sexta-feira, 27 de junho de 2008

Parabéns, gémeos

Hoje é dia de festa! O CyberCultura e Democracia Online e o CyberPhilosophy festejam o seu 1º aniversário. Formam a casa virtual do meu ilustre amigo filósofo-cientista J Francisco Saraiva de Sousa que connosco partilha as restantes divisões: o CyberBiologia e CyberMedicina e o NeuroFilosofia.
Sobre este espaçoso T4, que descobri em princípios de Abril, já havia redigido umas breves linhas. A propósito da minha incapacidade em explicar o conceito de sensualidade... Mas hoje é dia de centrar todas as atenções aos gémeos aniversariantes, ao blogger-pai, à casa acolhedora de portas sempre tão generosamente abertas.
Eu gosto da casa do F. Ali habitam intelecto, conhecimento, boa-disposição e afecto. Aprendo o que não sei e relembro o que já nem sabia saber, conheço novas e diferentes perpectivas que consolidam ou refomulam as minhas, brinco e rio também. Gosto do Francisco. É o exemplo vivo da humanidade que às vezes esquecemos nos académicos e nos intelectuais. Admiro-lhe a escrita veloz e sólida, mesmo que nem sempre acompanhe ou concorde com que que advoga. Admiração séria. Mas a simpatia nasceu no espaço dos comentários, onde se equilibram muito saudavelmente realismo e quixotismo, simpatia e um humor que, embora involuntário, lhe dá aquela pontinha de charme.
Na casa do F. conheci os seus amigos que agora também são meus: o André, do Brasil, muito atento e muito amável; a vaporosa Papillon, de uma completude muito rara, já em vias de extinção; o Manuel, meu Vizinho, que me preenche os dias e os sonhos.
Gosto da casa do F.
Hoje é dia de festa e aqui ficam os meus parabéns.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Dádiva

