segunda-feira, 31 de março de 2008

TPM

Pergunta-me um amigo o que é lá isso de TPM.
.. só mesmo um homem para não saber o que é cá isto da TPM...
Pode ser tudo isto aqui.
Ou, simplesmente, Tensão Pré-Menstrual.
Andavam as parvas das minhas colegas do ciclo preparatório a mostrarem as protuberâncias mamárias e os primeiros pêlos púbicos nos balneários, já eu sabia de coisas outras como menarca e ciclo de vinte e um dias e amadurecimento e expulsão de óvulos. Elas não me deixavam participar nas fabulosas explorações ante e pós aulas de educação física porque era mais nova e, por isso, ainda criança. Deixá-las. Sempre foram muito parvas e eu não me sentia à vontade nem com grande pachorra para lhes explicar destas coisas mais avançadas e lhes contar como havia sido comigo.
Ficou para hoje.
Eu tinha onze anos. Fui fazer um chichizito e assustei-me com a mancha evidente. Mudei de cuecas. Uma. Duas. Três. Tantas. Não sabia que merda era aquela que estava a sair do meu corpo e, como já não tinha mais roupa interior que me valesse, fui ter com a minha mãe. Lá me explicou o que era, sem grandes euforias nem disforias. Pela forma como me falou, percebi que não era mais menina. Coisa séria. E fiquei triste. Lembro-me de passar a ter mais pudor no colo o meu pai e de começar a fechar a porta da casa-de-banho. Não sei porquê, mas não falei com mais ninguém sobre isso. Nem com a minha mana do meio, nem com a benjamin. E nem eu sei como foi, depois, com elas. Passou a ser um assunto só meu durante o início da minha adolescência. Mais os fantasmas e aqueles mitos que, de geração em geração, sobreviveram ao passar dos séculos.
A minha mãe entregou-me um daqueles pensos hipermegasuperabsorventes que mais pareciam fraldas. Foi uma sensação horrível e, à saída da infância, eu nem sabia muito bem como andar com aquilo metido no meio das pernas. Foi assim durante alguns anos. Em vão, as tentativas com o tampax mais delgadito. Cheguei a sentir medo da hora de desfloração. Passada essa hora, mandei os pensos à fava e nunca mais abandonei o tampão.
A TPM ameaçou, sorrateira, durante a adolescência. A dorzinha de cabeça e o desconforto na barriga. As mãos quentes do C. faziam milagres. Punha-as assim muito quentinhas e quietinhas. O efeito era imediato. Depois comecei a tomar a pílula e nunca mais aquilo me incomodou. Já lá vão muitos muitos anos.
Iam.
Em Novembro, assim que deitei fora a caixinha do Minulet, a coisa voltou. Em força. Primeiro muito airosa, com o verde das veias, o volume dos seios, a sensibilidade nos mamilos. Depois, estoira. Dores de cabeça. Dores de barriga. Dores de costas. Algumas lágrimas à mínima provocação. Alguma rudez. Muito nervosismo.
O C. já nem liga. Podia ficar calado, mas gosta de me provocar. É mais forte do que ele, advoga. À primeira palavra áspera, atira-me com a TPM à cara. E eu fico tão, mas tão!, possessa! Para os Manelinhos é ainda a descoberta com as mil e uma perguntas. E nem na casa-de-banho encontro o sossego que procuro.
Às vezes é triste ser a única gaja do lar. Eles não compreendem nem nunca vão comprender. E eu pergunto-me como será daqui a uns anos, quando em vez de TPM eu estiver na menopausa...

Mas, e para já, regresso à caixinha dos 21 comprimidos...
Por um motivo que não aquele que eu preferiria.
Irra!



(Desenho encontrado no Xani's Blog)


Nota: um post engraçado sobre a TPM, aqui.
... um nadica familiar... hã?

Goa - Depois do Adeus

Podia ter sido um programa bem mais interessante. Pena a Maria Elisa preferir ouvir a sua própria voz a deixar os convidados falarem... O Narana Coissoró lá terá direito à sua opinião. António Costa Pinto e Pedro Pinheiro, que eu não conhecia... E só espero que da próxima vez não se esqueçam de convidar o Constantino Xavier.

Valeram-me as pequenas reportagens...

Flash 10. Ainda, pois!

A Tia trocou-me as voltas. Em vez de quatro, cinco dias de festejo non-stop.
No «PARABÉNS... ainda», os grandes acontecimentos de 27.03.1976.

Passem por lá . Dali, podem espreitar as notícias que marcaram o dia do vosso nascimento.

domingo, 30 de março de 2008

Flash 9. Festa de encerramento

30 Março - Lanche. Família. Afectos.
Revigorada, o tempo para a família. Pai, mãe, mana do meio. Manelinhos incluídos. Eu fiz uma pizza e montei uma tábua de queijos, com muita variedade de pão. O bolo de anos foi feito pelo Tomás. Laranja com cobertura de chocolate. O Nuno brindou-me com o meu bolo favorito. Bática. É um bolo goês. A minha mãe não é eterna e eu tenho mesmo de aprender a fazê-lo...
É bom estar em casa. Mesmo quando não há quase conversa nenhuma. Há olhares, sorrisos e silêncios que substituem muitas palavras. É bom estar com os meus velhos. E com a mana do meio. Faltaram-me os outros dois. Os Manelinhos quebram aquela calma doce e eu fico sempre muito enervada com as tropelias das pestes. É que na casa dos vovós eles abusam. Nunca nada faz mal. E se eu ralho há sempre um afago sorrateiro. Um sorriso cúmplice.
Gosto de estar em casa. Na casa onde me fiz. Na paz daquela casa de amor que é minha também.
Tenho 32 anos. Mais 68 pela frente. E sinto-me feliz!

Flash 8. Descanso

29 Março - Aulas. Sono. Mimos ainda. DVD. Palermices deliciosas.
O dia começou as 7 da manhã. Dou formação a duas turmas. É uma merdinha ter os sábados cortados assim, mas com horário incompleto não me resta grande alternativa...
Não tomei o pequeno almoço e quando regressei às 12h30 caí no sofá. Levantei-me às 13h30m para a segunda dose. Nem consegui almoçar. De regresso, às 18h, nova queda no sofá. Os Manelinhos beijaram-me, abraçaram-me, enfiaram-se por baixo da mantinha. Mas eu não consegui. Cantaram-me os parabéns. E eu nada. O C. deu-lhes a janta e obrigou-me a comer. Eu gritei-lhe e ele desapareceu na cozinha. Arrependi-me. Arrastei-me. Havia pizza e sopa. Despertei.
Um vídeo em família. Shrek, o Terceiro. Eles adoraram a minha presença. Nem sei há quanto tempo não estamos assim os quatro, a rir de parvoíces. O Tomás levou os pés à boca. Consegue chupar no dedão. Nos dois. Ao mesmo tempo. O Nuno não quis ficar atrás. Mas só conseguiu um de cada vez. Depois tentei eu. Por fim o C. Éramos os quatro, de pijama, em posições muito pouco ortodoxas nos sofás e no chão da sala. Há tanto tanto tempo que não fazíamos palermices assim... E foi tão bom...

Flash 7. Regresso

28 Março - Manelinhos. Beijos. Palavras.
Já tinha a edição brasileira. O C. ofereceu-me o Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, ilustrado pelo André Letria e editado pela Quasi. Gostei. Mas continuo a preferir a ilustração do Ziraldo e a disposição gráfica da José Olympio.
Para além da chuva de beijos, os meus filhos também me ofereceram palavras. Ilustradas. Saídas do punho e do coração de ambos.

