quarta-feira, 30 de abril de 2008

Ainda

I.
Quando escolhi aquela representação de moi-même estava a tentar distraír-me, pelo sorriso, das maleitas que me fustigam o corpo. Os acontecimentos mais recentes obrigam-me a repensar a fidelidade da imagem e a monstruosidade que existe afinal em mim.
1º - Mostro a fotografia ao Nuneco. Que aquela dali é a mamã. Sorri. Não, não podes ser tu: não usas cuecas daquelas. (Não fossem as cuecas...)
2º - A caminho do talho, uma bola no meio do asfalto na rotunda do Palácio, a favela-mor de Portimão. Sou tão exímia na condução que no meio do ziguezague consigo estoirar com aquilo. Apercebo-me de duas crianças descalças a chorar ali mesmo à frente da primeira barraca. Estaciono o carro, abro a bagageira e pego na bola dos Manelinhos. Era minha intenção oferecê-la aos gaiatos, não antes do sermãozinho sobre esse tipo de brincadeira nas proximidades da estrada. Acontece que sai um matulão da barraca e, agarrando nos meninos, lhes diz que não devem aceitar nada de estranhos. Não me deu a menor oportunidade para a mais ínfima das explicações.
3º - De regresso a casa, passo por uma velhinha curvada com os seus sacos visivelmente pesados. O sol está muito forte. Condoo-me. Abrando. Pergunto se quer boleia. Agarra-se à mala e pula três largos passos para trás como se visse um fantasma. Que não entra no carro de pessoas desconhecidas.
... já não se pode ser gentil nesta cidade...

II.
Junte-se à lista do post anterior as náuseas, a pieira e a queda de 17 degraus aqui por casa. Uma tontura, o tapete deslizou, eu escorreguei e caí. Mais: o choro, a melancolia, a tristeza. Pode ser da maleita mas, pela dorzinha que hoje me visitou o ventre e pelas contas às voltas que a lua dá, quer-me cá parecer coisa de TPM, a puta.
Diz-se que há males que vêm por bem. Estou à espera...

III.
Pensamento positivo:
1. Os meus três rapazes gostaram do frango no forno à la Denise.
2. O Tomasinho esmerou-se nos mimos durante a tarde. Mãos e lábios ruidosos na testa, em equipa, segundo ele, com os nossos anjos da guarda. Único senão às trancinhas que me fez enquanto dormitei e que me levaram às estrelas da dor quando me fui pentear.
3. Ele tem um creme óptimo, de menta e camomila. Esta noite vai massajar-me as têmporas como só ele sabe fazer, as costas, o peito. Estou doente e quero mimos e quero adormecer com a cabeça encostada ao seu peito e sentir o calor das suas mãos. Sim, sou caprichosa. So what?


... mas antes vou mergulhar o feijão em água fria. Feijoada. Encomenda de D. Tomás para o almoço de amanhã...

Hoje estou assim....

(daqui)


Anginas
Cabeça a latejar
Corpo bambo
Tosse persistente
Peito dorido

... e muito muito ranho


(Bem sei que estou com mau aspecto, mas o que é isso na Amizade? Uma alma corajosa que avance com miminhos?)

terça-feira, 29 de abril de 2008

Cinco dias cinco flashes - 5

Manelinhos
Eles são umas pestes.
Eles são um mimo.
A minha vida.
Prepararei a cama para os três. Teimaram em querer dormir com a vovó. Ingratos. Lá os convenci a alternarem os leitos. Uma vez com a mamã outra vez com a vovó. D. Nuno revolucionou-me a cama. Não preguei olho. Acordou-me com beijos ruidosos. Eram sete da manhã. Tenho fome mamã. És tão linda mamã. Dormiste bem mamã? Tenho fome mamã. Na noite seguinte, o Tomás não parou com os abraços e os beijinhos. Eu queria dormir, mas ele aninhava-se e puxava-me o braço e pedia mais carinhos e eu voltei a não dormir. Acordou cedo, às 6h30m, e escapuliu-se para o quarto da vovó. No final do dia vieram-lhe os remorsos e desfez-se em lágrimas por me ter abandonado. Lá lhas enxuguei e o peguei ao colo e lhe expliquei que era um tonto por chorar por isso.
Saltaram, correram, suaram. Levei-os a Belém, mostrei-lhes a casa do Presidente da República, os guardas engraçaram com os meninos, viram a estátua do Gama e perguntaram pela do Camões, espreitaram o Tejo, os Jerónimos, a Ponte 25 de Abril que era antes Salazar. Viram as putas no Intendente. Expliquei-lhes que aquelas senhoras vendiam prazer ou a ilusão de. Perguntaram-me se eu vendendo dois beijos a 25 euros e um apalpanço nas mamas por 50 conseguiria oferecer-lhes uma play-station. Vendiam a mamã assim? Hesitaram. Responderam que não porque lhes pareceu a resposta esperada. Assistiram ao rasganço e ficaram, como eu, também muito mal impressionados.
Chamam-me de Deusa, de Princesa, de Imperadora. Fazem birras e são malcriados também. É complicado pô-los na linha com os avós por perto. Eu sou a má, a severa, a exagerada. Que não devo dar palmadas que não devo ralhar que não devo complicar. Digo-lhes que quem manda é a mamã e eles mandam-me ouvir a minha mãe.
No regresso o Nuno presenteou-me com a Quinta do Tio Manel cantada em toda a sua extensão vocal. De meio em meio tom, a subir e depois a descer. D. Tomás lembrou-se que quer ser cantor de ópera e toca a fazer concorrência ao Pavarotti. Depois vá de cantarem os dois ao mesmo tempo, cada um a sua música, cada um no seu tom. Uma polifonia de doidos.
Estes dois são a minha luz.
... mas também a grande prova à minha paciência...


Cinco dias cinco flashes - 4

Coimbra. Rasganço.
Sempre fui muito anti-tradição académica. Deixei-me submeter à praxe. Nessa altura senti receio em dizer «não». Não comprei traje académico, não benzi as minhas fitas nem a pasta onde é suposto colá-las. Nunca gostei da palavra "tradição" porque se aproxima muito do campo semântico da cegueira e do movimento a-crítico. Há excepções, obviamente. Mas são excepções. Argumentam as minhas irmãs e o meu irmão que esta mania de ser do contra deve-se em parte à frieza da capital, onde fiz a faculdade. Elas na Ubi, ele em Coimbra sempre se deixaram envolver pelas capas negras e as noites de quinta-feira. Da tradição só repesquei as tunas. Gosto, francamente.
Não compreendo qual o prazer em rasgar o traje académico de uma pessoa, deixá-la completamente nua e sová-la até que encontre a capa. No fim, juntam-se todos para o respato e as litradas de álcool até às tantas da madrugada.
Espero que os meus Manelinhos me poupem a este desgosto.
Mas cada um é como é e vivemos em demoracia.
Desde que não me rasgam as vestes nem me dispam nem me sovem... eu não tenho nada a ver com isso.



Cinco dias cinco flashes - 3

Família
Gosto da minha família e de quando nos reunimos. Eu, as manas, o mano o pai e a mãe. Agora, também, o cunhado, a cunhada, o Duarte e os Manelinhos. Desta vez estava por cá um dos primos de Espanha. Somos dezoito primos irmãos, espalhados por Portugal de Norte a Sul, mais Espanha e Estados Unidos da América. No que deu aquela travessia do Índico! Almoçarada no Sabores de Goa. Invejei o concani do meu pai. Tenho de aprender a língua dos meus avós. Quero. Boro Sá? As primas não resistiram ao comentariozinho. Ai, Denise, estás mais gordinha não estás? Não, não estou. No Inverno as roupas disfarçam melhor, é só isso. Venenosas. Lá veio o cunhadinho na defesa da minha elegância. Contou-lhes de como me fora esperar à saída do metro e de como me confundira com uma gaiata da escola. Exagerou. Mas eu gostei. E lá veio o tio ancião a falar da minha beleza das mulheres antigas. E elas riram-se. Mulher antiga. Não percebem nada. Ele falava da elegância da década de vinte e de como eu sou parecida à avó. Alguém assobiou um OEdipus que eu decidi ignorar. Gosto da minha família, da boa disposição, dos laços que nos unem.

