quinta-feira, 29 de maio de 2008

Rabiscos e Garatujas

Fugiu-me das mãos a divulgação deste blogue a um considerável número de pessoas que conhecem a Denise de carne, osso e cartilagens. Divulgação digerida, repreendida e perdoada. Nesse aspecto, assunto arrumado. Mas o blogue chegou a olhos incompetentes, inábeis, inaptos e inexperientes em tropos de linguagem, de pensamento e outros que tais. Ignoram o pacto de leitura. (Con)Fundem Denise e Deniblog. Chocam-se com o jorro de palavrões proferidos por quem jamais os profere, com a pulsão sexual inusitada, com a corporalidade desnudada, com a doutrina espírita, seita perigosa de bruxaria feitiços e vudu... Uma vergonha, este blogue. Para a autora e para quem na conhece. Um despropósito.
Assaltou-me um pensamento. Daqueles tão estúpidos tão insanos tão doentios que até agonia só o relembrá-lo: fechar o blogue. Fechar o blogue e abrir outro, com outro nome e outra assinatura.
O cacete.
Tenho erguido este meu país, este meu reinado, este meu império, palavra a palavra, respiração a respiração, com um carinho desmedido. A ele aportam simpáticos visitantes. Demoram-se. Alojam-se. É a população diegética do reino dos tropos. São os meus amigos e as minhas amigas virtuais. Outros e outras bem reais. Gosto deles. Delas. Sentimentos verdadeiros.
A Deniblog não cede a pressões.
A Deniblog não se verga perante a censura.
A Deniblog mantém o seu Rabiscos e Garatujas.
Porque,
e ao contrário do que parece,
a Deniblog não se expõe. A Deniblog reinventa-se.

Teimosa, tempestiva, obstinada, apressada, nervosa, ingénua, determinada, transparente. Absoluta.
Deniblog.
So what?!

terça-feira, 27 de maio de 2008

IPO

Levei o meu Polo à inspecção.
(Quer dizer, ainda não está em meu nome, tenho de tratar da seca dos papéis, mas é tarefa minha zelar pela viatura azul que me acompanha pela estrada fora.)
Levei o meu Polo à inspecção. Foi a primeira vez que o fiz sozinha. No ano passado, ia de mãos dadas e com direito a beijos nos entremeios. Ora, quando estou sozinha perante uma situação nova que não domino minimamente fico logo muito nervosinha, mais daquilo que já é o habitual. Coloquei-me na fila e esperei. Esperei. Esperei. Esperei. Até me aperceber que chamavam viaturas que haviam chegado depois de mim. Saí do carro já muito irritada a pedir explicações de tamanho desaforo. Lá me explicaram que era necessário dirigir-me à recepção com os documentos do carro e posicionar-me numa lista de espera. A minha sorte é que eu já estou tão habituada às minhas próprias barracadas que só me resta rir de mim mesma.
Recepção. Estava na fila um rapaz que eu reconheci sem saber de onde. Ele fez questão de mo recordar. Há alguns anos, ainda eu sentia dificuldade com algumas manobras, tentei um estacionamento em linha no centro da cidade. Não consegui à primeira, não consegui à segunda, nem muito menos à terceira. Desembestei. Não desisti. Teimei em que conseguiria. Foi quando me apercebi que um rapaz, encostado à parede, se divertia com a minha azelhice. Seria um pouco mais velho que eu e muito bem parecido. E eu fiz o que hoje reconheço ter sido arriscado. Saí do carro e disse-lhe. A ver se faz melhor. E ele, logo à primeira, e com apenas uma mão, enfiou o meu carro entre os outros dois. Pois era ele quem estava ali na IPO. Com o mesmo sorriso trocista, a indagar sobre os meus progressos na arte de estacionar.
Refugiei-me dentro do Polo. Li um pouco. Distraí-me com um dos jogos do telemóvel. Pensei na minha vida. Entretive-me a olhar os circundantes. Uma criança birrenta nas mãos exasperadas da avó, um cinquentão decrépito a vociferar caralhadas da janela do seu audi preto, um moçoilo desportista no seu jeep imaculado, uma mulher linda, alta, morena, de brincos e saltos altos, mas com demasiado rimel sombras e baton, um homem mais atrevido que me obrigou a desviar o olhar. Havia gente perfumada, gente mal cheirosa, gente asseada, gente amarrotada, homens com barba por fazer, homens de rosto limpo, mulheres deslavadas e mulheres de me deixarem com a inveja à flor da pele.
Chamaram-me finalmente. Era um moço simpático. Tenho tido sorte com as pessoas com quem me cruzo na vida. Gente afável. Viu o motor, o tubo de escape, as luzes, as rodas, o triângulo, e por aí adiante. Pedi que me explicasse as máquinas, as medições, os gestos, tudo. Implicou com a falta de líquido no limpa-brisas.
Não sei se foi pelo beicinho, pelo deslize no olhar, pelo sorriso enervado ou porque simplesmente o meu Polo é mesmo maneirinho... o certo é que o veredicto final foi positivo.
Nova nervoseira só para Maio de 2009.

Quem sai aos seus...

Por vezes esquecem-se dos preceitos e interrompem conversas para botar opiniões de lavra sua. Hoje voltou a acontecer. Eu nem sempre tenho paciência. Hoje não tive paciência. Mandei toda a psicologia p'ró cacete e explodi um Ó fedelho, quantas vezes já te disse para não te meteres nos assuntos dos adultos? Entretem-te com as tuas merdas, sim? Ele carregou o sobrolho, abraçou o irmão e seguiu para o quarto. Antes de desaparecer por detrás do piano, virou-se e mortificou um E nunca mais me voltes a perguntar como foi o nosso dia porque esses assuntos são merdinhas de crianças.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Lágrimas

Aprochegou-se e eu li-lhe humidade e vermelhidão nos olhos inchados. Beijei-lhos. Encostei-o a mim.
- Por que choras, meu querido?
- Não choro.
- Não choras. Choraste...
- Não chorei.
- Que me dizem os teus olhos?
- É alergia.
- Alergia?!
- Alergia...
- Mas tu não és alérgico a nada!...
- Sou.
- És?
- Sou alérgico à tristeza.

