sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Aula de substituição

Acabo de regressar de mais uma aula de substituição. Regresso alegre, divertida e encantada com aquela turma do 7º ano.
Aula de Educação Musical. Menos mal. Estudei violino, fiz o 5º grau de piano e estudei na JMP para me preparar para o exame do 8º grau. Histórias outras a contar em tempo oportuno. Aula de improviso, com certeza, mas ia decidida a ligar o teclado e distribuir os instrumentos de Orff . Que não, que não lhes apetecia nada fazer ritmos e batuques e cantar e sei lá mais o quê. Querem que vos conte uma história? Tá louca, professora? Então o que querem fazer? A serva, vulgo professorzeca, está aqui à vossa disposição. Estivemos durante 45 minutos a jogar ao Enforcado. Meninas contra meninos. Ganharam os meninos. O jogo serviu para explicar que Amazónia não é um país e que hipopótamo se escreve com h. No segundo tempo, as meninas decidiram ir mais cedo para casa. Sabem que terei de vos marcar falta. Não faz mal professora, está tudo sob controlo. E agora meninos, que a alegria da turma saiu, o que fazemos? Sorriram. Cinco gaiatos, cada um mais bonito que o outro. Doze, treze anos. Sem a voz ainda adulterada pelas hormonas do crescimento. Risonhos. Delicados. Um sacou a guitarra da estante, outro foi buscar o metalofone, outro os tambores, outro sentou-se ao teclado e outro cantou e dançou. Cada um para seu lado. Uma loucura. Depois viram o livro que eu tinha em mãos. O sexo dos textos da Isabel Allegro de Magalhães. Lá lhes expliquei o título. Acharam absurdo. Podemos ligar o computador? Para quê?. Podemos jogar jogos? Desde não tenham mulheres nuas nem violência. Acha? Escolheram um de futebol. Cansaram-se. Podemos ir ao YouTube? Podem. Sem mulheres nuas nem violência, já sabem. Sim, professora...
A cada ideia, um pedido de autorização. A cada pedido, um por favor. A cada autorização um obrigado. Coisa rara, raríssima, nos dias que correm.
Entre outras palermices, andaram a divertir-se com isto, isto e isto. Ó stôra, podemos ver um vídeo que tem um palavrão? Não se estiquem, moços marafados. Ó stôra, é um vídeo tão fixe! Qual é o palavrão? Disseram-no, baixinho. Vá, então podem. Um jornalista português irritado.
Assim passaram os 90 minutos. Apagaram o quadro, arrumaram as cadeiras, agradeceram a paciência, desejaram-me um bom fim-de-semana. Sairam a correr, como é próprio da idade deles. Eu fiquei parada, na sala, atordoada, a recuperar da emoção, a compreender que sim, que gosto de ser professora. Fiquei assim, entontecida e encantada com aquela pureza púbere que eu pensava já não existir.

Ponto de vista

Explicar a gramática portuguesa a estrangeir@s nem sempre é fácil. Tenho andado à roda com os tempos pretéritos do modo indicativo. @s alun@s do leste explicaram-me que nas línguas deles só há o passado, presente, o futuro. Um passado, professora. A localização cronológica depende de deícticos e de outras expressões de tempo. Sei que a mera exposição teórica, para além de extremamente aborrecida àquelas horas da noite, não os leva a lado nenhum. Uma boa forma de lhes mostrar o funcionamento da língua portuguesa é através da leitura e observação cuidada de textos exemplificativos. Depois, há que passar para a produção escrita e oral, como averiguação da aplicação dos conhecimentos em situações concretas. Eles e elas gostam desta dinâmica e, por isso, as minhas aulas têm funcionado assim.

As aulas mais recentes têm sido dedicadas ao pretérito perfeito simples. Observação dos verbos regulares, a formulação da regra. Leitura em voz alta. Questões de prosódia. Estudo do verbo na frase. Sintaxe com moderação. Textos com lacunas.
Ontem foi dia de escrita. Um texto, de uma página, onde o tempo predominante seja o perfeito simples.
- O pêrrfeito , né prôfêssôrá?
- Sim, Ricardo.
O Ricardo é o meu aluno brasileiro. Um mimo de rapaz, com uma inocência pueril e o atrevimento típico da adolescência. Rimo-nos quando ele, a achar-se importante por saber falar português, escreve no quadro, abriu, em vez de Abril, mau e vez de mal ou vaso em vez de faço. Ele diz que eu sou sádjicá e com um humô rêfinado, mais qui êli compriendji muito bem.
- O pêrrfeito , né prôfêssôrá?
- Sim, Ricardo. Meia hora e uma página inteira.
- Minhá nossá!
...
- Bem, criaturas, faltam trinta segundos... ... vinte...
- Puxa, prôfêssôrá, vôcê é dánádá, hein?
- .. dez... terminou o tempo.
Fico contente com os resultados. "O meu fim-de-semana passado", "O meu primeiro Natal fora de casa", "Quando cheguei a Portugal" e por aí adiante. Títulos e temas das composições. Deixei o Ricardo para o fim. Ele desenvencilha-se na leitura. Rápida e fluente. Há que não desmoralizar @s colegas, mais lent@s por razões óbvias.
Mas o texto do Ricardo foi uma surpresa. Começava assim: "Quando eu era piqueno e morava lá no Brásiu". Interrompi-o. Ó Ricardo... Espere, professora, o textinho tá lêgau. Leu até ao fim e terminou com um sorriso de quem rememora tempos idos. Triunfante, também. Orgulho adolescente de quem escreveu o texto mais longo.
- Ricado, está muito bonito. Mas não fizeste o que eu pedi...
- Ué! Á prôfêssôrá não pidiu o tempo pêrrfeito simplis?
- Pois, e tu utilizaste o imperfeito.
- Qui nádá, prôfêssôrá ! O tempo em qui eu era piqueno e môrava lá no Brásiu com o meu pai e eu subiâ os môrrôs com os meus ámigôs foi bem pêrrfeito . Simplêsmentji pêrrfeito!


Eu ri e depois baixei os braços.
O Volodymyr, ucraniano, lá lhe explicou o que era suposto eu voltar a explicar...

Sueste

O sueste já se foi, mas os algarvios continuam almariados. Incluindo eu.

Hoje sonhei que andava descalça em praça pública e que, aflita, não encontrava nem as meias nem as botas. Parece-me uma versão suave dos sonhos em que ando nua, mas alguém que perceba de sonhos me faça o obséquio de tentar explicar o que por aqui vai...


(foto encontrada aqui)



Mas o mais estranho é que voltei a sonhar com o Paulo Portas. Um olhar atrevido. Um beijo apaixonado, longo e demorado. Isto que ninguém me explique, porque eu já sei do que é. Sueste. E eu estou almariada.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Sociedade Civil

O tema de ontem foi Aprender a ser músico. Com António Wagner Diniz (enquanto Presidente do Conselho Executivo do Conservatório Nacional de Lisboa), Ruy Vieira Nery e José da Ponte. Conduzido sempre muito bem pela sempre tão bela Fernanda Freitas. Faltou o elemento contraditório. Mas nem foi preciso, porque a Reforma do Ensino Artístico Especializado, tal como está, não tem ponta por onde se lhe pegue. Em vez de criar alternativas às escolas privadas e de alargar a oportunidade da aprendizagem da música a todas as crianças, independentemente da condição social e possibilidades económicas, o Ministério da Educação lembrou-se de interditar o ensino da música específico e vocacional aos alunos do 1º Ciclo. Os meninos que não puderem estudar em escolas particulares, terão de se contentar com duas horas semanais de aprendizagem genérica oferecidas nas acções de enriquecimento curricular. Mais, as escolas públicas de música deixarão de poder oferecer o ensino supletivo. Restam, apenas, o articulado (acredita-se que numa fase de transição) e o integrado. Quem quiser seguir música, terá de o decidir logo pelos 10 anos.

É o resultado do Estudo de Avaliação do Ensino Artístico em Portugal, coordenado por Domingos Fernandes que, diga-se de passagem, não é especialista em música. Matemática, pelo que dizem... Nada de surpreendente, enfim, nestas andanças do nosso ministério...


E ainda falam de democratização! Mas que gente do caralho!


Blogues de referência:
Episema
Pelo Ensino Especializado da Música

Tema também debatido Na Outra Margem

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O texto da Kika

Ainda sobre a Educação e os subtemas que nos ocupam os dias de hoje, este é o melhor blogotexto que li até agora.
Ganda Kika!

Aulas de substituição

Na segunda-feira não me ri porque estava enervadíssima. Mas hoje, às 13horas e 15 minutos, a gargalhada saiu. Espontânea e cristalina. Ri-me, ri-me, ri-me. O nervosismo dá para isto, para o riso em vez do choro. Estratégia inteligente da psique para autoregulação e pura sobrevivência.
Às 13h15m, o Jornal da Tarde (RTP1) deu voz ao nosso Primeiro-Ministro. Afirmava ele que houve tanto barulho, tanta polémica, tanta greve por causa das aulas de substituição e agora, afinal, todos sabem e bem, que as aulas de substituição decorrem na normalidade e que as escolas as incorporaram sem quaisquer problemas; que agora todos reconhecem que eles (os do governo) tinham razão; porque em primeiro lugar estão as famílias e as crianças, que não podem deixar de ter a sua aula.
Pronto.... podem começar a rir também.