Os flashes permitidos:


Cinco dias cinco flashes - 2

Lisboa dos afectos
Pequeno-almoço semiótico com a Ana Paula. Está cada vez mais bonita, raio da moça! Mantém o riso perante as adversidades da vida, a rectidão e as linhas que lhe orientam o ser e o estar. Passava na TV uma reportagem sobre o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. Sorriu. Sorrimos. Partilhamos memórias de organização de colóquios em período pré- TyrannoRectorRex.
Um sumo de laranja com o TUlinho e a manhã inteira na bioblioteca da FLUL. Queixou-se ele de não saber o que me dizer. Como se não tivéssemos conversado, ora essa! Falou-me da Consistência dos Sonhos e da sua colaboração na exposição. Falou-me da investigação e do que já redigiu para a sua tese de mestrado. Falou-me da bolsa que conseguiu para Estudos de Teatro. E eu bebia o sumo de laranja e sorria e lançava-lhe nova resma de perguntas. Depois, na biblioteca, é que não se pode falar, já se sabe. Mesmo assim espreitei-lhe os apontamentos e trocámos umas duas ou três palavras. Li As Enganadas da Teresa Veiga e ouvi-lhe um riso a propósito de um livro que ele tinha em mãos. Há silêncios muito agradáveis. E eu gostei muito de estar contigo, TUlinho.
Um bom tempo com o Jubal. Raptou-me para os arredores de Lisboa que eu não conhecia. Fez-me rir com palermices e coisas mais sérias e memórias corrompidas pelo tempo. Sinto que o maltratei com algum do meu silêncio. Reconheço que nem sempre consigo alimentar uma conversa. Ele acompanha-me muito bem nesta minha deficiência. Ficámos assim, sem palavras, mas bem (espero) um com o outro mais os nossos pensamentos. Foi bom, Jubal?
Caminhada com a Rita. Ela preocupa-se com a linha e contagia-me, mesmo sem eu querer. Fala-me de colestrol e calorias e exercício e dietas. Com ela não consigo comer um gelado nem um crepe nem um mísero chocolatinho. Almoço só vegetariano. Jantar, não mais que uma sopa. É por isso que ela é magra e eu não. Arrisco com o facto de ter parido duas crias ao mesmo tempo. Não é desculpa. É o que ela me responde invariavelmente. Mas gosto de caminhar com ela. Uma companhia excelente.

Cinco dias cinco flashes - 1

Doutoramento
Começo, finalmente, a redigir as primeiras palavras da dissertação. Ensino da Literatura no âmbito da aprendizagem da Língua Materna. Ironia. Conto (último quartel do séc. XX, princípio do séc. XXI). 3º Ciclo do Ensino Básico. Do corpus literário, Agustina, Baptista-Bastos, Lídia Jorge e Teresa Veiga. A depender da aprovação da orientadora, José Saramago. Indecisa, ainda, com Natália Correia, Nuno Júdice, Mário Dionísio, Luísa Costa Gomes, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Teolinda Gersão entre outros. Procuro contos que permitam uma reflexão sobre os vários tipos de Ironia e não posso descurar nem linguagem nem valores veiculados e a veicular. Não é tarefa fácil. A certa altura tudo parece irónico e nada parece irónico.
Falei-lhe sobre o Professor Carlos Reis. Afinal, é ele o responsável pela revisão dos programas de Língua Portuguesa do 3º Ciclo do Ensino Básico. A orientadora gostou da ideia de o convidar para membro do júri da tese. Pedi-lhe, contudo, moderação. Vamos ver a qualidade da minha escrita, a profundidade das minhas reflexões, a pertinência das minhas sugestões. Depois, há que ver o lado emocional. Se se mantiver forte, aceito o desafio. Gosto de desafios.
Ah, marafada!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Auto-retrato

Cabeça...





...tronco...



... e membros




Agradecimentos: à mana do meio, que me ensinou a trabalhar com o Microsoft Photo Editor; à mãe, que me ajudou com os rabiscos para além dos lábios.

Regresso...

... com o sol e o cheiro a maresia.
Palavras por alinhar, fotografias por organizar, leituras por actualizar, saudades por (cor)responder.

Ah, vida boa!

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pausa

A esta hora, já a Deniblog fez as malas.
A esta hora já aceitou o repto do seu Vizinho para um duche duplo.
Aliás, a Deniblog abre aqui um parêntesis para agradecer a manhã orvalhada que este seu simpático vizinho lhe ofereceu no dia anterior mais o mimo de viva voz e os cuidados prolongados.
Pois é. De partida uma vez mais.
Lisboa. Doutoramento. SPA.
Lisboa dos Afectos. Benjamin, Ana Paula, Jubal, Maria João e muito provavelmente TUlinho com Carla incluída. Maio para Paulo e Zé e Monga .
Lisboa.
Juntar-se-lhe-ão, em breve, os Manelinhos.
Coimbra.
Rasganço do mano.
A Deniblog detesta tradicionalismos académicos.
... mas cede aos afectos.


A Deniblog faz uma pausa de cinco dias.
A ausência e o silêncio são por vezes necessários.
(as saudades permitem compreender do quão se pode gostar da Deniblog)

Parabéns, Tia

Hoje é o dia da Tia Adoptada. Podias ser minha filha, repete-mo constantemente. É verdade. A sua idade é muitíssimo próxima da da minha mãe. Mas a Tia é a irmã mais velha que eu sempre quis ter e que me acarinha a cada segundo e em todos os intervalos que os medeiam. Tia, Irmã e Amiga.
É uma amizade que me emociona sempre que penso seriamente sobre ela. Uma amizade sólida que sobrevive às diferenças que nos poderiam apartar. Que se estrutura em respeito e em admiração.
Eu tinha 23 anos. Terminara o estágio e iniciava a minha vida profissional. Quando cheguei à escola, foi ela quem me recebeu. Pertencia à direcção e foi a primeira colega que conheci. Não foi uma apresentação formal de gabinete. Levantou-se, saiu, mostrou-me as instalações da escola e do espaço envolvente. Era simpática, descontraída, bem humorada, conversadora. Lembro-me de ter ficado logo muito bem impressionada com ela. Nessa altura eu tinha os cabelos compridos e tive de optar entre a Literatura e a Linguística. Literatura. Seria, então, a sua assistente. Quando regressei, ela não conseguiu disfarçar a sua desilusão com os meus cabelos curtíssimos nem eu deixei de me sentir constrangida quando, a propósito do meu signo, informou que tinha péssimas relações com os carneiros. Achei-a meio louca, com permissas astrológicas infiltradas nas relações profissionais. Depois aprendi a descobri-la em cada gesto, em cada palavra, em cada sorriso, em cada gargalhada, em cada olhar, em cada silêncio. De «dótôra» ao seu nome, do seu nome ao «tu». Quando ela me chamou pela primeira vez de «Deni» até me arrepiei. É o diminutivo a que respondo entre amigos e família. Ali, naqueles corredores cinzentos, não no reconheci. Acho que insistiu umas três vezes até que regressou ao Denise com e elevado. E aí, sim, eu associei o significante ao significado e virei-me na direcção do som. Tal como eu já explicara aqui. Timidamente lá lhe fui aceitando o e baixo. Entretanto, a amizade cresceu. Consolidou-se. Hoje, se me chama de «Denise», já estranho.
A Tia é uma Mulher especial. Inteligente, muito inteligente, perspicaz, culta, simpática, divertida, desinibida, afectuosa, atenciosa, generosa, paciente, simples, sóbria, autêntica. É, também, uma Mulher-Furacão. Os seus afectos são a sua fraqueza. Por eles escala montanhas, salta precipícios, atravessa o Atlântico a nado, pára para recuperar o fôlego, e volta a mergulhar nos restantes oceanos. É uma Mulher Coração-de-Manteiga e os seus olhos humedecem-se de quando em quando.
Quando reconstituo o percurso da minha vida, vejo que o meu crescimento interior muito se deve esta minha amiga. Com ela cresci intelectual e emocionamente. Cresci como Mulher, porque ela me mostrou outras formas de saber Mulher que eu esconhecia. Cresci como Ser Humano, atentando a mim e aos outros. Creio ser boa aprendiz mas, verdade seja dita, a minha mestre é muito paciente. Não deixa escapar um único deslize; aponta-o, porém, com a delicadeza das primeiras flores da laranjeira. Com ela cresci também fisicamente. Para os lados. Mousses de chocolate, queijos gordos, doce da avó. Mas nisso eu consigo ser mais forte do que ela e, na corrida para recuperar a linha, creio estar em vantagem. Lembras-te, Tia, dos meus 38 quilos aos 23 anos?
Com a Tia aprendi a extrair a essência das palavras, a observar as entrelinhas, a reinterpretar os silêncios. Deslizo frequentemente. Sou demasiado apressada e impetuosa. Faltam-me a paciência, o método, a disciplina com que ela graciosamente se move. As nossas diferenças são abismais. Ela sabe esperar, eu sou nervosinha e precipitada; ela fuma, eu agonio com o tabaco; ela é desconfiada, eu entrego-me logo por inteiro; ela é ateia, eu trato Deus por tu; ela é de esquerda, eu desequilibro-me para a direita; e mesmo a propósito do referendo, não sei como me escutou nem como contra-argumentou sem se exasperar nem como não me adentrou com a mão na cara. Porque eu a sei acérrima defensora das suas convicções. Desconfio que alimente esperanças quanto à sensatez que o tempo em mim esculpirá.
A Tia tem uma gargalhada bonita, uma voz sensual e uma palavra sempre adequada às circunstâncias. A Tia é teimosa e não se cansa em debater as suas filosofias. Eu acho-lhe piada. Nem sempre concordo e mostro-lhe outros pontos de vista. Ela aceita-os como exercício filosófico, mas fica na dela.
A Tia usa saias compridas e também usa botas. Ela gosta de brincos e anéis e pulseiras e malas e toda essa panóplia de acessórios femininos. Eu sou mais deslavada, tropeço com o salto alto e só suporto a minha pele mais a passagem leve de um batom suave pelos lábios. De vez em quando lá ponho uns brincos se vou ter com ela só para a ver sorrir e dizer "Ficam-te bem!".
Com esta minha amiga eu falo de política, de religião, de filosofia, de psicologia, de música, de literatura, de utopias. Mas também de sexo, de homens e . A minha Tia amiga vai aturando, coitada, com uma paciência franciscana, os meu desvarios súbitos e inconstantes. Busco nos seus mais vinte anos de experiência saciar as minhas curiosidades. Ela sabe dos meus ais e das minhas fantasias. Ri-se. Aliás, nem imaginam o quanto se riu quando lhe contei que até hoje só deixei que uma única pessoa me beijasse a boca.
A minha Tia amiga conta-me histórias e estórias, pisca-me o olho cúmplice, diz que gosta de mim. E que é o meu carma e que se houvesse mesmo outra vida depois desta vida cá estaria ela de novo, agarrada, coladinha a mim.
É a Tia da grande festança, a que tirou fotos e as manipulou num vídeo para mim: a Tia da Denise da Tia Adoptada.
Pois eu digo que a minha Tia é uma benção e peço a Deus que na na vida que se sucederá a esta me volte abençoar com a companhia desta alma que enche a minha.
É que eu gosto dela. Muito.
Tanto.