Para um poema basta-me falar com o Nuno.
Com o Tomás também.
Estes meus filhos...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Parabéns, TUlinho

É uma amizade relativamente recente, esta com o meu TUlinho. Foi meu colega no seminário de Ensino da Literatura. Eu a iniciar o doutoramento, ele a sair do estágio e a entrar directamente no curso de mestrado. Ele de perto do Porto, eu dos Algarves. Conhecemo-nos no centro, em Lisboa. A unir-nos, o gosto pelas palavras e pelas reinvenções. Eu sentava-me aqui e ali. Era hábito aproveitar o raio de sol que passava pela frincha da janela. Acomodava-me ao calor. Ele sentava-se na ponta, ao lado da Carla e ficava caladinho. Sorria. Também me lembro. Nos intervalos quase nunca nos cruzávamos. Eu desaparecia nos corredores da FLUL, muitas das vezes raptada pela Conceição, que assistia ao seminário por pura carolice. E ele ia lá à vida dele. Eu com a Ironia e os contistas portugueses contemporâneos debaixo do braço, ele lá de volta da literatura africana de expressão portuguesa.
O TUlinho é tímido. E, embora disfarce com mestria, eu também sou. Talvez por isso só nos tenhamos entregue a palavras mais alongadas já no fim do semestre. A pretexto da Lídia Jorge. Ele gostara do meu trabalho sobre o conto «Miss Beijo» e fizera questão de o dizer. Eu falhara a sua apresentação sobre «O Belo Adormecido» que ele muito gentilmente se prontificou a partilhar por e-mail. E pronto, deu-se um clique simpático. E ele começou a falar e a falar e a falar e eu, toda contente, a gostar de o ouvir.
Com o Rabiscos e Garatujas e o seu Tulisses, sobre o qual eu já escrevera aqui, mais umas pitadas cúmplices no messenger e umas visitas fugazes ao Hi5, o T. e eu descobrimo-nos um pouco mais. E eu tenho gostado do que tenho vindo a descobrir. O T. escreve bem, é calmo e gentil, minucioso, organizado e atencioso. Gosto da forma como ele constrói pontes entre os mundos empírico e literário. Gosto do seu sorriso, simultaneamente traquina e envergonhado.
O T. é mais novo do que eu. O suficiente para, apesar de o saber já homem, olhá-lo como menino.
Desculpa, T. É assim mesmo. Menino.
E muitos parabéns pelos 25 aninhos.
(... com bolo mármore e cerejas, que eu sei!)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Catarse

Sou vulcão e furacão e tempestade e tromba d'água e terramoto e turbilhão mas muito cá comigo mesma. Poucos pouquérrimos o que adivinham a nervoseira que me destrambelha o coração a revolução que me comprime o peito o sudeste que me põe ao avesso. Apenas os privilegiados que possuem a rara capacidade de me entrar pelos olhos adentro e aportar na minha alma. Afectos. Os restantes deixam-se impressionar pela calma, pela segurança, pelo sorriso de quem tem tudo sob controlo. Eu sou tão transparente quão opaca. E não no controlo.
Decidira fazer uma pausa por querer compreender e acalmar o turbilhão de sentimentos a que cedi nos últimos tempos. Coisa nova, que me tem desalinhado as emoções sempre tão contidas e meticulosamente controladas. Era isso que me andava a foder o juízo. O súbito descontrolo de mim mesma, o saber estar a perder o pé. Mas coisa boa, que me tem feito perder noites com sorrisos assimtontos e passar os dias com suspiros anafóricos. Decidira uma pausa para saborear a novidade e reprogramar as minhas contenções os meus cuidados os meus tempos.
Mas, porém, contudo e todavia, e porque a minha vida é uma caixa de surpresas, uma montanha russa, uma colecção de carmas, havia de chegar, precisamente agora, um outro tipo de turbilhão. Não lhe quero dar voz. Não lhe quero dar espaço. E não vou dar. Gosto das cores e do doce embalo do anterior. Feito de sonhos fantasias e do que eu sei dominar mas não quero controlar.
E por isso escrevo rabisco e garatujo. Quebro a pausa. Afugento os demónios. Na escrita, a catarse.
Saí de casa.
Troquei o espaço de outrora, onde éramos quatro, por um quinto, onde somos seis, e, no Verão, uma população.
Repugna-me o comodismo. Só estou onde quero estar com quem quero estar quando quero estar. Pode ser sempre e em todo o lado. Mas porque quero. Não porque pedem. Não compactuo com o que não quero compactuar. Sou teimosa desenfreada arisca mas muito fière do que quero do que sei e dos princípios que defendo. Dizem-me frágil e nem adivinham a milésima parte da força que me norteia. Sinto medo ansiedade expectativa mas não fujo não retrocedo não capitulo. Sou carneiro. Sou tornado. Sou Denise e Deniblog. E uma privilegiada. Sempre o fui. Estou rodeada de gente boa. Amizades genuínas. O amparo da família, a doçura dos Manelinhos, o abraço da Tia Adoptada, o telefonema pronto do meu Paulo do Zé, o conforto dos cumpadris, os mails da Sílvia e da Monga, as teclas da Gorete e da Ana Paula e o chamego, ainda que distante, daquele que só eu sei.
Entre caixas malas desarrumações ruído espaços exíguos novas rotinas a solidão que me angustia os dias e as noites não dormidas e o desejo de um abraço que não sei explicar sinto-me em paz tranquila segura e confiante nos meus amanhãs.
Sou optimista e canto sol.

terça-feira, 20 de maio de 2008

De mim....

... para mim...

... porque eu mereço.

Pausa

não consigo pensar não consigo ler não consigo escrever não consigo dormir não consigo comer ando parva ando nervosa ando noutro mundo noutra esfera noutra dimensão perdi a noção de tempo de espaço de responsabilidade do caralho que sa foda passo verdes laranjas vermelhos há ruído na minha cabeça não respondo não me lembro não me sei o ar não me chega e suspiro ais sem por quê a série de posts sobre a ltpi não está esquecida mas o ritmo nível e qualidade de produtividade escaparam-se-me do controlo talvez tpm talvez a alienação que me caracteriza talvez a lua cheia talvez sei lá o quê meras merdas da existência humanamente feminina sou a deniblog meio furacão meio vulcão meio tudo por inteiro tempestade tromba d'água terramoto turbilhão

uma gaja fodidinha
... eu sei...

Uns dias em Lisboa. Há tempo e espaço para os amigos e as amigas. Há sempre tempo e espaço e vontade para quem se ama. E eu amo os meus amigos. Paulo Zé Monga Jubal Ana Nuno Rita André. Toquem-me beijem-me abracem-me peguem-me ao colo mostrem que gostam de mim. Estou a precisar.

Fecho o blogue até a parvalheira acalmar.
Como já vos disse, viverei até aos 100 anos. Por isso... temos tempo.
Cinjo-me à visita aos vossos lares e eventualmente a um ou outro comentário.
Eventualmente.



...caralhos ma fodam que não me sei...

domingo, 18 de maio de 2008

Revelação

Perdoem-me, mas é tanta a luz que me inunda o peito que preciso de escrever para poder partilhá-la, nem que seja comigo mesma.

