terça-feira, 30 de junho de 2009

Aos meus rapazes

Aqui deixo as palavras comovidas de quem com pesar se vê aproximar o final de um ano lectivo. Não de mais um ano lectivo, mas de o melhor da minha experiência de uma década como professora. Em parte, por causa destes meus rapazes, com quem tive o privilégio de privar inter e extra sala de aula.
Sabemos, todos, que não foi fácil falar de Vieira, nem de Garrett. Mas falámos. E vimos da actualidade daqueles cujas obras valerosas se foram da lei da Morte libertando.
Sabemos, todos, que não foi fácil seguir Manoel de Oliveira ou João Botelho. Mas seguimos. E vimos como Cinema e Literatura e as outras artes se cruzam e com elas a nossa vida.
Sabemos, todos, que não foi fácil trabalhar. Mas trabalhámos.
Sabemos, todos, sem mas nem poréns, dos afectos, da cumplicidade, da autenticidade que se cultivou entre nós. E do charme com que sempre nos brindámos, pois então.
A todos vós agradeço as gentilezas, as transparências, os risos, a paciência para as minhas filosofias e os meus amuos e as minhas injustiças e as palermices de quem é humana, com a agravante de ser mulher.
A todos vós agradeço a maturidade com que arrumaram as infantilidades nas alturas devidas e me comprovaram que é sempre pelos afectos que o mundo avança, gira e evolui.
A todos vós agradeço a lufada com que oxigenaram as minhas vacilações e me fizeram compreender que ser Professora é a única profissão que eu poderia abraçar de alma e coração.

Todos vós, e cada um em especial, pelas luzes e pelas cores com que me brindaram, habitarão esta minha memória que habita o coração.

A vossa professorinha,
Denise


Os dezanove rapazes, entre os 17 e os 22 anos, gostaram desta carta.
12º ano - CEF T5 - Técnico de Instalações Eléctricas

segunda-feira, 29 de junho de 2009

festivalmed (III)

caracóis picantes e sangria e waffle com gelado de pistaccio e chá verde e branco e vermelho e incenso e dancei e pulei e cantei e estou rouca

festivalmed (II)



La Notte della Taranta/feat. Stewart Copeland
Ensemble Bash
Raiz
Stewart Copeland

Não faz jus ao que vi e ouvi.
Faz tum-tum, acelerado, como o meu coração.

festivalmed (I)



Rokia Traore

Ao vivo, no último dia do
festivalmed2009 (Festival do Mediterrâneo - World Music).
Fiquei fã.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Piquenique

Parque das Nações. Relva. Sol. Fruta. Sumos. Sombras. Água. Azul.
Dez anos passados, reencontramo-nos. Casadas, enamoradas, divorciadas, solteironas, com prole, sem prole. A verdade é que estamos todas na mesma. Até eu, apesar de ter passado dos quarenta para os quarenta e oito quilos. Pronto, está bem, quarenta e oito vírgula seis. Dez anos que nos distanciam do final do estágio. Que nos aproximam do que éramos. Do que, afinal, ainda somos.
As malvadas que maliciosamente me aceleram a pulsação com as referências propositadas ao FCM; a Nath que recorda as minhas trocas do creme de rosto com a pasta de dentes; a Gorete que lembra as inumeráveis vezes que deixei de comer pa
ra poupar dinheiro para os livros; a Elisabete que ainda me chama de Formiguinha; e a Sónia e a Dulce e a Paula e a Sandra e a Mónica. Todas elas continuam um espanto. Radiantes. Luminosas. E todas e todos os que não vieram, porque a memória é incorruptível, mágica, criadora. Ficaram as saudades da Faculdade. E eu fiquei com Lisboa em mim.








segunda-feira, 22 de junho de 2009

Como que Dorothy ou "There's no place like home"



Implicatura

Ele: ... do ponto de vista fenomenológico, vocês (gajas) são interessantes...
Eu: Ainda me hás-de dar conta das tuas conclusões...
Ele: Daria um relatório de milhares de páginas.
Eu: Não brinques, que são vocês (gajos) quem vive noutro planeta.
Ele: Sim, sim...
Eu: ... blá blá blá blá blá e eles, embasbacados, a perguntarem-se o que fazíamos. O paparazzo de serviço não resistiu a uma série de flashes...
Ele: Uau! Imagino! Tu até és fotogénica...