Parabéns Tia, pelos 52 aninhos.
Quero continuar ao teu lado. Sempre sempre, sim?




(At your side, by The Corrs)



Eu sei que aí por fora se comemora hoje o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. Mas aqui no RG, 23 de Abril é Dia de Tia Adoptada.


... com direito a livros, está bem....


(daqui)

terça-feira, 22 de abril de 2008

The Namesake


Vi o DVD à venda na Fnac. Namorei-o durante um bom tempo, mas lá consegui resistir. Melhores dias virão e, um dia, comprá-lo-ei.
Tal como nas outras cidades, Hollywood mantém-se em vantagem aqui por Portimão. Só que eu e o C. sabemos muito bem o que queremos. Entrámos na sala vazia e o projector esteve exclusivamente ao nosso serviço. Estávamos em 2007.

The NameSake (O Bom Nome, em português) é um filme lindíssimo que nos apresenta a leitura que Mira Nair fez do livro de Jhumpa Lahiri.
Assistimos ao choque civilizacional, à luta pela integração cultural, à ausência da família, a solidão, à construção diária do amor entre dois estranhos que se haviam casado e trocado a Índia pelos Estados Unidos da América, seguindo as promessas das oportunidades aliciantes acenadas pelo mundo ocidental.
Nascido já em Nova Iorque, Gogol Ganguli, o primogénito de Ashoke e Ashima (seguir-se-lhe-á uma irmã) é um americano de primeira geração que, na demanda da própria identidade, se vê forçado a repensar a família, os valores, as tradições, as raízes... o próprio nome, cuja história revela a cumplicidade da leitura com a antiga esperança do pai por um futuro melhor.
Gogol Ganguli renuncia o nome que tanto o incomoda e procura construir o seu futuro ocidental com os seus estudos em Yale e uma rapariga americana. Contraste nítido com a fidelidade dos pais às tradições bengali. É um período de amadurecimento para Gogol. A vida e as múltiplas relações com que se tece, mostram-lhe, porém, que a sua identidade, sem perder o rumo para o futuro, não pode renunciar, jamais, as raízes ancestrais.

O filme fala da demanda da identidade com que todos nós nos confrontamos a determinada altura da vida; fala, também, do conflito de gerações inevitável entre pais e filhos; e, ainda, do sentimento de alienação que cada um transporta consigo mesmo.
Quanto a mim, pareceu-me assistir, também, à reconfiguração cinematográfica da história da minha vida e da minha família.
Os meus quatro avós nasceram em Goa. Raça pura, de que qualquer goês antigo se orgulha (se bem que os apelidos portugueses e o de origem italiana traiam essa pureza, assim como os olhos verdes da minha mãe). O casamento dos meus avós maternos foi um casamento combinado. Aprenderam o amor ou, pelo menos, o respeito mútuo dia após dia. Os meus avós paternos pertenciam a castas diferentes. O amor falou mais alto e fugiram para a felicidade. Atravessaram, estes meus quatro avós, o Índico para aportarem em Moçambique, a colónia portuguesa mais próxima. Ali nasceram, cresceram, namoraram e casaram os meus pais. Ali nasci também eu e ali só morei durante os primeiros meses de vida. Os ditames da libertação da terra trouxeram-nos para Portugal. É este o meu país, onde cresci, onde me rebelei contra as minhas origens, onde me rebelei contra o meu nome e o meu apelido e as tradições nas épocas festivas e a cor da minha pele e a pronúncia das vogais dos anciãos da família. Eu odiava quando me perguntavam de onde eu era. Pergunta que me fazia perceber que daqui não seria, quando sempre fora daqui. Depois, há o momento em que redescobrimos o valor do passado e da história que nos fez. Os anciãos e as tradições e o próprio nome ganham novo fulgor. Um brilho de que não mais nos queremos separar. E então eu compreendo que sou portuguesa e sou moçambicana e sou goesa e sou indiana. Que pertenço a um mundo maravilhoso. Que em mim habitam estórias tantas que um dia quererei contar aos meus filhos, de raça impura, meio monhés, meio paclós, tão ao gosto dos ocidentais da primeira geração.



(The NameSake. 2006)

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O Grande Livro do... (ou o Livro dos Grandes...?)

Vou já comprar!

(Ou, se alguém o tiver, que mo empreste, sim?)


***

Da mesma autora:


(Dian Hanson. Editora Taschen)