Depois de um mês de ausência, por causa das cordilheiras de trabalho que me têm ocupado os tempos, regressei ao CEBV. Sentia saudades das crianças e do trabalho que com elas tenho vindo a desenvolver. Sentia saudades dos amigos e das amigas. Sentia saudades do ambiente que por lá se respira. Alegria, boa disposição, serenidade. Paz.
E hoje o meu regresso foi apoteótico. Não sou mulher de lágrimas fáceis. Garanto-vos. Levante o dedo quem já me viu lacrimejar. Mas hoje houve música e uma vibração excepcional. As emoções foram tão fortes e tão bonitas e tão autênticas que não contive a lagrimazinha. Gosto daquela casa, que também é minha, e gosto daquela pessoas, afectos meus, com quem me desnudo em sorrisos e abraços por inteiro. E é tanta a luz que me inunda que lamento não conseguir mostrá-la de forma palpável a cada um de vós.
De regresso a casa, a grande revelação. Aquela com que nunca acreditei que pudesse ser abençoada. Sei das minhas orações, sem hora marcada, e do meu tu-cá-tu-lá com a espiritualidade. Sei dos meus pedidos mais sérios e altruístas, como sei dos meus caprichos e das vergonhices mais egoístas. Havia tido uma revelação, das estrondosas, quando criança. Ninguém a interpretou como revelação. Coincidência, diziam a mãe e o pai e os manos e até o professor de Religião e Moral. Mas eu sempre soube da impossibilidade das coincidências. Pois hoje, contra tudo o que eu jamais esperava, tive uma revelação ainda maior. Não na vou aqui esmiuçar. Foi a minha revelação. E já sei das vossas "coincidências" e a vossa opinião sobre as minhas "naïvetés".
O que eu quero apenas escrever é a felicidade esfusiante que me toma a alma por inteiro, a dulcíssima paz por que tanto almejava, a certeza quase certa do rompimento com o passado, a confiança serena no futuro . Quero celebrar o milagre da vida e todos os tempos, os minutos, os segundos. Quero reafirmar a crença em mim mesma. A convicção do quão sou importante como mãe, filha, irmã, amiga, professora, aluna, amante, mulher. Quero reconhecer os meus ímpetos de velocidade. Sou acelerada, nervosa, ansiosa, caprichosa, impaciente e ciumenta. Sou mulher de emoções fortes que aprendi a disfarçar e que aprenderei a controlar. Sou furacão que precisa de amainar. Serei brisa. Sopro. Serei paz. E alegria.

E esta noite, quando o corpo adormecer, entregar-me-ei à seara divina e, me for permitido, soprar-vos-ei beijos durante os vossos sonhos.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Interlúdio (de amor, amores e desamores)

Pediu-me a Tia um interlúdio de amor. Lamentava-se de saudades das minhas histórias sobre os Manelinhos, sobre as minhas idas e voltas, de popó, de... enfim, das cores e dos perfumes do RG original.
Faço-lhe/vos a vontade?
Faço-nos a vontade.

Hoje foi dia de limpar o pó. Eu sou lenta, muito lenta, demasiado lenta. Enquanto tiro os objectos e borrifo e limpo e sacudo e os recoloco um a um nos devidos lugares, perco-me nas estórias que eles recontam e deixo-me embalar por aquela felicidade doce que habita um amplo recanto da memória. São as caixas de cartolina-cor-berrante que os meninos me ofereceram e que destoam entre as madeiras trazidas de Goa onde esqueço brincos e pulseiras e colares e anéis de lata e plástico e pedras e ouro e prata; são as telas ocres do Kama Sutra que ele tem sobre a agora sua cama; são as colheres de pau que me acenam quando me perco na solidão da cozinha; é a fotografia do casamento, onde sorrimos abraçados à esperança do que não foi; são os livros que nos oferecemos, com dedicatórias carregadas de sentimentos. A casa respira por si e cada parede, viga, laje, pilar, objecto que nela habita me segreda o que já sei e não quero esquecer.
Terminei a tarefa no exacto momento do banho dos Manelinhos. Mas eu também estava a precisar de um, e a contra-relógio. Decidi-me por uma festa de água e espuma a três. Na rotina a dois, brincam com livros de plástico e barcos coloridos e baldes e esponjas e peixes, golfinhos e tubarões. Nas excepções, como a que hoje permiti, o brinquedo é o corpo da mamã. Relembro os cuidados os preceitos os respeitos, desvio-lhes as mãos curiosas os lábios atrevidos, eles não resistem e eu nem me importo assim muito de verdade. Sou Deusa. Ou era. Porque hoje eles foram muito cruéis com o meu ventre traçado por rios de estrias que se prolongam pelos seios flácidos e pelas nádegas mais avolumadas. Riram-se, os desgraçados, do meu corpo. Mas eu amarguei-lhes o riso. Contei-lhes as histórias do óvulo e dos espermatezóides, do tempo e do espaço, das ameaças de aborto e depois da rubéola, da minha resistência perante médica e papá e vovó e todos e todas, do crescimento de dois corpos dentro do meu, do meu como casa dos deles, e do néctar lactoso que os nutriu até secar. Eles amargaram. Choraram. Que me haviam estilhaçado o corpo para todo o sempre. E eu, arrependida, adocei-os. Mostrei-lhe o sol que as estrias desenham em torno do umbigo. O sol que eles me ofereceram com as suas vidas. O sol que jamais se apagará na minha. Adocei-os e eles distribuiram em mim beijos miudinhos.




Mas enquanto falava e descobria mais uma estria no seio devolvido pelo espelho, secretamente me perguntava, se, apesar de gostar das veias salientes antes da tpm, apesar desta sua vontade de tocar, das hermafrodices, das destempéries do sueste, dos meus calores cada vez mais acalorados, das minhas fantasias em mixolídio , dos meus estados kama sutra e das minhas frustradas tentativas de auto-gestão com o chuveiro ... secretamente me perguntava se voltarei a ter coragem de me desnudar perante outro homem por quem um dia o meu coração possa vir a pulsar novamente...

domingo, 11 de maio de 2008

Interlúdio: Concerto para Acordeão e Orquestra

Foi a estreia absoluta da 1ª peça para acordeão e orquestra escrita por um compositor português.
Eu assisti à ante-estreia, em Lagoa, e à estreia, em Lagos, antecedida por uma apresentação crítica pelo Prof. Manuel Pedro Ferreira.
É uma peça forte que reinventa linguagens já conhecidas e que, com arrojo, reconfigura a tonalidade. Uma peça que respira a liberdade de retomar a tradição sem deixar de participar na construção do futuro. Poliestilista. Caleidoscópica. O primeiro andamento (18 minutos), com bravura, começa com um com belíssimo ribombar dos timbalos e recupera o ostinato de Ravel em homenagem visível; o segundo (5 minutos), molto tranquillo, é lírico com tonalidades melancólicas; o terceiro (10 minutos) é enérgico e imprevisível.
É uma peça que impressiona também pelo seu grau de exigência técnica. De um virtuosismo avassalador.
Eu gostei. Muito. As pessoas gostaram, muito também, embora alguns entendidos comentassem o regresso à tonalidade com o nariz ligeiramente torcido. Acontece que o compositor se libertou das gavetas, dos rótulos, das etiquetas, dos academismo e escreve apenas o que lhe dá prazer. E o que ele escreve é muito bom. Digo-vos eu.
Estão de parabéns o compositor (Cristóvão Silva) e o solista (Gonçalo Pescada) que é exímio com o seu acordeão.