Até.

sábado, 20 de junho de 2009

Letra F

Ele: Houve uma miúda de quem gostei muito. Muito mesmo.
Eu: É bom gostar...
Ele: Foi muito intenso. E ela também gostava de mim. ...Tivemos uma coisa.... falta-me a palavra.... Começa por F....
Eu: Foda?

Engasga-se incrédulo.
Ele: Tu achas?! Tu achas?! Foi platónico pá... ... Já sei: flirt. Tivemos um flirt. Olharmos um para outro e suspirarmos, estás a ver? Um flirt.

Não me desmancho:
Eu: Gostavas dela...
Ele: Sim. Muito.
Eu: ... e ela de ti...
Ele: Sim.
Eu: F de flirt; de foda não...
Ele: Claro que não!
Eu: Parvo.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Advérbio de modo

Eu: ... blá blá blá, tanto sou uma fidalga como estou numa taberna.
Ele: Tu? Numa taberna? Hum... Não me parece...
Eu: Pronto. Tasca. Taberninha.
Ele: Nem isso. Tu és mesmo a típica lady que se nota a milhas...
Eu: Sou arraçada. Já fui cortejada por mulheres.
Ele: E por que não? És suficientemente gira para isso.

Suficientemente.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Adversativa

Ela: É a Denise.
Ele: És indiana, não és?
Eu: Sou,pois. Sou de...
Ela: Sim, sim! Ela é indiana, mas é muito querida e muito boa gente!!!

Mas.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Lótus de Nanquim

Epíteto de coloração oriental que inventei e lhe atribuí por força do cristal das suas palavras e do efeito sugestão que se solta das imagens com que adorna o seu blogue.
Vim a saber que posou. Belo, convicto, explosivo e desarrumado, encontrei-o assim :

Estudo - LÓTUS 06 -2008
Nanquim e Bico de Pena sobre papel - 20 x 30 cm

(Um desenho de António Cláudio Massa.)

terça-feira, 16 de junho de 2009

David

8h00m. O primeiro tempo do início da semana. Teoria da Literatura com a Prof. Etelvina. Dia de teste de avaliação sumativa de final do último semestre da licenciatura. Chegou atrasada, com os olhos vermelhos, inchados, aguados. Que ao enunciado inicialmente previsto acrescentara algo em homenagem a. As lágrimas inundaram-lhe a voz. Emudecidos, chorámos o choro da nossa professora pelo seu professor. Poeta. Mestre. Amigo.
Anexado ao enunciado, uma folha rabiscada à pressa por uma mão trémula de saudade. Que deixássemos soltar o que nos aprouvesse escrever.
Aprumei-me. Que as minhas palavras e os meus silêncios lhe levassem uma papoula e um rouxinol.
Recebi 19 valores e o sorriso enxuto da certeza de que, pelas obras valerosas que nos legara, da lei da Morte ele era liberto.

Ars Poetica

Roubado à natureza o dossier secreto
Patente a analogia entre o fundo do poço
o rosto de Narciso o sangue do incesto

há-de tudo prender-se aereamente solto

Que o verbo seja um espelho Ao mesmo tempo um véu
Que não baste no lago a pureza do rosto

A lira é com certeza a mão esquerda de Orfeu
Mas é a mão direita a que revolve o lodo

David Mourão-Ferreira. Obra Poética 1948-1988,
Lisboa, Presença, 1988; p. 198

A nossa homenagem, hoje, 17 de Junho de 1996, a quem, também tendo sido Professor de Teoria da Literatura, a soube escrever em verso.
Que podemos nós "ensinar" ou dizer
depois das suas Palavras?