Até há bem pouco tempo atrás eu acreditava na possibilidade de uma candidatura ao grau de santidade. Afinal, nunca me amedroentei com o factor morte. Pelo contrário. Não fossem os meus pais segurarem-me, nem teria chegado à puberdade, tal era a vontade de partir para o mundo espiritual onde eu cria piamente pertencer. Se bem se lembram, bastava voar daquela janela. Depois, sempre houve o desprendimento pelos bens materiais. Nunca me faltou verdadeiramente o essencial, mas eu sempre me imaginei despojada de tudo e, contudo, heroicamente erguida. A verdade é que para a estupefacção de alguns não carpi com o desemprego súbito; e para a surpresa de outros me tenho segurado muito bem sob o meu novo tecto com a respectiva perda de comodidades múltiplas. Há sempre a preocupaçãozinha. Óbvio. O vestido que não foi ainda este ano porque eles continuam a crescer e são sempre a prioridade. O livro da lista interminável. As lentes de contacto. O rigoroso cumprimento da lista na ida à mercearia. Mesquinhices que nem chegam a afligir, porque a mana engordou mais um bocadinho e acaba por oferecer o vestido do ano passado, porque a biblioteca municipal não está assim tão ruim quanto isso, porque os óculos até ajudam a disfarçar as olheiras, porque quando a dispensa esvazia e eles pedem mais alimento há sempre o recurso aos avós. Mesquinhices que até ofendem...
... esta, a minha santidade...
Mas a vida dá-nos muitas lições e uma delas é a da humildade. Terei, porventura, capacidade para suportar as provações materiais. Porventura. Mas a minha faina é outra. E assim que a descubro compreendo que a santidade, essa, já era. Nem sequer me atrevo a pensar, ao menos, na beatificação. Eu não posso revolucionar o mundo porque estou, ainda, a aprender a minha revolução interior. Os beatos e os santos querem-se serenos, confiantes, pacientes, dulcíssimos. Pensam em longo prazo. Vêem mais além. Ora eu até sei do mais além, como sei perfeitamente que não há mal que sempre dure... Isto quando estou tranquila, confiante e muito doce. O problema é quando me viro ao avesso. E tal é a tempestade, a ventania e os maremotos e a erupção vulcânica, tal é a actividade atmosférica, marítima e geológica que turbilha dentro de mim que a poeira em que me vejo embrulhada me impede de enxergar um palmo à frente do nariz. Fico completamente cega. Entro em desespero. Soltam-se-me os sentimentos e ficam assim, à babujinha dos poros e dos olhos e da voz à espera de uma oportunidade que eu nunca dou. Não expludo. Impludo. Dá há uns seis anos para cá aprendi a dominá-los muito bem. Enfrento-os. Açoito-os. Esbofeteio uns quantos. Outros são decapitados. A alguns espeto umas boas alfinetadas nas pupilas avermelhadas. Muitos acabam pregados numa folha de papel reservada para a lareira do Natal. E há os que sobrevivem em carne viva e sem unhas: pairam por aqui no blogue dos tropos. Mas moem muito, os malfadados. Uns brutos duns exagerados. Hipérboles com ênfase. Agora experimentem juntar-lhes a Lua Cheia e a TPM... Combinação explosiva.
Estas minhas intempéries resultam, regra geral, com tudo tudinho o que tenha a ver com afectos. Família, amizades, paixões. Um beicinho, um malentendido, uma resposta mais rude, um olhar carregado, o silêncio, a ausência inesperada. Pronto. Fico sem dormir. Fico sem comer. Fico sem vontade de nada. Destrambelho. Há por vezes mapas e bússolas e placas de orientação. De tudo isso me socorro. A minha lucidez costuma ser uma excelente co-piloto e assim tenho conseguido manter o rumo.
E sempre a meu lado os formidáveis que brindam a cada uma das minhas vitórias e que me amparam ao mínimo desequilíbrio. Os meus amigos e as minhas amigas. Há os que se apercebem de uma ligeira ondulação no meu temperamento ameno. Há os que sorriem e sentem o cheiro a esturricado pelo meu fogo ariano. Há quem, em pleno messenger, e sem me conhecer pessoalmente, me tenha garantido pensar em abrir uma excepção só para mim nas suas incredulidades astrológicas, porque eu sigo em frente e zás!, mergulho de cabeça, mesmo antes de testar a profundidade das águas. Há quem me saiba nervosinha e tempestiva e me berre para me acalmar. Há quem fuja. Há quem me diga muito torcidinha como os cornos de certas cabras. Sou eu. Mas não firo ninguém. Apesar de também me compararem a uma granada que deixa estilhaços em tudo quanto a rodeia. Por isso corrijo: procuro não ferir ninguém. Impludo. O problema é que, por vezes, há quem habite dentro de mim...
Eu tenho amigos e amigas do melhor. A minha dádiva. Chegam-me por carta, por mail, por telefone, por blogue. Chegam-me também assim, em carne e osso, com um abraço do tamanho do mundo. E eu compreendo que não estou sozinha. Ajudam-me a vencer este monstro que habita em mim e, em menos de dois tempos, o demónio vira gente e de gente passa a santa. Outra que não a Santa Denise, padroeira das escolhas mal feitas.

(eu sou uma privilegiada e mereço setecentas e noventa e três e meia impiedosas vergastadas sempre que ouso soltar o mais ínfimo dos queixumes)

***

Hoje amainei ao piano. Soltei a força com Lizst. La Chapelle de Guillaume Tell. Fiquei extenuada e recordei-me de quando estudara esta peça. Trabalhara imenso com uma professora que com a força do seu ataque conseguiu partir uma das cordas mais grossas do piano. Trabalhei muito e foi uma ovação no concerto final que apresentei no Museu das Janelas Verdes.


Depois acalmei com Bach. Eu amo Bach. O maior dos maiores. Prelúdio e Fuga em Lá menor. O cromatismo sempre mexeu muito comigo. A mão esquerda está perra, mas suavizei.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O meu silêncio...

... tem os seus motivos: eu não estou bem.

Sempre sobrevivi muito airosamente às provações materiais. Passam-me ao lado. Posso ficar desempregada, posso não conseguir renovar o guarda-roupa, posso ter de me conter na aquisição de livros. Posso, até, passar fome. Fica aquela preocupaçãozinha a pairar. A certeza, porém, de que melhores dias virão.
Mas não me alucinem a afectividade. Fico destrambelhada. Inteiramente fodida. Pior que uma barata tonta. O meu calcanhar de Aquiles. Também sei que sobreviverei, mas a relatividade do tempo é soberana e acena-me com uma eternidade dolorosa.