1.Estava um friozinho desagradável antes do início do concerto. O Manuel Pedro Ferreira puxou-me para o bar. Foi óptimo. Ficámos mais abrigados e uma boa conversa sempre torna a espera menos morosa. Amanhã vem cá almoçar com a família.
2. Para além do ouvido, regalei a vista. Sempre achei muita pinta ao pessoal da música. Havia um violinista do segundo naipe, que tinha um sorriso engraçado, e um trompetista lá ao fundo, bem bonitinho. E, vá-se lá saber porquê, o olho escorregava para o lado direito, mais concretamente para esta beldade...
3. A Orquestra do Algarve tem de rever com urgência a sua atitude em palco. Muitos sorrisinhos cúmplices e o ar disciplente de alguns incomodam-me e envergonham-me verdadeiramente.
4. Lagos precisa de uma sala de concertos alternativa. A acústica do Centro Cultural da cidade é de bradar aos céus.
5. Aceitei o convite do compositor para um copo. É um homem alto, jovial e muito belo. Talvez o mais belo que até hoje conheci. O mais atraente, também. E muito tagarela, como eu gosto. Juntaram-se a nós o Gonçalo Pescada - o solista - (que me encantou com a sua simplicidade genuína, o sorriso meigo e a capacidade de olhar para dentro dos olhos); a Patrícia, sua mulher; e o simpático e bem-humorado Tiago Cutileiro, compositor lacobrigense, que me deixa sempre muito divertida.
6. É sempre um privilégio escutar as conversas descontraídas dos artistas. Gente simpática e bonita. E descobri que os homens, apesar de mais discretos, são também uns cuscos. Visivelmente baralhados, a propósito do tipo de relação que mantenho, ou não, com o C.

Gravações pela Antena 2 e notícias aqui e ali na imprensa regional e nacional.
Destaco esta do Correio da Manhã (de 10 de Maio):

Orquestra recebe sons de acordeão
O Centro Cultural de Lagos servirá hoje de palco a um concerto totalmente inovador. Será apresentada pela primeira vez, a primeira obra portuguesa para acordeão e orquestra, a partir das 21h30.
Trata-se de uma composição da autoria de Cristóvão Silva, numa aposta que junta a Orquestra do Algarve a um dos maiores acordeonistas portugueses da actualidade, Gonçalo Pescada.
O público assistirá assim a uma apresentação inédita, que é antecedida de uma declaração prévia de Manuel Pedro Ferreira, no átrio do Centro Cultural, às 20h00. Este momento contará ainda com a participação dos Acordeões da Academia.
Gonçalo Pescada tem vindo a implementar, ao longodasuacarreira, uma nova abordagem ao universo do acordeão. A originalidade tem-lhe valido grandes elogios por parte da crítica.
As mesmas apreciações favoráveis têm sido dirigidas ao seu disco de estreia ‘Intuição’, lançado em 2002. A versatilidade de Gonçalo Pescada está bem presente no seu repertório, que passa pela música clássica, com toques que vão do jazz à world music.
Gonçalo Pescada tem no seu currículo a apresentação de diversos espectáculos em Portugal e no estrangeiro, além da conquista de diversos prémios.
A aposta na formação tem sido outra preocupação constante no percurso de Gonçalo Pescada, que já trabalhou com nomes sonantes da música como os professores Friedrich Lips, Peter Soave ou Vladimir Zubitsky.
A Orquestra do Algarve foi fundada em 2002 pela Região de Turismo e Universidade do Algarve e desde então tem apostado na formação de jovens da região algarvia. O espectáculo musical de hoje será dirigido pela batuta do maestro Laurent Wagner. Este concerto, em Lagos, integra-se nas comemorações do Dia da Europa.
Patrícia S. Manguito

sábado, 10 de maio de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - II. Conceitos: Literatura (também) para a Infância

1.3. Literatura (também) para a Infância

Reconhecendo que os conceitos de Literatura, Literariedade e Infância resultam de estruturas sociais e culturais, contextualizadas em espaços e tempos precisos, o que conseguirei eu escrever sobre o conceito de Literatura (também) para Infância? E qual a necessidade dos parêntesis e onde os fui desencantar? Questões de terminologia também por reflectir
Sem pressas, como me aconselham o TUlinho e o Manuel. Mas sem exageradamente Adagio, a bem das crises de ansiedade do Francisco.
Para breve, naquilo que a brevidade tem de relativo.
Para já, comentar os comentários ao capítulo anterior e organizar as sugestões bibliográficas que por lá ficaram abandalhadas...




Este post acabou por ser redigido posteriormente e pode ser lido aqui



sexta-feira, 9 de maio de 2008

Interlúdio: Toccata para triângulo e castanhola em si sustenido maior ad meum Vizinhum

Papoila, salix, malmequer, orquídea azul, giesta, alecrim, rosa bravia, tomilho, ervilhaca, tremocilha... o meu jardim vai crescendo ensolarado logo pela manhã. São palavras as gotas de chuva com que o meu simpático Vizinho o rega diariamente.
Gosto dele.
E só por isso, neste meu meu país, meu reinado, meu império, hoje é dia feriado.
Instituo o 9 de Maio como o Dia do meu Vizinho Manuel.

Viva o 9 de Maio!
Celebro-o com palavras e percussão.

Fêras a modes d'arcóstico com respête ó mê Vezinhe Manel
Marafade e munte
Advertide? Ai
Nanques!
Uma côsa por demás!
Escréte e tã
Lampêre ligêre luzdio... e tã
Relampe rabelão e rabeçade
O redor dos mês dias que
Cá a gente se
Hablita ao chamegue conchegante
A jête d'um olhar.

Não se vá marafar a sério, preparei a alternativa possível:

Vento Levante
Murmuras sonhos com
Alecrim ervilhaca e aroma de limão
Navegas galáxias de
Ubertosas cumplicidades
Enevoas-me e
Libertas-me com
Risos e sorrisos assim-tontos nos
Orvalhos matinais nos
Crepúsculos das noites meias. São
Hipérboles da ironia nos canteiros do
Amanhã



Hoje é dia de festa. Os amigos e as amigas estão convidados.
Permita-me, meu Vizinho, um abraço, duplo, do tamanho do pensamento.

