terça-feira, 14 de abril de 2009

Mª Gambina, Queirós, Abrunhosa, Judite Sousa e a ralé

Foi um péssimo início. Anúncios repetidos ad nauseam nos meios de comunicação social, cartazes estrategicamente afixados pela cidade, à entrada e, obviamente, no interior das escolas. Era impossível ignorar. Pela quantidade, pelo tamanho e pelos rostos escolhidos. Carlos Queirós, Maria Gambina, Pedro Abrunhosa, Judite Sousa. Lembram-se? A primeira campanha de divulgação pecou porque infamemente contraditória e imoral.

1. Imoral porque:
- Promovia a criação de níveis de profissões: as dignas e as… outras (ou seja, os cidadãos e a ralé);
- Atestava como critério de dignificação a formação escolar;
- Desvalorizava e descredibilizava, assim, as profissões que carecem desse tipo de formação;
- Incentivava o refastelamento com o subsídio de desemprego pelos letrados como alternativa à vergonha de se aventurar no mundo da ralé que não concluiu os estudos (vender revistas, por exemplo);
- Agudizava o desprezo que alguns alunos nalgumas escolas fazem questão de concretizar em relação às responsáveis pela limpeza.
A acreditar no cartaz que para aqui repesquei, Judite Sousa não passaria de uma mera vendedorazita de revistas e de jornais se não tivesse investido na sua formação. Mais: o desinvestimento na formação parece vedar o alcance da ralé a um grande papel na sua área profissional.

2. Contraditória porque:
- Desprimorizava as aprendizagens não formais adquiridas ao longo da vida que, na verdade, a iniciativa Novas Oportunidades procura reconhecer;
- Insinuava a escola como passaporte para o êxito profissional;
- Não dava espaço para casos de sucesso irrefutável dos que não terminaram os estudos: Baptista-Bastos e Saramago entre outros;
- Desvalorizava o gosto pela aprendizagem per se, afunilando-a na caça ao diploma: aprender compensa porque permite a valorização profissional e nos salva da imundice da ralé em que o nosso país vive mergulhado…

De slumdog a slumdomillionaire...
... ou por outra... quase cidadãos, mas sempre metecos.

Imoralidades e contradições que não se esgotam na campanha publicitária.

Acá regressarei.


quinta-feira, 2 de abril de 2009

De Slumdog a Slumdog Millionaire

Podia eu, a propósito de Slumdog Millionaire, evocar as relíquias guardadas no baú da memória que tenho do país da terra vermelha e cheiro a açafrão. Adentrar pelas portas do intimismo e reconfigurar histórias das gerações que me antecederam. Ou podia delinear um esboço mais impessoal, exercitar o registo intelectual e seguir o trilho d' As Outras Índias, por onde se demora agora o bonito guardador de sonhos, vulgo Constantino Xavier. Podia, não fosse o mero e simples pormenor de não me ter saído das ideias a relação inequívoca entre a realidade do filme e a ficção do panorama educativo português concretizado numa coisa, perdão, iniciativa, a que, como que um ultimatum, se convencionou chamar de Novas Oportunidades ou, para ser mais precisa, no processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC).
Acredito genuinamente e sem qualquer ironia na força motriz que inspirou tamanha iniciativa. Uma força humanista que procura alternativas à formação dos portugueses e reconhece as aprendizagens efectuadas ao longo da vida. Foi assim que Jamal Malika, que não acabou os estudos, passou de um mero chaiwalla a um... reformulo: de um mero slumdog a um respeitado slumdog millionaire. E que uma leitura atenta desta reformulação me poupe a esclarecimentos desnecessários.
Acredito, repito, na força geradora subjacente à criação da iniciativa. Como acredito na força corrosiva que a implementou, subjugando-a a critérios político-economicistas. O cidadão passou a número e o humanismo a estatística. Corroboro-me com as palavras subscritas pelo próprio PM. E recordo a primeira campanha de divulgação do programa "Novas Oportunidades". E mantenho-me na minha quando afirmo que reconhecimento, validação e certificação de saberes e competências adquiridos ao longo da vida não podem, não devem, nem precisam de encontrar correspondência aos níveis de escolaridade definidos no ensino regular. Porque se podem, se devem e ou se precisam, então que a fantasmagoria da correspondência se condense num corpo mais físico e se sustentem pontes entre programas e referenciais, e tudo o que lá vem incluído: objectivos, competências, critérios de evidência... por aí adiante.

Voltarei a este assunto, com a Judite Sousa que, graças a sabe-se lá quem, não se tornou numa mera vendedora de revistas e jornais...

(Agora sim, fui irónica)