terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Entre Sócrates e Obama...

Quando hoje os fui buscar à escola, o olhar do benjamim disse-me tudo no silêncio da nossa cumplicidade.
- Quem foi e porquê... desta vez?
Volta não volta, D. Tomás envolve-se em animosidades bélicas. Raramente riposta. Adivinho-lhe gozo no acto da provocação. Na semana passada vinha a fugir desalmadamente de três gaiatas. Três. Safou-se, por segundos, com a minha chegada. Elas muito indignadas, que ele roubara um beijo a uma delas e as outras, porque amigas da ofendida, tinham de lhe dar uma lição.
- Quem foi e porquê, Más?
- Foi o Diogo... Mas eu não estava a provocar.
E a história dá que pensar. Garanto-vos que dá. Apresento-vo-la, contada na 1ª pessoa, tal como a mim foi contada:

Hoje de manhã vi o pai do Diogo e no recreio eu disse ao Miguel "Olha!, o pai do Diogo é mesmo parecido com o Sócrates, tu não achas?" E é verdade! O pai do Diogo tem uma cara assim comprida e o cabelo igualzinho ao do Sócrates, não achas mamã? Então o Miguel foi correr a dizer ao Diogo que estava a jogar futebol e o Diogo largou logo a bola e veio direito a mim e empurrou-me e encostou-me à parede e disse assim "Então, tu andas a chamar o meu pai de Sócrates?" Eu queria dizer que não era nada disso, mas ele não me deixou falar e começou a gritar a dizer que o pai dele não era nada o Sócrates e quando acabou de gritar e eu consegui explicar que eu não tinha dito que o pai dele era o Sócrates, que tinha dito que o pai dele tinha uma cara parecida com a do Sócrates, ele perguntou mesmo a gozar se eu já tinha preparado o meu discurso porque se o pai dele tinha uma cara parecida com a do Sócrates eu tinha uma pele parecida à do Barack Obama e eu disse que era muito fixe ser o Obama que era muito mais poderoso que o Sócrates e o Diogo ficou muito vermelho e disse o pai dele era mais poderoso do que eu e ia-me dar um murro, mas eu disse "Se ele me partires os óculos vais-ta ver com a minha mãe, que quando fica zangada é mais poderosa do que o Sócrates e o Obama juntos", então ele deu-me um pontapé e eu dei-he outro e ele deu-me outro e eu pisei-lhe o pé. Depois faltava uma pessoa para equipa de futebol e ele deixou-me jogar, mas não deixámos o Miguel jogar porque foi fazer queixinhas e ainda por cima inventadas.

Deixo-vos a historieta como epígrafe dos incontáveis discursos mentais que sobre ela se podem fazer...
Ter oito anos hoje em dia... Livra!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

2009

A Terra deu outra volta e todos nós ficámos mais velhos. Porque a Terra deu outra volta nos lembrámos do que havíamos esquecido com a luz de cada madrugada ou com translúcida liquidez que goteja na clepsidra. Mas o ribombar de artifício e os lampejos gritantes festejam a importância magna que damos ao virar da página do calendário, como se a translação fosse uma elipse de princípio e meio e fim, e anunciam o milagre da saturação dos dias num dia grande metonímico e metafórico para o exame de consciência agostiniano, na ilusão de um recomeço que, por ser simbólico, é também real. Construimo-nos em confronto com o outro que por vezes somos nós tornados alter pelo tempo. E nessa ponte que edificamos entre a margem de nós e a margem de nós, precisamos de nos pesar e medir e de saber também como e quando envelhecemos.
Eis um bom ano: o que chegou ao seu termo. Aconteceu-nos tudo que tinha de nos acontecer. Criámos raízes e memórias, e o nosso atrito com as pessoas, a injúria dos nossos actos, foi o preço pelo qual pagámos o ofício de estar vivos. Foi um ano singular. E foi um ano bom, o que findou. Porque me trouxe o que havia de trazer. O fogo ariano, a firmeza das contestações, o adeus definitivo, as malas de cartão, a tempestuosidade de um vento levante fora de época, as intensidades defraudadas. Foi um ano bom, porque repleto de memórias e experiências que aguardam a maturação ddos significados e a alquimia das palavras no baú do envelhecimento.
E, entretanto, a Terra fez anos. Aqui está Janeiro e depois Fevereiro, e o resto, e os ciclos, e as rugas, e a peugada inconsútil do nosso fascinante e breve e longo roteiro. A Terra fez anos, companheiros! A Terra fez anos! Vamos vivendo, pois: pelos meses adiante, consumindo-nos, ciumando-nos, bebedeirando-nos de vida, porque ninguém sai vivo dela e é bom sorvê-la, até o remate final dos segundos. E porque deu outra volta, a Terra fez anos. E este é o Janeiro em que se eliminam os odores e os rancores e depois Fevereiro e ainda Março, o Março dos meus trinta e três, e também Maio que foi ómega e alfa, e Setembro que virá com a esperança da calmaria e Dezembro que nos recordará que sim, a Terra também faz anos!, e, inexorável na sua dança em rodopio, convida-nos à ebriedade dos segundos, porque a vida é tempo e dela vivos não sairíamos, não fossem as memórias erguidas e consubstanciadas na eternidade.
Amanhã será um belo dia e todos os dias serão belos, porque difíceis e rudes, e haverá cachos de acácias em árvore que hão-de ser ainda plantadas e florescer, e «a grande dor das coisas que passaram» transformar-se-á num berro do presente, num murmúrio da distância, num remoto cicio do passado. Porque a eternidade da memória tem a duração que os caprichos do tempo aprouverem conceder e blá blá blá os cacos de ontem deixá-los lá estar porque hoje sou a outra que amanhã não já será. E neste pessimismo optimista desembaraço-me das folhas secas para nua, com um manto de neve sobre os ombros, erguer os braços ao ciclo dos dias e ao recomeço da primavera.
O tempo recuou, finalmente, pois as nossas esperanças renasceram nos galhos súplices das mágoas antigas e deles brotaram túrgidas flores. Coragem, companheiros! Uma secreta viagem nos espera e um novo dia nascerá todos os dias.

(As frases em itálico são de Baptista-Bastos: «A Visitação dos dias», in Cidade Diária, Lisboa, Editorial Futura, 1972; pp. 133-135)