quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2009

Foi, para mim, o ano que findou um ano muito bom.
Foi o ano em que venci a minha primeira depressão, muito tonta e muito feia, que me deixou literalmente parada a cultivar esperanças áridas e que me atirou para os abismos da apatia.
Foi o ano em que fiquei colocada logo a 1 de Setembro, com horário completo, no grupo disciplinar que prefiro e na escola da minha eleição.
Foi o ano em que sedimentei uma amizade muito bonita com aqueles que são hoje os meus dois paladinos.
Foi o ano em que fui agraciada com o sorriso em directo da Celeste, do Rocky Balbino, do André, do Mário e do Toni.
Foi o ano em que tive o privilégio da companhia virtual do Maldonado nalgumas noites propositadamente mais longas.
Foi o ano em que, depois de ter selado votos de castidade eterna, de ter proibido o palpitar do meu coração para todo o sempre e de ter trancado as portinholas ao Amor, me deixei embalar pelo olhar sorridente de um menino muito doce.
Foi o ano em que redescobri a capacidade de me emocionar ao ouvir uma ária de Handel.
Foi o ano em que recuperei a minha alegria original.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Pai Natal

Nunca senti grandes ondas de entusiasmo com a figura do Pai Natal, nem com a árvore de Natal, nem com luzinhas de Natal, nem com nada de Natal...
... à excepção do presépio. Talvez porque desse para criar histórias infindáveis com os bonequinhos de barro. Talvez porque a mãe me deixasse colocar musgo verdadeiro que eu ia encontrar perto de pedras onde também encontrava minhocas e outros bichos. Acocorada, demorava-me com o cheiro da terra húmida que inundava prazeirosamente cada poro meu.
Sempre vi no Natal uma essência espiritual. Por isso, ansiava pela hora da Missa do Galo, onde se celebrava algo que para mim fazia muito mais sentido. E assim foi durante muito tempo.
Depois deixei-me disso.
E depois casei.
E depois fui mãe. E surgiu o dilema do Pai Natal versus Menino Jesus. Ora, eu não curtia nem uma coisa nem outra, porque se um é mera ficção, o outro não é menino há mais de 2000 anos. Arrolou-se ao dilema a realidade das toneladas de prendas que escandalosamente duas crianças conseguem receber e a eterna questão do merecimento e injustiça social.
Neste aspecto, como em muitos, o C e eu afinizámo-nos e do dilema se criou uma estranha filosofia que timidamente foi destronando um imaginário desde muito cedo problematizado pelos meninos. Por que motivo vinham as pessoas entregar as prendas? Não é essa a tarefa do Pai Natal? E como fazia o Pai Natal para distribuir as prendas a todos os meninos ao mesmo tempo, meia-noite, em todo o mundo? E por que razão não poderiam eles aproveitar para formular pedidos de brinquedos caros que a mamã e o papá nunca conseguiriam comprar? O que acontecia, talvez, é que as pessoas que gostavam dos meninos faziam as suas encomendas ao Pai Natal e a ele compravam, com o seu dinheiro, aquilo que podiam e queriam ofertar. Uma hipótese... Por isso assim, tantos meninos que, por muito bem que se comportem, no Natal não recebem um único brinquedo. E Jesus, que faz ele para além de nascer? Provavelmente, se ao Pai Natal cabe a distribuição das prendas que o dinheiro consegue comprar, a Jesus, ou a quem em nome dele trabalha por aí, visível ou não, caberão as dádivas espirituais. E aqui entra a história do livre-arbítrio que só de há dois anos para cá consegui começar a explicar.
O que eu gostaria que os meus filhos retivessem é que, para além de ser um dia que convide a um vestuário especial, o Natal é um dia que nos convida a ver como andamos vestidos por dentro; que, para além de ser um dia de iguarias que nos deliciam o olfacto e o paladar, o Natal é um dia que nos faz pensar se temos alimentado devidamente a alma; que, para além de ser um dia da família que os laços de sangue conseguem unir, o Natal é um dia que nos lembra que há uma família maior, complicada, mas à qual pertencemos e que com o nosso quinhão de amor poderemos tornar muito mais bela e unida; que, para além de ser um dia cheio de luzes e de cores, o Natal é um dia que nos mostra que todos os dias poderiam ser assim. E esse é um desafio, difícil, que temos perante nós, toda e cada vez que acordamos para um novo dia.


... mas eu sou uma pessoa estranha e é com pesar que a família lamenta o meu acentuado estado de loucura e teme pela integridade psíquica dos Manelinhos....