Mantenho-me em pausa por aqui. A escrita, agora, em caneta no diário de papel que em Dezembro alimentará a fogueira das palavras a esquecer.

Por ora, tenho andado assim:


Dizem que a mudança ajuda a espairecer. Vou experimentar. Está na hora de trocar a roupa interior. Esta já enjoa.

sábado, 7 de junho de 2008

Três poemas

Durante a minha ausência de sensivelmente uma semana, três poemas numa linha muito diferente da erótica a que vos fui habituando.

*
O javali
Pastava versos de Virgílio
No bosque sagrado de Diana
Sob a abóbada lunar
Saboreava os númens da deusa casta

Veio o Obélix...
e comeu-o

*
Aquele Formiga de barbas
Que sobreviveu
À Primeira
E à Segunda Guerra Mundial
E ao bombardeamento de Tel-Aviv
E aos horrores da Bósnia-Herzgovina
E escapou a incontáveis sapatadas
Faleceu ontem
Às cinco da tarde
De pura velhice

(Não há funeral, porque as formigas não se enterram)


*
Pica pica
Picalarica o Pica-Pau.

Ui! O meu dedo!

in AAVV, Et Cetera... E Coisas Afins, ed. autor, 1997
(com pequeninas modificações
)

... e até ao meu regresso!...

Sílvia

Ela chegou ao RG graças ao estonteantemente belo Constantino Xavier. E gostou. Da forma como escrevo, de como me redesenho e, em particular, da etiqueta Manelinhos. Gostou e ficou. Tanto, que do blogue ao mail foi um passo. E por mail fomos timidamente construindo uma amizade muito simpática.
A Si mora em Inglaterra. Ali estagiou em arquitectura. Ali ficou. Regressa a Portugal de quando em quando pela família, pelos amigos, mas também pela terra lusa. Saudade.
Desta vez conseguiu uma promoção imperdível para o Algarve. Ora, logo onde! Troca de contactos telefónicos, indicações combinadas à exaustão, pus-me à estrada. Foi a primeira vez que conheci pessoalmente uma cyberamiga. Só fiquei a ganhar, garanto-vos.
Foi muito fácil reconhecê-la, porque já nos havíamos lançado numa alegre partilha de fotos a cores. Mas a Sílvia é muito mais bonita ao vivo. Tem uns olhos grandes húmidos e pestanudos, um sorriso encantador e um timbre de voz muito agradável. Para além do mais é autêntica, espontânea, simpática e bem-disposta.
Foi um almoço prolongado, na companhia do sobrinho bebé e da mana mamã que comprovou a informação genética contida no rol de qualidades anterior. Contou-me a mana Sara ter-se dedicado recentemente ao cultivo de uva graúda. Sorri. A net tem me trazido gente do campo. Gente simpática, bonita e muito interessante.
A Sílvia regressará ao Algarve. O tempo falará por si, mas creio que estão lançadas as sortes para aquilo a que se chama Amizade.

Entretanto, entre mails e RG, a Sissi também pára no Lendas e Legendas, o blogue dos filmes e dos livros, escrito a 10 mãos.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Literatura (também) para a Infância - II. 2. Breve História

O aparecimento, no âmbito da chamada, ‘literatura escrita’, de textos de literatura infantil constitui um fenómeno historicamente recente, mas as raízes da literatura infantil produzida e recebida oralmente afundam-se na espessura dos tempos e apontam para matrizes várias: mitos, crenças e rituais religiosos, ivariantes ou ‘constantes antropológicas do imaginário’, símbolos ligados ao trabalho e às suas relações com os ciclos da vida da Natureza, a contecimentos históricos... Narrativas, canções, adivinhas, etc., destinadas a educar e a satisfazer ludicamente as crianças têm circulado assim oralmente, desde há muitos séculos, por toda a Europa, transmigrando de região para região, sofrendo adaptações ou modulações em função das épocas, dos espaços geográficos e das comunidades sociais, sem que lhes possa assinalar quase nunca uma autoria razoavelmente identificada (em muitos casos, aliás, tem de se concluir pela ocorrência de fenómenos de poligénese).
Vítor Manuel de Aguiar e Silva

Recupero estas palavras de V. M. de A. e S. que sintetizam sempre tão bem a estreita relação da actual Literatura (também) para a Infância com as suas raízes mais ancestrais: a Literatura Tradicional de Transmissão Oral.