Tú és linda, linda, linda estou com muitas soudades tuas espero que estejas bem no otél.
Nuno

mamã gosto muito de ti porque és minha mamã. Mas gosto mais de ti quando fazes anos. És o meu amor.
Tomás

Flash 6. Lisboa

28 Março - Viagem. Lisboa. Matilde. Flul. Isabel Rocheta.
Eu esforcei-me. Não se deve dormir ao lado do condutor. Mas passava uma coisa qualquer do Dvořák na rádio e eu não aguentei. Acho que ele nem se apercebeu. Gosta de Dvořák e esteve absorto durante aquele tempo todo. Talvez até tenha sido um favor que lhe fiz. Sei que acordei com Debussy, já mais ao meu gosto, e um comentário qualquer sobre uns jactos que riscavam o céu. A tempo. Atravessávamos o Tejo e, da Vasco da Gama, eu vi Lisboa banhada pelo sol. Levou-me ao Bairro Alto. À Casa da Matilde. Há uns dez anos que não punha lá os pés. Onde almoçávamos com os seus colegas de curso ou com a Margarida do canto ou com o Zé da Musicoteca ou apenas nós os dois, ainda namorados. A Casa da Matilde era povoada por aquela gente bonita que desce do Conservatório. Instrumento, Composição, Dança, Teatro. Gente cuja singularidade sempre muito me encantou. Na Casa da Matilde eu empanturrava-me com os famosos pastéis de massa tenra, as baguetes de panados que eu encharcava de maionese, a canja com massinha e hortelã, o sumo de morango. A velha Matilde já lá não está. Estava a filha, de quem também me lembro tão bem. E um moço simpático. Foi uma sopa e um pastel daqueles e um croquete e um panado com maionese e um sumo de morango e ainda um pouco do de manga do C.
A Casa da Matilde, na Rua da Barroca, nº 31.
Depois, o coração aos pulos. FLUL. Orientadora. O mais que certo puxão de orelhas. A Professora Isabel Rocheta é daquelas professoras que ressalvam sempre o lado positivo das coisas. Relembrou-me as oscilações profissionais seguidas da instabilidade emocional. Contra-argumentei com o facto de que isso não é desculpa para nada. Ela mostrou-me os ensaios que tenho vindo a escrever e as comunicações que tenho apresentado. Lagos, Évora, Lisboa, Coimbra, Porto. Que têm partido pedra porque avançam no caminho da tese. Autorizou-me, incentivou-me, a pegar no B-B para o Act 20. Falou-me das minhas capacidades, da minha força, da importância do meu contributo para os estudos literários, da inovação, do seu próprio entusiasmo. Convidou-me para a redacção de um texto para a colectânea que está a organizar. Ofereceu-me último número da Românica. Assim, não consigo desistir. Com responsabilidade acrescida. Mas com a vontade revigorada.

Flash 5. Noite

28 Março (madrugada) - Quarto. Inquietudes do corpo. C.
Um quarto exíguo no Seminário. Com duas camas. Mas exíguo. A prova dos nove. E ele surpreendeu-me. Sabe do que não gosto. Sabe do meu não. E, talvez por isso, nem se atreveu. Não de forma demasiado explícita. Gostei de ficar a conversar até às altas horas da madrugada. Ainda me leu um trecho do livro que tinha em mãos. Ainda nos rimos. Eu fiquei comovida com os cuidados e, impondo o controlo ao corpo, da minha cama estendi-lhe a mão. Deitado na sua cama, estendeu-me a sua. Grande e possante. Macia. Suave. Delicada.
Embalou-nos o som de uma harpa que havia aqui, apenas aqui, por dentro.

Flash 4. A soirée

De 27 para 28 de Março - Le thé des écrivains. As amigas da Tia. Alda. Felicidade.
No fim do concerto, o telefonema do Paulo fechou um círculo: sem contar com o C., foi o primeiro e o último a dar-me os parabéns. O Paulo é como eu. Quando se gosta, os mails e os sms não são suficientes. É preciso ver, sentir, tocar. Quando a distância o não permite há o telefone e, assim, a voz.
A noite estava boa e a companhia excelente. Propusemos um bar. A Alda contrapropôs um chá, lá por casa. Apareceram mais duas amigas da Tia e acabei por ter um serão de anos inesquecível. Le thé des écrivains américains e quatro mulheres com mais de meio século de experiências, entre o registo naïf e o ousadio, de uma simplicidade ternurenta, com conhecimento e lucidez invejáveis. Daqui a vinte anos quero ser assim. E ter amigas assim.
A Alda, colega reformada, dedica-se, por amor genuíno, à edição de livros. Graciosamente, faz a revisão, a montagem e o arranjo gráfico dos textos que lhe vão chegando. Escolhe as capas também. Encaminha-os para a topografia. São livros que não se vendem. Oferecem-se. Por amor à palavra. Ofereceu-me oito volumes. Em casa, mostrou-me como se espalhavam pelo corredor, pela sala, pelas escadas que nos levavam ao sótão. Folheei o Luuanda do José Luandino Vieira que estava na bancada da cozinha. Leve-o, menina. Que jeito. Este, a Alda comprou. Leve-o, faça favor. Insistiu e eu fui pô-lo perto dos restante. Veio atrás de mim com o Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde do Mário de Carvalho. Nem pense. Leva, leva, menina. Gabei-lhe a colecção de latas. Latas antigas, bonitas, coloridas, onde desfilam as estratégias de marketing de tempos idos. Deu-me uma lata antiga. Da Kellog's. Tenho-a repetida. Fica para a menina. Gabei-lhe o chá. Ofereceu-me dois frascos cheios de ervas. Depois resolvi ficar caladinha. Ainda nos ofereceu alojamento. Mas já tínhamos a nossa vida orientada.
A Alda é uma mulher muito doce, cheia de vida, inteligência e humor. Sempre que conheço uma amiga da Tia fico sempre assim muito deslumbrada. São pérolas, tesouros autênticos, que ela vai partilhando comigo.
E eu, emudecida, só posso agradecer.

Flash 3. O concerto

27 Março - Música contemporânea. Cristóvão Silva. Dois rapazes bem bonitos.
A expectativa é sempre diferente quando a música é contemporânea. Apesar de todos os esforços, com leituras, conversas e audição dos nomes mais sonantes, a educação do meu ouvido está paupérrima e, regra geral, saio muito desconsoladinha dos concertos. Mas, desta vez, gostei. Das texturas criadas pelo Rogério Medeiros, da paródia e do desconstrucionismo do Nuno Rodrigues, das ambiências exploradas pelo Cristóvão Silva. Conheço, de perto, a música deste compositor portimonense. Habituada a uma contemporaneidade mais comedida e às incursões pelo jazz, reconheço, porém, que a atonalidade das Divagações mantém traços seus. Para além disso, a peça comprova, uma vez mais, a sua faceta poliestilista. A Tia fez um vídeo. Para terem uma ideia, espreitem aqui.
Fiquei arrepiadinha, completamente, com Da Loucura, do Grotesco e da Morte em Peer Gynt, de Eurico Carrapatoso. Excelente.

O EvorEnsemble Contemporâneo é composto por gente nova e muito simpática. Mas haviam de ver, ui!, o Rogério Medeiros, no violoncelo, e, ainda mais, o Vasco Ramalho lá ao fundo, na percussão...


Um pouco de música contemporânea (da que gosto):


(Pierre Boulez, Sur Incises, par l' Ensemble Intercontemporain. 1996-98)

Flash 2. O jantar

27 Março - Afectos. Tinto com 7Up. Filosofia. Estética.
A Tia chegou com o entardecer. Todas as palavras serão sempre muito poucas para explicar o quão gosto desta mulher e do quão ela tem sido tão importante na minha vida. Abraçou-me. Apertou-me. Perguntou-me pela palhinha. Com ela, duas amigas. Com ela, o que quer que seja é sempre muito bom. Desta vez, o jantar, muito riso e filosofia sobre gostos, educação, estética e conhecimento. O C. é um romântico e gerou-se a discussão em torno do sentido de estética. Advogo que o gosto pela Arte se educa e que é pela compreensão que, muitas vezes, aprendemos a gostar de uma peça que antes nada nos dizia.

Mesmo traçado com 7Up, o tinto estava a modos que forte e eu segui rosadinha para os sons da noite.