Eu vou contar como funcionam as aulas de substituição. Falo apenas da minha experiência, mas acredito que não difira das restantes. Vou à escola e fico sentadinha da sala de professores à espera que me chamem. Se não me chamam, aproveito para adiantar trabalho. Com sorte haverá algum computador livre, embora o tinteiro da impressora se tenha esgotado há três meses. Se não, continuo o trabalho de corte e costura na criação de exercícios personalizados. Há bem pouco tempo fui violentada por uma infecção urinária e, numa vã tentativa de alívio ao desconforto, fui algumas vezes à casa de banho. Ora, o que eu fui fazer! Ontem, tinha faltas de dois tempos por justifcar, porque não me tinham visto na sala de professores. Mas chamaram-me, D. Rosa? Não, professora, mas como não a viram por lá, pensaram que estava a faltar.
Passando à frente...
No ano passado, sempre que ia para Lisboa, preparava fichas para facilitar a vida aos meus colegas que me iam substituir. O problema é que @s selvagens não queriam trabalhar, argumentavam que não sabiam resolver os exercícios e os meus colegas não sabiam como lhe explicar, porque, pura e simplesmente, não sabiam francês. Acabavam, invariavelmente, por ir para a sala do aluno ou para o campo de futebol.
Ontem dei mais uma aula de substituição. 7º ano. Entro na sala e a conversa é sempre a mesma. Oh, não, aula de substituição! A stôra é nova aqui? Como se chama? É stôra de quê? Ontem, a aula era de Religião e Moral. Por isso, disse-lhe que era Pastora Adventista. Ai, não parece nada, stôra. Prefiro que me tratem por irmã. E vocês, como se chamam? Sim, sou nova aqui; a vossa escola é muito bonita e a vila também. Ficam sempre muito orgulhosos. Falam de lugares para visitar e depois dizem que conhecem Portimão, que já foram aqui e além, etc. Assim, sem rede, contei-lhes uma história. Gostaram, claro, mas uma história não ocupa a aula inteira. Pediram-me para jogarem o ABC-Stop. Muito bem. Vamos colocar entradas como personagens bíblicas, livros do Livro Sagrado, ordens religiosas, os pecados mortais, as virtudes.... Eu sei, sou muito maldosa. Mas, é como eu digo, há que rir. Reclamaram, claro. Stôra, Irmã!, corrijo. Irmã, isso nós não sabemos. Pois então. Decidimo-nos pelas entradas de sempre. A aula serviu para algumas explicações de ortografia e pouco mais. E sempre, claro, a preocupação em controlar batotas e ânimos exaltados, o barulho e os deslizes de indisciplina. E a espreitadela para o relógio, à espera da libertação de tamanha tortura.
Lembro-me do meu tempo. Quando não tínhamos aulas, podíamos ficar a conversar com os colegas, ir para o campo de jogos ou para a biblioteca. No 3º ciclo já não somos bebés e o espaço da escola oferece algumas alternativas ao baby-sitting. Há técnicos de animação no desemprego. Poder-se-ia contratar um ou dois para cada escola. Não?
Mas, como diz o nosso Primeiro, os alunos não podem perder a sua aula.
Eu conto histórias e jogo ao enforcado ou ao ABC-Stop em aulas de Matemática, Geografia, Alemão ou Religião e Moral.
Será que não ficamos todos a perder?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

De como eu, professora, chorei, enxuguei as lágrimas e voltei a chorar

Gosto do que faço e esmero-me na preparação da aulas. As horas são tardias, mas teimo em construir materiais pedagógicos adequados às turmas que estão sob a minha responsabilidade. É que nem sempre os manuais servem para o efeito; muito menos as fichas que existem noutros livros e noutros lugares, elaboradas para outras situações que não as que os meus alunos e as minhas alunas vivem naquele preciso momento. Já foi o tempo em que me perdia com caixinhas e cartolinas coloridas. O dinheiro não chega para tudo e passei a ser mais comedida. Continuo a fotocopiar o que me parece interessante e depois recortar para fazer montagens à medida dos meus meninos e das minhas meninas. Há também o esmero nas apresentações em powerpoint e no treino solitário da leitura expressiva. Há que preparar tudo, não permitir que a linguagem esteja nem abaixo do nível desejado nem acima a ponto de ser tornar opaca, hermética, incompreensível. Eles sabem da minha paixão pelo mundo do Verbo e eu aproveito a flexibilidade e a curiosidade para lhes falar de coisas outras e entrar, de mansinho, pelo mundo dos valores. Leio com atenção os textos que me entregam e que estão para além do programa a ser cumprido. Poemas, contos, cartas de amor. Eles e elas exigem uma resposta honesta e argumentada.E, por isso, eu avanço pela noite dentro. Como tantos outros milhares de colegas professores.

Foi de coração aberto que regressei ao 3º ciclo do ensino básico, depois da provação do desemprego sem direito, ainda que inconstitucional, ao subsídio devido . Uma oferta de escola, para substituir uma professora que deu em doida com a nova geração. Era uma professora antiga e por isso, achava eu, mais susceptível a indignações e chiliques afins. Muni-me de leituras do foro da psicologia para enfrentar um punhado de adolescentes com as hormonas aos trambolhões.
Descobri, porém, um mundo muito cão. Turmas de fugir. Entrei na sala, pedi para entrarem com preceito, mandaram-me para o caralho. Sim, assim, com todas as letras. Desculpem, podem repetir?, acho que não ouvi bem... P'ró ca-ra-lho. O dedo espetado, a mão nas partes, o riso, a galhofa... Mandei-os para a rua e marquei-lhes falta. Fui chamada ao Conselho Executivo e ali me disseram que não podia mandar alunos para a rua por dá cá aquela palha. Estupefacta. Petrificada. Sentar com os pés em cima da mesa, recusar-se a sentar com preceito, escarrar para o chão, chamar a professora de monhé e mandá-la para o caralho, não é propriamente aquela palha. Que eles são uns marginalizados, que muito aguentam eles em casa, que na escola exprimem o que lhes vai na alma, pais presos, traficantes ou drogados, mães prostitutas, CPCJ à perna. Uma desgraça. Pois, mas eu não sou psicóloga nem assistente social. Professora. Tenho um programa a cumprir e quero, muito, que eles descubram as maravilhas da língua francesa. Falei com os directores de turma. Que era assim em todas as aulas, com todos os professores. Uma luta diária por uma causa talvez perdida.
Aula seguintes, a começar do zero. Estronsa, chamavam-me eles. Quem me conhece reconhece o trocadilho, certo? Reforço positivo, reforço positivo, reforço positivo... eu bem queria aplicá-lo. Mas como, se não econtrava nada de positivo?
Decidi-me pelos materiais feitos para eles. Algumas directas, um investimento extra e, voilà, rap francês, cartolinas, fotos, cores. Quando entrei na sala, havia alguns papéis no chão. Segui o conselho de uma colega experiente e apanhei-os, para dar o exemplo. Não resultou. Isso, limpa a merda que nós fazemos. Falta disciplinar e comunicado ao Director de Turma. Não vale a pena, estronsa, que isso não serve para nada, você sabe muito bem disso. Nem para a rua nos pode mandar!... Rasgaram as cartolinas que lhes dei, que não iam levar lixo para casa. Atiraram cascas de pevide para o chão. Saltaram. Gritaram.
Eu sou um vulcão que pouca gente conhece. Consigo dominar os sentimentos e manter uma transparência calma e quase imperturbável. O ascendente em gémeos adocica o temperamento fogoso do meu signo. Mas nesse dia a dor foi tão profunda, o desespero tão intenso, a frustração tão real que as lágrimas romperam. E enquanto eles riam , eu chorei. Chorei muito, pela primeira vez em toda a minha vida de professora. Chorei muito, pela primeira vez em toda a minha vida de adulta em público. Chorei por mim e chorei por eles. Chorei por começar aacreditar que eram uma causa perdida. Chorei por saber que estava ali uma porção do futuro.
Não sou das que se deixa desistir facilmente. Sou carneiro. E isso diz tudo. Na aula seguinte, enxuta, experimentei outra estratégia. A dos afectos em simultâneo com o desprezo total. Meus amigos, querem aprender não querem aprender é convosco. Para o ano eu não estarei cá e recuso-me a ficar doente como a vossa professora anterior por causa de um punhado de gente que não merece um peido. Calaram-se, esbugalhados. Não é todos os dias que uma professora fala assim. E mais, fazemos um pacto. Vocês tentam aprender alguma coisa e eu ensino-vos outras, assim à margem. Queremos saber como engatar gajas no verão, stôra. Queremos aprender palavrões. Muito bem. E ficam com o meu contacto no messenger. Comigo falam só em francês. À noite já eles me tinham adicionado às suas contas. Bom sinal. Depois, aprenderam o bonjour, o excusez-moi, o pardon, o merci, o je peux entrer, o s'il vous plaît, e, também, t'es belle, je t'aime, e, ainda, palavras como putain, merde, con ou connard. Fui assistir aos jogos de futsal de uns, passei a almoçar com outros. E, depois, numa aula, vieram ter comigo e, com uma palmadinha nas costas, que eu era fixe e que tinha passado no teste deles. Aprovada com distinção. Depois foi mais fácil. A ordem restaurou-se; a aprendizagem a passo de caracol.
Na reunião final tinha bastantes negativas para dar. Não vale a pena o choradinho, amigos. Quem sabe sabe, quem não sabe azar. Pois é, madame, tem razão, para o ano vai ser melhor. Afinal, francês até é fixe!
Reunião de conselho de turma. O aluno A tem 4 negativas, há que levantar uma nota para poder passar. Vai a votação, sobe a Francês. Não pode, impossível. Pode sim, a mudança de professor a meio do ano causou intabilidade. Foi a votação. Passou. O aluno B está a atingir a idade limite do ensino obrigatório. Pedagogicamente recomenda-se a aprovação. Segue Francês. Não pode. Pode sim. Instabilidade do corpo docente. E o aluno C, e o aluno D e assim por diante. Mas, ó colegas, eu estou parva, vocês estão parvos ou estamos todos parvos? É assim, senão chumba na reunião do pedagógico e chamam-nos em Agosto. E a gente vem e consolida a argumentação, não? Não, porque as directrizes do Ministério são muito claras.