Jubal

Conheci-o há uns quinze anos. Talvez nem tanto. Eu saía da adolescência e frequentava os primeiros anos da faculdade. Aluna de letras. Ele era já homem feito e de outra área de estudos. Pouco nos uniria, não fosse o amigo comum que nos havia apresentado. Tenho uma ideia enevoada desses tempos. Às vezes encontrávamo-nos os três. Eu ficava caladinha, na timidez natural de quem não sabe muito o que acrescentar à conversa entre dois homens vividos. Mas lembro-me de achar piada ao Jubal. Tinha um porte recto e jeitoso. Lembro-me de o ver com uma mão no bolso da ganga e a outra no copo de cerveja. Se não me trai a memória era também sorridente. Ou então fazia-nos rir. Não era de grandes conversas. Lacónico. Ouvia mais do que falava, mas a piada saia-lhe certeira no momento exacto que a pedia. Espirituoso. E assim foi durante alguns anos.
Depois, acabei o curso, fiz o estágio, regressei ao Algarve, casei, tive dois filhos. O nosso amigo comum seguiu a sua vida e o Jubal ficou na capital, na Lisboa dos meus afectos. Só muito amiúde nos voltaríamos a ver.
Não sei das voltas que a vida ou o mundo ou ambos dão. Nem sei como e por que motivo ou motivos o Jubal se lembrou de mim e vá de me resgatar do baú empoeirado da memória. E eu só lhe posso agradecer. O Jubal recuperou-me num momento crítico da minha vida e deu-me o ânimo que me faltava. Arrebitou-me. Incentivou-me. Expressou a sua admiração por mim, pela minha força, pela minha capacidade. Talvez pela distância das idades ou pela segurança do casamento atreveu-se a falar da minha beleza física. Nem toda a gente se atreve a lançar assim, e tão repentinamente, elogios a torto e a direito. Eu aprendi a fazê-lo depois de me casar. Antes passava por atrevida ou homossexual. Aprendi a conter-me. Depois de casada passou a ser mais fácil e deixei de ser mal interpretada. Uma diferença de idades considerável deixa-nos também à vontade. Talvez por tornar as palavras mais autênticas e ilibá-las possíveis deturpações.
Pois o Jubal confessou-me a beleza que os seus olhos viam. Foi a primeira vez que recebi tamanho elogio de um homem. Exclua-se, obviamente, o meu C. ... e o Poeta também. É verdade que as minhas irmãs e o meu irmão e o meu pai e a minha mãe e alguns primos e algumas primas e alguns tios e algumas tias e muitas amigas me dizem constantemente que me acham bonita. Os olhos o sorriso o jeito de menina que ainda tenho. Mas o Jubal foi a primeira voz masculina fora da família que me disse assim, com todas as letras: "És bonita". Melhor: "És muito bonita."
Bem sei da minha essência espiritual, como também sei que não nos devemos agarrar ao que é efémero e superficial. Mas por estar habituada à transparência com que me movo no mundo masculino, e saber que me sabem apenas pelo brilho interior (ou pelos conhecimentos disto e daquilo ou pelo toque de humor) fiquei toda envaidecida com os encómios ao meu perispírito. Reconheço a minha fraqueza e dou a mão à palmatória.
Há gostos para tudo e deficiências oculares irreversíveis. Não sei se deva acreditar nestas palavras trajadas de hipérbole e ênfase e carinho. Mas não é importante. Fiquei contente e ponto final. Nessa altura a minha auto-estima estava enlameada nos becos da amargura e o Jubal, com uma preocupação e persistência inusitadas, reanimou-a, acalentou-a, revigorou-a.
Ele sabe que eu gosto e, por isso, mostra-me mundos novos. Gosta de Sena. Diz-me que os meus rabiscos lhe fazem por vezes lembrar anfiguri e aquele soneto que tem estes versos: Aflia antonimera pendistalia/ acriesta indulia tensinata adur/ conquiata amanimerfa adolcifura valia. Gosta de Heinlein, como eu já referira aqui, e por causa dele já comprei Um estranho numa terra estranha, na versão de bolso da Europa-América. Diz-me que lhe faço lembrar a Ana do Fynn. E lá fui eu desencantar o Sr. Deus, esta é a Ana, editado pela Presença. Apresentou-me o Wehavekaorinthegarden, o Poder de Encaixe, o Autleirus, o Portugal dos Pequeninos. Pôs-me a ouvir Costello, Aznavour, Leonard Cohen, Katie Melua e até o excêntrico Charles Ives. Ensinou-me palavras como «serendipismo» e «priápico». Falou-me da filosofia de Scott Peck. Às segundas-feiras acompanha-me com o Prós & Contras. Gosta tanto quanto eu da Fátima Campos Ferreira ou finge que assim é só para se divertir com os meus nervos. Compadece-se com os ais! da minha profissão. A senhora do seu coração é professora e por isso sabe, como sabe!, do quão maltratadas temos sido desde há muito para cá e agora mais do que nunca.
Eu não sei muito do Jubal. Dele pouco sei, da sua vida nada de nada. Ele fala pouco. Eu sou a tagarela desmedida e inconsequente. Não posso afirmar que o conheça. Nem que sejamos amigos íntimos, daqueles do peito, com aquela amizade que já vem de outras reencarnações. Mas gosto dele. E muito. Gosto da sua gentileza, da sua comedição, do laconismo com que às vezes diz tudo. Gosto do seu humor refinado, da doçura com que me fala, dos conhecimentos que partilha comigo, da sapiência que só possui quem tem a sua idade. Não gosto quando fica calado, porque nem sempre eu sei alimentar um diálogo. Não gosto quando desvia a conversa e foge às minhas perguntas. Faz ele bem, porque às vezes eu sou desmedida.

Gosto do Jubal. E a ele agradeço os mimos que me tem votado, mesmo sem compreender tamanho merecimento.

Se não fosse poder ser mal interpretada dedicar-lhe-ia esta canção.
Se.


boomp3.com
(Un homme de 50 ans, par Linda Lemay)

Mas sou uma mulher séria e mãe de dois filhos. Respeito os laços de matrimónio e outros que tais. Respeito as mulheres dos homens que me fascinam e respeito-me a mim mesma.
Por isso, para o meu amigo Jubal, por causa do nosso horror comum à estultícia da high society e ainda por causa do Heinlein, este clip da grande Rainha:

(Alô alô Marciano, por Elis Regina)

domingo, 20 de abril de 2008

Quatro Estações

A Antena 2 transmitiu o concerto da Orquestra do Algarve no Centro Cultural de Belém. Uma vez mais, o lamento por morar tão longe da capital. Por três euros, três euros!, a entrada. No programa, duas obras das minha predilecção:o barroco puro de Le Quattro Stagioni de Vivaldi, seguido do ritmo colorido com o nuevo tango argentino das Cuatro Estaciones Porteñas de Astor Piazzolla. Conhecia estas oito estações pela Kremerata Baltica com o Gidon Kremer. De quando em quando regresso a elas. Hoje, colada à rádio, senti-me orgulhosa com a prestação da orquestra da minha região.
Direcção de Cesário Costa.
Cinco estrelas.

As quatro estações têm sido fonte de inspiração ao longo da história da Arte. Na música, outros compositores para além de Vivaldi e Piazzolla. Assim de cabeça, Joseph Haydn e Cristóvão Silva.

Por ora, deixo-vos com um pouco de Verão.


(Verão de Vivaldi. 1º Andamento. Com Nigel Kennedy)


(Verano Porteño de Astor Piazzolla, pelo Quinteto Ángel)



***

Nota: Encontrei, entretanto, o Verão do Hydn:


(Verão de Joseph Hydn, pela Orquestra Sinfónica de Võru e os coros Hilaro, Võru e Camerata Universitatis)

Sudoeste

Afinal não é só o sueste. Aventuras oníricas estranhas também com o sudoeste.

Hoje sonhei que passeava na praia. O mar, brando, reflectia o brilho do sol. Aqui e acolá. Súbito, aquilo que há tanto tempo, mas tanto, não me revisitava os sonhos: uma onda ali ao fundo célere e directa é já uma onda aqui bem perto. Avança sobre mim. Os pés, as pernas, a saia, a blusa, os cabelos ... tudo encharcado.
E, depois, uma personagem inusitada: o salva-vidas. Choramingo da onda e da roupa molhada. Condoído, conduz-me à casinha de madeira, onde posso secar as vestes e o cabelo. E eu, eu!, viro-me para ele e dispo-lhe a t-shirt branca e empurro-o para o cadeirão encostado a um canto e ...



Eu com iniciativa
Eu e um desconhecido
... e logo um salva-vidas
sim...
Logo eu!
...

Ai as ventanias!

sábado, 19 de abril de 2008

Um brinde para o jantar de hoje

É hoje o jantar que o meu Paulo do Zé e o Zé do meu Paulo mais o Pinguim, organizaram. Pelo que apurei, serão perto de 40 os convivas que aceitaram o desafio de se conhecerem para além do ecrã. É óbvio que gostaria de poder estar presente. Porque gosto tanto do Paulo, e agora também do Zé, e seria mais um pretexto para estar com eles. Porque vai lá estar gente simpática, que conheço deste e daquele blogue, e há sempre aquela curiosidade natural em conhecer o rosto que se esconde atrás do nome ou a voz que não ouvimos nas palavras escritas.
Mas, e há sempre um mas, desta vez não vai poder ser...