Flash 1. A viagem

O que faço tem de ser em grande. O meu 32º aniversário foi uma festa de quatro dias.
Depois da supresa do Paulo, o mimo inesperado do Manu. Espero que invulgar com um sentido outro que não alien. Depois, a maratona.
Agora que já repousei o corpo e o espírito, regresso com alguns flashes.


27 Março - Viagem. Beja. Évora.
O C. sabe do que gosto. Acordei com o quarto inundado de sol e o som de Bach por Glenn Gold. Pianíssimo. Perfeitíssimo. Deixámos os meninos com os avós e rumámos ao Alentejo. Era o meu dia e a rádio brindou-me com o Concerto em ré menor de Albinoni. Um desvio por Beja para um café com o Roberto Perez e um almoço a dois n' A Pipa. A sangria estava forte e o copito único foi suficiente para sentir o chão fugir-me dos pés. Para Évora, desligámos o rádio. Gosto de ouvir o C. filosofar sobre o que lhe vai passando pela mente. Leituras. Sonhos. Projectos. Memórias. Galhofa. Regra geral, é durante as viagens, com mãos no volante e olhos na estrada, que temos tido as melhores conversas das nossas vida. Em Évora, sol, sempre.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Obrigada

PAULO

!!!
Já me fizeste lacrimejar com isto, gajo!

Denise

(Denise, by Randy & The Rainbows, 1963)

Oh, Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, Denise
Oh, with your eyes so blue
Denise, Denise
I've got a crush on you
Denise, Denise
I'm so in love with you
Oh, when we walk
It seems like paradise
And when we talk
It always feels so nice
Denise, Denise
I'm so in love with you
Your my dream and I'm in heaven
Every time I look at you
When you smile it's like a dream
And I'm so lucky
'Cause I found a girl like you
Oh, Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, Denise
Oh, won't you hold me tight
Denise, Denise
Oh, can we kiss goodnight
Denise, Denise
I'm so in love with you
Oh, Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, dooby doo
I'm in love with you
Denise, dooby doo

Denise

(Denise, by Fountains Of Wayne )

I know this girl named Denise
She makes me weak at the knees
She drives a lavender lexus
She lives in queens but her dad lives in texas
[sha la la la la la la]
When she holds me
[sha la la la la la la]
I cant help myself
[sha la la la la la la]
Wont you tell me
Do you love me Denise?
Whoa-oh
Do you love me Denise?
Oh baby tell me please
[do ya do ya ah-oh do ya do ya]
I heard she used to be married
She listens to puff daddy
She works at liberty travel
She got a heart made of gravel
[sha la la la la la la]
She controls me
[sha la la la la la la]
She cant help herself
[sha la la la la la la]
Wont you tell me
Do you love me Denise?
Whoa-oh
Do you love me Denise?
Oh baby tell me please
[do ya do ya ah-oh do ya do ya]

Denise

Denise

Denise


Um filme de Hal Salwen. 1995.
(Alanna Ubach como Denise)

Denise

Gosto do meu nome.
Nem sempre assim foi. Conquistou-me apenas na faculdade, com a pronúncia das minhas colegas francesas. Agoro gosto de todas as maneiras. Com a primeira vogal foneticamente baixa (em família e com os amigos por ela contagiados) ou alta (no meio académico, nas escolas e por aí) ou média (ao gosto dos irmãos brasileiros). Gosto dos diminutivos. Deninha, os anciãos da família; Deni, os aprochegados; D., a Ana Paula ou, simplesmente, P.
Tudo muito compartimentado, porque estranho o nome e os apelidos nos locais e nas boas erradas. Deixa de me servir. Deixo de ser eu. E é preciso insistir.
Gosto do meu nome.
Tem a minha cara.


O meu dia

1976. Contas feitas, 32 anos.
A estas horas, já o beijo roubado do C. e os beijinhos, muitos, no e-mail do Paulo.
Não há muito a dizer. E o pouco que há vai-se aqui tecendo, dia após dia, entre o vero, o verosímil e o ficcional. Um pouco de Denise; muito de Deniblog.
E porque hoje é dia de festa, um cabeçalho colorido e a música da praxe no meu RG.
32 anos. Pouco menos de um terço do total, tendo em conta que pretendo celebrar o meu centésimo aniversário ainda nesta reencarnação.


Esqueçam as prendas. Toquem-me e beijem-me e abracem-me e escrevam cartas e postais e entupam a caixa de email e o telemóvel com mensagens. Eu gosto.



Parabéns, gaja!

quarta-feira, 26 de março de 2008

Apontamentos de leitura

Feitas as leituras, algumas palavrinhas.

»» Luísa Costa Gomes. A Galinha que Cantava Ópera e Outras Histórias de Animais, ilustrações de Pierre Pratt, Lisboa, Dom Quixote, 2005.

«A galinha que cantava ópera» abre o livro. Narrativa em verso rimado, livre de pontuação. Gosto do jeito para as palavras da LCG. Não gostei do desfecho. Os Manelinhos também não. Preferia que a protagonista pugnasse pela vocação e que as crianças leitoras compreendessem a importância da persistência e da luta pela concretização dos ideais de vida.

Desencorajada pela competição
Buscou a galinha nova profissão.

- Posso dar outro final à história, mamã?
- E qual seria, Tomás?
- A galinha sabia cantar muito bem e com tantas galinhas cantoras formou um coro e pegou numa batuta e descobriu a sua nova profissão: maestra.
- Maestrina.
- Maestra.


»» Luísa Ducla Soares. Uma Vaca de Estimação, ilustrações de Paul Driver, Porto, Livraria Civilização, 2006.

Os meninos sempre gostaram muito da LDS. Eu também. Consegue um humor simples que resulta sempre muito bem. E eles percebem-no. A ilustração não lhe fica atrás. Gostaram logo do incipit. Parece a nossa casa, mamã…

Era uma vez um professor que vivia sozinho no meio de imensa livralhada. Tinha livros espalhados pelo chão, em cima das cadeiras, debaixo da cama, na banheira, no frigorífico, no lava-loiça, dentro do fogão. Até na sanita!

»» Baptista-Bastos. A Bolsa da Avó Palhaça, ilustrações de Mónica Cid, Cruz Quebrada, Oficina do Livro, 2007.

Na linha do que já nos habituou. Afectos. Lisboa. Memória. Aforismos. Recupera fios deste e daquele romance. Envolve-nos na teia da intratextualidade. Gosto cada vez mais do B-B. E este livro parece-me um excelente pretexto para o Act 20. (‘bora lá, Paulo?)

A minha avó sabia de tudo. A imensidão dos seus conhecimentos fazia-a prudente, zelosa e atenta. Raramente excedia os limites do cordato. Um dia disse-me: «Gostava de te ensinar a sentires-te bem, por dentro. Mas são coisas que se aprendem, ou não se aprendem; não se ensinam.» (p. 13)


»» Atlântico - Revista Mensal de Ideias e Debates, nº36, Março 2008.

«Nós e Goa», de Constantino Xavier, sobre a negligência crónica que afectou a nossa política para Goa, e a Índia em geral, desde o restabelecimento de laços diplomáticos com Nova Deli , em 1974:
Um português que se preze e se preocupa com a imagem e o lugar de Portugal no mundo, só pode sair incomodado e envergonhado de Goa. (p. 34)

Para além de escrever bem, o Constantino tem razão. Eu sei, porque já lá estive.

Destaque, ainda, para: «Meu desacordo crítico com os críticos do Acordo», de Mauro de Salles Villar (pp. 12-14); «A política educativa», de Gabriel Mithá Ribeiro (pp. 22-23); «A desilusão de Dawkins», de Pedro Picoito (pp. 44-47) e, claro, a secção Livros, Filmes. Discos. Artes. (pp. 50-61)


»» Vatsyayana. Kama Sutra, Mem Martins, Europa-América, 1999.

É daqueles clássicos que se vão degustando, paulatinamente, e que se revisitam continuadamente. Obrigada, Rocky B., por me teres feito ir buscá-lo à estante.