...
É preciso dizer mais alguma coisa?

Prós & Contras

Mais um Prós & Contras, sob o tema geral "Educação", que se afunilou na avaliação dos professores e na justificação de políticas educativas. De fora, e como sempre, nestes debates apresentados pela Comunicação Social, os alunos. Se bem que um dos professores presentes, o professorzeco que deu voz ao Movimento dos Professores Revoltados, tenha colocado a tónica no ensino-aprenizagem, na componente pedagógica, no que se espera do aluno. Como se fosse possível falar de professores sem se falar de alunos...
A ministra mantém a destreza mental, a acuidade verbal, a inteligência. Mas também uma demagogia horripilante em cujas teias cai, redondamente, quem não conhece a dinâmica da Escola Pública. Compreendo que pugne pelos seus ideais e até acredite neles. O que não compreendo é que negue o facilitismo evidente. Sabiam que um dos parâmetros da minha avaliação tem a ver com a taxa de sucesso nas minhas aulas? Isto é só um exemplo...
Compreendo que tenha de ser avaliada. Enquanto Assistente, sempre fui avaliada nas terras do TyrannoRector-Rex . Por coordenadores eleitos pelo grupo disciplinar, com muitos anos de experiência, graus académicos superiores ao meu, e com alguma idoneidade reconhecível. Para além disso, os seus relatórios só se tornavam decisivos depois de apresentados ao Conselho Científico e aprovados por esse órgão. Agora, serei avaliada por uma comissão de avaliação, composta por titulares, com mais anos de serviço e, eventualmente, uma passagem por órgãos consultivos, executivos ou pedagógicos.Cientificamente e pedagogicamente ninguém me garante que tenham qualquer autoridade para me avaliarem. Entre outras coisas, têm de assistir a uma aula por período. Como se isso fosse suficiente para compreender a dinâmica das minhas aulas. São eles os primeiros a estarem revoltados e a se sentirem incapacitados para tamanha provação…
E não me venham falar das aulas de substituição. Qualquer professor sabe que, embora instituídas, elas não decorrem na normalidade que a ministra quer fazer crer.

Dos restantes convidados, chocou-me uma intervenção da colega que estava na mesa. É verdade que os programas elaborados para os cursos das Novas Oportunidades estão desadequados. Mas, por favor, não me venham com a treta de que Gil Vicente não deve ser lido nesse contexto. Todo o texto literário tem a sua especificidade e o seu grau de dificuldade. Podemos explorá-lo de acordo com a competência dos alunos. Não devemos, pura e simplesmente, erradicá-lo do ensino. Senão, como e quando terão os nossos jovens um acesso orientado à literatura, ao prazer que podemos atingir com a linguagem verbal e a língua portuguesa? Quando e onde terão os nossos alunos acesso aos grandes nomes que consolidaram o nosso património linguístico e cultural? Saída infeliz, infelicíssima. Aceitaria se estivéssemos a falar das Viagens, ou do Eurico. Nunca a propósito d’ O Auto da barca do Inferno que é daqueles textos sempre actuais e tão divertidos que deliciam qualquer jovem. É só ter o cuidado de o saber demonstrar. Nunca, a propósito d’Os Lusíadas, desde que em exploração hermenêutica mais contida.


Nota baixa, baixinha mesmo, para Fátima Campos Ferreira.
Como sempre.

(O tal organigrama)

***

Nota: Falhou quanto a Gil Vicente. Isto, na minha humílima, e sempre discutível, opinião. Fora isso, esteve bem. Muito bem. Na perfeição. Cinco estrelas. O show da Fernanda Velez, aqui.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Alien

Tonta, despassarada, naba, despistada, cabeça-no-ar, ingénua, tola, naïve, burrinha, borrega, distraída, cabeça-de-alho-chocho ...
... sim, os meus amigos acham que sou assim, e atiram-me com essas palavras uma vez por outra.
Mas alien...
Alien!...

Também ele é diferente. E talvez seja por isso que me apaixonei por ele.

Eu?!?!

Estava com o estômago colado às costas. Alimentação desregulada, mas consegui acabar o trabalho. E o que se prepara, assim, num estantinho, e às três da manhã, quando a fome aperta? Ovos, por exemplo. Ora, eu estava com muita fome. Bati três ovos e misturei miolo de camarão. Acompanhado com salada ficou uma delícia. Não me apeteceu fruta. O cérebro estava esgotado e pediu chocolate. Roubei uma tablete dos miúdos. E dormi descansada.
Hoje acordei rosadinha. Sempre invejei o rubor das minhas colegas brancas sempre que corriam, se enervavam ou se envergonhavam. Elas sempre disseram da minha sorte e do quão nunca gostaram de ficar assim vermelhinhas. Por isso, hoje fiquei contente quando, pela manhã, me vi ao espelho. Só depois é que compreendi, quando as unhas começaram a querer acalmar a epiderme.
É que eu sou alérgica a três coisas. Adivinharam? Pois é. Ovos, marisco e chocolate.
Talvez seja por estas e por outras que, em vez de deusa, ele prefira apelidar-me de alien. Eu sei que é com carinho. Mas há um fundo de verdade, nesse epíteto que me acompanha de há dezasseis anos para cá.
Alien, ou ET, porque és estranha, diferente, alienada das coisas deste mundo. O esforço que se faz para te acompanhar e compreender. É o que ele argumenta. Mais. Pela filosofia reencarnacionista que assume a pluralidade dos mundos habitados, é certo e sabido que vim parar à Terra há bem pouco tempo. Sou doutro planeta, pois, bem longínquo e bem diferente do nosso. E eu que pensava, eventualmente, numa origem em terras gaulesas...
Os meus irmãos ajudam à festa. Acham que confio demais e que têm de me proteger. Mas a eles eu dou um desconto. Sou a única de letras contra três engenheiros. É natural que não percebam nem a ínfima parte dos meus sonhos, fantasias e utopias.

Alien... Como pode lá ser? Amo este planeta. A Natureza, a Arte, as pessoas que me rodeiam, e até as que me são distantes... É a minha casa. Qualquer coisa que me faz gostar de estar aqui, viva, e sentir pena e já saudades só de pensar que um dia terei de regressar à pátria espiritual.

Nem alien, nem diferente.
Apenas eu.

Mas a ser... que tal assim?


(Desenho encontrado no Da Mario se gepraat... )

Do fim-de-semana de uma professora. Ou de como também sei dizer, depressa e muito bem, alguns palavrões.

São quase 2h30m da manhã. E o dia começa às 7 menos 10...
Passei o fim de semana agarrada a papéis, dossiers e computador. Já me doem as costas. Le cou. E o cu também. Dói-me, ainda, o estômago, por causa da alimentação que vai ficando adiada.
Caracterização das turmas; avaliação; estatísticas; relatórios. Duas turmas de Português, Língua Estrangeira. Nome, filiação, data de nascimento, nacionalidade, naturalidade, documento de identificação, número do documento de identificação, data de emissão do documento de identificação, validade do documento de identificação, número de horas leccionadas; número de horas assistidas; conversão em percentagem; número de desistências; número de certificados a passar; número de declarações comprovativas; número de aptos; número de não aptos, informatização dos sumários em documento próprio ("é copiar do livro de ponto)", informatização da lista de assiduidade por aluno; acerto no programa efectivamente leccionado em relação ao programa proposto (e elaborado por mim); acerto da cronograma efectivamente leccionado em relação ao cronograma inicialmente apresentado; o cacete; o caralho; e a cona que o pariu. Ah! Impressão, com o MEU tinteiro; porque o da escola já se acabou. Em Dezembro. E, ainda, uma acta que deixei esquecida e que me levou colhões de tempo a redigir porque a memória já não dá para mais. Ainda eu me queixava de, no início do ano, ter sido eu a fazer os telefonemas aos candidatos e desdobrar-me em inglês, francês e português telegráfico.