Nunca me deu para marcar encontros reais com os meus amigos e as minhas amigas virtuais. Confesso, até, um receio. O da desilusão mútua. E, também, o do perigo eventual que se pode esconder em encontros com semi-desconhecido(a)s. Os e as que conheci, graças à mão do Paulo. Sem rede e sozinha é diferente, se bem que haja a excepção para a equipa simpática deste blogue com quem espero estar já nas Jornadas de Maio. Excepção, também, para as meninas com quem troco correspondência electrónica ou mensagens no hi5. Concluo que aquilo que verdadeiramente me retrai é a expectativa falsa que um encontro destes pode ser alimentada na cabeça dos rapazes. Testemunhei muitas histórias, e surreais, protagonizadas pela minha companheira de estágio, com quem, há uma década, partilhei a casa em Azambuja.

Talvez um dia eu e o Manelite organizemos uma coisita gira aqui pelas terras mouriscas. No Verão, quando é mais apetecível.

Por hoje, um tchim tchim ao jantar desta noite.


Amigo lindo, segue um mail explicativo e a vontade de estar contigo, convosco, e Monga incluída, na minha próxima ida a Lisboa.
Para breve breve.

Para o meu vezinhe Manelite

Falava eu dos dias bonzinhos e da semana que terminava em beleza. É que há dias mesmo bonzinhos assim que se prolongam pela noite fora.
O Manuel Rocha descobriu-me o terreiro. Acho que por compadrio do filósofo-cientista, o J Francisco Saraiva de Sousa. Que tenham aqui chegado, vá que não vá. Que continuem a pairar por aqui... esse é o grande mistério do momento. Espreitem os blogues destes meninos e perceberão porquê.
O Manuel Rocha decobriu-me o terreiro e mais! Que somos vizinhos, afinal. O magano tem olho p'rá coisa. Eu moro em Portimão. Ele em terreola muito próxima. Mas com ponto e vírgula, porque, como ele diz, vizinha é forçar um pouco a nota porque se brado por ti (OOHHHHHHHHHHHhhhhhhhhhhhh Veziiiiiiiiiiiinhaaaaaaaaaaaaaa ...) de certeza não me ouves, embora me possas ver se te fizer sinais de luz.
Este meu RG tem trazido até mim coisas boas e gente bonita. O meu vezinhe Manelite preencheu-me o fim do dia e uma boa parte da noite. Encheu-me o ego com palavras escritas em maiúscula e uma leitura atenta de dozes páginas que, coitado, o recambiram para a cama.

O ser humano tem destas coisas inexplicáveis, como a de gostarmos de pessoas que nunca vimos na vida e que por artes virtuais se aproximaram por um motivo qualquer. Os leitores e as leitoras que por aqui passam regularmente têm esse efeito em mim e dou por mim a pensar neles e nelas quando vejo isto ou ouço aquilo. A todos vós, meus amigos e minhas amigas, um abraço do tamanho do meu RG, meu país, meu reinado e meu império.

E para o meu vizinhe, em especial, depois de alguma hesitação entre isto e o que se segue, aqui fica uma dança muito à moda da nossa terra.
... convidas-me para um rodopio, Manelite?


(Corridinho Algarvio, pelo Grupo Etnográfico da Serra do Caldeirão)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

E para terminar a semana em beleza...

Entrou de rompante e pregou-me um susto com o vozeirão.
- Oooolhhhaaaa! Uma colega nova!!!!!
Já é um hábito. Por ser professora à noite quase ninguém me conhece.
- Como te chamas?
- Denise...
- Ai, que mimo de voz!
Rio-me. Essa agora. Que sou contratada, sim. De Português e Francês. Ela já é efectiva, de Germânicas.
Espirro.
- Santinha.. Bem, mas com essa carinha só pode ser mesmo assim!...
- Com esta carinha o quê?
- De santinha.
- A colega está a gozar comigo?
- Trata-me por tu. E não, não estou. Desculpa. É que és meeeeeesmoooo bonitinha.

Há dias muito bonzinhos e mimos assim no final da semana vêm mesmo a calhar.

Substituição - 8º ano- Educação Moral e Religiosa

- Professora, substituição para o 8º tal.
- Ó D. Rosa, não há mais ninguém de serviço?
- Eles pediram que fosse a professora.
Os colegas riem-se. Sem dó nem piedade. Pego no livro de ponto e arrasto-me com a alegria de quem vai fazer substituição estampada no rosto.

- E aviso logo que estou com tanto apetite quanto vocês...
Não tinham trabalhos de casa para fazer, nem matéria para estudar, nem quiseram que eu lhes contasse uma história. Tinha em mãos os Bichos do Torga. Mas não nos convenci.
- A turma não-sei-quantas disse que da outra vez a stôra os levou a jogar à bola.
- Mas hoje o campo está ocupado. Nada feito.
Formaram pequenos grupos. Uns sacaram do baralho de cartas, outros do mp3, outros de um papel e uma caneta para o Abc-stop. Autorizei tudo. E depois aconteceu uma coisa tão engraçada que jamais pensei que pudesse acontecer comigo.
Um grandalhão chegou atrasado à sala. Ihhh stôra, que este é dos frescos, que vai estragar a aula, que o melhor é mandá-lo já p'rá rua. Mas o rapazote ollhou para mim e ficou especado à porta. Que não eram horas, mas que entrasse e não estranhasse que era aula de substituição. Entrou e meio apatetado sentou-se na mesa da frente, colada à minha secretária. Atão Rafael, o teu lugar é lá atrás. Calem-se que hoje eu fico mas é aqui. E perguntou-me o nome e de onde eu era e que disciplinas é que eu dava e quantos anos tinha e isto e aquilo e acoloutro. A mandar calar os colegas sempre que se excediam com o tom de voz. Sempre muito apatetado, esbugalhado e inclinado para a frente e a tocar-me no braço de quando em quando.
Lembrei-me então dos meus colegas do liceu, de como ficavam caidinhos por algumas professoras.
E comprendi.

Achei uma delícia poder testemunhar o deslumbramento daquele adolescente que não sabia como se sentar e falar e agir por causa das hormonas. A diferença das idades permite-nos um olhar distanciado e maravilhoso sobre as pessoas e sobre o crescimento. E o atrevimento em, com tacto, encher-lhe um pouco o ego sem o deixar envergonhado para o resto da vida.

Aos 15 anos as pessoas são sempre muito bonitas.

Substituição - 7º ano - Educação Musical

Esta semana estive de serviço efectivo. Quatro tempos de substituição...

1.
- Yehhh! É aquela stôra da outra vez!!!!
- Calminha aí, esta stôra tem nome. Denise, sim?
- Atão stôra, hoje vamos jogar ao quê?
- Atão nada. A vossa professora deixou instruções para trabalho.
...
- Vá lá, abrir o livro na página tantas e fazer os exercícios escritos.
- Ah, a gente ainda não deu isto. 'Bora para o computador?
- Não deram? Eu vou já ver os sumários.
Abro o livro de ponto. Não há, efectivamente, registos de.
- Fixe, vai um joguinho do enforcado?
- Meus amores, a professora deixou instruções e nós vamos tra-ba-lhar.
- Mas a stôra é de Português e esta aula é de Música!
- Estão tramaditos, porque eu sei algumas coisitas. Por isso, abram o livro na página tantas.

2.
Lá estivemos a rever a notação tradicional para entrarmos na notação percustra.
- Perceberam? Vejam lá o exemplo. E vá de fazer a leitura rítmica.
- Eu cá não entro nessa palhaçada.
- Não entres, Tiago. Mas não chateies.
- Uai, como sabe o meu nome?
Gosto de os surpreender e estudo as suas fotos no livro de ponto antes de entrar na sala de aula. Fazemos as leituras rítmicas. Primeiro, um a um. Com as mãos. Estão compenetrados. Não querem falhar perante a turma.
- Afinal também quero.
- Força, Tiago.
Um a um. Depois moços contra moças. Lanço o mote: depressa e bem.
Depois das mãos, estalinhos dos dedos, batidas dos pés e os intrumentos de percussão que que estão à mão. Em pequenos grupos e, finalmente, a turma inteira. Deliram. E também eu me divirto.

3.
Abril, águas mil.
- Fazer o favor de escrever uma linha rítmica para o provérbio. Podem fazê-lo a pares. E depois é para mostrar da forma como quiseresm.
Escrevem. Depois mostram com o som que tiram das canetas, das cadeiras e até do giz horripilante no quadro.
Lembro-me dos Stomp. Ligo o computador e levo-os ao YouTube. Não conheciam, pois claro, mas passaram a conhecer e a gostar. A propósito do Orff, sobre quem faláramos, mostro-lhes parte da Carmina Burana. Ouvem-na durante mais tempo que eu supus que aguentassem. Tentaram cantar, mas eu ri-me e estraguei tudo.

