children’s Literature and Childhood», in HUNT, Peter (ed.), The International Companion Encyclopedia of Children’s Literature, London: Routledge, 1996; pp. 17-31.
MEIRELES, Cecília. Problemas da Literatura Infantil. São Paulo: Summus Editorial, 1979.
SHAVIT, Zohar. Poética da Literatura para Crianças, Lisboa: Caminho, 2003.
SILVA, Agostinho da. «Literatura Infantil» in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, Lisboa: Âncora, 2000; pp. 167-169. (1ª publicação em 1927)
SILVA, Vítor Manuel de Aguiar. «Nótula sobre o Conceito de Literatura Infantil», in SÁ, Domingos Guimarães de. A Literatura Infantil em Portugal, Braga: Editorial Franciscana, 1981; pp. 9-
15.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Rabiscos e Garatujas

Fugiu-me das mãos a divulgação deste blogue a um considerável número de pessoas que conhecem a Denise de carne, osso e cartilagens. Divulgação digerida, repreendida e perdoada. Nesse aspecto, assunto arrumado. Mas o blogue chegou a olhos incompetentes, inábeis, inaptos e inexperientes em tropos de linguagem, de pensamento e outros que tais. Ignoram o pacto de leitura. (Con)Fundem Denise e Deniblog. Chocam-se com o jorro de palavrões proferidos por quem jamais os profere, com a pulsão sexual inusitada, com a corporalidade desnudada, com a doutrina espírita, seita perigosa de bruxaria feitiços e vudu... Uma vergonha, este blogue. Para a autora e para quem na conhece. Um despropósito.
Assaltou-me um pensamento. Daqueles tão estúpidos tão insanos tão doentios que até agonia só o relembrá-lo: fechar o blogue. Fechar o blogue e abrir outro, com outro nome e outra assinatura.
O cacete.
Tenho erguido este meu país, este meu reinado, este meu império, palavra a palavra, respiração a respiração, com um carinho desmedido. A ele aportam simpáticos visitantes. Demoram-se. Alojam-se. É a população diegética do reino dos tropos. São os meus amigos e as minhas amigas virtuais. Outros e outras bem reais. Gosto deles. Delas. Sentimentos verdadeiros.
A Deniblog não cede a pressões.
A Deniblog não se verga perante a censura.
A Deniblog mantém o seu Rabiscos e Garatujas.
Porque,
e ao contrário do que parece,
a Deniblog não se expõe. A Deniblog reinventa-se.

Teimosa, tempestiva, obstinada, apressada, nervosa, ingénua, determinada, transparente. Absoluta.
Deniblog.
So what?!