O conceito de Literatura que se reduz aos conceito de livro e de escrita é, como nos alerta Aguiar e Silva, a negação, a desmemoriação de um património ancestral tão antigo quanto a própria humanidade, porque o ser humano o é pela linguagem e porque pela linguagem se narra e se reinventa, a si e ao Outro, a tudo o que o rodeia. E muito embora o conceito de Infância só recentemente tenha sido alvo de uma atenção mais sistémica, a produção literária a ela especificamente ou também destinada, assim como a por ela apropriada, inscreve-se nessa antiguidade em que o Verbo era ouvido e apreciado em comunidade. Não se confunda, pois, e independentemente da entidade receptora, História da Literatura com História do Livro.
Sabe-se que na Literatura primordial a palavra imbuía-se de magia e de fantasia. Através dela se exercia o poder da protecção e o da ameaça, através dela se abençoava e se maldizia, através dela se perpetuavam os feitos de outrora e se profetizavam os feitos futuros. A imagem e a consciência do self, do mundo e da relação entre ambos construía-se em articulação com a consolidação de um sistema de valores cuja apreensão era mais eficaz quando o registo simbólico e metafórico era utilizado na reconfiguração do real empírico em real textual.
Mantendo a função lúdica como função primordial da manifestação da Arte, a Literatura já nesses tempos remotos desempenhava uma função pedagógica e social: reforçava os valores constituintes de uma comunidade através do recurso ao exemplum e sedimentava os laços de união entre os seus membros.
A transmissão era feita, como se sabe, oralmente e, assim, a palavra passava de boca em boca e de geração em geração. Os registos escritos mais antigos que chegaram até nós datam de breves séculos antes de Cristo e provêm do território oriental: Índia, China, Egipto e, ligeiramente depois, Grécia e Roma. Recordo alguns títulos conhecidos como Panchatranta, Hitopadesa, Bai Juan Zhuan, Calila e Dimna, Sendebar, Barlam e Josafat ou As Mil e Uma Noites cuja divulgação se deu apenas no séc XVIII da nossa era graças a uma tradução e adaptação francesa de Galland. Havia, também, os mitos que, posteriormente dessacralizados, originaram os contos agora chamados tradicionais de transmissão oral e, posteriormente, começaram a surgir as lendas nas suas mais variadas concretizações.
Estas narrativas, não sendo contadas especificamente para as crianças, eram por elas também ouvidas, já que se integravam no grande grupo comunitário que se reunia depois dos trabalhos diurnos para o convívio junto à fogueira. Eram as estórias que se disponibilizavam, sem outras alternativas como as da actualidade. No entanto, é plausível que essas estórias agradassem o público mais jovem, devido aos ingredientes com que se teciam (aventuras, maravilhosos, fantástico, mágico) independentemente da configuração mais prosaica ou mais poética.
Há quem advogue nítidas semelhanças entre a mente da criança e a mente do homem de outrora, no que à imaturação da capacidade de abstracção diz respeito. O discurso metafórico veicula mais eficazmente valores, ideiais e normas de conduta que oralmente se adaptavam aos contextos, e que, com o surgimento da escrita se cristalizaram, tornando-se por vezes inadequados no que à vertente educacional diz respeito.
Quando hoje falamos de Esopo, Basile, Perrault ou La Fontaine, esquecemos, porém, que: 1. não foram eles os autores das narrativas compiladas; 2. os seus destinatários não eram as crianças; 3. muitos dos valores por elas transmitidos cairam em desuso.
No período romântico, a atenção votada à infância permitiu readaptações que se afigurassem mais adequadas. Assim o fizeram os irmãos Grimm, por exemplo. Por outro lado, foi a partir desse período que começou a florescer uma produção escrita especialmente destinada às crianças e um reconhecimento canónico mais ou menos consensual onde o sonho e a contrafactualidade se sobrepôs à poética aristotélica e horaciana.
Assim, ao lado dos clássicos da Literatura pensada para as crianças - Peter Pan, Alice no País das Maravilhas ou Pinóquio, entre outros – coexiste toda uma literatura que por elas tem vindo a ser apropriada: as rimas ancestrais, os mitos mais remotos, os contos tradicionais, as lendas, as fábulas consagradas por Esopo, Fedro e La Fontaine, Amadis de Gaula, O Ciclo do Rei Artur, e outros romances de cavalaria, D. Quixote, Robinson Crusoé, As Viagens de Gulliver, O Senhor dos Anéis e por aí adiante.
Ignorar a História da Literatura, seja ela para crianças ou não, a História da Arte, das Mentalidades, a História, enfim, é circunscrever a potencialidade receptora do texto literário, insentando-o de uma memória que lhe é intrínseca e descontextualizando-o na sua relação dialógica com outros tempos, outros saberes e, assim, dezenraizando-o de si mesmo.