David Mourão-Ferreira partira na véspera,
a 16 de Junho de 1996.


segunda-feira, 15 de junho de 2009

Santo António casamenteiro

Santo António de Lisboa
Era um grande Pregador
Mas é por ser Santo António
Que as moças lhe têm amor.

Fernando Pessoa. Quadras ao Gosto Popular. Lisboa, Ática, 1965.

Post heptassilábico dedicado a mim e ao meu Lótus de Nanquim.

(Mangericos colhidos aqui)

Os peixes e Santo António



(Des Antonius von Padua Fischpredigt.
Mahler. Por Janet Baker. )

Antonius zur Predigt
Die Kirche find't ledig.
Er geht zu den Flüssen
und predigt den Fischen!
Sie schlag'n mit den Schwänzen,
Im Sonnenschein glänzen.
Die Karpfen mit Rogen
Sind all' hierher zogen,
Hab'n d'Mäuler aufrissen,
Sich Zuhör'ns beflissen.
Kein Predigt niemalen
Den Fischen so g'fallen!
Spitzgoschete Hechte,
Die immerzu fechten,
Sind eilends herschwommen,
Zu hören den Frommen!
Auch jene Phantasten,
Die immerzu fasten:
Die Stockfisch' ich meine,
Zur Predigt erscheinen.
Kein Predigt niemalen
Den Stockfisch' so g'fallen!
Gut Aale und Hausen,
Die vornehme schmausen,
Die selbst sich bequemen,
Die Predigt vernehmen!
Auch Krebse, Schildkroten,
Sonst langsame Boten,
Steigen eilig vom Grund,
Zu hören diesen Mund.
Kein Predigt niemalen
den Krebsen so g'fallen.
Fisch' große, Fisch' kleine,
Vornehm und gemeine,
Erheben die Köpfe
Wie verständ'ge Geschöpfe,
Auf Gottes Begehren
Die Predigt anhören.
Die Predigt geendet,
Ein jeder sich wendet,
Die Hechte bleiben Diebe,
Die Aale viel lieben.
Die Predigt hat g'fallen.
Sie bleiben wie allen.
Die Krebs' geh'n zurücke,
Die Stockfisch' bleib'n dicke,
Die Karpfen viel fressen,
die Predigt vergessen!
Die Predigt hat g'fallen.
Sie bleiben wie allen.

António, para o sermão,
Encontra a igreja vazia.
Vai para o rio
E prega aos peixes!
Todos dão à cauda,
Brilhando ao Sol.
As carpas, em cardume,
Vieram todas à uma.
Estão de boca aberta
A escutar com atenção.
Nunca um sermão
Agradou tanto aos peixes!
Os lúcios, de boca em bico,
Sempre a guerrear,
Nadaram velozes
Para ouvir o Santo!
Mesmo criaturas fantásticas,
Sempre de dieta,
Quero dizer, os bacalhaus,
Apareceram ao sermão.
Nunca um sermão
Agradou tanto aos bacalhaus!
Belas enguias e esturjões,
Que vão às festas finas,
Acomodam-se
Para ouvir o sermão.
Também caranguejos e tartarugas,
Lentos, de costume,
Sobem depressa do fundo
Para ouvir esta boca.
Nunca um sermão
Agradou tanto aos caranguejos!
Peixes grandes, peixes pequenos,
Nobres ou vulgares,
Erguem a cabeça
Como seres inteligentes,
Por vontade de Deus,
Para ouvir o sermão.
O sermão terminou,
Cada um vai à sua vida.
Os lúcios continuam ladrões,
As enguias fazem amor.
O sermão agradou,
Continuam como eram!
Os caranguejos recuam,
Os bacalhaus continuam gordos,
As carpas alarvam,
O sermão está esquecido.
O sermão agradou,
Continuam como eram!

Post pseudolixado (mas com tradução)
dedicado ao Francisco Uacou.

Santo António e os peixes

(...)

Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum santo tomou.
Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.
Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terrae: É muito bom texto para os outros santos doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra; Santo António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que, nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais que o são da minha doutrina, qualquer que ele seja tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra para emenda e reforma dos vícios que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.
Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles. Maria, quer dizer, Domina maris: «Senhora do mar»; e posto que o assunto seja tão desusado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria.

