sábado, 27 de março de 2010

Hoje é dia de Santa Denise


(Denise, por Bob Dylan)

Denise

- Tens 3 irmãos e muitos amigos, mas ninguém que escreva um texto sobre ti...
Assim se lamentou ela, a propósito das palavras que alinho e oferto aos meus afectos. Ignora a mana que esta eu sabe ser ela. Outrando-se tudo se torna muito mais fácil.

É sempre engraçado ver como os outros nos vêem e saborear os adjectivos com que nos presenteiam. Estatisticamente, há incidências que têm vindo a acompanhar os ciclos dos dias e que espelham aquilo que se expecta de nós. Simpática, sorridente, bem-disposta, autêntica, espontânea, sensível, fria, doce, ríspida, meiga, ingénua, transparente. Burra. De humor subtil e inteligente. Palhaça. Rebelde. Exímia em trocadilhos, rápida de pensamento, mestre na arte do bem-escrever. Teimosa, eufórica, preguiçosa, despistada, impulsiva, tímida, palradora. Consegue criar a ilusão de inteligente e culta ao ponto de haver quem a considere brilhante. Nos tempos mais recentes, imagine-se, bonita, encantadora, atraente, sensual, boazuda, tesuada. Deve ser dos trinta. E do facto de a roupa esconder pneus e estrias e celulite e flacidez. Dividida, assim me confidenciaram recentemente, com a promessa de uma explicação minuciosa. A miúda-orgulho-dos papás, a miúda orgulho-das-manas, mas também a miúda-dor-de-cabeça de muito boa gente.
Esta que aqui vos escreve, como, aliás, qualquer um dos que aqui a lê, tem sido muitas, em espaços, em tempos, em contextos diferentes. Interessante, porém, observar aquilo que tem cumprido uma meticulosa coerência: gostar genuinamente das pessoas, gostar como amar, gostar como querer senti-las em cada poro seu, gostar como doer aquela parte bicuda do coração. Querer sempre mais. Entusiasmar-se com cada novo projecto. Empenhar-se de corpo e alma e frustrar-se por não conseguir fazer tudo e bem ao mesmo tempo. Sonhar à noite com um homem sem rosto e sem corpo que lhe diz coisas bonitas à beira-mar e a beija apaixonadamente. Escrever, escrever, escrever. Desnudar-se ao espelho, de bicos de pés e barriga encolhida, a fazer boquinhas e carinhas. Falar com o seu anjo-da-guarda como quem fala com o tipo mais porreiro do universo. Não resistir a mousse de chocolate e marisco mesmo sabendo que é alérgica. Defender as minorias e os marginalizados. Recusar pertencer a um rebanho. Problematizar. Perguntar. Racionalizar. Tentar destruir as emoções e ser plenamente estóica. Chorar e correr ao espelho e gostar de se ver rosada. Achar que o dia é curto e gostar de se adentrar pela noite fora. Abrir o dicionário ao calhas e aprender uma palavra nova. Sentir a felicidade com o cheiro a terra molhada e o sol na fronte e o mar o mar o mar. Suspender a respiração com a vista magnífica quando sobe a Monchique. Encarar cada novo dia como uma oportunidade de recomeçar.

Acho-lhe uma certa piada. É uma miúda porreira que se esforça por ser melhor e que agradece o facto de existir.

Aos 34 anos, sinto-me sexy. Sinto-me feliz. Sinto-me viva.

domingo, 21 de março de 2010

Um poema

Este poema é absolutamente desnecessário

Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta
Esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica
e o movimento da sua abolição
a partir do seu vazio inicial
mas qual é a sua matéria qual o seu horizonte?
Traçará ele uma linha em torno da sua nulidade
e fechar-se-á como uma concha de cabelos ou como um
[útero do nada?
Ou será a possibilidade extrema de uma presença inesperada
que surgiria quando chegasse a essa fronteira branca
que já não separaria o ser do nada e no seu esplendor absoluto
revelaria a integridade do ser antes de todas as imagens
a sua violência natural a sua volúvel gestação?

António Ramos Rosa
Deambulações Oblíquas

sábado, 20 de março de 2010

Parabéns, S.

