sábado, 21 de fevereiro de 2009

Desequivocando

A propósito deste texto, deixou-me um(a) leitor(a) anónimo(a) discurso inflamado de susceptibilidades apressadas:
Devo dizer que a senhora deve ser um bouco mente fechada.Mas pronto, pessoas, que estagnaram no período barroco geralmente são assim. Estive nesse mesmo concerto, e não foi nenhuma tortura e muito menos me senti desiludido. Acho apenas que as pessoas que não sabem apreciar música contemporânea e a consideram uma tortura, deviam dar a sua opinião, sempre me disseram que "não fales do que não sabes" (sic)

Reconheço, prontamente, a minha ignorância em relação a muitas coisas. Quase tudo, se não mesmo tudo. Música incluída. Acontece que o texto em questão não constitui uma crítica à peça de Tiago Cutileiro, até porque nem possuo quaisquer conhecimentos de técnicas de composição para fazer juízos de qualidade. O texto em questão não é, também, uma atribuição de desmérito ao compositor cujo percurso não tenho acompanhado e cuja obra não conheço. Sei do homem e do quão simpático ele é e da tatuagem que lhe percorre o braço, a única que consegui apreciar em alguém. O texto em questão não é, tão pouco, uma manifestação de desprezo pela música erudita contemporânea, sobretudo quando há de que goste verdadeiramente. O texto em questão regista apenas e tão somente as minhas impressões sobre uma peça que, numa primeira audição, não me agradou. Mais: o reconhecimento das minhas limitações e incapacidades perante o que por hoje se vai compondo aqui pelo Ocidente: O meu ouvido não está, definitivamente, educado para a atonalidade da música erudita contemporânea.
Ora, é de meu entender que o conhecimento fundamenta a opinião que, curiosa e paradoxalmente, independe do conhecimento. Explico-me: há tonalidades que nos impregnam a alma com vibrações mais ou menos positivas. E nem sempre as entendemos. Mas reagimos. Nessa reacção, nem sempre esclarecida, conseguimos formular o nosso agrado ou desagrado. Sei que o conhecimento das coisas nos ajuda a saber amar. Mas não é regra. Até porque, sejamos francos, que conhecemos nós verdadeiramente? Acresça-se, ainda, a especificidade da Arte pela qual uma mensagem se desdobra ao infinito com outras tantas incursões subliminares.
Assim, longe de me considerar uma pessoa com pouca abertura de mente ou estagnada na exuberância do Barroco, creio ter apenas falado (e não opinado) sobre a única realidade que conheço minimamente: a natureza dos meus sentimentos …tão firmes quanto voláteis.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Eu, o Zé... e Grieg

As peças a quatro mãos marcam as melhores memórias do meu repertório de jovem pianista. Tinha eu uns vinte anos, o Zé Manel mais vinte em cima. Mas sentados lado a lado no piano parecíamos dois garotos. Era um gozo enorme e não nos cansávamos com as Danças Norueguesas de Grieg . Ele a segurar o tempo, eu mortinha por acelerar ad infinitum. Depois trocávamos... e ele, mais ligeiro, vingava-se com um sorriso trocista nos lábios.
São quatro; deixo-vos a segunda, a que apresentámos num concerto no Museu das Janelas Verdes promovido pela Juventude Musical Portuguesa.


Edvard Grieg. Danças Norueguesas (op. 35)
II. Allegretto tranquillo e grazioso; Allegro
por Trygve Trædal e Tellef Juva

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A não perder, hoje, na Antena 2

A Antena 2 transmite hoje, às 21 horas, a gravação do Concerto para acordeão e orquestra do compositor portimonense Cristóvão Silva e interpretada, em estreia absoluta, no mês de Maio de 2008, por Gonçalo Pescada e a Orquestra do Algarve , sob a batuta de Laurent Wagner.

Repescando um excerto de um post anterior, relembro que é uma peça forte que reinventa linguagens já conhecidas e que, com arrojo, reconfigura a tonalidade. Uma peça que respira a liberdade de retomar a tradição sem deixar de participar na construção do futuro. Poliestilista. Caleidoscópica. O primeiro andamento (18 minutos), com bravura, começa com um com belíssimo ribombar dos timbalos e recupera o ostinato de Ravel em homenagem visível; o segundo (5 minutos), molto tranquillo, é lírico com tonalidades melancólicas; o terceiro (10 minutos) é enérgico e imprevisível.
É uma peça que impressiona também pelo seu grau de exigência técnica. De um virtuosismo avassalador.

Hoje, às 21 horas, na Antena 2.
Garanto que vão gostar!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Miss Fräulein

A Terra deu outra volta (1) e Fräulein Else, borboleta vaporosa, completou vinte e seis anos.
É das pessoas mais completas que conheço. Inteligente, culta, sapiente, graciosa, perspicaz, gentil, espirituosa, alegre, intensa. Por tudo isto a admiro. E, por ser luz e ser cor e ser valsa com um toque de samba, eu gosto dela.
(1)

(Voá Borboleta. Sara Tavares. 1999)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Crecher e aprender

Esteve durante duas horas, sem intervalar, a fazer os trabalhos de Estudo do Meio, de Matemática e de Língua Portuguesa. Exausto, mostrou-me o caderno. Estava tudo bem, até que ...