Na altura da primeira cópula, deve-se usar moderadamente do beijo e das demais práticas mencionada, não as prolongando e alternando-as, o que não sucederá nas repetições seguintes: a fim de incendiar o amor, é de exercê-las ao mesmo tempo.

Os meus antepassados sabiam das coisas...

Leituras (e releituras) nostras



Baptista-Bastos. A Bolsa da Avó Palhaça, ilustrações de Mónica Cid, Cruz Quebrada, Oficina do Livro, 2007.


Um livro sobre a infância que não é para a infância. Sobre Lisboa. Afectos. Memória.


Peça jornalística da SIC, aqui.








Luísa Ducla Soares. Uma Vaca de Estimação, ilustrações de Paul Driver, Porto, Livraria Civilização, 2006.

Escolhido pelo e para o Tomás.





Luísa Costa Gomes. A Galinha que Cantava Ópera e Outras Histórias de Animais, ilustrações de Pierre Pratt, Lisboa, Dom Quixote, 2005.

Escolhido pelo e para o Nuno.





Atlântico - Revista Mensal de Ideias e Debates, nº36, Março 2008.

Custou-me os olhos da cara. Culpa do Constantino e do seu «Nós e Goa».










Vatsyayana. Kama Sutra, Mem Martins, Europa-América, 1999.
(e as restantes edições que tenho por cá)

Por causa do Rocky B.

terça-feira, 25 de março de 2008

Educação, ainda. Sempre.

Já aqui tinha alertado para o debate que se gerou a propósito de um post publicado no Desabafos duma prof.
Agora, tão fresquinho, uma espécie de, em estado embrionário, nos comentários do texto hoje publicado no take.it.isa.
Não sei se é da TPM ou se não tem nada a ver. O que sei é que estou sem forças e sem pachorra para mais argumentos...
Façam-me um favor, passem por lá e esclareçam aquela alma penada e as outras que por lá passarem...

Aproveitem e leiam também alguns dos mais recentes textos sobre o telemóvel da actualidade:

Aqui, no Bicho Bravo da Kika.


Tipo Puta da Velha e O Fim da Minha Carreira! n' A Voz das Retretes do Rocky Balbino



***

A Carina apanhou-me no Messenger. Uma antiga aluna que pertencia à turma de que aqui falei. Eles e elas voltaram a atacar. A nova vítima, assegura-me a Carina, bate o pé. Diz que a não vão vencer. Conheço-a. É uma colega recta e firme. E um doce. Com muitos mais anos de experiência do que eu. Eles não a vão quebrar.

Hoje...



.. e na contagem decrescente para o meu aniversário,

ando cheia de


e com uma enorme vontade de
!!!

... estou de rastos....


(eu vi logo que o dia não tinha começado bem)



A canção deste meu dia assim fodido...


(Up!, by Shania Twain. 2002)
A não perder, ainda, as versões azul, verde, rosa e vermelha.

Cristóvão Silva em Évora

Estreia absoluta de Divagações do compositor portimonense. Peça para seis instrumentos.
27 de Março, às 22 horas, no Palácio Dom Manuel em Évora.
É o 1º Concerto da Temporada Contemporaneus, integralmente dedicado à Música Portuguesa Contemporânea:

Divagações, de Cristóvão Silva
Tocam os Corridinhos!, de Nuno Rodrigues
Sintonia, de Rogério Medeiros
Da Loucura, do Grotesco e da Morte em Peer Gynt, de Eurico Carrapatoso

Interpretação do EvorEnsemble Contemporâneo, dirigido por Paulo Lourenço.

Eu vou lá estar!
(... e depois, rumo para Lisboa. Para um puxão de orelhas da orientadora...)

Barroco em Portimão

Começou em Fevereiro e estende-se até Abril. Oito concertos no Ciclo de Sons dedicado ao Barroco. É o início da Temporada de Música 2008 em Portimão.
A 29 de Março, o Ensemble Barroco de Sintra. A 5 de Abril, o Quarteto de Cordas Barlavento. 21h30m. Salão Nobre da Câmara Municipal.
Carlos Seixas, Vivaldi, Corelli, Händel, Telemann, Bach, entre outros que não conheço.
O programa, aqui.

Barroco!
Mas há coisa melhor?

Terça-feira...

Pediram para ver este vídeo. Viram-no. Uma, duas, três vezes. Perceberam logo que falava da história do papá e da mamã. Estava tudo muito bem, mas às 2 da manhã o Sr. Tomás começou a chorar. E chorou tanto tanto que o D. Nuno juntou-se-lhe ao pranto. Por causa do vídeo. Por causa do boneco. Por causa do papá. Coitadinho do papá, ali tão sozinho. E eu, a má da fita. A coisa durou hora e meia. Expliquei. Reexpliquei. Voltei a explicar. Adormeceram. Fiquei eu, no escuro, abandonada às insónias súbitas.

O dia começa na oficina. Eles são sempre uma simpatia e desta vez não foram excepção. O senhor alinha a direcção. Está boa. Vê os pneus. Olha-me. Deixei passar o prazo e, assim, a garantia. Finjo-me de sonsa. Atesta-os com o nitrogénio. Brinca com os Manelinhos. Vá lá, Denise. Desta vez passa. O prazo é de seis meses e não de nove.
Estamos em Março...
Alguém que refresque a memória da Deniblog lá para fins de Setembro?

Ligo a rádio, pego em duas maçãs, lavo-as e corto-as em oitavos. Esforço-me por escutar o som que sai do aparelho. Mas um canta Shania Twain e o outro qualquer coisa que se aproxima do Requiem de Mozart. Mudam. Pergolesi e Roberto Carlos. Ensurdecedor. É assim, desde sempre. Eles lá se entendem, mas eu não me habituo.


O dia começa bem... Oh, se começa!

segunda-feira, 24 de março de 2008

Uai!

Já não bastava o André, segue-se-lhe a Ana Tarouca. Desta vez, a propósito do telemóvel mais badalado de sempre.
O que aqui relatei é horrível, bem sei. Sofri durante uns dois mesitos naquilo a que eles disseram ser um teste (no qual, ainda segundo eles, passei com distinção). Mas nunca, nunca!, pelo menos até agora, fui agredida assim. Sei que a colega que fui substituir ficou de baixa psiquiátrica e que penou nas mãos dos pestinhas.

Mas é como a Ana diz. Este país não é para professores.

Les gaffes du jour

São calinadas antigas que presentifico pela memória. No seguimento de um comentário do Paulo.

Na azáfama da organização de uns eventos pelos feudos do TyrannoRector-Rex, uma sucessão de correspondência electrónica para o Conselho Directivo. Entre outros assuntos, seguiu um e-mail onde eu enviava um pedido de esclarecimento sobre os pagamentos já efectuados e solicitava a conta à Vice-Presidente responsável pelos assuntos financeiros.
Um pedido e a conta.
Mas, ou pela pressa ou por outro motivo qualquer, os dedos falharam. Precisamente nas oclusivas linguodentais. O e-mail seguiu com palavras mancas.
Vergonhosamente mancas.
Acabara de enviar à minha Vice um pedido sem o primeiro d e de lhe pedir a conta sem o t...

Uai!

O André do Blog de Espiritismo gostou deste texto aqui. Vai daí, pega nele e, zás!, cita-o ali!

... entre o contentamento vaidoso e o sentimento de responsabilidade acrescida, reconheço que tenho de ter mais cuidado com o que escrevo...

domingo, 23 de março de 2008

Páscoa

Sou crente e sou cristã. E continuo a defender o que já aqui defendi.
Para mim, a Páscoa funciona como um lembrete. Das nossas dimensões corpórea e espiritual. Da efemeridade de uma e da eternidade da outra. Isto, para mim.
Mas faz-me também lembrar o sofrimento de um homem entre tantos outros que foram cruxificados. E dos outros que foram parar à fogueira. E dos torturados. Homens e mulheres e crianças. E do sangue que se já derramou por toda a História da Humanidade. E dos que ficaram. A chorar. A definhar. A desesperar.
Prefiro o dia de Pentecostes. Mesmo sem ser católica.