terça-feira, 27 de maio de 2008

IPO

Levei o meu Polo à inspecção.
(Quer dizer, ainda não está em meu nome, tenho de tratar da seca dos papéis, mas é tarefa minha zelar pela viatura azul que me acompanha pela estrada fora.)
Levei o meu Polo à inspecção. Foi a primeira vez que o fiz sozinha. No ano passado, ia de mãos dadas e com direito a beijos nos entremeios. Ora, quando estou sozinha perante uma situação nova que não domino minimamente fico logo muito nervosinha, mais daquilo que já é o habitual. Coloquei-me na fila e esperei. Esperei. Esperei. Esperei. Até me aperceber que chamavam viaturas que haviam chegado depois de mim. Saí do carro já muito irritada a pedir explicações de tamanho desaforo. Lá me explicaram que era necessário dirigir-me à recepção com os documentos do carro e posicionar-me numa lista de espera. A minha sorte é que eu já estou tão habituada às minhas próprias barracadas que só me resta rir de mim mesma.
Recepção. Estava na fila um rapaz que eu reconheci sem saber de onde. Ele fez questão de mo recordar. Há alguns anos, ainda eu sentia dificuldade com algumas manobras, tentei um estacionamento em linha no centro da cidade. Não consegui à primeira, não consegui à segunda, nem muito menos à terceira. Desembestei. Não desisti. Teimei em que conseguiria. Foi quando me apercebi que um rapaz, encostado à parede, se divertia com a minha azelhice. Seria um pouco mais velho que eu e muito bem parecido. E eu fiz o que hoje reconheço ter sido arriscado. Saí do carro e disse-lhe. A ver se faz melhor. E ele, logo à primeira, e com apenas uma mão, enfiou o meu carro entre os outros dois. Pois era ele quem estava ali na IPO. Com o mesmo sorriso trocista, a indagar sobre os meus progressos na arte de estacionar.
Refugiei-me dentro do Polo. Li um pouco. Distraí-me com um dos jogos do telemóvel. Pensei na minha vida. Entretive-me a olhar os circundantes. Uma criança birrenta nas mãos exasperadas da avó, um cinquentão decrépito a vociferar caralhadas da janela do seu audi preto, um moçoilo desportista no seu jeep imaculado, uma mulher linda, alta, morena, de brincos e saltos altos, mas com demasiado rimel sombras e baton, um homem mais atrevido que me obrigou a desviar o olhar. Havia gente perfumada, gente mal cheirosa, gente asseada, gente amarrotada, homens com barba por fazer, homens de rosto limpo, mulheres deslavadas e mulheres de me deixarem com a inveja à flor da pele.
Chamaram-me finalmente. Era um moço simpático. Tenho tido sorte com as pessoas com quem me cruzo na vida. Gente afável. Viu o motor, o tubo de escape, as luzes, as rodas, o triângulo, e por aí adiante. Pedi que me explicasse as máquinas, as medições, os gestos, tudo. Implicou com a falta de líquido no limpa-brisas.
Não sei se foi pelo beicinho, pelo deslize no olhar, pelo sorriso enervado ou porque simplesmente o meu Polo é mesmo maneirinho... o certo é que o veredicto final foi positivo.
Nova nervoseira só para Maio de 2009.

Quem sai aos seus...

Por vezes esquecem-se dos preceitos e interrompem conversas para botar opiniões de lavra sua. Hoje voltou a acontecer. Eu nem sempre tenho paciência. Hoje não tive paciência. Mandei toda a psicologia p'ró cacete e explodi um Ó fedelho, quantas vezes já te disse para não te meteres nos assuntos dos adultos? Entretem-te com as tuas merdas, sim? Ele carregou o sobrolho, abraçou o irmão e seguiu para o quarto. Antes de desaparecer por detrás do piano, virou-se e mortificou um E nunca mais me voltes a perguntar como foi o nosso dia porque esses assuntos são merdinhas de crianças.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Lágrimas

Aprochegou-se e eu li-lhe humidade e vermelhidão nos olhos inchados. Beijei-lhos. Encostei-o a mim.
- Por que choras, meu querido?
- Não choro.
- Não choras. Choraste...
- Não chorei.
- Que me dizem os teus olhos?
- É alergia.
- Alergia?!
- Alergia...
- Mas tu não és alérgico a nada!...
- Sou.
- És?
- Sou alérgico à tristeza.

Para um poema basta-me falar com o Nuno.
Com o Tomás também.
Estes meus filhos...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Parabéns, TUlinho

