sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Outono

Quando os fui buscar à escola, fizeram questão de me confrontar com um mito alimentar que muito jeito tem dado à preguicite de que padeço à noitinha. E, com recurso à voz popular para consolidar a minha autoridade, assim me tenho permitido a um gozo íntimo e muito caprino perante a credulidade inocente de quem confia em nós.
Laranja a esta hora?! Ah, não! Pois que de dia é ouro, à tarde é prata e à noite, zás!, mata!
Eis como me tenho governado nos últimos nove anos. Sem grandes justificações nunca foi necessário impor. A minha palavra tem servido de dura lex sed lex. Por eles assim assumida e sem grandes questionamentos.
Até ao dia em que a senhora especialista em alimentação, com uma profissão de nome complicado e muito comprido...
- Nutricionista...
Admiram-se de como sei tanta coisa, de como, mesmo sem lá ter estado, saber logo, assim de repente, só com aquela pista, o nome da profissão da senhora.
Até que um dia, essa senhora, que é uma doutora, das melhores do Algarve, e que trabalha no hospital deste cantinho do Algarve, foi à escola do 2º ciclo, dos meninos grandes, e a turma do 4º ano foi lá assistir à conferência onde ela explicou algumas coisas muito interessantes sobre os alimentos.
- E como é que sabem que é a melhor do Algarve?
- A professora disse.
- E como é que a professora sabe? Conhece todas as nutricionistas do Algarve? E mesmo que conhecesse, como pode saber que é a melhor? Como se sabe que se é a melhor?
Calam-se. Percebem o carácter retórico da catadupa das perguntas que enxorrilhei sem pestanejar.
- E no meio disto tudo como é que entra a história da laranja?
Que houvera um espaço para questões e que eles...
- Ousaram questionar o meu saber sobre o assunto, é o que é...
Esta é outra táctica de mãe, maravilhosa e de gozo supremo: a chicotada psicológica na baliza das emoções.
- Ela disse que a laranja não faz mal, que o fígado de algumas pessoas é que bla bla bla bla
- E como sabem vocês que era aquela senhora uma nutricionista? Se calhar era uma peça de teatro, daquelas modernas, interactivas.
Impacientam-se. Que podemos pesquisar na internet.
- E quem vos diz que essas informações na internet estão correctas? Nem tudo o que está na net está certo.
Silenciam. Uma fracção de segundos que me impede de saborear a maquiavélica vitória do que sei inadiável.
- Ó mamã... - a voz translucida uma doçura prudente.
- Ó mamã.... e quem nos diz que tu estás sempre certa?

Estes dois que se me ameaçam pré-adolescentes enchem-me de orgulho.
A queda do império matercentrista entrega os meus filhos ao esplendor da dimensão social e, uma a uma, caem as folhas com que se revestem as fases da experiência da maternidade.
Nesta minha vida caducifólia estou em vésperas de Outono.

... e sabe-me tão bem!...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Grave


Escandalosamente grave...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Modernices (II) - Sms

Sugestão de Monsieur: que eu passe pela sua casa, que iremos juntos, que levará o seu carro e a demoiselle ao almoço de cerimónia onde iremos ambos discursar.
Ao contrário do que em nome da tradição se sugere, a demoiselle fica uns bons vinte minutos à espera que Monsieur se decida quanto à camisa e ao casaco e ao perfume e...
Ao contrário do que em nome da gentileza se advoga, pede à demoiselle que leve o lixo para o contentor enquanto Monsieur termina a sua higiene oral.
Ao contrário do que em nome da discrição se exige, Monsieur olha a demoiselle dos pés à cabeça.
Enquanto conduz com a mão esquerda, maneja o telemóvel com a direita.
Irrito-me levemente. Manda-me calar.
O meu telemóvel acusa a recepção de uma mensagem.
É um sms. De Monsieur.
"Estás muito bonita"

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Jeremy Brett


(... sempre lhe achei muita piada.)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Francisco

Já perdi a conta de quantos blogues seus fui acompanhando e, mesmo que agora assine o Pseudobloguista, para mim continua a ser o fabuloso Uacou, cuja paixão pela informática o torna num admirável, imparável e incansável geek, em particularidades que espelham a sua tendência para as minudências do perfeccionismo.
Não nos recordamos dos pormenores que nos fizeram tropeçar um no outro. Navegávamos por mares comuns, algures entre o Felizes Juntos e A Voz das Retretes. Noutras marés, aportávamos em lugares de programas outros. Filosofia, ciência, estudo. Palermice também. Interesses comuns. Estava predestinado. Por isso, apesar de alguns desencontros que nos fintaram durante o ano que passou, o almoço que tivemos juntos seria uma questão de tempo. E o tempo fez-se hoje.
O Francisco é como o imaginei. Entre blogues e teclas no messenger e sms e emailes e uma foto aqui e outra ali e dois ou três telefonemas e uns quantos smileys e sopros provenientes de amigos comuns, fui compondo a imagem de um dos meus primeiríssimos companheiros da blogosfera.
Encomendou sol para que déssemos dois passos e meio no jardim por onde fomos estendendo os nossos tentáculos de conversa. Doses concentradas e cronometradas com o escoar da ampulheta.
Uma pincelada impressionista a aprimorar em reencontros que sabemos.
Para além de respirar simpatia e um sentido de humor muito peculiar, o Francisco possui a discrição dos que estão seguros da sua verticalidade e rectidão.
O Francisco possui a nobreza das almas grandes que partilham aquilo que conhecem.
O Francisco possui o dom da palavra fluida e o da paciência de saber ouvir.
O Francisco possui um sorriso que eu acho um mimo.

N.B. Derretidinha com este texto. A começar pelo título.