Aborrece-me hoje falar sobre a Páscoa... Há já escritos interessantes sobre o asunto. Ficam as hiperligações aqui ao lado, na secção da Leitura Obrigatória.

sábado, 22 de março de 2008

Fé e religiosidade - II

Quando descobri a Bíblia nunca mais me separei dela. Lia e relia avidamente os livros do Velho Testamento. Gostava também, embora não tanto, do Novo Testamento. Procurava seguir os exemplos de alguns santos, tinha como modelos algumas personagens da Condessa de Ségur e foi uma loucura quando li As Memórias da Irmã Lúcia. Com 9 anos contei a história da paixão de Cristo aos meus irmãos semi-analfabetos. A emoção foi tanta que a mãe me tirou a Bíblia das mãos e a escondeu durante algum tempo. Fazia sacrifícios. Mais interiores do que propriamente corporais. Gostava de ir à missa em jejum para sentir na plenitude o corpo do Senhor dentro do meu. Tomava a hóstia duas vezes, porque ia a duas missas aos Domingos. O padre sorria e nunca mas negou. Depois pensei em ser freira, mas sabia que as inquietudes do corpo já adolescente nunca me deixariam respeitar inteiramente os votos de castidade. Lia os panfletos que as Testemunhas de Jeová me entregavam, lia livros sobre o judaísmo, budismo, islamismo, hinduísmo e artigos científicos sobre a inexistência de Deus. Eu era católica mas não era católica. Não compreendia que um Deus-Amor criasse um Diabo e um Inferno, as desigualdades sociais, a doença. Não compreendia um Deus-Amor vingativo, invejoso, caprichoso. Não compreendia a Santíssima Trindade. Não compreendia a salvação apenas para os baptizados e a recusa da entrada no Paraíso a todos os que professassem outro credo. Não compreendia nem acreditava.
Depois descobri o Espiritismo, como confessei aqui e aqui. E fez-se luz. Ciência, Moral, Filosofia. Já não sou beata, nem papa-hóstias, nem rata de sacristia. Sinto-me livre. Responsavelmente livre. E consolada.
Os meus Manelinhos não têm uma educação católica. Não têm medo do Inferno. Sabem que errar é humano. E que há sempre uma nova oportunidade. Falo-lhes do que acredito e ignoro se um dia acreditarão também. Não os atemorizo com isso, como antes faziam os pais aos filhos.
Não pertenço ao grupo de crentes que se preocupa em provar a existência de Deus. Nem pretendo convencer ninguém a seguir o meu credo. Nem fico triste quando os meus afectos me confessam a sua incredulidade. E quem me conhece sabe que assim é. A única coisa que me irrita é que se benzam ou se assustem quando digo que sou espírita. A única coisa que me irrita é o preconceito. Porque preconceito é, para mim, sinónimo de ignorância.
... e a ignorância irrita-me profundamente...

Fé e religiosidade - I

Não existem crianças religiosas:existem apenas crianças com pais religiosos.
João Seixas. «Deus já não é uma vaca sagrada», Os meus livros, nº 58, Dezembro 2007.

A religião é um constructo cultural, uma tentativa humana de compreender o divino. E, por isso, falível. Como tudo o que é humano. A crença e a fé são já algo de cariz mais individual, ainda que de alimento cultural.
Sou crente desde que tenho memória de mim. Os meus pais deram-me uma educação católica, embora não fossem um modelo a seguir. Baptizaram-me tinha eu apenas 3 meses e puseram-me na catequese ao 6 anos. Fui sempre uma presença incómoda e os catequistas mandavam-me parar com as perguntas parvas. Mais tarde, desesperaria o meu professor de Filosofia que com esta avidez natural. Eu não parava e fiz a Primeira Comunhão e ainda o Crisma. Depois as respostas da Igreja tornaram-se insuficientes e eu secretamente procurei lugares outros. Ainda hesitei quanto ao Protestantismo, até que, com 15 anos, descobri o Espiritismo. A doutrina amadureceu dentro de mim e os dez anos seguintes foram anos de transição entre as minhas idas a Fátima e as leituras dos livros codificados por Allan Kardec. O Catolicismo foi um degrau importantíssimo no meu percurso espiritual. E nessa altura, para além de crente, eu era religiosa. De uma religiosidade extrema que chegou a assustar os meus pais, pseudo-católicos que só pisavam o chão da Igreja em tempo de festividades. Eu destoei dos meus irmãos que, quando crianças, se limitaram a acatar, sem qualquer deslumbramento, a educação que lhes foi imposta e dela naturalmente se afastaram quando chegaram à adolescência. Entre os 6 e os 15 anos eu fui uma beata, uma papa-hóstias, uma rata de sacristia.

sexta-feira, 21 de março de 2008

No Dia Mundial da Poesia...

... três metapoemas de três grandes algarvios.

Arte Poética– 1

Dar
ao poema
a forma
o feitio

o único
certo
feitio

com que do fundo
do mar
foi expulsado

seixo tronco
osso
lenho
arrebatado
noutra idade

agora
mansa
violentamente
restituído
à praia

ao litoral
de mim

Teresa Rita Lopes (in Os Dedos Os Dias As Palavras. 1987)


***

Este poema é absolutamente desnecessário

Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta
Esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica
e o movimento da sua abolição
a partir do seu vazio inicial
Mas qual é a sua matéria qual o seu horizonte?
Traçará ele uma linha em torno da sua nulidade
e fechar-se-á como uma concha de cabelos ou como um útero do nada?
Ou será a possibilidade extrema de uma presença inesperada
que surgiria quando chegasse a essa fronteira branca
que já não separaria o ser do nada e no seu esplendor absoluto
revelaria a integridade do ser antes de todas as imagens
a sua violência inaugural a sua volúvel gestação?

António Ramos Rosa (in Deambulações Oblíquas. 2001)


***
O Poeta

Trabalha agora na importação
exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
Podia ser um trabalhador
por conta própria,
um desses que preenche
cadernos de folha azul com
números
de deve e haver. De facto, o que
deve são palavras; e o que tem
esse vazio de frases que lhe
acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
escultor do movimento. Fere,
a pedra do instante, o que
passa a caminho
da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
interrupção da morte.

Nuno Júdice (in Teoria Geral do Sentimento. 1999)


Observação: os poemas também se vêem... mas não consegui respeitar a configuração na página. Ficam apenas as estrofes e as palavras... e o convite aos livros. Ao papel.

By the way...

Pelo post anterior dá para perceber que em breve, muito em breve, comemorarei o meu aniversário.
32 anos...

Áries

Astrologicamente entramos no mês do 1º signo do zodíaco. Carneiro. Gente nervosinha, acelerada, impetuosa, destemida, intrépida, determinada, activa, franca, sensível.
Eu sou carneira. Quem não me conhece bem, estranha. Pela calma e ponderação, acham-me atípica. Os poucos que me conhecem melhor pensam de outra maneira. Que sou exemplarmente ariana. Sem tirar nem pôr. O que eu acho é que há tantas Denises em mim que nem eu sei bem como sou.
Não sou muito dada a astrologia nem deixo de o ser. Não consulto horóscopos, mas divirto-me com o perfil de cada signo. Sempre muito geral, claro, porque depois há que ter em conta o ascendente e a localização exacta de cada planeta nas respectivas casas. Acho piada. E às vezes faço as minhas pesquisazinhas.