Gostava, a sério que gostava, de levar, hoje, segunda-feira, para os meus alunos, materiais bonitos e perfeitinhos, como faço questão de o fazer. Com sorte, não me chamam para substituição e aproveito esses 90 minutos para magicar algo de que me orgulhe.
Caso contrário, improviso. Trava-línguas, provérbios e lengalengas; um ditado maneirinho; escrita no quadro e hetero-correcção; levantamento das formas verbais e sua utilização em contextos diferentes. E, se for pouco para os 90 minutos da aula, organiza-se um concurso de conjugação de verbos.
... Mas, ó punhefa, era para ser improvisado e já eu estou a planificar?!

Amanhã levo comigo um bastão de basebol.
Ai de quem se atreva a lançar a piadinha do professor-parasita-da-sociedade-que-não-faz-nada-a-não-ser-manifestações-poucochinhas-contra-a-senhora-ministra-que-lá-teve-a-coragem-de-pôr-a-canalhagem-no-devido-lugar.

Caralhos me fodam....

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Olimpo

Mamã. Mas, também, Padmé, Imperadora, Rainha (com direito a som de clarins)... ou simplesmente minha deusa. Epítetos que me atribuem os meu filhos.
Gosto de Padmé. Mas deusa... não me desagrada.
Fiel, forte e decidida como Hera; meiga, tonta, inconsequente e sonhadora como Perséfone; carinhosa e muito mãe como Deméter; racional, hábil e cmprometida com as coisas do intelecto como Atena; rude e simples como Ártemis; dada a questões da espiritualidade, como Héstia; e até, quando quero e para quem quero, erótica e sem tabus, sem abrir mão da independência, como Afrodite. ... E por aí adiante...

Todas e mais alguma. Como todas nós.

Podia procurar um teste online para descobrir qual a dominante. Podia colocar aqui no blogue uma votação para o efeito. Mas não vale a pena. A melhor resposta de todas já chegou: blá blá blá, "deusas" blá blá blá "... que fazes as gregas roerem-se de inveja...".


Há dias bonzinhos, não há?

E ao sétimo dia ...

O que eu descobri na agenda do D. Nuno:

Segunda - Na segunda tenho escola e tenho coro
Terça - Só escola
Quarta - Tenho escola e teatro
Quinta - tenho escola e tenho violino
Sexta - tenho escola e tenho formação musical
Sábado - tenho teatro e é dia de ir á oraçam
Domingo - descansar!

A prova de como, para eles, o descanso (= brincadeira) é, pois então, inadiável...

(note-se a quase ausência de erros; note-se a pontuação final)

Tobias - Praia dos Três Irmãos (Alvor)





No Verão passado, era assim.
(Fotografias gentilmente cedidas pelo Sr. Tobias)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Tobias

O mar não dá tréguas e o Tobias está a viver tempos atribulados.
Estamos todos a torcer pela bonança.
Porque o Tobias tem História. Já o mar o levou uma vez; já o fogo o consumiu outra vez. Tombou e ergueu-se. Regressou das profundezas do mar. Renasceu das cinzas.

No Tobias há parte de mim; e em mim há muito do Tobias.



(O Trópico, restaurante-gémeo. Fotos retiradas do Barlavento online)

La gaffe du jour

Ele - Tenho um segredo.
Eu - E a mim?, não mo contas?
Ele - Só a ti.
E aproxima-se e faz da mão uma concha e sussurra devagarinho:
- Fiz unissexo com a Márcia!
Eu - O quêêêêê?!?!?!?!!?!?!?!!?!?!?!!?!?!?!?!?!!?!?!?
Sorri. Repete, envergonhado.
- U-ni-sse-xo.
Recomponho-me.
- E o que é u-ni-sse-xo?

E o que é unissexo? Então não sabem o que é unissexo? Eu conto-vos o que é unissexo, tal qual ele me contou só a mim.
Unissexo é dar um beijo na boca, é dar-lhe a camisola e vestir a camisola dela, é brincar durante todo o intervalo de mãos dadas. Com mais ninguém. Quer-se dizer, só mais com o Nuno, que é o gémeo, o padrinho e, um dia, tio.

Nuno - Ó Tomás, não é unissexo. É sécho! És mesmo burro! Tenho de ser eu a ensinar-te sempre tudo! Chiça!
...
Tomás - É unissexo! ... Não é, mamã?


Post muito muito a propósito desta descoberta do Zé.
Alguma coisa anda no ar!...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Violence Doméstique - La pub

O verdadeiro contexto da foto do post anterior... Ao som de Jacques Brel

E como, de repente, ele me coloriu o dia!

Passou e viu a fotografia. Parou, encheu o peito de ar e gritou esfusiante:
- É tão parecida contigo!!!
Eu - Não sejas tonto.
Ele - É sim!
Eu - Vê bem. Não tenho olhos azuis. Nem a pele clara.
Ele - Por acaso os lábios são parecidos.
Eu - Que ideia! Mesmo assim, isso não nos faz parecidas.
Aproximou-se. Olhou de perto. Replicou:
- Não era da boca, nem dos olhos, nem da pele que eu estava a falar.
Encostou-se a mim e rematou:
- Ela é muito bonita. Como tu, mamã.




... Os olhos deste meu Tomás!
***
(os lábios dela e os meus. tem tudo a ver, não haja dúvida! ... a começar pela cor do batom ...)

Uma triste notícia...

O meu Paulo do Zé está num sufoco. E não é sem razão. A nova avaliação do desempenho docente lá está a sugar o brilho de quem lecciona por amor e vocação. O tempo dedicado aos alunos é espartilhado por burocracias que não lembra nem ao mais satânico dos belzebus. A preocupação pela qualidade atrapalha-se com a quantidade e as estatísticas e o circo a montar para as aulas assistidas. A titular responsável por mim já me disse que gosta de presunto. Há que rir para não chorar. Acrescente-se, ainda, a relação com a comunidade que nos suga o tempo para os filhos, para família, para os que amamos, para nós.
O meu Paulo do Zé está num sufoco. Sou mais resistente que ele, graças, talvez, ao lado bélico do meu signo, mas também eu ando desanimada com tanta trampice junta. E enerva-me sobremaneira a opinãozinha pública que nem imagina o zum-zum na vida de um professor. Mais irritante ainda a forma como alguns dirigentes de Conselhos Executivos se apressam em executar as ordens da tutela e até as justificam. Que gente mais mal fodida! Pronto, já me estou a enervar...
O meu Paulo do Zé está num sufoco. Sou mais resistente que ele, mas já lá vão os tempos em que eu me entusiasmava com a criação de materiais e acordava feliz por mais um dia de trabalho. Ando muito bamba, preguiçosa, dengosa e com a cabeça noutras coisas...
Mas o meu Paulo do Zé foi mais longe e suspendeu o Felizes Juntos. Em standby! O cacete!

...

Descansa, lindo. Cá estaremos à tua espera num regresso apoteótico!
E tu, Zé, vai colorindo o FJ, ok?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

De l'absurde no SAP ou Soap Opera - Médicos Portugueses com Fonteiras

As aulas de substituição correram bem, dentro daquilo que se pode esperar de aulas de substituição. No intervalo, estranhei a mancha de sangue, mas não liguei. Meia hora depois não podia mais ignorar, tal era o ardor, a dor aguda, o incómodo em estar de pé ou sentada. Lá pedi desculpas aos alunos da noite e segui rumo a Portimão. Foram 30 minutos dolorosos, com uma mão no volante e a outra encostada ao chakra genésico. Em vão.

No Sap não estava ninguém e, assim, fui logo chamada. "Denise, do Rabiscos e Garatujas, sala 1!". Não gostei do que vi. Tinha um ar simpático, mas o cabelo grisalho incomodou-me. Teria mais de meio século. Há assuntos sobre os quais prefiro falar com médicas ou com gente mais nova ou com gente que conheço. A minha experiência no Sap, diga-se de passagem, não é muito positiva. Ora me tomam por mãe solteira ou adolescente e tratam-me como se fosse uma coitada, uma desgraçada, uma burra. Ou, quando sabem que sou professora e estou a faltar, olham-me de cima a baixo. Porque, sim, nós, professores, somos super-humanos com uma saúde de ferro e é impensável pedir um atestado médico para justificar uma falta que obviamente só o é por se tratar de uma doença súbita, inventada, falsa.

Passando à frente... Esta minha ida ao Sap foi a mais surreal de todas. Eu era a única paciente e ele o único médico de serviço. Devia estar com vontade de conversar e apareci eu, a vítima perfeita.
Ele - Do que se queixa?
Eu - Disto e daquilo.
Ele - E do sangue?
Eu - Vi... mas...
Ele (trocista) - Achou que estava daltónica, não?
Eu - ... achei que podia ser outra coisa...
Ele - Não se melindre. Náuseas?
Eu - Uma espécie de. Pré-náuseas, diria eu.
Ele (trocista, again) - Vamos lá fazer umas análises, a ver se é uma pré-outra coisa.