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Sugestões de leitura
(ordenação alfabética por autor; datas das edições que tenho em casa)

COELHO, Nelly Novaes. Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil, S. Paulo: Quíron, 1985.
COSTA, Maria José. Um Continente Poético Esquecido - As Rimas Infantis, Porto: Porto Editora, 1992.
DIOGO, Américo António Lindeza. Literatura Infantil - História, Teoria, Interpretações, Porto: Porto Editora, 1994.
GÓES, Lúcia Pimentel. Introdução à Literatura Infantil e Juvenil. S. Paulo: Pioneira, 1984.
SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e. «Nótula sobre o Conceito de Literatura Infantil», in SÁ, Domingos Guimarães de. A Literatura Infantil em Portugal, Braga: Editorial Franciscana, 1981.
TRAÇA, Maria Emília. O fio da Memória - Do Conto Popular ao Conto para Crianças, Porto: Porto Editora: 1992.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Infância revisitada - aquele tempo sem tempo do Paulo

Eu destemi-me com o «Da queda de uma heroína». Chegou a vez do meu Paulo do Zé. Já não era sem tempo! (É que, para além de ser todo bonitão, o Paulo é um homem cheio de virtudes e cultiva a arte do bem escrever).
A sua história de vida intitula-se «Uma memória de infância» e esta semana foi lida pelo Miguel Guilherme e brevemente comentada pela linda Inês no História Devida da Antena 1.

Para ler e ouvir.

Literaturas Africanas

Havia lançado, na caixa de comentários deste post, um desafio ao TUlinho.
O TUlinho é um moçoilo às direitas. Aceitou o repto e zás!, escreveu o «Literaturas africanas em questão» para me/nos explicar as subtilezas das diferentes designações a que este tipo de literatura é sujeito.
Convido-vos à leitura do texto e, já agora, a uma visita ao blogue, o Tulisses!

(O meu TUlinho é um querido. Por tudo. Mas também porque dedicou o post a mim!)

terça-feira, 3 de junho de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - II. Conceitos: Literatura (também) para a Infância

1.3.1. Terminologia

Correndo o risco de ser lida como perigosa lacaniana, afigura-se-me inevitável uma reflexão sobre a terminologia que adoptei quando aceitei o repto do meu amigo filósofo-cientista JFrancisco. A linguagem verbal concretiza, através da língua, as representações mentais com que estruturamos emoção e cognição. Uma reflexão séria sobre este instrumento vital permite um maior rigor na expressão do pensamento e dos sentimentos. Uma maior adequação, também, do acto comunicativo.
Ora, não foi aleatoriamente que optei por utilizar a expressão Literatura (também) para a Infância como referente linguístico do fenómeno literário sobre o qual me comprometi a escrever. Esta área de estudos não se tem pautado por uma adopção pacífica e consensual da terminologia e eu procurarei justificar a minha opção.