É uma amizade relativamente recente, esta com o meu TUlinho. Foi meu colega no seminário de Ensino da Literatura. Eu a iniciar o doutoramento, ele a sair do estágio e a entrar directamente no curso de mestrado. Ele de perto do Porto, eu dos Algarves. Conhecemo-nos no centro, em Lisboa. A unir-nos, o gosto pelas palavras e pelas reinvenções. Eu sentava-me aqui e ali. Era hábito aproveitar o raio de sol que passava pela frincha da janela. Acomodava-me ao calor. Ele sentava-se na ponta, ao lado da Carla e ficava caladinho. Sorria. Também me lembro. Nos intervalos quase nunca nos cruzávamos. Eu desaparecia nos corredores da FLUL, muitas das vezes raptada pela Conceição, que assistia ao seminário por pura carolice. E ele ia lá à vida dele. Eu com a Ironia e os contistas portugueses contemporâneos debaixo do braço, ele lá de volta da literatura africana de expressão portuguesa.
O TUlinho é tímido. E, embora disfarce com mestria, eu também sou. Talvez por isso só nos tenhamos entregue a palavras mais alongadas já no fim do semestre. A pretexto da Lídia Jorge. Ele gostara do meu trabalho sobre o conto «Miss Beijo» e fizera questão de o dizer. Eu falhara a sua apresentação sobre «O Belo Adormecido» que ele muito gentilmente se prontificou a partilhar por e-mail. E pronto, deu-se um clique simpático. E ele começou a falar e a falar e a falar e eu, toda contente, a gostar de o ouvir.
Com o Rabiscos e Garatujas e o seu Tulisses, sobre o qual eu já escrevera aqui, mais umas pitadas cúmplices no messenger e umas visitas fugazes ao Hi5, o T. e eu descobrimo-nos um pouco mais. E eu tenho gostado do que tenho vindo a descobrir. O T. escreve bem, é calmo e gentil, minucioso, organizado e atencioso. Gosto da forma como ele constrói pontes entre os mundos empírico e literário. Gosto do seu sorriso, simultaneamente traquina e envergonhado.
O T. é mais novo do que eu. O suficiente para, apesar de o saber já homem, olhá-lo como menino.
Desculpa, T. É assim mesmo. Menino.
E muitos parabéns pelos 25 aninhos.
(... com bolo mármore e cerejas, que eu sei!)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Catarse

Sou vulcão e furacão e tempestade e tromba d'água e terramoto e turbilhão mas muito cá comigo mesma. Poucos pouquérrimos o que adivinham a nervoseira que me destrambelha o coração a revolução que me comprime o peito o sudeste que me põe ao avesso. Apenas os privilegiados que possuem a rara capacidade de me entrar pelos olhos adentro e aportar na minha alma. Afectos. Os restantes deixam-se impressionar pela calma, pela segurança, pelo sorriso de quem tem tudo sob controlo. Eu sou tão transparente quão opaca. E não no controlo.
Decidira fazer uma pausa por querer compreender e acalmar o turbilhão de sentimentos a que cedi nos últimos tempos. Coisa nova, que me tem desalinhado as emoções sempre tão contidas e meticulosamente controladas. Era isso que me andava a foder o juízo. O súbito descontrolo de mim mesma, o saber estar a perder o pé. Mas coisa boa, que me tem feito perder noites com sorrisos assimtontos e passar os dias com suspiros anafóricos. Decidira uma pausa para saborear a novidade e reprogramar as minhas contenções os meus cuidados os meus tempos.
Mas, porém, contudo e todavia, e porque a minha vida é uma caixa de surpresas, uma montanha russa, uma colecção de carmas, havia de chegar, precisamente agora, um outro tipo de turbilhão. Não lhe quero dar voz. Não lhe quero dar espaço. E não vou dar. Gosto das cores e do doce embalo do anterior. Feito de sonhos fantasias e do que eu sei dominar mas não quero controlar.
E por isso escrevo rabisco e garatujo. Quebro a pausa. Afugento os demónios. Na escrita, a catarse.
Saí de casa.
Troquei o espaço de outrora, onde éramos quatro, por um quinto, onde somos seis, e, no Verão, uma população.
Repugna-me o comodismo. Só estou onde quero estar com quem quero estar quando quero estar. Pode ser sempre e em todo o lado. Mas porque quero. Não porque pedem. Não compactuo com o que não quero compactuar. Sou teimosa desenfreada arisca mas muito fière do que quero do que sei e dos princípios que defendo. Dizem-me frágil e nem adivinham a milésima parte da força que me norteia. Sinto medo ansiedade expectativa mas não fujo não retrocedo não capitulo. Sou carneiro. Sou tornado. Sou Denise e Deniblog. E uma privilegiada. Sempre o fui. Estou rodeada de gente boa. Amizades genuínas. O amparo da família, a doçura dos Manelinhos, o abraço da Tia Adoptada, o telefonema pronto do meu Paulo do Zé, o conforto dos cumpadris, os mails da Sílvia e da Monga, as teclas da Gorete e da Ana Paula e o chamego, ainda que distante, daquele que só eu sei.
Entre caixas malas desarrumações ruído espaços exíguos novas rotinas a solidão que me angustia os dias e as noites não dormidas e o desejo de um abraço que não sei explicar sinto-me em paz tranquila segura e confiante nos meus amanhãs.
Sou optimista e canto sol.

terça-feira, 20 de maio de 2008

De mim....