Foi assim de mansinho, feito água tépida, que ele setembreou o meu incorrupto, duro e severo coração. Dou-me por mim S-dependente. Exactamente como, creio, todo o seu universo de amizades.
Sublinho, com algum requinte de frigidez emocional, porque isto de afectos nunca terá sido comigo, a perfeição do desprezo que lhe votei depois das primeiras e parcas impressões em testemunho directo. Desfavorabilíssimas. Par pedagógico em derivas cnorrianas, apresentou-me num só fôlego os referenciais que eu iria passar a ter em mãos e, levantando-se, em atraso considerável para os chutos na bola, rematou qualquer coisa como percebeste não percebeste? Antes que eu proferisse a verdade, acrescentou, em nome dos companheiros de relvado que não toleram a incompetência do atraso, um ruído parecido a e qualquer dúvida tu vês isso com calma em casa. Take one, for start. E como quem conta um também conta dois, aqui a demoiselle, ainda perdida em marés de referenciais, assiste à primeira parte da sessão onde monsieur demonstra as subtilezas na desconstrução do núcleos geradores e dos respectivos domínios de referência. Tudo muito bem. Tudo muito célere. Tudo muito in. Até que Preconceitos e Estereótipos. Ele exemplifica com o conceito de Belo. Sinto um frémito ao pensar em Platão como o início de uma estimulante sinopse filosófica. Mas Monsieur, le Monsieur tem a soberba ideia de tomar a demoiselle como exemplo e de, zás!, a atirar a um grupo de senhores gê ene erres, todos homens, todos machos, todos muitos, que se degladiam nas preferências entre as loiras e as morenas.
Primeiras impressões equilibradas, pois que, segundo consta, terei sido vista como leviana e mulher de muito má vida.
E depois, porque na vida da escola há tanto que fazer, era aquela mais uma rotina que.
Súbito, em Maio, serpenteou, setembreou, aconchegou-se. Uma ideia vaga, entre saídas, garfadas, copos e amigos comuns, do gozo inusitado no despique da parvoeira. Uma desgarrada interminável de subtilezas intelectas com intermitências de quase-ordinarice. Tudo tão agudo e tão intenso e tão sei-lá sem direito a uma pausa desprovida de amuo punitório. Experimentei e vivi o inferno. Confessei-lho. Desgraçadamente rejubilou.
Palhacinhadas cnorrianas ao sabor do que se quer. Improvisos conçonéticos, pas-de-deux ao som de U2, sms sob as barbas do coordenador, ensaios à la FCPoooooooooooooooorrrtooooooo! em gravações ao vivo como toque alternativo de telemóvel.
Insinua-me profusamente chata, intelectualmente limitada, fisicamente gorda, gastronomicamente javarda, arraçadamente masculina, insignificantemente mosca para dizer que aprecia a minha companhia e que, vá lá, até gosta de mim.
Apresenta-me como a amiga mais oferecida e mais possessiva que até agora já teve. Inadmite o quão ciumento consegue ele próprio ser em relação a cada um dos seus amigos dele.
Eu gosto do S. Gosto muito do S. Gosto muito tanto do S.
Gosto do nosso ritual do café da manhã e dos almoço e jantares com os nossos amigos. Gosto dos sms insonolentos, gosto dos Sááááááááábados mailados e acho piada quando ele me chama de mosqueteira, mesmo que Aramis, o tal que afinal era uma tal que se castrava mulher por apertar o peito com faixas, eufemismo a-simpático para o que feiamente se chama de gaja-tábua-de-ferro. Gosto quando insiste à exaustão. Gosto dos seus pequenos atrevimentos. Gosto da forma como abraça a vida, a brinda e rodopia o copo sobre a cabeça. Gosto de como estende a palma da mão para um dá-cá-cinco cúmplice. Gosto de como e por que se ri. Gosto de como gosta dos Manelinhos e de como eles também gostam dele. É autêntico, é espontâneo, é alegre. É intenso. É sensível. É simultaneamente expansivo e recatado. É cusco. É bebé. É mimado. Irrita-lhe o que em mim há que lhe espelha o que nele há. É tão egoísta e possessivo e ciumento quão detentor de uma generosidade comovente e de uma abertura ímpar. É frágil, mas cultiva o instinto protector.É selectivo. É exigente. É o S.
Este meu amigo, que protagoniza alguns dos textos deste reino dos tropos, é, como já aqui escrevi um dia, o mano mais velho que eu sempre sonhei ter.
Parabéns, S.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Costas

Puxou-me para dançar, mas as mãos aceleraram-se em entusiasmos incomuns entre aqueles que se dizem amigos. A primeira fracção de segundos apreciou o toque delicado naquela parte particularmente sensível do meu corpo. A segunda evocou a honestidade para me falar do quão feio era estar a abstrair-me da pessoa a quem aquelas mãos pertenciam. A terceira, infame e decisiva, acusou-me de adúltera. Não ondulei e quase entrei em pânico.
Terrível o fel de quem se sente trair a amizade do paladino dos braços bonitos e de Monsieur, le Monsieur.

Sms

Reconheço que possa ser mera brincadeira. Ou um engano puro. Muito embora me tenha asseverado que assim não é. Tenho um admirador tímido e inseguro. Anónimo. Secreto. E eu estou a achar uma graça imensa a estas palavras sem rosto.