Sou Carneiro com ascendente em Gémeos e Vénus em Peixes. E a confiar no Personare sou assim:

A INTELIGÊNCIA DINÂMICA
Em seu mapa, Denise, temos a combinação do dinâmico e conquistador signo solar de Áries com o ágil e destro Gêmeos no ascendente. O resultado final do enlace de dois signos tão afirmativos é uma personalidade conquistadora, ativa, enérgica, que possui um "algo" infantil em torno de si, levando você a olhar para o mundo com olhos de deslumbre. Todas as coisas lhe parecem interessantes e fascinantes, e você praticamente deseja abraçar o mundo, de uma forma confiante e ingênua. Só é preciso estabelecer um mínimo de senso de limites, Denise, caso contrário você se verá em muitas situações em que fica evidente que você deveria ter sido mais prudente ou, pelo menos, menos crente.
Você provavelmente é do tipo de pessoa que está acostumada a dizer francamente o que pensa. E isso é muito bom, muito embora nem sempre seja a coisa mais inteligente a se fazer, Denise! Algum sentido diplomático precisa ser desenvolvido, sob o risco de você causar um certo estrago social em decorrência da sua inadequada franqueza. Mais do que saber o que dizer - e isso você provavelmente sabe muito bem - é preciso saber quando, como e onde dizer, caso contrário se verá em muitas situações em que, sem querer, criou alguma intriga. De todo modo, pode encontrar alguma via prática para satisfazer sua necessidade de questionamento e seu gosto pela polêmica e pela verdade.

Tenderá a ser uma pessoa de muitos amigos, por conta da projeção do Sol no alto do mapa e do ascendente geminiano. Entretanto, justamente por ser uma pessoa de vida social mais ativa, corre o risco de passar por situações de mal entendido e conflitos, mais do que as outras. Você, Denise, ama o conhecimento e o coleta, apreciando fazer pontes entre assuntos e entre pessoas, podendo vir a ser alguém que apresenta as pessoas umas às outras, e também alguém que pode vir a escrever muito bem a respeito de assuntos que lhe interessem. Procure utilizar com sabedoria esta qualidade comunicativa natural e tenha um pouco mais de paciência com os outros.

AMOR
Vênus em Peixes é a marca afetiva da vida de Denise, que se revela uma pessoa muito amorosa e romântica, cheia de fantasias no quesito "amor e paixão". É provavelmente alguém que já deve ter sofrido muito nas mãos de gente inescrupulosa e utilitária, mas ainda assim é alguém que acredita no amor ideal. Esta é sua força e sua fraqueza.
Vantagem: todo o romance do mundo, para quem tiver a sorte de namorar Denise!
Desvantagem: será que Denise ama você ou a uma idéia interior de romance perfeito?
Como lidar: é preciso pouco para agradar Vênus em Peixes. Dê-lhe carinho, e Denise se derramará na sua direção.
Possíveis presentes ideais: viagens por lugares litorâneos, livros de auto-ajuda, de religiões, velas, incenso, objetos esotéricos e místicos, cristais.
O pior que você poderia fazer: demonstrar perversidade ou crueldade contra qualquer pessoa na sua frente. Isso dá uma garantida carta de adeus!

Eu juro que não sou de astrologias, mas... uai!, esta aqui em cima sou mesmo eu!


(Imagens encontradas aqui)

quinta-feira, 20 de março de 2008

En Soap - o trailer

... e, vá-se lá saber porquê, esta noite apetece-me (e vou) voltar a ver este filme de que aqui já havia falado....

Hermafrodices

Hoje tive um sonho erótico. Pronto, tá bem... assim mais para o porno. Irrelevante. Eróticos ou pornográficos, estes sonhos revisitam-nos amiúde. Toda a gente os tem. Coisa banal. Pormenores explícitos, posições favoritas, blá, blá, blá e muito prazer.
Mas ou pelas mãos do C. no meu cabelo e pelo album da Flor Garduño de ontem ou simplesmente porque sim, desta vez foi muito diferente. A volúpia do andrógino. Muito macho lá por baixo, muito fêmea cá por cima. E eu estava a a-do-rar!

... alguém que me salve destes meus sonhos?!


Hermafrodito Adormecido - Cópia de uma escultura atribuída a Polikes de Ática ( circa 160 A. C.). Museu do Louvre

Hermafrodito - Escultura de III A.C.. Museu Arqueológico de Istambul

Stabat Mater

Ainda pensei numa das Paixões de Bach. Mas os Manelinhos cantarolam o Pergolesi de algum tempo para cá. E eu também gosto muito. E porque, depois de ser mãe, me tocou muito mais a dor de Maria...






Giovanni Battista Pergolesi. Stabat Mater (Dueto). 1736 .

Stabat Mater dolorosa
iuxta crucem lacrimosa,
dum pendebat filius.

Adenda: Gosto desta interpretação. Da celeridade a que não estava habituada, das vozes isentas de vibrato excessivo, do timbre de contratenor. Encontrei, entretanto, no YouTube, a interpretação de que mais gosto. Com o magnífico Andreas Scholl, a Barbara Bonney e Les Talens Lyriques, pela batuta de Christophe Rousset.



Educação na ordem do dia

Não posso deixar de destacar o seguimento do debate que se alongou no ainda a avaliação, assim como o texto ENSINO/APRENDIZAGEM (parte I) no Desabafos de uma Prof. da Tia Adoptada.

E, também, o Mens sana in corpore sano, no Bicho Bravo da Kika. Excelente, como sempre.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Hoje

Foi uma luta com a escova e o secador. Não tenho grande paciência para cuidados ao espelho. Mas ficou liso como eu quis. Tirámos a tarde para passear com o papá C. e era suposto deambularmos por Albufeira. Veio, porém, a chuva e enfiámo-nos no AlgarveShopping. Detesto centros comerciais, não há pachorra. O que nos salva é o espaço que a Fnac nos oferece. Oliver Twist, o musical de 1968. Objecto Quase do Saramago. Perdi-me no tempo por causa de um album da Flor Garduño. Inner Light. Naturezas mortas e nus femininos. Sempre a preto e branco. São mulheres reais, com corpos diferentes dos que a moda nos tem vindo a habituar. Mulheres com formas, mulheres com estrias. Com seios rijos, com seios flácidos, mamilos escuros, rosados, pequenos, largos, ventres lisos, ventres salientes... mulheres reais. Tão reais que até eu poderia figurar numa daquelas páginas.



No regresso um arco-íris enorme, de uma nitidez deslumbrante. E no espelho, o cabelo surpreende-me. Cheio de ondas e caracóis. Fofo. Suave. Gosto do que vejo. Ele também. Afaga-mos com um sorriso.

Noite. Aulas. Português, Língua Estrangeira. São exímios na oralidade. Mas a aula é de escrita. Correspondência.Desespero com a ortografia, a pontuação, a sintaxe.

Ola meo amigo
Ontem reçebi teu carta. Muitu obrigadu e tu não esceses de mim. Eu stu muitu bom, tambem tenho bom trabalhu e gostu. Eu trabalhu na Camara Municipal como guarda florestal. Minha isposa agora esta eim casa purce esta gravida. Filho estuda na iscola i é bom aluno. Bom, vo acabar a carta purce nau gostu escrever muitu.
Muitus abrassos para ti,
XXX

Brindam-me, no final, com umas páscoas simpáticas. Sabem do que gosto. Baileys e Ferrero Rocher.



À vossa

Pai também

Há outro pai nesta minha vida terrena. O pai dos meus filhos. ... que se arma em meu pai também. Diz que lhe pareço frágil e desamparada, que desperto sentimentos de protecção. Já lhe demonstrei por A+B que está errado. Ele argumenta e procura provar-me por C+D que, sem ele, aqui a alien não sobreviveria no planeta Terra.
Eu desisto. Finjo que assim é e deixo-o feliz com essa ilusão.
Tem quase dois metros de altura. É sete anos mais velho que eu. É o pai dos meus filhos. Mas é uma criança e dá-me tanto ou mais trabalho do que eles.