... para mim...

... porque eu mereço.

Pausa

não consigo pensar não consigo ler não consigo escrever não consigo dormir não consigo comer ando parva ando nervosa ando noutro mundo noutra esfera noutra dimensão perdi a noção de tempo de espaço de responsabilidade do caralho que sa foda passo verdes laranjas vermelhos há ruído na minha cabeça não respondo não me lembro não me sei o ar não me chega e suspiro ais sem por quê a série de posts sobre a ltpi não está esquecida mas o ritmo nível e qualidade de produtividade escaparam-se-me do controlo talvez tpm talvez a alienação que me caracteriza talvez a lua cheia talvez sei lá o quê meras merdas da existência humanamente feminina sou a deniblog meio furacão meio vulcão meio tudo por inteiro tempestade tromba d'água terramoto turbilhão

uma gaja fodidinha
... eu sei...

Uns dias em Lisboa. Há tempo e espaço para os amigos e as amigas. Há sempre tempo e espaço e vontade para quem se ama. E eu amo os meus amigos. Paulo Zé Monga Jubal Ana Nuno Rita André. Toquem-me beijem-me abracem-me peguem-me ao colo mostrem que gostam de mim. Estou a precisar.

Fecho o blogue até a parvalheira acalmar.
Como já vos disse, viverei até aos 100 anos. Por isso... temos tempo.
Cinjo-me à visita aos vossos lares e eventualmente a um ou outro comentário.
Eventualmente.



...caralhos ma fodam que não me sei...

domingo, 18 de maio de 2008

Revelação

Perdoem-me, mas é tanta a luz que me inunda o peito que preciso de escrever para poder partilhá-la, nem que seja comigo mesma.

Depois de um mês de ausência, por causa das cordilheiras de trabalho que me têm ocupado os tempos, regressei ao CEBV. Sentia saudades das crianças e do trabalho que com elas tenho vindo a desenvolver. Sentia saudades dos amigos e das amigas. Sentia saudades do ambiente que por lá se respira. Alegria, boa disposição, serenidade. Paz.
E hoje o meu regresso foi apoteótico. Não sou mulher de lágrimas fáceis. Garanto-vos. Levante o dedo quem já me viu lacrimejar. Mas hoje houve música e uma vibração excepcional. As emoções foram tão fortes e tão bonitas e tão autênticas que não contive a lagrimazinha. Gosto daquela casa, que também é minha, e gosto daquela pessoas, afectos meus, com quem me desnudo em sorrisos e abraços por inteiro. E é tanta a luz que me inunda que lamento não conseguir mostrá-la de forma palpável a cada um de vós.
De regresso a casa, a grande revelação. Aquela com que nunca acreditei que pudesse ser abençoada. Sei das minhas orações, sem hora marcada, e do meu tu-cá-tu-lá com a espiritualidade. Sei dos meus pedidos mais sérios e altruístas, como sei dos meus caprichos e das vergonhices mais egoístas. Havia tido uma revelação, das estrondosas, quando criança. Ninguém a interpretou como revelação. Coincidência, diziam a mãe e o pai e os manos e até o professor de Religião e Moral. Mas eu sempre soube da impossibilidade das coincidências. Pois hoje, contra tudo o que eu jamais esperava, tive uma revelação ainda maior. Não na vou aqui esmiuçar. Foi a minha revelação. E já sei das vossas "coincidências" e a vossa opinião sobre as minhas "naïvetés".
O que eu quero apenas escrever é a felicidade esfusiante que me toma a alma por inteiro, a dulcíssima paz por que tanto almejava, a certeza quase certa do rompimento com o passado, a confiança serena no futuro . Quero celebrar o milagre da vida e todos os tempos, os minutos, os segundos. Quero reafirmar a crença em mim mesma. A convicção do quão sou importante como mãe, filha, irmã, amiga, professora, aluna, amante, mulher. Quero reconhecer os meus ímpetos de velocidade. Sou acelerada, nervosa, ansiosa, caprichosa, impaciente e ciumenta. Sou mulher de emoções fortes que aprendi a disfarçar e que aprenderei a controlar. Sou furacão que precisa de amainar. Serei brisa. Sopro. Serei paz. E alegria.