(daqui)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - II. Conceitos: Infância

1.2. Infância
Infans, antis (in, fans fari), adj. 1. Que não fala, incapaz de falar, sem eloquência (…). 2. Incapaz ainda de falar, que tem pouca idade, de criança, infantil pueril (…) 3. m. e f. Criança (até aos 7 anos, em que há uma certa incapacidade para falar; sinónimo de puer).
Infantia, ae,f. 1. Incapacidade de falar, mudez. 2. Falta de eloquência, dificuldade de expressão.
Dicionário Latim-Português da Porto Editora

O conceito de Infância é essencialmente cultural e sofreu profundas alterações com a sucessão das estruturas sociais que compuseram a História da Humanidade. Não pretendo exercitar aqui a minha capacidade de análise histórica, sociológica, biológica e psicológica do conceito. Até porque duvido que a possua. Limitar-me-ei apenas sintetizar alguns aspectos que me parecem fundamentais para a compreensão da essência da Literatura (também) para a Infância.
Embora tenha existido um tempo, longo, em que as particularidades da infância como período importante do desenvolvimento do ser humano foram desconsideradas, as sociedades primordiais não nas descuravam. Com efeito, iniciavam, nesse momento da vida, um processo de socialização que prepararia as crianças para a idade adulta. A aprendizagem era efectuada através da observação directa e sequente imitação, de acordo com as especificidades de cada sexo, socialmente determinadas, como é óbvio. Para além dos aspectos culturais, a passagem da infância para o mundo adulto estava, também, vinculada aos sinais biológicos, embora fosse realizada pela via do sagrado antes que se desse a mudança física (frase reformulada devido aos comentários da Tia. Espero que esteja menos ambígua assim). Se nas raparigas a menarca marcava o momento da transição, nos rapazes os sinais exteriores eram mais ténues e oscilavam entre a mudança de voz, o crescimento da pilosidade facial ou as primeiras ejeculações. A entrada no mundo adulto, visando particularmente a procriação, era antecedida por rituais de iniciação. As raparigas submetiam-se a longos períodos de reclusão; os rapazes a exercícios de resistência essencialmente física.
(Meti os pés pelas mãos, ou por não saber escrever o que sei ou por não saber o que escrevo, mas o olhar atento da Tia Adoptada lá conseguiu resgatar o post. Os seu alertas, na caixa dos comentários:
1. Os rituais de iniciação marcavam a passagem do ser indiferenciado (criança) para o ser com individualidade (adulto). Logo, o «neófito» corresponderia ao que hoje chamamos «adolescente».
2. A tendência era para que o ritual fosse vivido ANTES que aparecessem as mudanças biológicas. Era muito importante que a «passagem» fosse vivida no âmbito do sagrado. Hoje, curiosamente, os jovens reproduzem muito do que estava contemplado nesses rituais (a inalação ou ingestão de alucinogénios, as provas de resistência, os piercings, as tatuagens, para dar apenas alguns exemplos) mas, de uma forma geral, de forma dessacralizada e marginal. São lançados à sua iniciação de forma solitária e sem normas. Os rapazes também estavam sujeitos a períodos de isolamento. Iam para uma casa fora da aldeia ( a «isba», por exemplo); as raparigas ficavam numa casa especial, na aldeia (ou parte de casa, quando só havia uma grande casa comunitária); casa essa que eram ocupadas pelas mulheres quando estavam com a menarca.
3. É vulgar dizer-se que «o conceito de infância moderno surgiu com Rousseau e que antes dele a criança era considerada como um adulto em miniatura». Mas isto é muito relativo quer no que respeita o «antes de Rousseau», quer no que toca aos nossos dias, aqui, em Portugal, para ser explícita. Hoje a criança é (novamente) tratada como um adulto em miniatura: está sujeita aos mesmos horários e stress, assiste aos mesmos programas de televisão, usa moda igual à dos adultos, mas em tamanho menor – detesto gente que compra ganga para pirralhos!- escuta as mesmas músicas mas com letras em português, «trabalha» num infantário onde está sujeita ao stress laboral…E há muito trabalho infantil, remunerado, mas mascarado: novelas e publicidade serão talvez os exemplos mais óbvios. Só teoricamente as pessoas se preocupam com a alimentação das crianças, enquanto ser em formação. Só muito teoricamente se tem em conta a formação integral desse ser. As crianças não têm direito a pais, mães, avôs, avós. Uns estão a trabalhar, os outros no lar. À semelhança dos adultos, têm por companhia as televisões, os computadores e os videogames (incluí os videogames porque me disseram que há já muitos adultos a gastar horas com eles). Andam de chave de casa e dinheiro no bolso. A chave porque quando chegam a casa não há ninguém para lhes abrir a porta; o dinheiro porque não vão almoçar a casa. Por outro lado, enquanto dantes se respondia, abusivamente, «tu não tens querer» aos «eu quero!» da criança, hoje a criança tem mais querer que o adulto – não por ter ganho a capacidade para o ter, mas porque os adultos se demitiram da sua função de «xamãs», de guias. Pior, muitas vezes usam a criança como joguete nas suas desavenças e «compram» o seu apoio com sim a torto e a direito.
4. O conceito de criança é cultural mas, seja ele qual for, existe um período em que nós não adquirimos ainda o desenvolvimento intelectual, afectivo e físico que nos permita a autonomia. Cada fase da vida tem as suas capacidades e necessidades específicas. Que são culturais mas também biológicas. (Sublinha o Francisco, com outras palavras, que o nascimento, o crescimento, o envelhecimento e a morte fazem parte de um programa genético: a infância é uma fase biológica do nosso ciclo de vida. As construções sociais é que variam mas giram em torno de uma "matéria" que lhes é dada: a infância, esse período de crescimento do indivíduo... )
5. A existência de obras «para crianças» não é assim tão moderna; elas existiam, tinham era aspecto diferente, em função do que se achavam ser as necessidades das crianças. E na oratura havia textos que eram especificamente para crianças – ainda que não coincidam com os que foram fixados em livros que têm como público-alvo as crianças.
6. Nós temos, ainda, hoje, ainda alguns rituais de iniciação mas não os encaramos como tal. A ida para o jardim de infância é um deles. A entrada na faculdade é outro – ó quantas semelhanças (superficiais) com os das sociedades sem escrita. O serviço militar é outro. O casamento é um dos que restam da iniciação feminina – sobre isto há muito de fascinante para dizer. Mas não vem ao caso.
7. A utopia do anarquismo, afirmo eu, só será possível através de uma efectiva educação. )
Na Antiguidade Clássica a infância foi igualmente valorizada como momento importante na aquisição de conhecimentos indispensáveis à integração na sociedade. A civilização greco-latina demonstrou comprovada preocupação com a instrução da população jovem e a organização de um sistema de ensino. Os primeiros conceitos de infância estavam intimamente ligados à ideia de educação. A utopia, afirmava Platão, seria possível com a educação das crianças.
(Introduzo um breve e feliz reparo que a Aveugle.Papillon deixou na caixa dos comentários: a ideia moderna de infância tem as suas raízes na "paideia", mas a antiguidade clássica não valorizava a criança, de tal modo que nem palavra tem como equivalente: "pais" designava tanto criança como adolescente até aos 17/18 anos; as crianças não eram pessoas, no sentido em que n tinham estatuto moral. Ademais, a Grécia Antiga nem leis tinha contra o infanticídio.)
Com a Idade Média, o conceito de Infância mergulhou nas trevas. Como tantas outras coisas…Até ao séc XII a infância não encontrou espaço de representação na Arte. Significativo. E comprovativo da inexistência do conceito. Na vida quotidiana, as crianças de tenra idade eram relegadas para um sentimento generalizado de indiferença: os adultos não investiam muito nelas devido à precariedade da saúde e consequente elevada taxa de mortalidade durante os primeiros anos de vida. A preparação dos adultos que as acompanhavam era inexistente, assim como um sistema educativo estabelecido. As crianças não eram consideradas diferentes dos adultos, mas sim adultos em ponto pequeno. Adultinhos. E a partir do momento em que adquiriam alguma independência, passavam a participar no mundo dos crescidos em todos os aspectos: vestuário, trabalho e lazer.
A aparição de representações da infância na Arte começou a ocorrer timidamente a partir do séc. XII e de forma mais evidente nos séculos XVI e XVII. Com a descida da taxa de mortalidade, o séc. XVIII renovou o conceito de Infância e as crianças passaram a ser alvo de cuidados mais especiais. Para essa renovação foi decisivo o contributo de Jean-Jacques Rousseau com o seu Emílio ou Da Educação (1762) que incentivou ao estabelecimento de um sistema organizado de ensino e às primeiras edições de livros escritos propositadamente para as crianças.
A Revolução Industrial no séc. XIX potenciou economicamente a criança que passou a ser explorada como mão de obra no mercado de trabalho. O patronato e a lei do mais rico escravizaram os mais frágeis e amputaram-lhes os direitos que embrionariamente se começavam a conquistar. No final do século, o desenvolvimento das ciências humanas e os avanços da medicina permitiram uma evolução significativa do conceito. Resgatou-se a dignidade da criança, atribuiu-se-lhe um estatuto próprio na sociedade, promoveu-se a educação e o regresso à escola. No séc. XX, a Epistemologia Genética e a Teoria Cognitiva apresentadas por Piaget representaram um marco fundamental na compreensão do desenvolvimento psicológico do ser humano e reabilitou decisivamente o período da infância que adquiriu nova significação. A infância foi consagrada com a Declaração de Genebra (1924 e 1948), a Declaração dos Direitos da Criança (1959) e a Convenção dos Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas apenas em 1989.
A criança adquiriu um estatuto inigualável na sociedade contemporânea que se debate sobre as melhores políticas educativas para a construção do futuro. Para a edificação da utopia de que já falava Platão. Resta saber se não nos enganámos na encruzilhada. E qual a qualidade da recente produção para as crianças, consumistas natas, de acordo com os ditames do princípio do milénio...