4.
Restam-nos 15 minutos.
- Podemos sair mais cedo?
- Sabem que não. Mas podem aparvalhar.
Aparvalham. Um no teclado, outro na guitarra, outro no metalofone, outro nos tambores, outro a cantar como um desgraçado.
Os restantes divertem-se com a Dança do Créu do Mr. Been e com palermices como esta.

5.
Toca para a saída.
Guardam os instrumentos, desligam o computador, arrumam as cadeiras. Só depois é que saem, naquela correria a que já estou habituada.
- Adeus stôra, um bom fim-de-semana.
Estes miúdos são um mimo e com eles eu até gosto, vejam lá, de fazer substituição.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Confusa e perdida. Amigo procura-se.

Eu sei que fui eu quem se fartou, que fui eu quem bateu o pé, como sempre fiz, que fui eu quem se zangou, quem mudou de quarto e quem pediu o divórcio. Também sei que sou tempestiva e nem sempre muito segura do que faço. Mas um divórcio, quando o amor ainda existe, é muito complicado. Sobretudo quando habitamos a mesma casa e partilhamos o tecto e o chão e o ar e as horas e as palavras.

De há uns tempos para cá ele cantarola um "Tomara" insistente

boomp3.com

(Tomara. Por Maria Creuza, Vinicius e Toquinho)


Eu balanço. Tenho segurado o corpo faminto e a alma carente. Tenho mantido a pose de deusa altiva e inatingível. Mas balanço.
Gosto dele. Olho para trás e não esqueço. Mas olho para trás e já não sinto nem a mágoa, nem a dor, nem a tristeza. Saudades, paixão e amor sim.
Não posso negar o laço que ainda me prende. Cada olhar desviado e demorado para outro homem como um pecado. Como se me fosse permitido apenas ele. E mais: pergunto-me se alguma vez terei coragem de me desnudar perante outro que não ele. Se mais alguém aceitaria um corpo e uma alma já tão usados, viciados e maltratados. Se mais alguém os amaria assim tanto como ele os ama. É químico. Basta um olhar ou um toque leve, a respiração acelera-se-lhe. E sempre só meu. Pergunto-me se conseguiria voltar a confiar tão inteiramente em alguém. Assusta-me a suposição da mentira e do efémero. É no que dá a inexperiência.

Uma cumplicidade que não sei explicar. Milenar. O diálogo inesgotável, a sabedoria, o humor, a paciência, o carinho. A mão enxuta em todas as minhas lágrimas, a prontidão em me levar a Lisboa, Coimbra, Porto, Braga sempre que me aborrecia o comboio ou o autocarro, a paciência quando me dava para o riso no amor, a calma quando eu pedia calma, o fogo quando eu desejava fogo, a fantasia quando eu queria fantasia, e o silêncio ou as palavras ou a luz ou a escuridão. O exercício tortuoso da espera pelo prazer múltiplo e a explosão orgásmica apenas quando autorizada. A galhofa quando o apanhava no flirt descarado. Quantos assim?

Não sei se lhe peça para chegar mais perto....



(Tema de amor por Gabriela, por Tom Jobim e Gal Costa)

...ou se me afaste do canto de Ossanha e lhe diga "Não vou!"



(Canto de Ossanha, por Maria João)


Mas a verdade é que ambos nos sentimos assim:

free music



(Samba em prelúdio, por Vinicius, Toquinho e Maria Creuza)


Dizem-me fraca. Louca. Inconsequente. Talvez.
Sinto-me, antes, confusa. Perdida.
As amigas socorrem-me. Mas ou nunca tiveram uma relação duradoura e lhes falta a experiência de vida, ou, por serem amigas do peito, se deixam envolver tão emocionalmente que a perspectiva se torna só uma. Falta-me o contraditório. A visão masculina. A visão de quem já viveu a sua crise conjugal e a superou. Fui a algumas consultas de psicologia. Não me adiantou de nada. A opinião da psicóloga era nitidamente opinião de mulher. Falei com um tio. Faz 50 anos em Junho. Sobreviveu a dois casamentos e a dois divórcios. Mas sem tentativas de reconciliação. Não me esclareceu nem um pouco.
Sinto-me confusa e perdida. Preciso de um amigo homem que se consiga distanciar. Que me fale de como foi com ele. Que me apresente a sua perspectiva. Que me elucide com a sua experiência e a sua vida.
Não tenho amigos assim. Ou demasiado novos e invividos ou cotas realizados com casamentos inabaláveis ou divorciados e amargurados com as desilusões da vida.

Perdoem-me, portanto, este grito no vazio.

Bem-vinda

Já passava de meia-noite. Chegou de mansinho e encostou-se ao umbral da porta. Ficou assim. Lancei-lhe um olhar oblíquo. Parei de escrever e esperei. Cantou, então, os primeiros versos.
Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente que há um lugar na minha mesa
Pode ser que você venha por mero favor
Ou venha coberta de amor
Seja lá como for, venha sorrindo
Nem eu, que sou arisca, meio bruta e armada em difícil, consegui resistir.
Havia um lugar na sua mesa. E eu lá abandonei o escritório e fui, sorrindo. Chá verde, broa, queijos, belgas.
Falou. Eu gosto quando fala. Do que diz e do timbre da sua voz. Falou-me do livro que tem em mãos. Do trabalho que finalmente terminou. Do Acordo Ortográfico. Não concordamos em quase nada. Continua a achar-me demasiado à direita e com umas manias inexplicáveis de independência. Falei-lhe da opinião do Mauro de Salles Villar que eu lera na Atlântico e encontrara entretanto no blogue. Abanou a cabeça. Que ando a pender para o sim só por causa do Carlos Reis, que me rendi ao seu charme, que sou altamente influenciável, que confundo tudo, blá blá blá. Eu acho piada à imagem absurda que ele constrói de mim. Deixo-o falar. Gosto de o ouvir. Do timbre da sua voz. É um tagarela. Eu gosto imenso de gente tagarela. Até porque eu não no sou e não tenho muito jeito para alimentar conversas. Com ele é muito fácil. É só dar o mote. Fazer uma pergunta simples. Ele trata de complicar e de desenvolver à exaustão. Às vezes faço-me de parva, finjo que não sei, peço para explicar. Porque gosto de o ouvir. É a pessoa com quem sinto mais prazer em conversar. E, verdade seja dita, nos 17 anos em que estamos juntos a conversa nunca se esgotou.

O chá estava bom. Fui mais comedida com as bolachas, o queijo e a broa. Ele levantou a mesa, pediu que o acompanhasse ao terraço para o último cigarro do dia, piscou-me o olho e ao luar cantarolou os versos derradeiros.
Ah, bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda
Ah, que bom que você veio, e você chegou tão linda
Eu não cantei em vão
Bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda...


(Bem-vinda, por Chico Buarque)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Der Kuß

Segui a pista da Aveugle.Papillon, a quem agradeço imenso, e cheguei ao Gustav Klimt. Encontrei O Beijo deste pintor austríaco. Ao contrário do Baiser de Rodin, aqui é o homem quem toma a inicativa e beija a mulher. Uma iniciativa sem sucesso: ela desvia-lhe a cara. Todo o seu corpo diz «não». A mão direita, ainda que rodeando o pescoço do homem, num gesto que pode significar um certo afecto, é uma mão fechada. Não se abre na pele, nem brinca com os caracóis do cabelo. A mão esquerda a travar a do homem revela o desconforto do momento. É um «não» muito nítido. A pobre da mulher não tem por onde fugir, entre o homem e o precipício. Desgraçada. E ele aproveita-se. Inclina-se na tentativa do beijo. Ela nega-se, desvia-lhe os lábios. E ele força. Segura-lhe na nuca com a mão esquerda e, com a direita, procura posicionar-lhe a cabeça para o beijo. Mas ela NÃO quer! Há homens mesmo estúpidos. Confundem afecto, carinho, um simples abraço com outras vontades. Há homens mesmo brutos, que não conhecem limites. Comigo seria assim: abriria caminho à chapada ou saltaria para o abismo. Que eu cá não sou nada, nadinha mesmo, de submissões.
Livra!