Análises.

... espera...
... dores...
... espera...
... náuseas...
... espera...
... arrepios...
... espera...

"Denise, do Rabiscos e Garatujas, sala 1!"

Eu - Então. É alguma coisa? É pré? É pós? É nada?
Ele - É sim. E bem forte.
Eu - Então passa-me uma declaração para justificar a falta dos últimos tempos da noite?
Ele - Profissão?
Eu - Professora.
Ele (a esfregar as mãos) - Ui, uma professorinha! Há que tempos que me apetece torturar uma professora!
Eu - Isso cheira-me a recalcamento.
Ele - recalcamento? Recalcamentos! E dos grandes!
Eu - É porque não foi meu aluno...
Ele sorriu e calou-se. O primeiro round foi meu.

Ele - Vai tomar isto e aquilo. (Fixa-me os olhos) E 5 dias sem relações sexuais.
Fixo-lhe os olhos também. Não respondo.
Ele - 5 dias. Acha muito tempo?
Eu cheia de dores e ele a provocar-me. Espera aí que já te lixo, avôzinho.
Eu - Na minha idade não é muito tempo. É uma eternidade.
Gargalhou. Não se melindrou. Perdi o round.

Ele - Isto e aquilo até ao fim. 5 dias de abstinência. Dúvidas?
Eu - Por acaso....
Ele - Chute.
Não me piquem que eu respondo. Agora levas de volta, desgraçado.
Eu (muito maldosamente) - Compreendo a abstinência numa parte. Mas sabe perfeitamente que o prazer não se limita a um lugar. Em que é que ficamos?
Ele - (a fixar, a provocar, a troçar) - Ficamos na abstinência total; na sua eternidade nua, crua e dura.
E falou-me das descargas do trocopaços e do mal que me podem causar.
Gargalhou.
Acompanhou-me à saída.
Desejou-me as melhoras. Mas juro, a pés juntos, que o ouvi a sussurrar um Vá em paz e que Deus a acompanhe.
Perdi por um dois.

...

E prontes !, são os chakras desalinhados e a minha primeira infecção urinária

com dores de alfinete e com direito a sangue, náuseas, dores de cabeça, arrepios de frio e uma pontinha de febre...
(...vou à cata de mimos...)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Tudo e mais alguma coisa... por mim!

E esse homem dos livros, would he do anything for me?

Sou tão caprichosa, não sou?

(Oliver Twist, The musical, 1968)

Um homem e livros

Encontrei-a à saída do mercado. Como estás tu? E as tuas filhas? Estão boas, forem à escola. Estava com uns 4 sacos em cada mão e mora longe. Ofereci-lhe boleia. Que sim, que lhe dava jeito. E, muito descaradamente, olha lá, e depois não me podes levar ali às Cardosas? Mas que vais tu fazer às Cardosas? Que há lá uma senhora que lhe fala do futuro, uma médiã, ou assim, estás a ver? Estava a ver tudo, claro. Não vais nada lá, não te deixo gastar o que nem para ti tens em charlatãs. Que não, que não pede nada, que só se dá se quiser e o que se quiser, que se eu não der boleia que vai pé. Olha, vou sim, quero falar com essa senhora. Vai ouvir das boas.
Uma mulher pequenina, mulher menina, mais nova do que eu, mais baixa do que eu, com um ganchinho a prender-lhe o cabelo negro liso aveludado, os olhos escuros grandes e brilhantes, um sorriso que me pareceu autêntico, a pronúncia de quem andou emigrado pelas terra gaulesas. Estendi-lhe a mão, ignorou-a, inclinou-se para os dois beijos que não consegui recusar. Mas ouça lá, você vê o futuro como? Não sou eu, é Jesus. Eu só repito o que Ele me diz. E não se assuste, que não faço vudus nem feitiçaria nem magia negra. Mas você vê mesmo espíritos? Vejo, ouço, sinto, cheiro. E não tem vergonha de andar a fazer isto em troca de dinheiro? Que só dá quem quer e o que quer, que Jesus lhe pediu para não se agarrar aos bens materiais, que quer ajudar apenas. Lá lhe falei do Jesus da Alexandra Solnado. Aproveitei e atirei-lhe com o Allan Kardec. Arrisquei, ainda, que visitasse um centro espírita. Talvez ali pudesse utilizar melhor a sua mediunidade (a ser mediunidade). E pensei agora é que ela me mostra as garras e me expulsa porque tem de ganhar o pão. Mas não, caíu-me o queixo. Sorriu suavemente, que conhecia o Kardec sim. E atirou-me com o Omraam. Despedi-me. Vá lá fazer as suas consultas. Tocou-me ligeiramente no braço. Você está a passar uma fase de transição. Arrepiei-me. Duas transições, profissinal e amorosa. Mas quem lhe disse que eu quero saber? Quer quer. Não lhe dou um tostão. Não lhe peço um tostão. Fraquejo. Hesito. Não posso. Não devo. Não quero. Não entro no seu consultório. Ignora-me. Desbobina tudo ali no corredor. Que isto, que aquilo. Está retido na memória. Mas do que mais gostei, assim muito, a sério, é que depois de uma longa troca de olhares você encontrar-se-á com um homem, lá para Julho. Não resisto. Pergunto-lhe. Um homem alto, magro, moreno, bonito? Não sei, vejo um homem inteligente. Espere... com livros. Muito livros. Professor? Não me parece, mas algo o liga ao ensino. ESpero. Vejo fórmulas e equações. Um homem das ciências. Um homem que lê, diz? Sim, um homem que lê. Com livros. Muitos livros.

Perguntem-me se acredito. Não acredito nem deixo de acreditar. Quer dizer... Não acredito em bruxas, mas... ando de olho mais atento quando entro nas livrarias ou visito as bibliotecas...




Mas há coisa mai sexy do que um homem e livros?!

(Imagens repescadas do blogue errotica)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Kama


Hoje estou assim, muito Emmanuelle, muito 9 semanas e 1/2, muito Orquídea Selvagem, muito Kama Sutra, muito sei-lá.


(Tenho ou não tenho razão? A gaja lá de trás não fica a fazer absolutamente nada!)

En soap

Ontem vi En Soap, traduzido para português como Sexualidades ou, em português do Brasil, Para além do desejo. Das duas, prefiro esta última tradução, embora não deixe passar a ideia de soap (telenovela), assaz importante ao longo da película.
Os filmes europeus deixam-me, regra geral, meio deprimida. Este não foi excepção. Fala-nos de solidão, de corpo, de marginalização, de sexualidade (e transsexualidade), de amor. A interioridade das personagens passa pela escolha do cenário, sempre indoor, pelo silêncio, pela escuridão.
Música de Magnus Jarlbo, interpretação de Trine Dyrholm, David Dencik, Frank Thiel e Elsebeth Steentoft. Um filme de Pernille Fischer Christensen. Suécia / Dinamarca. 2006.




Flores para a mãe

Tomás - Mamã, o problema diz assim: "O Pedro deu à sua mãe um lindo ramo de flores. O ramo tinha uma dúzia de rosas, meia dúzia de fetos e uma dezena de violetas. Quantas flores deu o Pedro à mãe?" Deu 28, não é mamã?
Eu - Sim. Mas que querido, este Pedro. Quando é que vocês me oferecem flores assim?
Nuno - Eu sei de um dia em que te vou oferecer tantas assim.
Eu - No meu dia de anos?
Nuno - No dia do teu funeral.

... e mai nada!...

Tenho uma saia nova!


Se há coisa que eu detesto é entrar em lojas de roupa. Não tenho paciência. De há dois anos para cá o meu orçamento proíbe-me de passear pela secção feminina e a minha sorte é ter duas manas que volta e meia me presenteiam com uma peça ou outra, fora todas as que lhes deixam de servir. Zara. Entro directamente na secção infantil. Calças, camisas, camisolas. Tudo a dobrar. Os meus Manelinhos estão crescidos. O pai já confunde algumas das nossas roupas. De vez em quando as minhas meias ou camisolinhas vão parar à gaveta dos meninos. De vez em quando, nas minhas, as meias e as camisolinhas deles. Espreito a roupa das meninas. Tenho 31 anos, já é um pouco tarde, mas gostaria de ter uma filhota. Sorrio com as blusinhas, os ganchinhos, os vestidos. Há tamanhos até aos 14 anos. Descubro uma saia que é a minha cara. Uma saia sainha. Os Manelinhos gostaram. Eu também. Não resisto... E por 3,95 euros não é pecado, pois não?

