sábado, 19 de junho de 2010

Infidelidade?

Deixo Saramago para outro dia qualquer que qualquer outro dia é sempre muito bom para Saramago. Impõe-se agora, contudo, assunto diverso que ocupa a ordem dos dias da Deniblog. O tema é infidelidade e eu ando tremendamente baralhada, confusa, entupida. Em crise.
Conceituo a palavra como a quebra de um pacto, de um compromisso, à revelia da pessoa com quem se estabeleceu esse compromisso. No caso, de fidelidade.
À infidelidade praticada no seio de um relacionamento amoroso, íntimo, dá-se o nome de adultério. É esse tipo de infidelidade que me urge hoje clarificar.

Ensinou-me um amigo meu a distinção entre fidelidade e lealdade, assumindo-se um adepto convicto do segundo conceito. É esse o seu compromisso com quem se relaciona. Estar com quem quer estar e assegurar à pessoa com quem está que é precisamente com essa pessoa que nesse momento deseja estar. Não estar com quem no momento não deseja estar. Uma questão de honestidade, portanto, em contraponto com as pessoas que, estando com quem estão, têm na cabeça as pessoas com quem não estão e gostariam de estar. Fidelidade desleal. Conformismo. Um frete. ... Havendo, com certeza, e sempre, a possibilidade de se harmonizar fidelidade e lealdade. O ideal. Que existe. E que a grande maioria de nós almeja.

Tem-me ensinado a vida que há mais tonalidades que o preto e que o branco. No assunto que aqui abordo (como em muitos outros, reconheço), tenho vindo a descobrir uma série de variantes que me têm dado algum trabalho. É que pensar cansa. E às vezes não se aporta a conclusão nenhuma. Exercícios eventualmente estéreis. Admito. Mas se se coloca a hipótese de se arrolarem questões morais, talvez o esforço seja meritório. Para que se perceba em que medida uma acção de X e Y interfere com Z e, se se aceitarem derivas cármicas, com os próprios X e Y. Se o limite da liberdade de cada um se baliza no limite da liberdade de cada outro, como distinguir limite de vontade e vontade de legitimidade? Ou por outra, se há histórias onde a fidelidade e a infidelidade se escancaram, outras há cujas especificidades onde estas noções de movimentam são pantanosas.

Amáveis, os leitores do RG, dirão certamente quais das alíneas que passo a apresentar ilustram comportamentos de infidelidade e, porque também me interessa, de imoralidade (em directa ou indirecta articulação com o tema em debate).

1. Embora sem paixão nem amor, A assume relação monogâmica com B. Monogâmica e morna. A conhece C. A envolve-se com C . A oculta a B a experiência que viveu com C. A mantém a relação com B. C sente-se a maior bovina de toda a história da humanidade.

2. A assume relação aberta com B. A conhece C. A envolve-se com C. B sabe que A se envolve com terceiros sem necessariamente saber se é com C, se com D, se com H. A mantém a relação com B. C não sabe se está a ter comportamentos bovinos.

3. A envolve-se com B, sem assumir qualquer tipo de relação. O acto sexual pode ser episódico, circunstancial, ocasional, pode ser sempre o último. A conhece C. A envolve-se com C sem nunca colocar de lado a possibilidade de continuar a se envolver com B. C não sabe se está a ter comportamentos bovinos.

4. A assume relação com B sem a cláusula da monogamia por se saber incapaz de a cumprir. B dedica-se monogamicamente a A. B sabe, lamentando, que A não lhe retribui a exclusividade. A, até então amicíssimo de C, aproxima-se de C. A envolve-se com C sem assumir qualquer tipo de relação a não ser a da amizade. A mantém a relação com B e com B delineia um projecto de vida na esperança de um dia conseguir estabelecer um compromisso de fidelidade com B. C não sabe se está a ser a maior bovina de toda a história da humanidade.

17 comentários:

pinguim disse...

Dos melhores textos que já li, dos muitos bons que aqui tens publicado.
O eterno debate do que é realmente a infidelidade é por demais conhecido e tem variadíssimas forma, como tu própria exemplificas.
Eu sempre preferi a palavra lealdade a fidelidade, mas tenho vindo a evoluir, com o aprofundar de uma coisa maravilhosa que se chama amor, que fidelidade e lealdade tendem a ser uma única coisa.

Fizeste bem em não te misturares com a multidão e guardar Saramago para outra ocasião.

RockyBalbino disse...

In Guinness Veritas.

Denise disse...

Ei, Rocky, Guinness = cerveja?


Sim,Pinguim, o Amor... o Amor... e, entretanto, das alíneas do post onde encontras casos de infidelidade ou comportamento censurável?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Gostei da tua abordagem do tema da infidelidade: vou pensar porque ando com muita preguiça. Faz conta no facebook. :)

Denise disse...