Padre António Vieira. Sermão de Santo António aos Peixes . 1654. (Excerto do Exórdio)

Post actual dedicado ao Marco,
também ele pregador das cousas do mundo.


(Azulejos da Nazaré. Fotografia de Dias dos Reis)

A Santo António


SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia -
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante. . . Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António!
Tu és tu. Tu és tu como nós te figuramos.
Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não consertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz,
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto; é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa?...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo? O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós.
O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas ou não-coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arroste
Na nora de erros duns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história.
Quem foste tu ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E, cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António
Isso sim.
Por que demónio
É que foram pregar contigo em santo?

9 -6 -1935

(Fernando Pessoa. Poesia 1931-1935 e não datada. Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006)

Post destituído de obviedades dedicado ao TUlinho de S. João.

13 de Junho de 1888: o regresso de D. Sebastião


No Terceiro Corpo das suas Profecias, o Bandarra anuncia o Regresso de D. Sebastião (pouco importa agora o que ele entende por esse «regresso» para um dos anos entre 1878 e 1888. Ora neste último ano (1888) deu-se em Portugal o acontecimento mais importante da sua vida nacional desde as descobertas; contudo, pela própria natureza do acontecimento, ele passou e tinha de passar inteiramente despercebido. Só a partir do actual ano («cerra os quarenta» diz o Bandarra) é que se pode começar a perceber o que foi e que importância teve. Mas (para dar uma opinião puramente pessoal) não creio que antes de uns dez anos, a contar de agora, o povo português venha a perceber do que se trata e da importância do caso. Então, ( e só então) se verá que estava certa a profecia do Bandarra.
Fernando Pessoa. Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional (Recolha de textos de Isabel Rocheta de Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa, Ática, 1978; p.174.

A manhã de nevoeiro. Por manhã entende-se o princípio de qualquer coisa nva – época, faz, ou coisa semelhante. Por nevoeiro entende-se que o desejado virá «encoberto»; qe, chegando ou chegado, se não perceberá que chegou. A primeira vinda, 1640, mostra isto bem: a data marca o princípio de uma dinastia, e a vinda de D. Sebastião foi «encoberta», foi através de nevoeiro, pois julgando todos – em virtude de sua simbologia primitiva – que o Encoberto era D. João IV, em verdade o Encoberto era o facto abstracto da Independência (…). Nas Segunda Vinda, em 1888, por pouco que possamos compreender, compreendemos contudo que a profecia tradicional se cumpre: sabemos que 1888 é «manhã», porque é o princípio do Reino do Sol – por onde se notará que melhor não pode haver para que se simbolize por «manhã» - , e, estando nós já a 37 anos dessa data, sem que ainda possamos compreender o que nela se deu, não pode haver dúvida do carácter encoberto, nevoento, da Vinda Segunda de D. Sebastião.
Idem; pp. 182-183

Fernando Pessoa nasceu em 1888. A 13 de Junho. Dia de Santo António.

Post dedicado ao Francisco,
o filósofo a quem urge redescobrir Pessoa.

sábado, 13 de junho de 2009

13 de Junho (7)



3 Dezembro 1944 - 13 Junho 1984

Post com um sorriso (e pouco siso) para o Toni.

13 de Junho (6)

10 Novembro 1913 - 13 Junho 2005

Post dedicado à resoluta resistente revolucionária Tia Adoptada.

13 de Junho (5)


e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares)
11 Janeiro 1948 - 13 Junho 1997

Post dedicado ao Manu, na outra margem.

13 de Junho (4)



(«Fado do Estudante», in A Canção de Lisboa, de José Cottinelli Telmo. 1933)

Vasco Santana
28 Janeiro 1898 - 13 Junho 1958

Post com Coimbra dedicado à doce Si.

13 de Junho (3)


13 Junho 1908 - 6 Março 1992

(Biblioteca.1949)

Post dedicado a Fräulein Else, borboleta vaporosa.