E esta noite, quando o corpo adormecer, entregar-me-ei à seara divina e, me for permitido, soprar-vos-ei beijos durante os vossos sonhos.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Interlúdio (de amor, amores e desamores)

Pediu-me a Tia um interlúdio de amor. Lamentava-se de saudades das minhas histórias sobre os Manelinhos, sobre as minhas idas e voltas, de popó, de... enfim, das cores e dos perfumes do RG original.
Faço-lhe/vos a vontade?
Faço-nos a vontade.

Hoje foi dia de limpar o pó. Eu sou lenta, muito lenta, demasiado lenta. Enquanto tiro os objectos e borrifo e limpo e sacudo e os recoloco um a um nos devidos lugares, perco-me nas estórias que eles recontam e deixo-me embalar por aquela felicidade doce que habita um amplo recanto da memória. São as caixas de cartolina-cor-berrante que os meninos me ofereceram e que destoam entre as madeiras trazidas de Goa onde esqueço brincos e pulseiras e colares e anéis de lata e plástico e pedras e ouro e prata; são as telas ocres do Kama Sutra que ele tem sobre a agora sua cama; são as colheres de pau que me acenam quando me perco na solidão da cozinha; é a fotografia do casamento, onde sorrimos abraçados à esperança do que não foi; são os livros que nos oferecemos, com dedicatórias carregadas de sentimentos. A casa respira por si e cada parede, viga, laje, pilar, objecto que nela habita me segreda o que já sei e não quero esquecer.
Terminei a tarefa no exacto momento do banho dos Manelinhos. Mas eu também estava a precisar de um, e a contra-relógio. Decidi-me por uma festa de água e espuma a três. Na rotina a dois, brincam com livros de plástico e barcos coloridos e baldes e esponjas e peixes, golfinhos e tubarões. Nas excepções, como a que hoje permiti, o brinquedo é o corpo da mamã. Relembro os cuidados os preceitos os respeitos, desvio-lhes as mãos curiosas os lábios atrevidos, eles não resistem e eu nem me importo assim muito de verdade. Sou Deusa. Ou era. Porque hoje eles foram muito cruéis com o meu ventre traçado por rios de estrias que se prolongam pelos seios flácidos e pelas nádegas mais avolumadas. Riram-se, os desgraçados, do meu corpo. Mas eu amarguei-lhes o riso. Contei-lhes as histórias do óvulo e dos espermatezóides, do tempo e do espaço, das ameaças de aborto e depois da rubéola, da minha resistência perante médica e papá e vovó e todos e todas, do crescimento de dois corpos dentro do meu, do meu como casa dos deles, e do néctar lactoso que os nutriu até secar. Eles amargaram. Choraram. Que me haviam estilhaçado o corpo para todo o sempre. E eu, arrependida, adocei-os. Mostrei-lhe o sol que as estrias desenham em torno do umbigo. O sol que eles me ofereceram com as suas vidas. O sol que jamais se apagará na minha. Adocei-os e eles distribuiram em mim beijos miudinhos.