Literatura Infantil
É a expressão mais comumente usada no Brasil e não raras as vezes utilizada em Portugal. Nos países francófonos, porém, só muito raramente se fala de Littérature Enfantine e nos anglófonos não existe o conceito de Childish Literature.
Se pensarmos um pouco na polissemia do adjectivo infantil poderemos encontrar razões de sobra para um descarte consciente. “Relativo a crianças”, é certo. Mas também “pueril”, “ingénuo”, “inocente” com toda a aura pejorativa de que a palavra se pode rodear. Existiam, antes, professoras primárias e educadoras infantis (uso aqui propositadamente a flexão no feminino, por uma questão de maior número de profissionais mulheres na área). Concluiu-se, posteriormente, que as primeiras nada tinham de primário e que no perfil das segundas não caberia a imaturidade. Passou-se a falar de professoras do primeiro ciclo e de educadoras de infância. O mesmo se passa com a Literatura que permite também às crianças uma participação na esfera da recepção. Uma Literatura digna e dignificante que não se compadece com a imaturidade dos diminutivos floreados ou a retórica paupérrima porque demasiado simples no sentido de simplista. Uma linguagem que tranca o receptor, uma linguagem que não é libertadora, não é nunca uma linguagem literária, mas sim uma linguagem infantil, no sentido etimológico da palavra – incapaz de loquência.
Um outro aspecto a considerar relaciona-se com a ambiguidade que o adjectivo encerra, relativamente à (in)definição da esfera da produção / esfera da recepção. Literatura feminina é literatura feita por mulheres? Para mulheres? Questões falaciosas porque a feminilidade reside no próprio texto? Literatura gay, literatura negra... os rótulos falam por si... Literatura infantil é literatura produzida por crianças ou para crianças? Literatura das crianças? Ou residirá a infantilidade no seio do discurso?
Em nome do meu conceito de rigor científico, repudio a ambiguidade que vislumbro na expressão Literatura Infantil.
Literatura para a Infância
Esta expressão, de que há a variante Literatura para Crianças, coloca a tónica do acto comunicativo no canal da recepção.
A expressão é, no entanto, um tanto incoerente, antitética, ouso afirmar, no sentido em que a Literatura enquanto Arte não pode se compadecer com a circuscrição da sua liberdade ao tipo de receptor.
Por outro lado, sabe-se que nem toda a Literatura a que as crianças aderem foi necessariamente produzida para elas, assim como outras obras há que, criadas para o universo adulto, foram alvo de uma apropriação inesperada e, eventualmente, como me alertou a Tia em conversa ao telefone, haverá obras propositadamente pensadas para crianças que terão sido por elas ignoradas e acolhidas pelos adultos. O próximo post desta série demorará sobre estas questões.
Literatura (também) para a Infância
A expressão foi-me apresentada há alguns anos pela sua autora, a Professora Olga Fonseca, da Universidade do Algarve.
Soou-me bem. Os parênteses demonstram uma preocupação em salvaguardar os seguintes aspectos:
1º - É uma Literatura que pode ter sido criada efactivamente em função da criança ou não, tendo sido por ela posteriormente apropriada;
2º - É uma Literatura para tod@s; uma Literatura que, pela flexibilidade da linguagem com que se constrói e pelos valores elevados, sejam eles estéticos ou éticos, que deixa transparecer, permite a inclusão da criança no seio da recepção;
3º - É uma Literatura que recentra a noção de infância, na medida em que não segrega os receptores pela sua faixa etária ou estádio de desenvolvimento nem os exclui da qualidade a que os adultos almejam para si mesmos. É uma expressão que devolve a dignidade à criança e a percepciona como membro importante de uma comunidade.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Tenho andado assim...

... com sôdades...


(Ai, que saudade d'ocê. Por Badi Assad)


Não se admire se um dia um beija-flor invadir
A porta da tua casa, te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo ai que saudade d'ocê

Se um dia você lembrar escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio com frases dizendo assim:
"Faz tempo que eu não te vejo,quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijos, ai que saudade sem fim."