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Caça aos erros

O nosso orçamento não nos chega para ATLs e nem sempre os avós ou a titi têm a disponibilidade do universo. Por isso, depois da escola e por causa dos nossos horários trocados, os Manelinhos acabam por ter de assistir às aulas do pai ou da mãe. Portimão, Lagos, Lagoa, Armação de Pêra.
Eles lá se entretêm. Cantam com o pai, escrevem com a mãe, desenham, pintam, dormitam...
Em caligrafia cuidada e redondinha, este é o texto mais recente do D. Nuno. Como ilustração, uma grande espada de luz.


Á muito, muito tempo numa calasia muito dixtante.

Gerra das estrelas

episodio III

a vincança de sith


Anikin ouve o imprador sem saber que e mao e não ouve o chefe dele, o ani fica máu e matou todos os jedis o Anikin luto qontra o obian Kanobi e lutou no estadio defogo no fim da luta o obi ankanobi corta um braço e 2 pernas e salta umbocatinho de fogo, queima o corpo dele o Obi an Kanobi vaise embora e ele pença que ele morreu, mas ele não morreu porque era forte os máus forão ajudar e o Aniquin fica Darte veider.

Para rir e chorar...


sábado, 16 de fevereiro de 2008

Eu?!?!

Ele - Estranha, selvagem, marafada.

Uma noite do ...

Take 1
Era suposto ficar com os irmãos que estão todos por cá e juntar-me à família reunida. Mas ontem uma gente curtida arrastou-me para a noite da Rocha. Não tinha hora para voltar. Os manos, porém, pediram que lhes desse um toque para o telemóvel assim que chegasse a casa. Agora andam feitos parvos, os fedelhos, cheios de cuidados com a mana mais velha.
Não são só eles que andam parvos, aliás. As gajas, assim que me viram, não resistiram ao comentário:
- Hmmm, de sainha!...Isso é óptimo para fazer dogging!
Cravei-lhe os olhos com alfinetes. Os meus calores não me tiraram, ainda, o siso.
A parvalheira não acabou por ali. Avançou de mansinho...
Ela - Ai, eu passo-me com homens em uniformes. Polícias, bombeiros, militares!.. E tu, Denise?
Eu - Assim, de repente, acho charmosos os músicos das orquestras.
Ela - Há gostos para tudo.
Eu - Os ordinários e os refinados.
... e encalhou, como sempre, com aquela gente, em assuntos sobre sexo. Aguentei-me calada durante um bom tempo e juro que nem respondi quando, depois de se vangloriar sobre as suas conquistas infinitas, aquela que esfaqueei impiedosamente me perguntou numa troça visível:
- E tu Denise? Quantos homens perdem o sono por tua causa?
Encolheu os ombros perante o meu silêncio e frisou com desprezo:
- O teu mal é seres romântica.
- E o teu é seres tão puta.
Ficou chocada, ofendidíssima. Que nunca pensara que eu lhe pudesse falar assim! Lá me desculpei e, para me redimir, pedi-lhe uma opinião de mulher vivida, experiente e sábia nas coisas do amor:
-Como é o depois com gente de circunstância?
- Como o quê?
- É como nos filmes? Eles sentem-se mal, vestem-se, desandam e deixam-nos ali sozinhas? Não há uma 2ª vez?
- 2ª vez????
E riu-se. Riu-se feita louca sem me responder.
Não gosto de fazer julgamentos precipitados e tentei outra coisa.
- Já experimentaste a três?
- Claro! Porquê?
- É que compreendo o prazer de uma mulher com 2 homens...
- Mas...?
- Mas que raio fica a fazer uma gaja enquando o tipo se diverte com a outra?
Riu-se. A puta riu-se. Na minha cara. Às gargalhadas. Pegou na sua vodka e foi para a pista. A rir e a dançar. Fiquei sem respostas e sozinha no balcão da disco.

Nessa noite não lhe dirigi mais a palavra.

***
Take 2
Sozinha no balcão da disco, não tardou o rol de assédios, cada um mais parolo que o outro. Diverti-me em distribuir patins aos desgraçados.

1º Porquinho (moço novo, p'raí da minha idade, armado em macho engatatão) - É menina para que idade?
Eu -45.
1º Porquinho - Ah, não parece...
Eu - É por causa das plásticas. Só me falta uma.
1º Porquinho - Onde? Onde? Não estou a ver, parece-me perfeita assim.
Eu - Num certo sítio que me vai transformar em mulher de verdade.
Desabelhou num abrir e fechar de olhos.

2º Porquinho (homem feito, cabelo grisalho e sem papas na língua) - Sozinha?
Eu - Até agora...
2º Porquinho - 21?
Eu - Mais dez.
2º Porquinho - No auge. Fruta boa.
Eu - Não aconselhada a avôzinhos.
Amargou. Não o vi mais.

3º Porquinho (muito teen, dei-lhe um desconto) - Pareces-me interessante... Vamos?
Eu - Depende...
3º Porquinho - Do quê?
Eu - Do título do último livro que leste.
3º Porquinho - Aggghhh! Livros!
Eu - Aggghhh! Não me pareces nada interessante. Nem um pouco.

Três barra zero.

***
Take 3
Um sms às 2 da manhã. Fico paralizada. Boquiberta. Os meus manos passaram-se de vez:
Tá-se a ver q a noite tá mm boa, ainda bem q te pusemos preservativos na mala. Aproveita e bebe + uns copos e n te eskeças de dar 1 tok qd xegares a casa. És sexy e mereces gajos sexys.

Espreito a mala. Descubro, horrorizada, uma caixa com 3 preservativos. Mas por quem me tomam eles?!

Manos queridos, homens sexys não se encontram nas noites da Rocha, em bares e discotecas. Homens sexys encontram-se em colóquios, concertos, livrarias e bibliotecas.

Noite para não repetir.
Nunca mais!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Eu?!?!

Ele - Estranha, sim. E selvagem.

Ai, caramba!

Tomás - O Paulo escolhe fotografias bonitas e músicas muito boas.
Ela - Qual Paulo?
Tomás - Do blogue.
Ela - Qual blogue?
Tomás - Vais à Internet, no google, escreves "felizes juntos" e carregas no enter.

Duas cartas

Marçia, Marçia és linda como o sol.
Marçia, Marçia és a terra e o céu.
Marçia, Marçia, cuando estás aqui o meu coração fica quente e cuando não estás ao pé de mim o meu coração fica frio.
Marçia, Marçia, quero casar com tigo.

Marçia es o pássaro que canta.
És linda como a Natureza.
És a árvore que dá fruta madura e boa.
És a flor que cresce entros dias.

Para: Marçia
De: Tomás
(escrito pelo Nuno)

...

(E agora? Choro ou rio?)

Cyrano de Bergerac

Eu - Gostas dela?
Tomás - Sim, é minha namorada.
Eu - Então tens de lhe escrever uma carta também.
Tomás - Eu não tenho ideias. O Nuno já está a escrever por mim. Com muitas metáforas.
Eu - O Nuno?!
Tomás - Samos gémeos. É como se fosse eu.
....
(gajos...)

Três cartas

Chegou alvoraçado, com três envelopes na mão. Abriu-as sofregamente e leu-as em voz alta. Três cartas, cheias de corações vermelhos, escritas em Arial tamanho 14.

1ª - Eu amote, tu es um verdadeiro amigu. Lembraste quando tu disseste que gostavas de mim e que querias casar comigo e eu respondi SIM

2ª - Sol meu solinho que me aqueces todu o dia e a gora que tu estás aquiainda me aqueces mais.

3ª - estrela estrelinha que te ouço lá fora e agora que tu estás aqui ao pe de mim gosto muito de ti.

De: Márcia
Para: Tomás

Para 7 anos, atrevidinha, hã?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O meu Valentim....

Salvador Dalí, Le Grand Masturbateur, 1929

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Fantasia em Mixolídio

Amanhã é dia de S. Valentim e poderia muito bem começar assim:
*
*
*

E, logo de seguida,

Para isto

Depois, um passeio por aqui

E, súbito,

Seguido de




*****

Gosto de sonhar...

Eu?!?!

Ele - Mas que és uma pessoa estranha , isso és.

Prémios

O Paulo e o Zé decidiram atribuir prémios pela blogosfera fora. Agradeço o prémio generoso e as linhas simpáticas votadas ao meu Rabiscos.
E aceito o repto. Pelo prazer de distribuir sóis a lugares que o merecem e pela divulgação dos ícones que saíram da mão do Paulo. Artesanais, diz ele. Eu gosto, e muito (ó Paulo, mas tu ÉS um artista!...).

Respeito o critério de ordenação alfabética. Nestes casos dá muito jeito.


***
PRÉMIO ALEGRIA
Lugares de alegria contagiante, boa disposição e humor refinado que me fazem sorrir

A Voz das Retretes - Assim mais p'ró assumidamente bruto, a prespectiva satírica sobre o que vai acontecendo por aí. Auto-ironia, humor e afectos, como neste post.
Cum Carago, ó Celeste - Os seus textos fazem-me sorrir. É um blogue muito menina, com muita ironia, cheio de afectos e um olhar atento sobre o que se passa no mundo.
Jornadas - Pela forma como perspectiva as pequenas coisas do quotidiano, pelo modo como atenta aos pormenores, pela boa-disposição que se alonga pelos comentários.
PR - Pela forma como manuseia o calão, o tira do vulgo e o apresenta com todo o requinte. Pela forma como recoloca os pedestais. Pelo facto de me fazer rir.
Volta à Vida em 80 Mundos - É o mundo da Jumpseat, muito maluco, muito gaja, muito divertido.
World Wide Wacko - É um blogue muito bem-disposto, com um olhar irónico sobre tudo, a começar pelo próprio autor.