Pai

Mantém uma energia invejável. Vai à praça de manhã cedo e segue para o seus afazeres do quotidiano. Mas noto que está cansado. E envelhecido, apesar dos seus cabelos ainda maioritariamente negros. Ele tenta disfarçar. Não vale a pena, pai. Eu conheço-te. De olhos fechados. Ouves-me pacientemente sobre as coisas da espiritualidade e do momento da partida. Sorris com os meus conselhos. Sei que não acreditas no que te digo, mas não me mandas calar. Enervas-te apenas quando confesso preferir morrer antes de ti e antes de todos para vos abrir o caminho. Explicas-me a ordem natural das coisas. E perguntas-me com ironia se sou alguma santa ou se não serei eu a precisar da tua ajuda na hora da minha Hora. Sobre ti poderia escrever tanta coisa. E alguma até já fui escrevendo, como por exemplo aqui.
Mas hoje recordo-me apenas de como exasperavas com o meu excesso de energia. Punhas-me a correr a ver se eu me cansava. Puseste-me no ballet, mas não resultou. Nos escuteiros. Em vão. Depois, lá acertaste, e andei durante anos na ginástica e na natação. Já adolescente, tinhas a mania de travar o meu passo. Ainda hoje o fazes. Tratamento diferenciado, porque às tuas outras filhas e ao teu filho foi sempre a liberdade total. Rédea curta, só comigo.
(O que ele argumentava então ouviria mais tarde da boca do C. : que eu sou muito boa pessoa e tal, mas sou desvairada, despistada, acelerada e demasiado ingénua para andar por aí à solta. Em mim eles confiam. Nos outros não. Eu batia o pé e ainda bato. Em vão. A minha frazqueza é o amor que lhe, que lhes, tenho.)
Nunca te comprei nada no Dia do Pai. Nem há-de ser hoje.
Fica um abraço forte (e como te ris quando te aperto nos meus braços!). Um abraço e muitos tantos milhões de beijinhos que também te fazem rir. E com sorte ainda te cravo um gelado, daqueles de taça, na Marina, ali na Rocha.
Dia feliz, pai.


terça-feira, 18 de março de 2008

Para o C.

É que somos mesmo nós!

a solidão o baque o piano as lágrimas a histeria a tempestade a bonança o riso a companhia as memórias as saudades os amuos o beicinho o desespero os disparates a tempestade a bonança...

(À quoi ça sert l'Amour?, par Édith Piaf e Théo Sarapo. Animação de Louis Clichy)

mais toi t'es le denier mais toi t'es le premier avant toi il y avait rien avec toi je suis bien c'est toi que je voulais c'est toi qui me fallait

segunda-feira, 17 de março de 2008

Idivolta

Já sei da ponte fechada e do trânsito lento que se afunila na saída para Ferragudo. Não compensa, apesar de tudo, a Via do Infante. Tenho o porta-luvas aviado. Palestrina, Mozart, Schubert, Liszt, Debussy, Grieg, Madredeus, Pedro Abrunhosa, West Side Story, Shania Twain, Madonna, Chico Buarque, Tom Jobim. O dia ainda é dia e gosto de sentir a aragem que entra pela frincha da janela. O porta-luvas está aviado, mas de há dois meses para cá não consigo escolher outra música que não a de Bach. Em sessenta dias as mesmíssimas músicas. À exaustão. Concerto para 2 cravos em dó maior e o outro em dó menor, a versão para violino e oboé, os concertos para 3 e 4 cravos, a suite nº 2 em si menor. A única excepçãozinha para a 1ª suite do Händel, vulgo Water Music. Num volume ensurdecedor, sinto que o carro voa. Ultrapassagens e despiques com os laranjas. Voa e a alma cheia está ali e não está. O som arrepia a pele e toda eu sou barroco por inteiro.
No regresso é noite bem noite. A estrada morta e a escuridão convidam o silêncio. Abrando. Aqui e ali olhos brilhantes de gatos atrevidos. Um cão perdido. Um coelho que atravessa o asfalto. Sombras. Reflexos. E um silêncio fresco. Entrego-me aos meus pensamentos deambulantes, às minhas fantasias vadias, aos meus segredos lassos lânguidos latentes. São trinta quilómetros. Os quinze minutos da vinda são agora quase quarenta. Devagar, devagarinho, saboreio a noite, o silêncio, a solidão.

E quando atravesso o Arade e vejo as pequenas embarcações nas águas cintilantes e a cidade iluminada, o coração exulta alegria.
Amo Lisboa, mas Portimão é o meu lar.



(Foto encontrada À babuja do Arade)

domingo, 16 de março de 2008

Fernando Cabral Martins




(Pela luz dos olhos teus, por Tom Jobim e Miúcha)

Meu amor meu poema meu silêncio

Faço um esforço para aclarar a memória. Debalde. Não consigo reconstituir o momento exacto em que me rendi ao seu encanto. Eu tinha 20 anos. Estou quase a completar os 32. Fiquei entontecida e ainda não me curei. Nem quero. Durante os últimos doze anos tenho-o amado semi-secretamente. Depois, uma pessoa casa-se, tem filhos, amadurece e compreende a existência de um mundo paralelo onde habita a fantasia, o sonho, a imaginação. Um mundo tão real que até dói. Tão real que não se intersecciona, não pode, com o outro mundo real. Aquele onde inspiramos oxigénio e expiramos dióxido de carbono. E quando uma pessoa compreende a existência daquele mundo outro, onde sem asas também voamos, retira-lhe delicadamente as amarras do segredo e deixa que lhe inunde o coração. Eu casei, tive filhos e compreendi que este meu mundo, tão belo e tão dolorosamente infinito, me pede uma configuração retórica.
Já o conhecia dos livros mas, ao vivo e a cores, só no 3º ano da licenciatura. Foi meu professor de Literatura Portuguesa. Com ele redescobri Cesário Verde, Antero e Eça de Queiroz. Consegui um 17 no final do semestre. A Paula sempre achou deliciosa esta minha paixão avassaladora. A Nath e a Gorete, depois do choque inicial, confirmaram as suspeitas sobre a minha insanidade. O Paulo sorri; reconhece-lhe charme. A Tia Adoptada, entre risos, fala-me de dilema, terapia, alternativa. E entre risos ajuda-me a compor o título deste post. O C. abana a cabeça. Não lhe agrada muito, nada, tamanha tontaria. As minhas amigas sabem, como eu o sei tão bem, que esta paixão avassaladora vive num cantinho daquele mundo só meu. Da impossibilidade de qualquer interferência entre as duas dimensões. Eu sempre amei o C., homem da minha vida. Esta minha outra paixão também tem o seu amor. É casado com uma mulher lindíssima, alta e magra, exigente, rigorosa. Um passo fora do que assim é e o meu mundo ruiria. Em cacos, perderia a cor. E esta paixão, tão bela tão minha tão pura, ficaria com o travo amargo da desilusão. Gosto deste amor assim, que sem ser utópico não é tangível.
Ele é magro. E delicado como um poema. Tem uma altura média. De bicos de pés conseguiria roubar-lhe um beijo. Nos olhos habitam mundos distantes. No sorriso, uma doçura antiga, quase pueril. Tem uma voz velada de onde saem bailando palavras com timbre de segredo. É sóbrio, recto, sério, rigoroso. Escreve ensaios legíveis que me fazem crescer e contos que me fazem pensar. É um homem belo. Intemporal. E eu esqueço-me dos vinte e seis anos que o distanciam de mim.
Lembro-me de como estava nervosa no dia em que teria de apresentar um capítulo d’ O Crime do Padre Amaro, de como se aprochegou, de como fixou os olhos claros nos meus, de como suave poisou a mão no meu ombro direito, de como sorriu. Tranquilizou-me. Que correria bem. O que eu não lhe contei é que não era o trabalho que estava em causa. Sempre fora muito segura dos meus afazeres académicos. O nervosismo era por ele, pela proximidade física, pelo frio na espinha, pelo fogo no peito. Lembro-me de quando nos cruzámos no final da licenciatura, de como me chamou, e de como, com a mão na minha omoplata esquerda enquanto caminhávamos, me sugeriu a via científica em vez do estágio profissional. Senti um calor inusitado e um suor súbito nas palmas das mãos. Lembro-me de como, no jantar de finalistas, me chamou para um lugar vago na mesa e de como fiquei à sua esquerda no céu do meu vestido azul.
Fiz o estágio, casei, os meninos nasceram. Nunca mais o vi. Até que num curso breve nos reencontrámos. O coração estremeceu, mas eu impus quietude ao resto do corpo. Quantos professores universitários se recordam d@s pupil@s que, aos magotes, lhes passaram pelas mãos durante um mísero semestre? Mas ele sorriu. E avançou. Sussurou o meu nome. Há palavras de que me possa socorrer? O meu nome. Há quanto tempo? Uns cinco anos? Reencontro-o em colóquios, congresso, eventos na capital. Estremeço, canto e bailo, endoideço. Só eu o sei. Imponho-me a decência social. Trocamos sorrisos, dois beijinhos, algumas palavras. Regressamos às nossas vidas. E trago-o comigo. Naquele mundo que já não é secreto. Colorido com matizes que não existem, perfumado com aroma de mar, terra molhada e alecrim.