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Sugestões de leitura com ordenação cronológica
(a ampliar com o vosso contributo):

V-IV a. C.: Platão. Alcibiades; Górgias; A República
IV-III a. C: Epicuro. Carta a Meneceu **
1595: Montaigne. De L’ Institution des Enfants (in Essais)**
1693: John Locke. Some Thoughts Concerning Education **
1762: Jean-Jacques Rousseau. Émile ou l'éducation
1801: Johann Heinrich Pestalozzi. Como Gertrudes ensina os seus filhos
1803: Kant. Da Pedagogia **
1826: Frédéric Fröebel. L'Éducation de l'Homme
1837: Kierkegaard. Da Infância **
1919: Janusz Korczak. Como Amar uma Criança
1927: Ovide Decroly. L’Évolution Affective Chez l’Enfant
1929: Janusz Korczak .O Direito da Criança ao Respeito
1942: Adolphe Ferrière. Nos Enfants et l’Avenir du Pays
1949 : Célestin Freinet. Les Dits de Mathieu
1950 : Jean Piaget. Introduction à l'Épistémologie Génétique
1950: Roger Cousinet. La Vie Sociale des Enfants
1950: Roger Cousinet. Education Nouvelle
1958: John Bowlby. The Nature of the Child’s Tie to His Mother ***
1959: John Bowlby. Separation Anxiety ***
1960: John Bowlby. Grief and Mourning in Infancy and Early Childhood ***
1960: Philippe Ariès. L’Enfant et la Ville Familiale sous l’Ancien Régime
1966: Jean Piaget. La Psychologie de l'Enfant
1967: Paulo Freire. Educação como prática da Liberdade
1981: Paulo Freire. Educação e Mudança
1981: Régine Pernoud. Lumière au Moyen Âge *
1985-7: Philippe Ariès et Georges Duby. Histoire de la Vie Privée
2001: Colin Heywood. A History of Childhood: Children and Childhood in the West from Medieval to Modern Times
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* Sugestão da Tia Adoptada
** Sugestão da Aveugle.Papillon
*** Sugestão do Francisco
[Inclusão dos contributos do Francisco, da Tia e da Borboleta a verde]

Interlúdio: Cristóvão Silva - Concerto para Acordeão e Orquestra


Inserido na estrutura financiada pelo MC-Ministério de Cultura / dgARTES- Direcção Geral das Artes - e com o apoio da Câmara Municipal de Lagos, Caixa Geral de Depósitos e Hotel Tivoli - a Academia de Música de Lagos irá apresentar, no Centro Cultural de Lagos, pelas 21h30 do dia 10 de Maio de 2008, a 1.ª obra portuguesa para acordeão e orquestra, do compositor portimonense Cristóvão Silva, interpretada pelo acordeonista Gonçalo Pescada e a Orquestra do Algarve.

Do programa, faz parte um comentário prévio do trabalho do compositor, a ser feito por Manuel Pedro Ferreira, professor na Universidade Novade Lisboa, pelas 20 horas, no átrio do Centro Cultural de Lagos, com a participação dos "Acordeões da Academia".

Ante-estreia:
Dia 09- Lagoa - Auditório Municipal de Lagoa - 21.30 Horas


É uma peça lindíssima.
Eu e os Manelinhos vamos.
Vêm?

sábado, 3 de maio de 2008

Interlúdio: Dia da Mãe

Ofereceram-me, também, um livro: Ler e Amar na Adolescência, de Maria Gabriela de Sousa Silva.
Mas foi isto que me coloriu o dia:


Feliz dia da mãe
És a mais
linda de
todas as
mãe porque
és uma estrela que
brilha de noite
e de dias és
prefumada,
esbelta e vaidosa
(Tomás, 7 anos)






Para a mãmã Denise
Mama és linda como o mar que bate das rochas das prais.
Mamã és linda como pássaro que vive nas florestas encantadas.
Mamã és linda como a árvore contentes.
Mamã és linda como o céu e as nuvens.
Mamã es linda como sol que brilha ao amanhecer.
(Nuno, 7 anos)




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Nasci aos 24 anos da mãe. Tem hoje 56. Mas é uma menina. Birrenta por vezes. Sorridente, outras. Não lhe dei um presente, nem dois, nem flores que, como me faz lembrar o Tomás, são belas na terra, não nos vasos. Estive um pouquinho com ela, no fim do dia. Estive e nem estive, porque ficámos a ver televisão. Sou uma filha presente. E quando demoro ela espreita o blogue a saber das novidades. É uma mãe de olhos verdes cabelos negros e pele suave . Quando chegar à meia-idade quero ser bonita como ela. Menina também.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - II. Conceitos: Literatura

1. Conceitos
1.1. Literatura
Tarefa árdua, a de escrever sobre o conceito de Literatura. Por motivos vários. A alegar a volumosa quantidade de obras que apresentam cuidadas e aprofundadas reflexões sobre a questão; ou a brevidade que as regras da blogosfera exigem; ou os limites das minhas capacidades científicas, académicas, cognitivas e culturais. Colocadas as ressalvas, espero 1. conseguir apresentar uma síntese esclarecedora das leituras efectuadas, 2. tornar audibile as reflexões da minha lavra e 3. evitar o raciocínio óbvio e a insipidez do lugar-comum. Caso falhe, e dir-mo-ão!, eu mesma empunharei as cilícias que mortificarão esta mania desregulada para vôos altos.