VERBO CRECHER
Passado
Eu crechi
Tu crecheste
Ele crecheu
Noz crechemos
Voz creschestes
Eles crecheram

Presente
Eu crecho
Tu creches
Ele creche
etc...

Futuro
Eu crecherai
Tu crecherás
etc...

Deu-me uma coisinha má.
- Porquê? É com X?
Deu-me outra coisinha má.
- Cres-cer. Com S seguido de C.
- Com cedilha?
Foi a terceira coisinha má.

(E mais o S em vez do Z e o acento agudo nos O e o ditongo ei...)

Que reformulasse tudo. Foi então uma coisa nunca vista. Que estava cansado, que ou SC ou X ou CH era tudo igual, que... Uma birra monumental. Daquelas em que se tornam audíveis as primeiras sílabas de alguns palavrões. Daquelas em que eles batem os pés e deitam a língua de fora e cerram os punhos e abrem muito os olhos e ficam incrivelmente vermelhos e...
Nem com mil exorcismos aquele demónio se controlaria.
Mas eu sei de um truque melhor: a gente segura aqueles ombrinhos desgovernados. Com firmeza. A gente olha-os nos olhos. Com firmeza. E diz qualquer coisa como "Gosto de ti. Acalma-te por favor e escuta-me." Com convicção. E a gente dá-lhes um abraço. E a gente dá-lhes um beijo. Vêm depois as lágrimas. E tantas que a respiração fica desregulada. Tantas que é preciso afastar o caderno, para que não se emborratem as letras cuidadosamente desenhadas. E a gente mostra-lhes que pela frustração se vê como são ainda muito bebés.

Recentrou-se. Respirou fundo. Retomou o lugar. A borracha triste apagou a página inteira. O lápis cabisbaixo deslizou vagarosamente. Aprumou-se. E o meu coração parteliu-se:

VERBO CRESCER
Passado
Eu não cresci
Tu cresceste
Ele cresceu
Nós etc...

Presente
Eu não cresço
Tu cresces
Ele cresce
etc...

Futuro
Mas eu crescerei
Tu crescerás
Ele crescerá
etc...

SC, X ou CH é tudo, realmente, a mesma coisa
... e muito ainda terei eu que crecher...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Mais cedo ou mas tarde: Espiritismo na TSF

A ignorância não nos torna apenas ignorantes.
A ignorância, pela qual temos de aprender a nos responsabilizar, torna-nos, entre outras coisas, atrozmente injustos, preconceituosos, viciados, limitados e muito, terrivelmente!, atrevidos. Ridículos. Patetas. Tolinhos.
Ainda não atingimos o conhecimento de todas as cousas. Somos humanos. Somos imperfeitos. Por isso, no exercício de uma coisa que se chama humildade, as pessoas rectas e honestas não se pronunciam sobre o que não sabem. Mais: não sabendo, e sendo assunto que lhes interesse, investigam. Pesquisam. Estudam.

E isto a propósito do quê? A propósito de um palermóide de um ocultista pseudo-sábio, ignorante e leviano, Zetor, o Asneirento-Mor, que, em directo na TSF, depois de uma chorilhada de disparates contínuos sobre aquilo que ele entendeu falar, decidiu falar de um Kardec-chico-esperto e de um Espiritismo-que-dá-direito-a-meter-espíritos-dentro-das-pessoas e de uma escrita-automática-a-que-aquela-gente-chama-de-psicografia, sublinhando sempre, com uma nítida entoação de superioridade arrogante, as estapafurdices dessa doutrina reinventada numa óptica muito deficientemente sua.
Ofensivo. No mínimo. É por estas e por outras que , porque é muito mais cómodo e fácil ouvir falar não importa quem e ler não importa o quê, do que procurar as verdadeiras fontes, que o Espiritismo é ainda hoje conotado com superstição, crendice, bruxaria, turbantes, bolas de cristal, possessões e sei lá mais o quê. Alguns fantasmas contra os quais nós, os cinco, temos andado a pelejar.
O André lançou o repto e este foi o meu pedido para um contraditório com um extra um tanto ou quanto longo.
João Paulo Meneses, porque, para além de amável, é um jornalista sério, honesto, recto e rigoroso, resolveu tirar a coisa a limpo. O movimento espírita terá direito a voz no programa Mais Cedo ou Mais Tarde da TSF, a 3 de Março pelas 15horas numa entrevista a José Lucas, membro da ADEP (Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal).
Eu, espírita e cidadã, agradeço.