(E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro
Eu chorando pela estrada mas o que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina eu gosto mesmo é d'ocê)*

* A parte entre parênteses não interessa (para já).

domingo, 1 de junho de 2008

Literatura ( também ) para a Infância - II. Conceitos: Literatura (também) para a Infância

1.3. Literatura (também) para a Infância
Reconhecendo que os conceitos de Literatura, Literariedade e Infância resultam de estruturas sociais e culturais, contextualizadas em espaços e tempos precisos, o que conseguirei eu escrever sobre o conceito de Literatura (também) para Infância? E qual a necessidade dos parêntesis e onde os fui desencantar? Questões de terminologia também por reflectir.

Partamos do princípio que a Literatura é apenas só uma. Fenómeno estético com repercussões éticas , como a Arte em geral. Existem, depois, especificidades perante as quais não conseguimos ficar indiferentes. A Arte é plural. A Literatura, ainda que una, também o é. Sobre o assunto, e a propósito da eventual existência de uma Literatura Gay, já havia escrito estas breves linhas, enriquecidas pelos excelentes e sempre pertinentes comentários da Tia do meu coração, que se alongaram a propósito de um poema do Eduardo Pitta. Entretanto, o meu Paulo do Zé escreveu, no FJ, este texto bastante esclarecedor que me obrigou à necessária rectificação.
No que diz respeito à Literatura (também) para a Infância, convém sublinhar, e disso faço questão, que a sua essência é exactamente a mesma da Literatura. Porque, pura e simplesmente, é Literatura. A singularidade reside na esfera da recepção: a infância.
Durante muito tempo, e ainda hoje para os mais desprevenidos, este tipo de Literatura, porque associada à Infância, é marginalizada com o prefixo para- e assim considerada menor. Há textos e textos e muitos deles, escritos ou orais, insultam a dignidade das crianças e de cada um de nós. Mas esses textos, apesar de serem divulgados e ampliados como arte pelo marketing capitalista que visa o consumo desenfreado da massa metabolicamente reduzida (ah, JFrancisco, mas como eu deliro com estas suas expressões!) não são textos literários. São lixo. Um insulto. Uma vergonha.
Na verdadeira Literatura (também) para a Infância, a sua essência, os valores estéticos e éticos, não é reduzida a borboletinhas e florinhas e desenhos coloridos. A verdadeira Literatura (também) para a Infância responde às necessidades e às expectativas dos seus receptores, onde se incluem as crianças.
Acredito, por isso, que se torna irrisória a teima com que se aventura a esfera da produção. Muito em voga aliás. Hoje, todo o escritor que se preze tem de escrever pelo menos um livro para o público de tenra idade. Resta saber se o público adere a estas sucessivas invectivas. Regra geral adere, porque foi deseducado e porque, também para isso, contribuem mecanismos de intelectuais reconhecidos em quem, em caso de dúvida, que é constante, é costume atribuir o voto de confiança. Os avanços científicos da psicologia e da neurologia permitem-nos compreender o que, o como e o por que dos interesses das crianças. Diacrónica e sincronicamente. Não acenam, porém, com receitas que antecipem os êxitos de vendas.
A Literatura (também) para a Infância fala directamente com a infância. A Literatura (também) para a Juventude fala directamente com a juventude. Hoje. Mas ontem também. E dado o carácter perene e universal da Arte, amanhã certamente. Com a óbvia oscilação crítica a que a clepsidra convida. Assim, textos inicialmente destinados a adultos foram apropriados por crianças e textos especificamente produzidos para elas ficaram soterrados no esquecimento e no pó das prateleiras. Não convém, ainda, esquecer a dimensão individual de cada criança (da sua competência linguística, literária, ideológica...) que se deleita com textos de uso supostamente exclusivo do adulto. Fronteira fluídicas, portanto.
Sendo um ser em formação, as escolhas literárias, artísticas (como tudo em geral) deverão ser criteriosa e responsavelmente orientadas. Tarefa destinada aos pais, aos educadores, aos professores. Aos dirigentes políticos, com certeza. Mas também a cada um de nós, co-responsáveis pelo progresso da humanidade e determinantes na elevação da exigência estética e cultural de cada um dos actos da nossa sociedade.