Mas enquanto falava e descobria mais uma estria no seio devolvido pelo espelho, secretamente me perguntava, se, apesar de gostar das veias salientes antes da tpm, apesar desta sua vontade de tocar, das hermafrodices, das destempéries do sueste, dos meus calores cada vez mais acalorados, das minhas fantasias em mixolídio , dos meus estados kama sutra e das minhas frustradas tentativas de auto-gestão com o chuveiro ... secretamente me perguntava se voltarei a ter coragem de me desnudar perante outro homem por quem um dia o meu coração possa vir a pulsar novamente...

domingo, 11 de maio de 2008

Interlúdio: Concerto para Acordeão e Orquestra

Foi a estreia absoluta da 1ª peça para acordeão e orquestra escrita por um compositor português.
Eu assisti à ante-estreia, em Lagoa, e à estreia, em Lagos, antecedida por uma apresentação crítica pelo Prof. Manuel Pedro Ferreira.
É uma peça forte que reinventa linguagens já conhecidas e que, com arrojo, reconfigura a tonalidade. Uma peça que respira a liberdade de retomar a tradição sem deixar de participar na construção do futuro. Poliestilista. Caleidoscópica. O primeiro andamento (18 minutos), com bravura, começa com um com belíssimo ribombar dos timbalos e recupera o ostinato de Ravel em homenagem visível; o segundo (5 minutos), molto tranquillo, é lírico com tonalidades melancólicas; o terceiro (10 minutos) é enérgico e imprevisível.
É uma peça que impressiona também pelo seu grau de exigência técnica. De um virtuosismo avassalador.
Eu gostei. Muito. As pessoas gostaram, muito também, embora alguns entendidos comentassem o regresso à tonalidade com o nariz ligeiramente torcido. Acontece que o compositor se libertou das gavetas, dos rótulos, das etiquetas, dos academismo e escreve apenas o que lhe dá prazer. E o que ele escreve é muito bom. Digo-vos eu.
Estão de parabéns o compositor (Cristóvão Silva) e o solista (Gonçalo Pescada) que é exímio com o seu acordeão.

1.Estava um friozinho desagradável antes do início do concerto. O Manuel Pedro Ferreira puxou-me para o bar. Foi óptimo. Ficámos mais abrigados e uma boa conversa sempre torna a espera menos morosa. Amanhã vem cá almoçar com a família.
2. Para além do ouvido, regalei a vista. Sempre achei muita pinta ao pessoal da música. Havia um violinista do segundo naipe, que tinha um sorriso engraçado, e um trompetista lá ao fundo, bem bonitinho. E, vá-se lá saber porquê, o olho escorregava para o lado direito, mais concretamente para esta beldade...
3. A Orquestra do Algarve tem de rever com urgência a sua atitude em palco. Muitos sorrisinhos cúmplices e o ar disciplente de alguns incomodam-me e envergonham-me verdadeiramente.
4. Lagos precisa de uma sala de concertos alternativa. A acústica do Centro Cultural da cidade é de bradar aos céus.
5. Aceitei o convite do compositor para um copo. É um homem alto, jovial e muito belo. Talvez o mais belo que até hoje conheci. O mais atraente, também. E muito tagarela, como eu gosto. Juntaram-se a nós o Gonçalo Pescada - o solista - (que me encantou com a sua simplicidade genuína, o sorriso meigo e a capacidade de olhar para dentro dos olhos); a Patrícia, sua mulher; e o simpático e bem-humorado Tiago Cutileiro, compositor lacobrigense, que me deixa sempre muito divertida.
6. É sempre um privilégio escutar as conversas descontraídas dos artistas. Gente simpática e bonita. E descobri que os homens, apesar de mais discretos, são também uns cuscos. Visivelmente baralhados, a propósito do tipo de relação que mantenho, ou não, com o C.