Outros casos recentes no jornalismo nacional:
*A saga da Super Interessante : partes 1, 2, 3 e4 mais o desfecho: 5
*DN, Ferreira Fernandes e o Provedor Mentecurta, perdão, Bettencourt: 1, 2, 3, a resposta: 4 e as contra-respostas: 5 e 6.
*Baptista-Bastos, o Grande: protesto: 1 e resposta: 2

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Os Cinco


Quando eu era pequena achava piada aos livros de Enid Blyton. Simpatizava particularmente com as aventuras d' Os Cinco. Lembro-me de não fazer questão de comprar os livros porque não me motivavam para uma segunda leitura e, por isso, requisitava-os na biblioteca municipal. Também me lembro de gostar de ver a série na televisão. E ainda me lembro de sonhar poder um dia fazer parte de um grupo assim, unido pela amizade, divertido e com pinta para solucionar mistérios.
Vá-se lá saber das voltas que a vida dá e de como há sonhos que se ajustam à realidade. O certo é que há algum tempo passei a ter o privilégio de pertencer a um grupo assim, com muito boa disposição, com garra e empenho, com um laço de afecto que assumo genuíno. E se os cinco de Blyton eram quatro mais um (Júlio, David, Zé e Ana mais Tim, o cão), nós, também cinco, somos quatro rapazes e uma moçoila. ... ou, sob outra perspectiva, quatro marafados e um fantasma. Mas esta é uma private joke.
Antes de ser convidada para entrar no grupo, já eu os admirava e lia assiduamente os textos que iam publicando. Terei deixado vestígios das minhas visitas e o Francisco tropeçou em mim. O Francisco é engraçado e faz-me rir sempre que me envia um mail ou comigo troca umas teclas no msn. É muito espontâneo e dono de uma escrita impressionantemente transparente. Foi cinco estrelas quando lhe confidenciei as asneiras que me tiraram o sono e esforçou-se por me ajudar a recentrar quando a angústia se tornou desesperante.
Graças ao Francisco, conheci o Mário, sem saber que era o Mário e fiquei estupefacta quando descobri que era o Mário. E sobre o Mário importa saber que me impressiona sobremaneira pelo elevado grau de conhecimento das coisas sobre as quais se pronuncia, pela veemência com que defende os seus princípios, pela lógica com que os argumenta, pelo poder de síntese, pelo humor bruto e directo da sua escrita.
Depois apresentaram-me o Toni, que me divertiu com as cerimónias iniciais. O Toni é o mais calmo dos cinco. Mete-se com as minhas fotos do msn e nunca se despede sem deixar uma flor. Faz-me sorrir e, sempre que me vejo aflita com fontes bibliográficas, ele tem a resposta na ponta da língua
O André, que conheci pela troca de comentários interblogues, pregou-me um susto de morte quando resolveu citar um texto meu na altura da Páscoa. É o mais centrado de todos nós. Nele destaco a lucidez, a elegância com que alinha as palavras, a produção incansável de textos de grande qualidade, o humor refinado.

Esta é a malta do Blog de Espiritismo com quem, ainda timidamente, agora também colaboro.
E é uma honra.


(Nós, contra os fantasmas)
- É uma metáfora excelente e eu não resisti!-

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Lembram-se?

(Tema de abertura de The Famous Five. 1978.)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Recomendo...

... a leitura de dois posts absolutamente imperdíveis e que logo logo eu direi quais são.

Sabemos do meu repúdio às várias formas de que se reveste o preconceito, expressão translúcida da ignorância. Sabemos do quão enervadinha fico no que à homossexualidade diz respeito, até porque sobre isso já publiquei alguns textos.
Retomo o assunto agora que à baila regressa a questão cíclica do (des)direito à adopção por casais homossexuais. Indago aqui e ali e sinto-me ruborizar de espanto e indignação com argumentos que me falam de doença, de trauma, de tradição, de contra natura, de mecanismos da sociedade, de equiparações sem sentido. As pessoas com quem tendo a procurar opiniões e respostas impressionam-me pela lucidez, inteligência e elevado grau de conhecimento das cousas do mundo. São pessoas por quem nutro estima e consideração. Depois atiram-me com tamanhas pedradas. Quando me lembro, recorro à água da paz, mesmo que imaginária. E, enquanto aguardo que a flama que em mim se encendeia se apazigue e procuro a síntese nos meus argumentos, compreendo que ser homossexual continua, hoje, a ser uma prova e uma expiação. Não pela homossexualidade em si mas pela marginalização a que o indivíduo se sujeita.
Ainda não se compreendeu que a sexualidade, seja qual for a sua forma de expressão, é neutra. O ser humano e a sua tendência para medir, pesar, etiquetar e complicar, é que a torna boa ou má. Por isso, invariavelmente triste, derrotada e sem esperança, engulo a água da paz e, com ela, os contra-argumentos lapidados.
Sorrio como quem clama por tréguas
... e remeto-me ao silencio.

Sobre o direito à adopção por homossexuais, recomendo a leitura destes dois textos que se destacam pela perspicácia acutilante, pela clareza da exposição e pelo sarcasmo refinado que eu tanto aprecio:

«Parada da Paródia», assinado pelo André do Blog de Espiritismo

«O Pavão e os Direitos Humanos», da autoria do RockyBalbino d' A Voz das Retretes (Premium)



(Kinderen voor Kinderen song - Twee Vaders, pelo Terence)