13 de Junho (2)


Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

19 Janeiro 1923 - 13 Junho 2005

Post saboroso dedicado ao Zé e ao Paulo.

13 de Junho (1)

Miyamoto Musashi, samurai japonês, 1584 - 13 Junho 1645

(Musashi matando um nue gigante, por Utagawa Kuniyoshi)

... post sem vaselina dedicado ao Guerrilheiro Maldonado.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Feliz

Sinto-me feliz. Muito feliz. Tremendamente feliz.
Sem quê nem por quê.
Com vontade de sair porta fora e bailar e cantar e beijar e abraçar o mundo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Exercício e imaginação em torno de um LN

Imaginemos, contudo, que busco e cultivo o amor e a paixão.
Imaginemos, também, que creio em tudo o que uma vidente afirma ver, entre as couves e os bróculos do Mercado Municipal de Portimão.
Imaginemos, por fim, que aprecio os ainda não isentos de imbérberies.

Lótus de Nanquim é moçoilo.
Lótus de Nanquim respira arte.
Lótus de Nanquim tem audio-leitura ultra-raio-X.
Lótus de Nanquim escreve bonito.

Lótus de Nanquim, independentemente de hetero, homo, trans ou bi acaba de ser acusado, julgado e condenado a ser o homem da minha ciber-fantasmagórica-e-autoficcionada vida.

Comecem os doze trabalhos que os meus caprichos tratarão de ditar.
Da viagem que o meu LN anuncia para breve, quero dança e quero cor:





E eu, qual Penélope aguardando o seu Ulisses, prometo não me comportar assim:

Contextualizando: intróito ao que vem a seguir

Tento uma abordagem à Cesário Verde ou à Arcimboldo. Debalde. No novo mercado municipal, as frutas, os legumes, as cores e os cheiros e os sabores e as vozes de quem vende e de quem compra alinham-se numa ordem plastificadamente asséptica. Atenta ao brilho rubro das cerejas da D. Luísa e à carnuda frescura das ameixas do Sr. António, olho, também, para a talhada sumarenta da melancia com que o petiz da banca ao lado sofregamente se sacia. Não há frutas pisadas, nem o pequeno permite que o sumo lhe escorra pelos queixos abaixo. Deixo-me embalar pelo lamento de que há autenticidades a exigirem regresso.
A moça de ganchinhos aproxima-se com um sorriso titubeante.
- Está mais magra…
Vasculho os cantinhos da memória enquanto lhe explico que a roupa preta cria a ilusão com que por vezes gosto de me vestir. Entre dois risinhos, pronuncia-me o nome, com o charme irresistível do sotaque francês. Reconheço-a. Precipito-me na confirmação do charmoso das ciências e dos livros a quem me permiti cobrir de transparências, entusiasmos e intensidades. Ela segura o meu ímpeto e impede que o arrebatamento se vista de palavras. Incompreensivelmente diz saber que eu já saí de casa e que o velhaco que fodeu e fugiu fora apenas um rebuçado de Verão pois que homem mais sério se vislumbra no horizonte...
Incredulizo-a: que aguardo o regresso do Godot para um chá com sabor a café.
Mas não resisto a espreitar o horizonte que ela, do cume do seu montículo, já enxerga.
Um homem sensível votado às artes.
Retorno ao ex a quem estilhacei a vida e a alma?!
Que não, mais novo. Mais novo que eu.
O homem da minha vida.

Resguardo-me em silêncio.
(a moça dos ganchinhos desconhece que apenas considero homens os nados antes de mim e que, irremediavelmente roto, o meu coração está trancado, amordaçado e finado numa inviolável caixa de chumbo negro)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Por acá

A minha mãe anda a cuscar o Rabiscos e Garatujas.
Cabra.

Já não basta a confusão que é nestas alturas de calor com fim-de-semana prolongado, a Tânia não-sei-do-quantos veio fazer o programa a Portimão.
Cabra.

As praias estão entupidas de gajas giras de bi e monoquinis.
Cabras.

Acho que vou ao cinema estupidificar-me um bocadinho.
Até já.