Para além da sua função lúdica, o fenómeno artístico, e literário, deverá desempenhar uma função pedagógica a vários níveis, num convite sério à aprendizagem, ao crescimento intelectual, afectivo e emocional. A Literatura, como a Arte, permite mudar a vida e mudar de vida. Permite a reinvenção. Do self. E, na sua interação com o Outro, do mundo.
Sobre a verdadeira essência da Literatura e sobre o perigo da redução do ser humano pela palavra, recupero as seguintes palavras de Carlos Drummond Andrade:
A partir de que ponto uma obra literária deixa de constituir alimento para o espírito da criança ou do jovem e se dirige ao espírito do adulto? Qual o bom livro para crianças que não seja lido com interesse pelo homem feito? Qual o livro de viagens ou aventuras, destinado a adultos, que não possa ser dado a crianças, desde que vazado em linguagem simples e isento de matéria de escândalo? (...) Será a criança um ser à parte? Ou será a literatura infantil algo de mutilado, de reduzido, de desvitalizado – porque coisa primária, fabricada na persuasão de que a imitação da infância é a própria infância? Vêm-me à lembrança as miniaturas de árvores com que se diverte o sadismo botânico dos japoneses; não são organismos naturais e plenos, são anões vegetais. A redução do homem que a literatura infantil omplica dá produtos demelhantes. Há uma tristeza cómica no espectáculo desses cavalheiros amáveis e dessas senhoras não menos gentis, que, em visita a amigos, se detêm a conversar com as crianças de colo, estas inocentes e sérias, dizendo-lhes toda sorte de frases em linguagem de gente grande, apenas deformada no final das palavras e educadas na pronúncia... Essas pessoas fazem oralmente, e sem o saber, literatura infantil!
Argumenta a Tia Adoptada, por incansáveis vezes e sempre muito bem, que aquilo que não é bom para nós, adultos, não será, obviamente, bom para as crianças. E é verdade. Para elas, tendemos a reservar o melhor bocado. O que lhes agrada, se de qualidade, também nos agradará. E assim deverá acontecer com a Arte, com a Literatura, cujas funções não se confinam às de ordem estética, lúdica. Efectivamente, cada texto encerra uma ideologia centrada na própria natureza literária ( num convite a reflexão metalinguística, importantíssima para o reconhecimento e recriação do mundo e de si mesmo através da linguagem) ou extrapolando-a em estímulos de dimensão ética, política, sociológica e culturalmente responsabilizadora. As raízes da actual Literatura (também) para a Infância mantêm viva a arte da memória cultivada oralmente noutros tempos. Nos dias de hoje, a escrita tornou preguiçosas as mentes contemporâneas. Mas há, ainda, réstias de esperança que bruxuleiam aqui e ali e se reavivam na recuperação de um património tradicional de transmissão oral que não está, apesar de tudo, esquecido e perdido. Por outro lado, os estudos relativos ao desenvolvimento da criança, o cultivo da literacia, e a facilidade da difusão editorial permitiram a multiplicação de oferta onde se encontram objectos-livro francamente muito bons.
Sem querer abusar do recurso à citação, não posso deixar de dar voz a Vítor Manuel de Aguiar e Silva que expõe magistralmente a seguinte síntese:
(...) a literatura infantil, quer oral quer escrita, tem desempenhado uma função relevantíssima, atendendo aos seus destinatários, na modelização do mundo, na construção dos universos simbólicos, na convalidação de sistemas de crenças e valores. E, mais à frente, remata que Aprender a conhecer a língua materna, os seus mecanismos sintácticos, semânticos e pragmáticos, equivale a modelizar de modo mais consciente e livre o mundo, os realia, porque toda a servidão espiritual, intelectual e moral, sobretudo a que se ignora a si mesma, é indissociávle de uma manipulação, de um terrorismo da linguagem.

A Literatura (também) para a Infância desempenha um papel vital na edificação da Grande Recusa de que fala o JFrancisco no seu blogue principal (CyberCultura e Democracia Online) e na qual cada um de nós tem o dever moral de participar.

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Sugestões bibliográficas (ordenação alfabética por nome de autor; datas das edições consultadas)
- Apelo sempre em aberto ao contributo de V. Exas leitores e leitoras deste blogue -

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CARVALHO, Bárbara Vasconcelos de. A Literatura Infantil – Visão Histórica e Crítica, S. Paulo: Global Universitária, 1987.
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