(O Beijo. Gustav Klimt. 1907-8)

Le Baiser

Coisas há que, de tanto nos passarem pelos olhos, acabam por não ser verdadeiramente observadas. Ignoro quantas as vezes que terei visto representações d' O Beijo de Auguste Rodin. Sempre gostei muito dessa peça, pelas formas harmoniosas e pelo gesto amoroso que representa. Recuperei-a, sem qualquer hesitação, para a celebração do Dia do Beijo. Depois andei por aí feita parva a pensar nos beijos que já dei, nos beijos que não dei, nos beijos que gostaria de dar. Quando, súbito, a imagem da escultura apresentou-se-me à memória num outro ângulo. Vasculhei os livros de arte que tenho por cá. Lá estava ela, a fotografia da peça. Olhei-a demoradamente e descobri o que até então eu nunca havia verdadeiramente observado. A atitude dos amantes. A fogosidade com que ela se entrega. A volúpia com que ela se inclina para ele, o envolve com os braços e o puxa para si. O desejo que se adivinha na abertura das pernas. A contrastar, a passividade dele. O tronco hirto, a inclinação breve da cabeça, o braço direito poisado na perna, a mão insonsa na coxa dela, o sexo murcho.
É ela quem o beija. Ele deixa-se beijar.

Pode ter um corpo todo bem feito e um esboço de um rosto que se adivinha interessante e tal. Mas eu é que jamais beijaria um homem desses nem suportaria ser beijada assim.
Livra!




(O Beijo. Auguste Rodin. 1888-9)

terça-feira, 15 de abril de 2008

Prós & Contras





Mais uma noite de segunda-feira com a sempre estimulante Fátima Campos Ferreira (sobre ela recomendo, vivamente, este texto do Kaos).

Em debate, o acordo ortográfico, a partir da pergunta usada como título da emissão: Português Escrito: a uniformidade é possível?
Em palco, a favor: Carlos Reis e Lídia Jorge; contra: Alzira Seixo e Vasco Graça Moura. Na plateia, escritores(as) portugueses (as), africanos (as) e brasileiros (as), linguistas, tradutores.
Quatro, as grandes mudanças: o desaparecimento das consoantes mudas, alterações nos acentos agudos e circunflexos, a queda do hífen e do trema, a inserção das letras k, y e w.
Argumentos de defesa: a abertura da circulação da Língua Portuguesa, uma maior visibilidade e consequente afirmação internacional; a unidade urgente entre duas grafias oficiais; a regulação necessária à semelhança do que anteriormente já fora feito (Reforma Ortográfica de 1911). Contra-argumentação: a possibilitação de grafias facultativas que impedem as ambicionadas unidade e uniformidade da grafia; o perigo de um neocolonialismo que exclui os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, assim como Goa, Macau e Timor. Cada uma das partes acusava os argumentos contrários como falaciosos. O espectador que não domina, nem pode, as especificidades sincrónicas e diacrónicas da Língua Portuguesa, as correntes científico-linguísticas que comprovam ou refutam esta ou aquela teoria e as filosofias inerentes à política a adoptar, sente-se sem rede. Alia a sua competência individual aos argumentos que lhe soam mais sólidos, ao movimento das massas, ou a qualquer outro ponto de apoio. É um debate que avança em terrenos movediços.
Eu tenho acompanhado a discussão com interesse. Mas não li tudo e sinto que não posso opinar devidamente. Não me incomoda nada passar a escrever batismo, ótimo ou úmido. Pergunto-me, contudo, se, assim, não estarei a desprezar as raízes da minha língua. Pergunto, depois, se o desprezo passará efectivamente por aí. Afinal, já não escrevemos pharmácia, nem Anthero. As actualizações acontecem. Os linguistas, que nos poderiam esclarecer, parecem-me, também, longe de encontrar uma unanimidade. Pergunto-me se a projecção e afirmação de uma língua estará verdadeiramente dependente de uma uniformização gráfica. Ou se é assim tão legítimo o medo de perda da nossa identidade cultural. As variante regionais em Portugal estão vivas e não se deixam amedroentar com a existência de um português padrão e de regras que as unificam quanto à escrita. Nem me parece que o texto literário venha a perder a liberdade do desvio à norma, através, por exemplo, da exploração do traço gráfico com determinada intenção. Por outro lado, qual a liberdade de movimentação do português da Índia, do português de Macau, do português de Timor, do português dos PALOP? Que lugar contemplado aos substratos e superstratos do português geográfico?
Perguntas tontas de quem, pela profissão, deveria ter uma opinião mais consistente e delineada.
Mas não tenho.

Sugiro, uma vez mais, a leitura de um texto do J Francisco Saraiva de Sousa: «Prós e Contras: Português Escrito: A uniformidade é possível? »

Lídia Jorge. Gosto dela como escritora. Mas é péssima na argumentação. Demasiado emotiva. Histérica quase.
Alzira Seixo. Boa capacidade de contra-argumentação, memória rica, exemplos elucidativos, ainda que com escapes literários meio descontrolados.
Vasco Graça Moura. Algum pedantismo. Perde-se, por vezes, no fio com que tece o seu discurso.
Carlos Reis. Apesar da assertividade, da pontinha de arrogância e do desprezo sarcástico votado aos adversários, admiro-lhe a clareza, a segurança, a estruturação exímia do discurso, a capacidade de síntese, a argúcia da argumentação. É um homem de força. A acrescentar, não posso deixar de o fazer, o toque de charme a que quase me rendo de joelhos.

Sobre ele, uma perspectiva e uma retórica diferentes em «F-se! O Trauma do Javardo Cão Danado », subscrito por de.puta.madre.
E porque o RG é um blogue democrático e eu dou voz à oposição, «O Reis», no Portugal dos Pequeninos de João Gonçalves.

Erre. Ere. Erro. Irra!, Erre!

Em vez de carro, caro; em vez de corrida, corida; em vez de torrada, torada. Quem vem da Europa do Leste apresenta sérias dificuldades na articulação da vibrante múltipla. A constritiva sai-lhes invariavelmente como vibrante alveolar simples. Concluo que o erre forte não faz parte do sistema fonológico das línguas eslavas, ou, pelo menos, da russa, da ucraniana e da moldava. Era suposto vermos o modo conjuntivo, mas as aulas vivem de imprevistos e impõe-se a flexibilidade da planificação. Enchi o peito de ar e vociferei com uma rapidez de que me orgulho: orratorroeuarrolhadagarrafadaderrumdorreidarrússiaearritarrosarramalhodorratoarroerserria.
O resultado pretendido: desmancharam-se em gargalhadas. Ó professora! Não percebemos nada. Escrevi em letras garrafais no quadro. Que lá na tera deles, lá na rússia, é mais vodca que rum. Repetiram o trava-línguas um a um. Devagar, primeiro, com uma acentuação propositadamente exagerada nos erres. Tiveram mais dificuldade com o alofone velar. Preferiram, e adoptaram, o alveolar. Aquele que é pronunciado com a vibração da ponta da língua na proximidade dos alvéolos. Repetiram uma vez e outra e outra até sair bem. Depois, obviamente, o despique. A ver quem dizia mais depressa. Um a um, em coro e em equipas, mulheres contra homens, jovens contra cotas. Seguiu-se a chuva de palavras. Assim de cabeça, lembraram-se de umas vinte que fui escrevendo a giz. Pedi-lhe, por fim, que, com essas ou outras, criassem novos trava-línguas. Criaram-nos. Ensaiaram em voz baixa. E, por fim, lançaram-nos a uma velocidade quase vertiginosa.

» O rei roeu o grande rabo do rato. A rainha sorriu e raptou o rato que roera a rolha.

» O Rui roubou o carro do rico rei e o Ricardo riu. A rainha Rosa Rafaela Robertus surrou o Ricardo. Ele rolou da terra ao rio e a guerra se repetiu.

» Ria ria sorria sorria o ferreiro corria e a guerra ocorria na terra da rainha.

» O rei e a rainha de Inglaterra aterraram ontem na terra da Roménia.

» A Rita corria, ria e repetia: O rato roeu a rolha! O rato roeu a rolha! O rato roeu a rolha!

» O grande rei Ricardo ferrou o rato, o rato ferrado surrou o rei Ricardo no rabo e o rei Ricardo aterrou no rio. A Rita Rosa Ramalho sorria e queria repetir.