Literatura - Arte - Belo
As diversas tentativas para uma definição do conceito de Literatura têm vindo a enfrentar as mesmas dificuldades com que sempre se depararam os grandes filósofos que procuraram clarificar os conceitos de Arte e de Belo. Noções flutuantes, proteicas, que se movem em terrenos fugidios, dependentes do intelecto emocional, do sentimento, da intuição e que nos alertam para a eventualidade da impossibilidade de qualquer definição.
A Literatura de que quero falar inscreve-se na Arte e, assim, no Belo. Mas o que é a Arte? E o que é o Belo? Cronos tem vindo a testemunhar as sucessivas variações nas interpretações destes conceitos lapidados aqui e ali por escolas, correntes ou academismos. A estética clássica (e metafísica) da ordem e da harmonia que se manteve mais ou menos consensual durante séculos foi rompida pelo grito de liberdade que chegou com o romantismo. Mais tarde, com o modernismo, o caos, o inusitado, o desequilíbrio. Por fim, a multiplicidade de conceitos, com a assumpção do individualismo do mundo contemporâneo, comprovadamente assonante com o estabelecimento de padrões estéticos. O conceito de Belo e, assim, o de Arte, foi pulverizado pela expressão da individualidade dos dias presentes, tornando um desafio hercúleo qualquer tentativa para uma definição satisfatoriamente consensual.
A Literatura, enquanto expressão da arte pelo Verbo, seja ele escrito ou oral, traduz experiências estéticas múltiplas e divergentes que se patetenteiam, em último grau, como alegorias retrospectivas, porque prospectivas, do mundo, isto é, da humanidade. Assim o é com as restantes expressões artísticas. Comprometi-me, porém, a focalizar as minhas atenções ao fenómeno literário. A explosão editorial, os ditames consumistas, o marketing estratégico, a procura de um estatuto regulado pelas vozes do academismo vigente iludem, na grande maioria dos casos, a verdadeira dimensão da Literatura. O consumidor sente-se amparado por todo o trabalho prévio feito por terceiros. Limita-se a adquirir as novas tendências que orgulhosamente desfilam nos rankings comerciais, vulgo tops. Esquece-se do essencial. O de procurar, por si, a essência de cada letra, de cada frase e parágrafo e página e tudo. E, porque a escrita é mais comerciável, a literatura oral reserva-se a um canto. Ou para os intelectuais estudiosos de coisas entranhas e antigas, com traça, pó e teias de aranha, ou para o povo ignorante ou pobre que não valoriza o objecto livro. Ou, por outra, para os sábios que nela reconhecem a sapiência milenar dos antigos.
O que faz com que um texto seja, hoje, valorizado como literário ou aspirante a? Quem o decide? Qual a verdadeira importância do juízo do gosto individual de cada leitor? Qual o peso dos nomes já consagrados pela crítica académica ou pelo êxito de vendas? É a Literatura arte ou instituição? Sê-lo-á o Belo também?
Se a beleza está nos olhos de quem vê (garante-nos a vox populi), será, mutatis mutandis, o texto literário aquele que, pura e simplesmente, é lido literariamente?

Campo - Fronteiras - Literariedade
Num contexto onde imperam a proliferação editorial, a facilidade e a velocidade no alinhamento das palavras e a confusão entre quantidade e qualidade, urge uma reflexão séria sobre a verdadeira essência da Literatura.
Para os clássicos, arte que cria a imitação da realidade: de forma directa, como sugere Aristóteles (mimesis); ou mediada (diegesis) segundo Platão. Horácio defendia o docere cum delectare. Na época moderna, atribuiu-se à noção de Literatura, e de Arte em geral, a dimensão interior, como forma de expressão da condição humana. A cada ciclo cultural, nova variação do conceito que, mais recentemente, passou a estar mais dependente do pensamento individual regido, paradoxalmente, pela prática da institucionalização, isto é, pelo reconhecimento público adquirido através de grupos académicos, da conquista de prémios, dos discursos meta-literários e, até mesmo, da inclusão de títulos e/ou autores nos programas escolares e universitários.
Na demanda da delimitação do campo literário e das suas fronteiras com o discurso não-literário, Roman Jackobson introduziu, em 1921, o conceito de Literariedade como o conjunto de propriedades específicas que caracterizam o texto literário. Numa abordagem essencialmente linguística, a recente ideia do formalismo russo contemplava a Literatura como o resultado do desvio estético à norma e portadora de uma essência anacrónica, universal e imutável. De origem kantiana, o conceito de Literariedade pressupõe o autotelismo do signo literário que é autocentricamente a causa e o efeito, a razão e a finalidade. Na formulação da sua teoria das funções da linguagem, Jakobson considerou a linguagem literária como efeito da predominância da função poética (ou estética), caracterizada pela conotação, pela ambiguidade e um conjunto de artifícios retóricos. A tentativa de um agrupamento de traços específicos e distintivos revelou-se, porém, falaciosa, na medida em que, ocorrendo noutros tipos de texto, não se puderam considerar exclusivos do literário.
Com o Pragmatismo da Literatura, de carácter marxista, a Literariedade adquiriu uma vertente mais comunicacional, atribuindo ao receptor um papel relevante para a co-criação da obra literária enquanto sistema aberto. A intenção deliberadamente estética da produção não seria, por si, responsável pelo reconhecimento literário do produto apresentado. À morte do autor sucedia-se a valorização do receptor. Abria-se, pois, o caminho para a edificação da Estética da Recepção, sobre a qual o Francisco escreverá mais demoradamente. A dificuldade, e impossibilidade, de uma delimitação das fronteiras do campo literário relaciona-se directamente com o tempo e a mudança que lhe subjaz.
As produções artísticas e literárias anteriores que sobreviveram aos séculos e aos milénios foram submetidas à triagem do tempo cuja exigência permitiu a sedimentação e consagração das obras hoje tidas por os clássicos que, apesar da sua actualidade, já não reflectem as experiências das construções estéticas de hoje. Procuram-se novas formas de expressão, de redizer o que já foi dito, partindo do princípio que já tudo foi dito. Produz-se muito. E muito se especula. A reflexão sobre realidades contemporâneas não coexiste com o distanciamento necessário, obrigatório, para que se saber, efectivamente, qual a possibilidade de sobrevivência do que se produz no momento. Limita-se a constatar as consagrações do momento que poderão não retratar fidedignamente o devir, mesmo quando, como por exemplo com Saramago, se possa sentir algum conforto nessas projecções. A mudança de estatuto, isto é a incorporação ou a exclusão de um texto, escrito ou oral, no campo literário depende de factores históricos, sociais e culturais. Assim, o conjunto de obras hoje reconhecidas como clássicos poderá sofrer alterações significativas nos tempos vindouros.
Dependente da competência textual do receptor, por apelar a uma memória de referentes múltiplos, a Literatura, e a Arte em geral, apresenta alternativas à realidade empírica de cada um. Mais que recriar, cria cosmos independentes que permitem o indivíduo posicionar-se historicamente na sua relação consigo e com os outros. Recoloca o indivíduo no universo físico, social e cultural. Porque, e como sublinhou a Tia Adoptada, o conceito de estética é indissociável do de ética. Seja ela uma ética individual ou social. É graças à Arte e ao pensamento filosófico que ela permite que o Futuro se torne tangível.
Uma excelente reflexão "sobre a apreciação estética da arte em geral" neste post do Manuel Rocha: Bellini, segundo Calado.