Fernando Cabral Martins.
Meu professor. Meu poema. Meu amor. Meu silêncio.

sábado, 15 de março de 2008

Corpo

Surpreende-me à saída do banho. Não resiste. Canta toda a poesia a que me habituou nos últimos dezasseis anos. Por conhecermos cada poro um do outro, não há lugar a pudores despropositados. Desnudo o grotesco e enumero as imperfeições. Uma por uma. A pequena madeixa branca que destoa entre o castanho tão escuro, a miopia que me semicerra os olhos, as olheiras negras e profundas, o ligeiro estrabismo herdado da avó paterna, a assimetria dos seios que os meninos abandonaram flácidos e gretados por aqui e por ali, o ventre traçado por rios de estrias que se prolongam pelas nádegas mais redondas, o corte cicatrizado na linha do biquini, as coxas cheias, os braços rijos, as mãos ressequidas, papudas, disformes. Grotesco. E ele canta, novamente, a poesia toda a que desde sempre me habitou. Fala-me de um corpo que tem histórias. Histórias que ele conhece. Histórias em parte escritas por e com ele. Fala-me da paixão que fez nascer prata nos meus cabelos; dos olhos que se alinham com os dele na exacta perfeição do amor; das leituras exigentes que bailam nas olheiras míopes; dos filhos que alegres redesenharam o ventre fértil e as nádegas e as ancas e as coxas; do néctar que os alimentou; dos braços que os embalaram; da loiça lavada e da casa sem pó. Fala-me das histórias que foram. Fala-me de histórias que poderão ainda ser.
E, ou pelo orvalho transparente do seu olhar, ou porque o verbo se fez carne, sem me tocar insufla-me andorinhas na alma e papoilas no coração. E timidamente os olhos enublam-se-nos com a humidade da manhã.

«Afectos»...

... é título de uma das crónicas do meu Paulo do no PNEThomem. «Afectos». E começa assim: Uma das coisas de que mais gosto é do contacto pele-pele.
Gostei do que o Paulo escreveu, porque me revi nas suas palavras e compreendi que não estou, afinal, sozinha nestas minhas vontades e nestes meus cuidados. Aquilo que ele escreve por lá é exactamente aquilo que eu sinto. A vontade de tocar como forma de absorver aqueles e aquelas que amamos. Sem qualquer intenção de cariz sexual, sublinhe-se, e bem. E, depois, há a auto-censura, a barreira social, o medo de sermos mal interpretad@s ou de estarmos a criar falsas expectativas.
Como já tive a oportunidade de dizer aqui, estamos conversados. O Paulo tem renovada, redobrada e explicitada a autorização para me abraçar, tocar, dar a mão. Os meus restantes amigos e as minhas amigas restantes também. Eu gosto.
...

sexta-feira, 14 de março de 2008

Avaliação

Termina com uma citação:
Está certo. Mas não se felicita um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Felicitar-se-á talvez por ter escolhido essa bela profissão. Digamos, pois, que era louvável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois faziam quatro, e não o contrário, mas digamos também que esta boa vontade lhes era comum com a do professor, com a de todos aqueles que têm a mesma coragem que o professor e que, para honra do homem, são mais numerosos do que se julga, ou tal é, pelo menos, a convicção do narrador. Aliás, esta compreende muito bem a objecção que podem fazer-lhe, ou seja, que estes homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que aquele homem que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe-o bem. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera este raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não são quatro. Quanto àqueles dos nossos concidadãos que então arriscavam a vida, tinham de decidir se estavam ou não na peste e se era ou não necessário lutar contra ela. (Camus. A peste.)


Fiquei comovida com o mais recente e excelente texto do TUlinho. Quero partilhá-lo convosco. É só clicar no link.

Avalição de Professores: opinião sincera (e às vezes irónica) de um quase professor que pensa ser melhor fugir

A ler, também, o texto que chegou à Tia Adoptada. Com destaque para a troca de comentários.

ainda a avaliação

E, já agora, o artigo do Paulo no PNEThomem:

Por que se manifestam os professores?

... e outras coisas mais.... (o depois)

1. Deixo os meninos na escola e dou um salto a Armação de Pêra. Fotocópias urgentes para esta noite. O trânsito flui lentamente, mas flui. Dobro a curva, Operação Stop. Não, não, não. Não! Porra. Mandam-me encostar…. Bom dia. Bom dia?! Com tantos veículos, tinha logo de fazer parar o meu? A menina é nervosinha. Não teve uma noite descansada? Reconheço-lhe a voz. Olho bem. É ele. O de ontem. Sorri. Sorrio. Deixe lá os documentos. Deixe-me ver apenas o selo. Sim, está tudo em ordem. Manda parar o trânsito. Faz-me sinal para avançar. O Sr. Agente é guarda ou é anjo? Sou anjo da guarda. Iluminou a noite de ontem, ensolarengou a manhã de hoje.
2. Consigo estacionar mesmo à frente do portão da escola. Há dias assim. Quase à entrada do pavilhão principal, ele puxa-me pelo braço. Olá, tu és a Denise, não és? Sim, porquê? Ó pá, tu ontem foste o máximo! Espectacular! Ontem? Ontem, ao entrares lá na sala e a forma como saíste. Que engraçada! Bonito. Já sou conhecida lá na escola. E por que lindo motivo! Achas bem gozares com a contratadazinha? Não estou a gozar, foste mesmo um espectáculo. Vá, anda comigo, pago-te um café. Pagou um chá, que eu não gosto de café e mostrou-me parte da vila. Afinal não estava mesmo a gozar. É prof. de História e está no Executivo. Eu e a minha cabeça-no-ar nunca o tínhamos visto por lá. Fico contente. Já vou conhecendo os colegas do dia.
3. Regressamos à hora do intervalo. Vejo os três. São os alunos que chegaram do Paquistão? São. Obrigada pelo chá e pelo passeio. Vou falar com os pequenos. Olha que não falam português. Eu falo inglês. Nem isso… Eu faço gestos. Fiz gestos. Eles também. Entre o português, o inglês, o francês e até o hindi e o urdu. O mais velho tem 17 anos. É simpático, extrovertido. Ela, com 15, é uma graça. Mil e um véus em cor pastel que lhe cobrem parte do cabelo negro e brilhante. Depois, o Ibrahim. Tem 13 anos e é um dos rapazes mais bonitos que já vi em toda a minha vida. É alto, 1 metro mais uns 75 cm, e esguio. Uma timidez doce, uns olhos de amêndoa húmida, um jeito delicado. Faz uma pequena vénia. Estende-me a mão. É uma mão magra com dedos finos e compridos. As unhas arranjadas. Fico encantada. Com ele. Com os seus irmãos também. Acenam a cabeça para dizer sim como quem diz talvez. Cheiram a cravinho e a cardamomo. E do cabelo, o aroma do óleo de coco. Por momentos sinto-me na terra do chão vermelho onde os meus avós nascerm, cresceram, casaram. São alunos do dia, mas convido-os a assistirem as minhas aulas para estrangeir@s à noite. São eles, os monhés de quem ontem se falava. Eu sou como eles. E gosto.

Lollipop e um beijo para o Paulo e para o Zé

Por causa disto... Não tem nada a ver mas tem tudo a ver. E porque são, os dois, um doce, permitam-me o atrevimento.

(Lollipop, by Chordettes. 1958)

(My Boy Lillipop, by Millie Small. 1964)