Foi uma aula divertida, sim senhor.
Sem papéis coloridos nem caixinhas com surpresas nem acetatos nem aparelhos multimédia nem cartolas com coelhinho.
Palavras apenas.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O meu primeiro beijo e o beijo que não foi

Era uma tarde de Agosto e eu tinha quinze anos. Conheceramo-nos um ano antes e, por causa da diferença de idades, nada levaria a crer no namoro, no casamento e nos filhos que viriam. Conheceramo-nos um ano antes, começáramos a sair um mês antes, começáramos a namorar uma semana antes. Eu, por causa do André (um dia logo escrevo a história do André), fiquei irremediavelmente amputada do arrojo da iniciativa, no que diz respeito à paixão e ao amor. Ainda hoje, excluindo o flirt banal, avanço apenas quando prevejo a garantia do sucesso. E estes avanços, sempre e só com ele.
Eu tinha 15 anos e uma semana de namoro. Esperava pelo beijo. Um beijo suave, à beira-mar. Um beijo apaixonado, sob o luar. Um beijo tímido, perto do rio. Um beijo dengoso, no jardim. Um beijo.
Mas na hora do meu primeiro beijo não houve sol nem lua nem estrelas nem mar nem rio nem flores. Estávamos sentados no banco de um piano. O meu primeiro beijo foi um beijo pedido. O posso te beijar não tinha nada a ver com a minha noção de romântico. O meu primeiro beijo foi um beijo atrapalhado. Eu não fazia ideia que as línguas se enrolavam e expectava apenas pelos lábios. O meu primeiro beijo foi um beijo desconfortável. Senti-me invadida pelo músculo molhado (a língua, desambigue-se!) e nem sabia muito bem como abrir e posicionar a boca. O meu primeiro beijo foi um beijo atrevido. Para além de me concentrar nos lábios, na língua e na inclinação da cabeça, tive de me preocupar com as duas mãos que muito descaradamente percorriam o meu corpo inteiro.
O que era a inocência! *

E não é que é mesmo verdade?! Aos 14 anos pediu-me um beijo um poeta dois anos mais velho que eu. Não era um rapaz deslumbrantemente belo. Mas havia arte nas suas palavras. Era noite de lua cheia e estávamos sozinhos à beira-rio. Em redor, o silêncio da noite, cortado pela aragem que movia a folhagem das árvores da serra. Senti-me tentada e quase cedi. Mas consegui resistir. Expliquei-lhe que não desperdiçaria o meu primeiro beijo numa curte. Que estava guardado para alguém especial. Ele compreendeu e não insistiu. Abandonámo-nos ao silêncio. Abraçou-me e estendemo-nos nos calhaus. Ficámos a olhar para as estrelas e ele falou-me do deus que via em mim, da sua nova ideia de anjo, dos meus lábios rosados e da paz daquela hora. Nunca cheguei a saber o nome do Poeta. Conheci-o nessa noite e nunca mais o voltei a ver. A memória acarinhou-o, sonhei com ele durante meses a fio e nunca mais o esqueci.

O meu primeiro beijo, um ano depois, na única boca que permiti em mim.



* de «Nero», in Bichos, de Miguel Torga.

domingo, 13 de abril de 2008

No Dia do Beijo

Soube do Dia do Beijo pela rádio.
Eu, que sou muito beijoqueira, fiquei muito contente, pois então.
Os dias valem o que valem e em cada dia se celebra a vida e tudo o que dela faz parte, eu sei. Mas aproveitei para intensificar a festa dos beijos que diariamente celebramos cá por casa. Beijei-lhes o rosto, o pescoço, as mãos, cada um dos dedinhos, o peito, a barriga, as pernas, os pés. Os pés. Maravilhosos. Mordisquei-lhos. Eles contorcem-se. E, depois, também eles se desfazem em beijos. Beijam-me os cabelos, percorrem-me o rosto, passam pelos lábios, tentam o pescoço, agarram-se às mãos, conseguem as pernas. Beijam-se um ao outro. Engalfinhamo-nos os três em beijos e risos e abraços. E, assim, como quem não quer a coisa, aproximo-me dele e toco-lhe os lábios e sorvo-lhe a língua e levo-lhe a alma. Assim, como quem não quer a coisa.

No Dia do Beijo, confirmo, aqui, que....
... os nativos de Carneiro têm um beijo muito intenso e impetuoso, pois entregam-se de corpo e alma à paixão. Beijam de forma ardente, envolvente e dominadora, pois também a sua personalidade assim é. Embora muitas vezes os seus beijos sejam rápidos, são extremamente apaixonados. Precisam de sentir emoção da parte da pessoa que beijam, e “devoram” a sua boca com muita intensidade.
E que, quanto ao meu ascendente....
... os nativos de Gémeos beijam de forma brincalhona e alegre. Os seus beijos são provocadores, ora intensos ora fugazes. Uma vez que são muito criativos, detestam beijos monótonos. Adoram experimentar novas sensações, e gostam de surpreender a pessoa que beijam mordiscando os seus lábios ou brincando com a ponta da língua. Como o sentido de humor é vital para eles, muitas vezes os seus beijos são interrompidos por gargalhadas.
(Mas como até à data só conheci a boca de uma única pessoa, não sei, pois claro!, se esses meus beijos são assim porque meus ou se assim porque com ele.)

No Dia do Beijo, submeto-me, ainda, a dois testes que só dizem verdades:

You Are a Soft Kisser


Your kissing style is understated, but effective
You give soft, sweet, and soulful kisses.
And the key is, you only give kisses to someone incredibly special
Because you don't just go around kissing anyone


You Are a Romantic Kisser

For you, kissing is all about feeling the romance
You love to kiss under the stars or by the sea
The perfect kiss involves the perfect mood
It's pretty common for kisses to sweep you off your feet

What Kind of Kisser Are You?



No Dia do Beijo, lembro-me deste post do Felizes Juntos e engraço com o poema e a foto assaz explícita publicados no Memória Fracturada.

No Dia do Beijo, recupero um soneto da Florbela Espanca.

TOLEDO
Diluído numa taça de oiro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é só nosso!
O sol a rir... Vivalma... Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer...
.
As tuas mãos tacteiam-me a tremer...
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!
.
Cerro um pouco o olhar onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo,
- Um grande amor é sempre grave e triste.
.
Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo...
Uma torre ergue ao céu um grito agudo...
Tua boca desfolha-me num beijo...

No Dia do Beijo, Pedro Abrunhosa, Rodin e um vídeo assim para o provocador


Caricatura - Os Stooges



(de Cartoons da Imprensa )

(de Wehavekaosinthegarden)


Caricatura - s. f. (Do it. caricatura, de caricare < lat. carricare 'carregar'). 1. (...) 2. (...) 3. (...) 4. Pessoa ridícula pelo aspecto ou pelos modos.

Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências e Lisboa, Lisboa, Verbo, 2001.

SNESup: "Estará a UBI com défice de democracia?"

Tenho estado a seguir atentamente a história absurda que se tem vindo a desenrolar na Universidade da Beira Interior. Distribuição de serviço descaradamente ilegal no Departamento de Ciências do Desporto. Intervenção do SNESup. Autismo completo da Reitoria. Avanço do sindicato: pré-aviso de greve a três disciplinas, providências cautelares, acção principal sobre a distribuição de serviço ilegal.
Curiosamente, a Reitoria avança cega e tempestuosamente. Embora não tivesse havido aulas, devido à greve de leccionação, e o regulamento da universidade contemplasse que as provas incidissem sobre a matéria leccionada e sumariada, os/as alunos/as foram, mesmo assim, sujeitos/as a avaliação, com base nos resultados da única prova efectuada e que ocorreu na 5ª semana de aulas. Os docentes foram alvo de perseguição: marcação de faltas injustificadas a aulas leccionadas, descontos no vencimento, descontos na licença para casamento previamente autorizada, apresentação de processos disciplinares com vista à demissão de assistentes por não terem leccinado durante o período da greve, por terem desafiado a autoridade, por terem influenciado opiniões. Mais: colocação de um processo judicial com vista à anulação do doutoramento de um dos docentes pelo simples facto de ter sido realizado noutra instituição. Como é óbvio, a acção foi considerada ilegítima. Mais ainda: a reitoria apressou-se a denunciar os contratos dos docentes com, nem mais nem menos, 3 anos de antecedência.
!!!

Sobre este assunto, espreitem a secção Notícias da página do SNESUp. A mais recente, «Dois milagres reitorais», de 3 de Abril.

Nem imaginam os nervos com que fico com esta podridão em que está mergulhada a gestão do nosso ensino superior....
O que está a acontecer no nosso país?