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Algumas sugestões bibliográficas para quem quiser saber mais e melhor :

Teoria literária (ordenação alfabética; edições utilizadas)
ABRAMS, M. H.. The Mirror and the Lamp – Romantic Theory and the Critical Tradition, New York: The Norton Library, 1958.
BOOTH, Wayne. The Rhetoric of Fiction, Chicago / London: The University of Chicago Press, 1969.
COELHO, Jacinto do Prado. «Conceito e Fronteiras do Literário», in Colóquio/Letras, nº 80, 1984; pp. 24-34.
CULLER, Jonathan. «A Literariedade», in ANGENOT, Jean Bessière et al. (dir.), Teoria Literária, Lisboa: Dom Quixote, 1995; pp. 43-58.
FORTINI, F. «Literatura», in Enciclopédia Einaudi, Vol. 17, Lisboa: IN-CM, 1989; pp. 176-199.
FRYE, Northrop. Anatomy of Criticism, London: Penguin Books, 1990.
JAKOBSON, Roman. Questions de Poétique, Paris: Seuil, 1973.
LEAL, Luís. O Labirinto do Texto - Da Teoria da Literatura à Tradução Literária, Lisboa: Universitária Editora, 1994.
LOTMAN, Iuri. La structure du Texte Artistique, Paris: Gallimard, 1973.
MENEZES, Salvato Telles de. O que é Literatura, Lisboa: Difusão Cultural, 1993.
REIS, Carlos. O Conhecimento da Literatura - Introdução aos Estudos Literários, Coimbra: Almedina, 1995.
SARAIVA, António José. Ser ou não ser Arte - Estudos e Ensaios de Metaliteratura, s.l.: Gradiva, 1993.
SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Teoria da Literatura, Coimbra: Almedina, 1994.
TODOROV, Tzevan. Os Géneros do Discurso. Lisboa: Edições 70, 1981.

E ainda, no campo da Filosofia ( o Francisco pode ajudar aqui):
Platão: Hípias Maior; O Banquete; Górgias
Aristóteles: Metafísica; Poética
Kant: Crítica do Juízo; Crítica da Razão Pura
Hegel: Estética
Schopenhauer: O Mundo como Vontade e como Representação
Jean-Paul Sartre. Qu'est-ce que la Littérature?

As sugestões do Francisco:
ADORNO. Notas sobre literatura
BENJAMIN. Modernidade
EAGLETON. Teoria da Literatura
GASSET, Ortega y . A Desumanização da Arte
GOLDMANN. Para uma Sociologia do Romance
ISER. O Acto da Leitura; A Estrutura do Texto
JAUSS. Experiência Estética e Hermenêutica Literária
LUKÁCS. Teoria do Romance; A Alma e suas Formas; Estética; As Transformações do Moderno
MAN. Paul de. Alegorias da Leitura
MENKE. A Soberania da Arte
SONTAG, Susan. Contra a Interpretação
STEINER, George. Depois de Babel: Aspectos da Linguagem e da Tradução; Linguagem e Silêncio
Mais: Raymond Williams, Ernst Fischer, Brecht, Bakhtin , P. Bürger, Lange, Eliot

As sugestões da Tia Adoptada:
ECO, Umberto. A Obra Aberta. 1986.
___________ Leitura do Texto Literário. Lector in Fabula. A Cooperação Interpretativa nos Textos Literários, Lisboa: Editorial Presença, 1983.
___________ Os Limites da Interpretação. 1995.
JAUSS, Hans-Robert. A Literatura como Provocação, Vega, 1993.


Entretanto o Francisco concluiu o seu post: Estética da Recepção: Uma perspectiva geral. Passem por lá, leiam e comentem.
(Obrigada, Francisco)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - I. Introitus

Comemora-se, a 2 de Abril, o Dia Internacional do Livro Infantil. Propus, com uma breve argumentação, a alteração para Dia Internacional do Livro para Crianças. No espaço dos comentários, o J Francisco Saraiva de Sousa pediu-me esclarecimento sobre a qualidade dos livros actuais comparativamente à dos clássicos. Meteu-se pelo meio uma luta desenfreada contra o tempo para a conclusão de dois trabalhos urgentes, uma ausência de cinco longos dias e a cedência do corpo a malévolos agentes externos. Recuso-me a mais cedências. Físicas e psíquicas. Parar é morrer; o meu amigo filósofo-cientista Francisco subscreve-o. Arregaço as mangas para reconduzir mãos e neurónios ao trabalho.
Reconheço com uma inveja atroz a minha incapacidade em escrever tudo o que quero escrever com a celeridade a que o Francisco nos habituou nos seus blogues. Apresentarei as minhas reflexões em posts que pretendo publicar com a regularidade de um por dia (e já falhei....). Organizei, para o efeito, um plano, breve, que me ajudará a manter o norte sempre que as vagas ameaçarem encrespunturas.

Intentos:

I
Introitus (já 'tá)
II
1. Conceitos
1.1. Literatura
1.2. Infância
1.3. Literatura (também ) para a Infância
1.3.1. Terminologia
2. Breve História
3. Cânone(s) e actualidade
3.1. Literatura lusófona contemporânea
4. Literatura e Educação
4.1. Valores
4.1.2. Ambiente, Vida, Futuro
III
Considerações finais

Tendo em conta o carácter flexível deste plano, aceito achas para a fogueira.
[Reformulações a verde]