Já te adicionei como friend, mas não sou assídua no FB...

confra-ria disse...

A,B,C,H....Infidelidade/fidelidade/lealdade.Isto é uma geometria complicada ,um triangulo (deve ser o das Bermudas...)cujos lados são desiguais mas ao mesmo tempo complementares.Equilatero onde todos são iguais???Não me parece,Isoceles???Tambem não.Escaleno onde todos são diferentes....pourquoi pas?Infidelidade,fidelidade,lealdade. Desigualdade triangular cujo comprimento de qualquer lado é menor que a soma dos dois outros,mas tambem se verifica que o comprimento de qualquer lado é maior que a diferença entre os comprimentos dos outros dois.Qualquer que seja o lado onde se medem sentimentos os ângulos são sempre dificeis de perspectivar.
Bovinos ou caprinos é sempre dificil de dec(h)ifrar...ah!ah!
Muitas fidelidades ,oh! Felicidades queria eu dizer.
BJOS MANU

T disse...

Quer parecer-me que o A tem que se definir.
Quer tambem parecer-me que as letras do alfabeto são muito mais extensas do que as que apresentas.

Fidelidade ou lealdade.....quanto a mim, uma questão de palavras para designar a mesma coisa, embora que as palavras sejam de sentidos diferentes entre si.

Verdade é que A tem relação com B.
Também é verdade que A quer (desculpa o termo) papar B e C. Neste caso, C tem que ver se concorda com as regras do jogo. Tem que confrontar, de forma séria e em nome de uma amizade que supostamente haverá, o A.

Na minha opinião, a situação de haver um relacionamento assumido, ou não, entre A e B, é problema deles. Penso que C deve estar à margem, e não deve alinhar no envolvimento.
Quer tambem parecer-me que ambos, A e C, querem apenas ter momentos curtidos. Se assim é, porque C não tem um Z para isso?

Infidelidade? -Não sei.
Desonestidade? -Pode ser.
Está errado? -Aposto que sim.

No entanto somos homens e mulheres, e é muito fácil mandar larachas quando estamos de fora, pois como se costuma dizer, todos temos telhados de vidro.

Bjs

RockyBalbino disse...

Sim:

Guiness = Cerveja :)

Umas Guinness, o relento da noite, uma skazada, e uma noite de sono, comigo costuma funcionar. Acho que esse tipo de respostas são como as borboletas; quanto mais a gente as persegue mais elas nos fogem, e vice-versa.

Os Romanos não eram parvos :)

RB

GiGi disse...

O assunto infidelidade é mais complexo do que se imagina. Eu não arrisco qualquer palpite!

Acaso vc me adicionou no Face?

Francisco disse...

Parabéns pelo magnifico texto.

Quanto ao resto, tenho uma opinião sim... mas só para contrariar não a vou deixar aqui :)

Francisco disse...

Como bom taralhouco que sou, esqueci-me de colocar o pisco para receber as respostas por email, vai daí que este segundo comentário é para isso mesmo!!

Mar disse...

Bem, não me atrevo a dizer nada a não ser que a monogamia por vezes é uma treta.

Maldonado disse...

Ganda nóia!
Isto parece um caso prático de Direito... :))))
Ainda estou atordoado com tanta mistura de personagens...

pinguim disse...

Em relação à tua pergunta, apenas na 1.

uma tia, de passagem disse...

desculpar-me-ão os e as restantes comensais, mas entro sem lhes ler as ementas. Nada de pessoal - só sono e preguiça.
Que me desculpe a estalajadeira mas, embora tenha convidado à mesa apenas o género masculino (eh!eh!eh!), também vou opinar.
1º Essa do bovina é para insultar a espécie? Acho mal. Mais respeitinho pela diferença. As vacas e os touros e os bois também têm direito à dignidade.
2º Que se aproxime de bovino, no que li, apenas encontro B (pelo menos, é a letra inicial de bovino)

3º A fidelidade é para os cães - por isso, prefiro os gatos

4º Se tivesse de escolher viver um dos papéis, escolheria o de C. SEM SOMBRA DE DÚVIDA.

5º Era bom que deixassem de convencer as mulheres que a maior felicidade é ter um marido, seja a que preço for. Ele há tanta outra coisa boa para ter. Boa disposição, poe exemplo. Mas B, de tão ocupada em atar A, nunca poderá saber isso.

6º Ninguém é de ninguém. Mas é bom quando as pessoas escolhem mutuamente a companhia.

7º se sexo tivesse de rimar sempre com afecto, não se vendiam vibradores.

8º O que posso achar mal é que sejas desleal para contigo.

9º Isto nada tem a haver com a moral - é mera moralina...

a tal, de passagem disse...

p.s. em todos os casos, A parece-me inicial de androide

Zoninho disse...

confesso-me baralhado com tantas variantes; e se há tantas cambiantes... personagens e situações...


abraços!