***
PRÉMIO AMIZADE
Lugares de afectos, reais e virtuais, que visito e me visitam amiúde e me enchem o coração


A Fada da Almofada - Da Ana Tarouca, assume-se como reino de ilustrações e livros encantados. Universo sobre Arte (também) para crianças.
À Margem da Ria - Do Manu, que é um artista, do verbo e da imagem.
Ad Inspirationem - Da Vivienne, que conheci em Tormes. Menina de Clássicas em início da vida adulta.
Antíteses e Transparências - Da Fernanda, monga do mongo, que escreve como gente grande.
Desabafos de uma Prof. - Da Tia Adoptada, exímia na multiplicação de blogues!
Felizes Juntos - Depois de tudo o que escrevi no Rabiscos e Garatujas, precisarei de acrescentar mais alguma coisa? O blogue dos blogues. O blogue do Paulo e do Zé.
Galeria em Construção - O blogue da Ana Paula Moreira, assumidamente transdisciplinar.
Lendas e Legendas - Blogue colectivo, co-fundado pela minha amiga Sívia, que nos leva ao mundo dos livros e dos filmes.
Tulisses - Do TUlinho, onde vai experimentando as suas aventuras literárias.
Volta à Vida em 80 Mundos - Da Jumpseat, amiga do Rabiscos.
World Wide Wacko - Conhecia o Francisco de outras andanças, mas foi com o WWW (ou UUU) que nasceu a empatia.

***
PRÉMIO LEITURA DELEITÁVEL
Lugares que me fazem pensar e crescer retórica, filosófica, política e artisticamente


A Alquimia do Verbo - Reflexão séria sobre o mundo, com intervalos descontraídos.
A Vida em Deli - Do tão bonito Constantino, guardador de vacas e de sonhos, deixa-me espreitar, a cores, o país dos meus avós.
Ana de Amsterdam - De escrita impoluta, sem papas na língua. Com uma retórica-inspiração e admiráveis incursões pela autoficção.
Antíteses e Transparências - A Fernanda escreve bem pra caramba.
Controversa Maresia - Subscrito por Vieira do Mar. Gosto da escrita limpa e do olhar crítico sobre tudo, sem dispensar a pitada de humor.
Blog de Espiritismo - Sério e rigoroso na difusão e esclarecimento sobre a doutrina espírita. Excelente organização e configuração estética.
Blogue do Reitor - Mantido, ainda que pouco assiduamente, pelo charmoso e rigorosíssimo Professor Carlos Reis.
Da Literatura - De Eduardo Pitta e João Paulo Sousa. Sobre livros, política, cultura, sociedade.
Felizes Juntos - Vida, livros, música, arte, amor. E muito mais.
Galeria em Construção - Gosto dos poemas mas, sobretudo, das telas e dos títulos que a Ana lhes dá.
Jornadas - Pela retórica da sensualidade. A mais apurada da blogosfera por onde até hoje naveguei.
Lendas e Legendas - Leituras de livros e de filmes. A 8 mãos.
O Funcionário Cansado - Livros, leituras, escritores.
O que cai dos dias - De João Ventura, que foi meu professor, um dos melhores blogues sobre livros e leituras.
O Vermelho e o Negro - Também sobre literatura, aqui assumida como necessidade.
Prazer_Inculto - Do Possidónio Cachapa, um pouco do mundo, com muitos livros à mistura.
PR - Excelentes exercícios de auto-ironia e da criação retórica do humor.
Wehavekaosinthegarden - Bate em tudo e em todos, debate-se pela liberdade de expressão.

...

Ponto da situação em meados de Fevereiro de 2008. A actualização, a fazer, em posts mais recentes.

A minha tristesse

Eu também ando assim, triste e murcha. A Tia Adoptada falou-me dos neurónios-espelho. Não sei se os meus cintilaram com a voz do Paulo, se com o Requiem de Mozart, os concertos de Bach ou a Water Music de Handel. Aquele cujo nome não posso revelar anda assim, como eu. E isso não ajuda. Nada, mesmo.

Miminho para o Paulo

O special golden boy, i.e. o meu Paulo do anda triste, murchinho, pelas ruas da amargura. Falei-lhe no Domingo. Disfarçou a voz, riu até, mas não escondeu a tristesse. Passados dois dias, percebo, pelo silêncio e pelo FJ que ainda não resolveu essas coisas tão só dele.
Fiz-lhe lembrar do mar de gente que gosta dele e do quão especial ele é para tod@s nós. Ele sublinha que é bom quando os amigos se apercebem, demandam e oferecem ajuda. E que nunca é a mesma coisa.

Não é mesma coisa, mas é alguma coisa. Por isso, amigo querido, aqui fica um beijinho meu, para te animar.

Cão Velho entre Flores

Li-o, pela primeira vez, em 2001. Gostei tanto, que dei por encerrada a pesquisa do autor sobre quem escrever a tese. B-B e ponto final. O texto que se segue são os primeiros apontamentos da minha primeira leitura. Dá vontade de o reescrever, de o polir... mas apresento-o assim, ponto da situação aos 25 anos de idade.


Cão Velho entre Flores ou a técnica do pontilhismo

Assiste-se, em Cão Velho entre Flores de Baptista-Bastos, a um exercício mnemónico de um narrador autodiegético que procura compreender-se e interpretar-se enquanto homem através da contextualização de parte da sua vida, construindo a sua narração a partir de dois tipos de discurso – um de cariz descritivo, outro de pendor mais reflexivo. Desta forma, a obra apresenta-se como uma viagem pela memória da personagem-narrador: uma viagem feita de fragmentos, flashes, que vão surgindo, regra geral, cronologicamente.
A história contada pelo narrador é composta por múltiplas histórias cujas personagens ora se apresentam como protagonistas ora se revestem de um papel mais secundário. Ou, de outra forma, a história de um homem (a do narrador) feita de histórias de outros homens, cabendo nela, também, a história de uma geração, de uma época, de uma nação.
Após uma localização espacial que se estende em dois parágrafos de descrição, a narração inicia-se a partir de uma analepse (“Dobro os olhos para antigamente...”) que recupera um período muito demarcado da infância do narrador. A sua história vai-se incorporando, paulatinamente, na história da sua família e, depois, na história de uma geração. O individual insere-se no colectivo. Assim se explica a coexistência de dois posicionamentos aparentemente antagónicos: o subjectivo e o objectivo. Associado ao primeiro, surge um discurso reflexivo de pendor memorialista enunciado na primeira pessoa do singular; dependentes do segundo, encontram-se as atitudes narrativa e, sobretudo, a descritiva de uma realidade vivenciada não só por aquele que a conta mas também por todas as outras personagens: documenta-se o período do início da 2ª Grande Guerra no Portugal salazarista. Nesta tentativa de objectivação, concorrem o recurso à terceira pessoa (a partir de determinada altura o narrador fala de si de forma distanciada) e a atribuição do papel principal a uma outra personagem que não o narrador – conta-se a história do outro, dos outros, num desvio que consolida a sua própria história. É neste sentido que, se no primeiro capítulo o narrador se apresenta como personagem principal, nos seguintes cede o protagonismo ao avô, ao pai, ao tio ou ao primo. No entanto, a perspectiva nunca deixa de ser interna e a tentativa de objectivação acaba por gorar. Entre os dois posicionamentos referidos situa-se o discurso na segunda pessoa do singular – o narrador dialoga consigo mesmo, adquirindo uma postura simultânea de espectador e de actor (no sentido de quem age). Dialogam, assim, presente e passado. Um diálogo que se estrutura, sobretudo, como um monólogo, uma vez que o discurso é unidireccionado: o receptor não existe, é a criança que habita na memória de um narrador adulto, mais velho, amadurecido e distanciado pelo tempo. Esta distância, que procura reforçar uma certa objectivação, atenua-se a partir do momento em que se adopta, inevitavelmente, o discurso reflexivo.
O universo da memória do narrador apresenta-se fragmentário e lacunar. Os capítulos em que se organiza o livro demarcam essas fracções e a coerência do discurso constrói-se, por vezes, a partir capacidade interpretativa do leitor. Os flashes de memória ultrapassam a dimensão narrativa e adquirem contornos descritivos. Assim, o que numa primeira leitura se poderá vislumbrar como traços narrativos, uma leitura mais atenta e abrangente integrá-los-á num todo: pinceladas de recordações, imagens congeladas, isoladas. É da própria descrição que se opera a narração.
O esforço do rememorar conduz a lembranças que propiciam o esboço de um sorriso amargo e o exercício mnemónico do narrador gera uma ironia fina, subtil, que oscila entre o sarcasmo e o humor.
Na ironia de Cão Velho entre Flores, cabe o equilíbrio existente entre diferentes níveis de linguagem. Com efeito, conjugam-se, ao longo de toda a obra, discursos de extrema beleza literária com tiradas correntes e populares que tocam, por vezes, o calão. A quebra conseguida pelo palavrão inusitado ou pela súbita mudança de registo funciona como uma espécie de abanão que procura prender o leitor. A linguagem mais coloquial atribui, por outro lado, um carácter mais verosímil à ficção – uma outra forma de cativar o leitor. Literário e coloquial harmonizam-se, sobretudo, nos momentos meditativos que não isentam quem recorda fortes emoções. Desta forma, surge o discurso indirecto livre, de forma acelerada, repleto de repetições, atropelamentos e lacunas, como é próprio do discurso oralizante e, por outro lado, recheado de uma surpreendente riqueza lexical. O recurso ao discurso indirecto livre permite que o narrador funda a sua voz às das restantes personagens e que aproxime, de certa forma, o tempo que o distancia do seu próprio passado: torna vivas as suas recordações. A distância existente entre esses dois tempos é também atenuada pela projecção que o narrador faz de si para as personagens mais velhas, quer sejam elas o avô, o pai, o tio ou o primo. Efectivamente, estas personagens mais velhas, todas elas masculinas (note-se que as personagens femininas, por quem o narrador sente simultânea ternura e repugnância, mas nunca admiração, são secundarizadas), permitem a construção do discurso mais maduro que nunca poderia ser proferido por uma criança – não nos esqueçamos que, embora a recordação seja propulsionada por um narrador adulto, as vivências são perspectivadas pelo olhar da criança que era então. Assim, a componente reflexiva contrastante com a despreocupação infantil do protagonista é remetida, em discurso indirecto livre, para as restantes personagens com quem o narrador notoriamente se identifica.
Outra forma de ironia recorrente na obra nasce do corte que a interpretação pueril que o narrador enquanto criança faz daquilo que observa. Questionar o que parece banal ou, inversamente, desdramatizar assuntos a que os adultos atribuem grande importância, desperta o sentido crítico do leitor que, ao mesmo tempo, não deixa de sorrir, ainda que amargamente, perante a ignorância inocente própria da infância.
A amargura no sorriso do leitor surge, ainda, com a junção inesperada de locais (o cemitério e a taberna), de situações (a verbena e o luto), de personagens (a possibilidade de longas conversas com um surdo-mudo) que acentuam a miséria do tempo histórico em que se situa a ficção. Uma miséria que, apesar de tudo, consegue mostrar o seu lado positivo. E é esta ironia associada a um optimismo cúmplice do culto da vida que se encontra logo no título da obra.
Em Cão Velho entre Flores, a tessitura do texto torna-se complexa. Nela se cruzam e se fundem tempos, vozes, histórias, personagens, tipos de discurso, níveis de linguagem. Pinceladas que, isoladas, se fecham na resistência de um mistério obscuro. Cabe ao leitor distanciar-se, afastar-se, para melhor compreender as múltiplas relações que delas podem advir. Deverá admirá-las de longe, integrando-as no seu todo.