De mim para mim

(com direito a borboletinhas e florinhas e passarinhos e arco-íris)


(Le Papillon, de Philippe Muyl. 2002.)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Para o André

... que um dia se comoveu com este texto de Baptista-Bastos.
O resultado fica sempre aquém do que desejamos, mas garanto que me esforcei.
Um mimo de viva voz para este amigo querido a quem pertence, por inteiro, o mês de Junho.

(«A respiração da Terra» de Baptista-Bastos por Deniblog. 2009)

Respiração da Terra

Leio num jornal: segundo hipótese formulada pelo geoquímico soviético V. Z. Fourzov, as zonas de fendas profundas, em que se circunscrevem os sismos, são por onde a Terra respira.
A Terra, portanto, respira: um corpo orgânico, vivo e honrado muito antes do pecado original, a justificar o movimento triádico que a ciência descobriu, para explicar a Terra explicando o homem. A Terra, portanto, respira: resistiu à maldição do Genesis, resistiu às sete pragas e aos fogos-de-santelmo; resistiu aos que quiseram implantar, na sua nudez habitada, a ordem dos mil anos, dos que fizeram patear nos seus seios os cavalos de todos os apocalipses. Resistiu a Terra, ainda, ao fértil rancor dos desamados, ao êxtase dos que amaram sem perdão, às arestas do ódio, às implorações patéticas dos que se julgavam imortais e a desprezaram e a esventraram com bombas e só ela invocaram no remate dos seus dias inúteis. A Terra resistiu, também, às efemérides que os homens laboriosamente edificaram para a sua própria glória e ao medo dos homens sem glória; e ao sofrimento e à devastação, à afronta, à ofensa, à injúria. Respirando, a Terra resistiu à fúria dos Invernos e tornou-a impotente na viragem do solstício. Porque na dor foi incubada, porque na dor consubstanciou todas a dores, porque na dor jamais mentiu e foi ela, porque na dor amou – a Terra respira. Porque dela viemos, porque nela vivemos, porque dela seremos tomados, porque dela aprendemos o recado – resistimos, respiramos. Porque somos homens. Porque a Terra é nossa.

«Porção seca», chama-lhe o redactor bíblico nessa bela e rigorosa reportagem dos dias da Criação. Só o que não é belo nem rigoroso é o adjectivo seco – eis um vocábulo melancólico, inerte, impróprio para definir a seiva que a Terra exsuda, a frescura da continuidade que sugere, o húmus sensual da vida: o vitorioso clarim sobre a morte.
Sabe-se muito da Terra. Ignora-se, porém, se ela possui coração, e se esse coração existe onde ele existe. Não sou homem muito ilustrado; sou um vago senhor português, crédulo e triste, que faz um peso absurdo sobre a Terra. Bem gostaria de ser informado acerca desse mistério, pois creio, do fundo das minhas reminiscências, que em qualquer paragem, talvez incrustado em rochas ou coberto de pedras, sob o asfalto ou oculto no subsolo das metrópoles – existe um desconhecido coração. Um coração permanentemente rejuvenescido, num corpo orgânico, vivo e honrado – dentro do qual, um dia, poderá repousar o pobre coração do Bastos.

Baptista-Bastos, «Respiração da Terra», in Cidade Diária, Lisboa, Editorial Futura, 1972; pp. 81-83

segunda-feira, 8 de junho de 2009

É-me

De cabelos prata-luar e olhos ora céu ora mar, sorri-me como que poema a tinta-da-china na pétala de uma flor.

sábado, 6 de junho de 2009

Pôxas!

Eu e a minha azelhice abrimos o painel do RG para excluir alguns rascunhos que têm sido indevidamente guardados.
Eu e a minha azelhice excluímos os rascunhos, mas também um texto recente com os respectivos comentários.
Eu e a minha azelhice somos mesmo muito parvas.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A chave da vida

Eu e os Manelinhos vimos, gostámos e recomendamos.


(Millennium Actress, de Satoshi Kon. 2001)
Temo ter visto um reflexo da vida de que tenho procurado fugir.
... em demanda de uma sombra.