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Abraço

Estou triste disse-lhe eu um dia assim triste como perguntou e os seus olhos redobraram-se de atenções para comigo estou triste sinto falta de miminhos de colo de um abraço
Então, ele rasgou um sorriso e abriu assim muito o braço direito e, com o esquerdo, puxou-me com firmeza e fechou-os em meu redor num abraço morno e demorado
Este meu amigo é do norte, lê-me o olhar e é como que o mano mais velho que eu sempre sonhei ter.
Sinto saudades...

(Regressa com o início do 2º período. Falta pouco)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Neve













(Adivinhem por onde andámos esta manhã)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Prece

É dia de festa. E um dia de festa é sempre diferente. Escolhemos umas roupas mais bonitas e todos acham bem. Dispomos a mesa de iguarias que não são habituais no quotidiano e todos acham bem. Há muitos doces, muitas velas, muitas cores, muita alegria. E todos acham bem. Há até brindes. Um pela saúde, outro pelas crianças, há quem se lembre do Pai Natal e das muitas prendas que lhe cabe trazer num trenó mágico. Um dos gémeos também quer brindar. Dão-lhe voz. O seu tchim-tchim é para o aniversariante. Mas é brinde de criança e já estão todos virados para o bacalhau da tradição, colorido pelo reflexo da árvore iluminada. Há alegria. Boa-disposição. A felicidade de se estar em família. Há presentes que nunca mais acabam. Papéis de embrulho, laços e brinquedos embaralhados com o histerismo dos mais pequenos. Como manda a tradição. E para dois ou três há até a Missa do Galo. E todos acham bem. É meia-noite e meia. Os gémeos sentem sono e pedem-me que os acompanhe à cama. E eu peço que nos dêem cinco minutos sozinhos. Concedem-nos. Meninos adormecidos, perguntam-me o que de tão secreto fizemos os três. E eu explico que de secreto não houve nada, que apenas carecíamos de silêncio e concentração para uma prece que nessa noite dirigimos a Jesus. Fazem um esgar desconfortável e em nítidas tonalidades de censura interrogam-me sobre o motivo por que os envolvo nessas coisas. Ocorre-me perguntar-lhes o que se celebra então no Natal e se é bonito fazer uma festa sem ao menos cumprimentar o aniversariante. Mas não no faço. Encolho os ombros e suspiro.

(Hoje, as crianças ditas católicas foram à missa da manhã. E todos acharam muito bem.)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.

Miguel Torga, 1948


Que a magia do amor do aniversariante nos toque o coração e que este dia se faça presente em todos os dias.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Auto-retrato

Desafiou-me o Magnífico Gino para um auto-retrato a postar aqui no RG.
Tempos idos, blogue encerrado, regras perdidas.
Alinho-me nestes trejeitos, pois que sou Deniblog, ou seja, ...

1. Polissíndeto. Apreciadora de anéis e elos e laços e cópulas e copulativas.

2. Assíndeto. Sugestiva. Lacónica. Lapidar.

3. Paradoxo. Em constante contradição. Criadora de labirintos, fazedora de percursos, em constante fuga de possíveis, hipotéticas e eventuais saídas.

4. Sinestesia. Aglomeradora dos sentidos que se conhecem e daqueles que eu invento. Percursora do tacto nas palavras e fiel seguidora do culto do aroma com que se enfeita o Verbo especular e especulativo. Explosiva com o efeito fusão.

5. Onomatopeia. Porque na minha escrita se espelha o mundo.

6. Disfemismo. Crua, nua e assumidamente bruta. Pedra. Pomes.

7. Alegoria, porque sou tantas em mim e tão sucessivamente. Porque sou. Sem dizer que sou. Porque não sou como nem menos nem mais. Sem graus. Sem sufixos. E concilio em mim os campos semânticos possíveis, impossíveis e, ainda, todos aqueles que se queiram criar.

8. Hipérbole, tudo ampliadíssimo, em grande escala e orgasmática quando em intersecções com assíndotas assim-tontas de estirpe elevada. Íssima.

9. Ironia, auto-ironia, mestria em trompe-l'oeil, devota do acto comunicativo e iniciada nos rituais da provocação. Com variantes e variações vertiginosas.

10. Autoficção, história de mim em flocos de estórias múltiplas. No ruído e no silêncio. Em escrita, em áudio, em imagem, em fotografia. Construção abissal em espiral infindável.



Que me aceitem este desafio:


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Regresso

Perdoem-me os amigos e as amigas a ausência demorada com que os abandonei, mas, imaginem só!, que, à excepção das toneladas de trabalho que um Centro de Novas Oportunidades consegue exigir, descobri que existe vida para além da blogo!