Cão Velho para duas flores

No Domingo estive com dois afectos no pensamento. Gosto de partilhar aquilo de que gosto com quem gosto.
Cão Velho entre Flores, foi o meu primeiro livro de Baptista-Bastos. Entre os oito títulos de então, foi uma coincidência feliz. Foi este livro o responsável pela decisão quanto ao autor sobre quem iria redigir a minha tese de mestrado (a minha primeira escolha, António Torrado / ironia / literatura para crianças, havia sido descartada por razões outras que não cabem aqui).
Andava à procura, já há algum tempo, de dois exemplares para oferecer à Tia Adoptada e ao Paulo. A Tia tem esperado pacientemente. O Paulo, no seu aniversário, teve de se contentar com As Bicicletas em Setembro, excelente, mas não o livro exacto que eu queria ter oferecido.
Encontrei o Cão Velho na Fnac da Guia. A 1 euro! Levei dois, para as minha flores. A Tia, que é mais mana do que tia, já o tem. Sorriu quando lho entreguei e pareceu-me com verdadeira vontade de espreitar. O Paulo, que está mais longe, não me quis dar a sua morada. O tonto recusa-se a compactuar com portes de envio e coisas do género. É um pretexto, Denise, para um reencontro na capital. Safou-se bem, o maroto!


Maudits

Honni soit qui mal y pense. Sussurrado por um amigo a propósito das confusões que a autoficção pode criar.
Do alto da minha ignorância, lá fui procurar informação.
O meu amigo retirou-a do Soldadó de Carlos Vale Ferraz.
De uma tradução mais à letra resulta Amaldiçoado quem nisto põe malícia.
Se as minhas pesquisas estiverem certas, Ramalho Ortigão libertou-se das amarra literais e propôs Mal haja quem não cuida.
O Vasco Graça Moura gostou e acrescentou-lhe apenas um advérbio: Mal haja quem bem não cuida.
A expressão, também explicada na Wikipédia, esteve na origem da criação da Ordem da Jarreteira e tornou-se na sua divisa. Mais: foi recuperada como tradução francesa do título de uma comédia de 1947 realizada por Henry Coster, The Bishop's Wife.

Gosto de aprender coisas novas.
Agora, já posso amaldiçoar com todo o requinte.
oní suá qui mali i panç!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

J.S.Bach. BWV 1060 - 2º andamento

Pura e simplesmente, não consigo explicar. O peito enche-se de emoções de todos os registos. Como amo Bach!

J.S.Bach. BWV 1060 - 1º andamento

O coração apertado, apertadinho. Mozart deu o empurraõzinho, depois foi sempre a andar. Bach é o compositor da minha vida. E este concerto pra violino e oboé ajuda a desentupir saco lacrimal.

Requiem. Ré menor. K. 626

Acordei cedo, com Bach. Feliz. Bem-disposta. Gostei do fresco matinal e do bulício na cidade logo às 8 horas. Feliz e bem disposta. Quis mais música durante os primeiros afazeres domésticos. Teimei com Mozart. Escolha infeliz. O Requiem.
...
O coração ficou apertado. Apertadinho.

(Deixo-vos com o Introitus)

La gaffe du jour

Ela - Li do teu fogo.
Eu - Haja piedade por uma alma em brasa.
Ela - Já ouviste falar em auto-gestão?
Eu - Ó mulher, mas isso chega-me lá!
Ela - Há sempre o chuveiro...
Eu - Endoideceste?!... Não exageremos! Tens lá noção do tamanho dum chuveiro?!

Silêncio

Ela - Estava a falar da pressão da água do chuveiro...

Ó diabo. Ao que chegou o desespero. Toldaram-se-me as ideias. E o resto do bom senso que por lá passeava.


By the way... Está calor não está? Acho que vou tomar um duche.
Rapidinho.

E, agora, para Sua Excelência Anónim@

Sua Excelência esquece-se que, apesar da minha veia democrática, fervilha em mim um pulsar que tem o seu quê ditatorial. Por isso, reservo-me ao direito de moderar os comentários que vão surgindo.
Ora, os comentários de Sua Excelência não dignificam a causa literária. Confundem corpo de papel com corpo de carne, osso, gordura e cartilagem.
Sua Excelência não atingiu o âmago dos meus poemas eróticos. A beleza da paisagem marítima; o prazer do falatório; a bonança da tempestade.

No meu Rabiscos e Garatujas, os habitantes são inteligentes, cultos, perspicazes.Com capacidade de raciocínio metafórico. Allegro e troppo. Tropologia. Tro-po-lo-gi-a.

Por revelar tamanha incapacidade, recuso-me a admitir e a publicar os comentários propostos por Sua Excelência.
Leia, Sua Excelência. Leia. E edifique-se.

Para os amigos borreguns - II

Comentar para quê?
A Deniblog explica:

1. A Deniblog teve a gentileza de abandonar o caderninho que guarda na gaveta e partilhar o que vai escrevendo (quase) diariamente.

2. Partilhar é um acto de generosidade nem sempre de todo desinteressado.

3. Isto é, se a Deniblog abandonou o caderninho da gaveta, é porque sentiu, a certa e determinada altura, a necessidade de outras leituras que não a sua.

4. Isto é, de feedback, reacções, comentários.

5. Há comentários que aparecem na caixa de correio do R&G (rabiscosegaratujas@megamail.pt) mas não é isso o pretendido.

6. O que se pretende é uma troca aberta de comentários: uma forma interessante de tornar mais ricos os meus rabiscos.

7. Para além do mais, implicar-se na co-escrita do Rabiscos e Garatujas significa recriar-se enquanto personagem deste universo textual.

8. Significa, também, assumir-se como habitante do meu país, do meu reino, do meu império e aumentar a taxa da sua população diegética.

9. Significa, por fim, deixar a Deniblog um pouco mais feliz.

Ora, os amigos são borreguns, mas são amigos. E os amigos querem ver a amiga feliz. Sem beicinho nem sobrolho franzido.

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