Gravações pela Antena 2 e notícias aqui e ali na imprensa regional e nacional.
Destaco esta do Correio da Manhã (de 10 de Maio):

Orquestra recebe sons de acordeão
O Centro Cultural de Lagos servirá hoje de palco a um concerto totalmente inovador. Será apresentada pela primeira vez, a primeira obra portuguesa para acordeão e orquestra, a partir das 21h30.
Trata-se de uma composição da autoria de Cristóvão Silva, numa aposta que junta a Orquestra do Algarve a um dos maiores acordeonistas portugueses da actualidade, Gonçalo Pescada.
O público assistirá assim a uma apresentação inédita, que é antecedida de uma declaração prévia de Manuel Pedro Ferreira, no átrio do Centro Cultural, às 20h00. Este momento contará ainda com a participação dos Acordeões da Academia.
Gonçalo Pescada tem vindo a implementar, ao longodasuacarreira, uma nova abordagem ao universo do acordeão. A originalidade tem-lhe valido grandes elogios por parte da crítica.
As mesmas apreciações favoráveis têm sido dirigidas ao seu disco de estreia ‘Intuição’, lançado em 2002. A versatilidade de Gonçalo Pescada está bem presente no seu repertório, que passa pela música clássica, com toques que vão do jazz à world music.
Gonçalo Pescada tem no seu currículo a apresentação de diversos espectáculos em Portugal e no estrangeiro, além da conquista de diversos prémios.
A aposta na formação tem sido outra preocupação constante no percurso de Gonçalo Pescada, que já trabalhou com nomes sonantes da música como os professores Friedrich Lips, Peter Soave ou Vladimir Zubitsky.
A Orquestra do Algarve foi fundada em 2002 pela Região de Turismo e Universidade do Algarve e desde então tem apostado na formação de jovens da região algarvia. O espectáculo musical de hoje será dirigido pela batuta do maestro Laurent Wagner. Este concerto, em Lagos, integra-se nas comemorações do Dia da Europa.
Patrícia S. Manguito

sábado, 10 de maio de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - II. Conceitos: Literatura (também) para a Infância

1.3. Literatura (também) para a Infância

Reconhecendo que os conceitos de Literatura, Literariedade e Infância resultam de estruturas sociais e culturais, contextualizadas em espaços e tempos precisos, o que conseguirei eu escrever sobre o conceito de Literatura (também) para Infância? E qual a necessidade dos parêntesis e onde os fui desencantar? Questões de terminologia também por reflectir
Sem pressas, como me aconselham o TUlinho e o Manuel. Mas sem exageradamente Adagio, a bem das crises de ansiedade do Francisco.
Para breve, naquilo que a brevidade tem de relativo.
Para já, comentar os comentários ao capítulo anterior e organizar as sugestões bibliográficas que por lá ficaram abandalhadas...




Este post acabou por ser redigido posteriormente e pode ser lido aqui



sexta-feira, 9 de maio de 2008

Interlúdio: Toccata para triângulo e castanhola em si sustenido maior ad meum Vizinhum

Papoila, salix, malmequer, orquídea azul, giesta, alecrim, rosa bravia, tomilho, ervilhaca, tremocilha... o meu jardim vai crescendo ensolarado logo pela manhã. São palavras as gotas de chuva com que o meu simpático Vizinho o rega diariamente.
Gosto dele.
E só por isso, neste meu meu país, meu reinado, meu império, hoje é dia feriado.
Instituo o 9 de Maio como o Dia do meu Vizinho Manuel.

Viva o 9 de Maio!
Celebro-o com palavras e percussão.

Fêras a modes d'arcóstico com respête ó mê Vezinhe Manel
Marafade e munte
Advertide? Ai
Nanques!
Uma côsa por demás!
Escréte e tã
Lampêre ligêre luzdio... e tã
Relampe rabelão e rabeçade
O redor dos mês dias que
Cá a gente se
Hablita ao chamegue conchegante
A jête d'um olhar.

Não se vá marafar a sério, preparei a alternativa possível:

Vento Levante
Murmuras sonhos com
Alecrim ervilhaca e aroma de limão
Navegas galáxias de
Ubertosas cumplicidades
Enevoas-me e
Libertas-me com
Risos e sorrisos assim-tontos nos
Orvalhos matinais nos
Crepúsculos das noites meias. São
Hipérboles da ironia nos canteiros do
Amanhã



Hoje é dia de festa. Os amigos e as amigas estão convidados.
Permita-me, meu Vizinho, um abraço, duplo, do tamanho do pensamento.

(daqui)