quarta-feira, 28 de abril de 2010

Rabiscos e Garatujas no Brasil

O Evandro é um exagerado e deliciou-me com um texto divertidíssimo que escreveu sobre a sua odisseia de há uns dias e a magnífica descoberta d' "o blog da Denise".

A homonímia tem a sua graça, mas Eu garatujo soa-me muito bem e o subtítulo é de se lhe tirar o chapéu.
É um blogue incipiente criado por quem a vida já trouxe alguma experiência e maturidade.

Aqui ficam as minhas boas-vindas à blogosfera e os votos de uma longa e feliz vida ao blogue do Evandro!

Estou contente!

Vou estar com o meu Paulo do Zé.
Vou voltar a ver o .
Vou conhecer o Pinguim.

(e uma data de gente gira)

Enfim, vou estar.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

As moscas d' abril

a democracia do chinelo que laica se rege pelos parâmetros católicos que institui feriados católicos que festeja santos católicos que em polémicas ausculta a opinião católica
a democracia do chinelo que branqueia o passado e derruba muda nomes a locais como pontes e outros lugares
a democracia do chinelo que sob pretextos vários e absurdos protela a devolução do que é de quem a quem como o espólio espírita à Federação Espírita Portuguesa correspondência livros e imóveis confiscados
a democracia do chinelo que em nome da liberdade de expressão permite o lançamento de boatos que estragam vidas de forma irreversível e condena à partida quem em prova contrária se deveria manter inocente
esperança gorada viva abril
hip hip hic hic bzzzz paf viva

domingo, 25 de abril de 2010

Vinte e cinco - revolução quase



Uma revolução inacabada ou suprimida, uma batalha perdida que não se celebra, um declínio lento, o luto - todavia o luto jamais é esquecimento, é o cenotáfio cívico da lembrança.
in Viagem de um pai e de um filho pelas ruas da amargura

(...) a suposta extensão de um país, mas, na verdade, irremediavelmente cativo das suas próprias referências falhadas: 1383, 1820, 1910, 1974. Datas suspensas, coisas que não foram continuadas, direcções que pararam de súbdito, obscurecidas gradualmente como se houvessem sido festas ausentes.
in Elegia para um caixão vazio

Ora bem: aconteceu o 25 de Abril. São livres, vocês?; somos livres? Éramos todos mais livres no tempo do fascismo. Sabes porquê? Porque a esperança estava intacta; porque lutávamos contra toda e qualquer forma de mutilação individual. O fascismo estava ali e combatíamo-lo em grupo. E agora?
Idem

(...) o 25 de Abril foi parte de um exército a apresentar armas ao Portugal miserável, da fome, dos decénios constelados de torturas e de assassínios - tudo isso é mais que certo; mas logo, muito cedo, transformaram em mercadoria os símbolos e os ícones dos nossos respeitos e amores.
Idem

Abril não foi, nem podia ser, a festa ininterrupra. E nós, todos nós, é claro, limpámos, depois, os restos, as sobras de uma festa que quase ia sendo uma revolução.
Idem

Dou-me conta de que Abril não foi, para mim, no meu trabalho quotidiano, uma fértil e ininterrupta torrente de felicidade.
Idem



(Assim dizem as personagem de Baptista-Bastos)


sexta-feira, 23 de abril de 2010

Jornadas de Cultura Espírita

Brilhantes, uma vez mais. Pelo rigor e seriedade. Pela boa disposição e pelo sentido de humor presentes. Mediunidade e Espiritismo. Conceitos diferentes, correlações possíveis. Médicos, jornalistas, professores, engenheiros informáticos, designers: a perspectivação de diferentes áreas do conhecimento.
Todas as comunicações se encontram disponibilizadas aqui.
Destaco a de Mário Correia, que explicou a origem da estigmatização do Espiritismo em Portugal. Durante o Estado Novo, a censura, a proibição e a perseguição fizeram eco ao tempo dos primeiros cristãos e das suas catacumbas. Ainda hoje, a três décadas dos cravos da liberdade, se sentem as repercussões da ditadura.





quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ciumeira

Acende a vela do meio. Espinafres salteados e uma taça de vinho verde. Dourada grelhada para dois chez Monsieur, le Monsieur.
- E já reparaste como ficas com esse sorrisinho insuportável sempre que regressas do Oeste?
Suspiro.
- E afinal gostas do Oeste porque ele é de lá ou gostas dele porque é do Oeste?
Suspiro.
-O peixe está bom. E temperas bem os espinafres. E um homem na cozinha é sempre muito sexy. E...
- E o que há de tão especial lá no Oeste?
Molho um pedaço de pão no azeite quente.
Satisfaço-o:
- Boas vibes.
- Aqui também...
- Alegria. Boa-disposição.
- Aqui também.
- Gente simpática.
- Aqui também.
- Gente gentil.
- Aqui também.
- Gente que me faz rir.
- Aqui também.
- Gente que me abraça.
- Mais do que eu?!
- Gente atrevida. Que me enche o ego.
- E quantas vezes te dizemos que gostamos tanto de ti? Hum? E do teu sorriso? Hum? E da tua alegria? Hum? E da tua simpatia? Hum?
Silencio. O peixe está mesmo saboroso.
E confesso:
- Os rapazes de lá dizem-me bonita.
Fecha o prato. Brinda e sorve à última gota. O vinho é bom.
- Ahhhhh!...
Segura-me a mão esquerda e aproxima-se num segredo.
- O que tu não sabes, mas eu sei, é que o Oeste é a terra dos dois Ms...
- Dos dois Ms?
- Dos dois Ms.
Levanta-se. Traz a sobremesa. Entrega-me uma fatia de queijo com marmelada.
- Dois. Dois Ms. Metade da população é mentirosa. A outra metade é míope.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Piropo

- Permita-me dizer que é ainda mais bonita ao vivo do que na internet.
Assim me confidenciou a voz mais sexy da blogosfera.

Há quem resista ao charme do Oeste Selvagem?

terça-feira, 20 de abril de 2010

Percurso

Sempre advoguei a supremacia do percurso em relação ao ponto de chegada. Sempre muito anti roteiros e mapas pormenorizados. Os trilhos sempre, em vez das auto-estradas. E sempre o prazer da surpresa, do inesperado, da descoberta conquistada.
Mas - e é como há bem pouco tempo aprendi - se "todos" é muita gente, "sempre" é muito tempo.
Óbidos arraigou-se em projecção e, depois, em memória.
Não houve percurso.
Nem antes, nem depois.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Fui ao Céu


(mas já voltei)






domingo, 18 de abril de 2010

Bastidores

- Estou bem.
Assim lhe disse ela. Lapidar, para prevenir os entusiasmos que aprendeu a calar.
É o que faz: esconde os sentimentos num saco preto e proibe-se a si mesma de os revisitar. Foge do miradouro que lhe mostra o que já foi. Sabe do quão perigoso é concretizar em palavras o que, sendo, não será.
Ele confessou o que há muito ela desejou ouvir.
- E eu estou mais calmo. A distância também ajuda.
Ela sorriu, ao mesmo tempo que algo se lhe parteliu no. Inesperadamente. E doeu-lhe.
Por detrás do pano preto, ele demorou-se na força do abraço.
E, pela primeira vez, ela sentiu que sim. Que gostaria de o beijar.

domingo, 11 de abril de 2010

Ironia - Olé!

Alguns palermas continuam a utilizar o seguinte excerto queirosiano como autoridade para advogar, legitimar e defender a tourada.
É verdade que a tauromaquia está presente e é transversal na literatura portuguesa que o tempo se encarregou de consagrar. ... E que exige uma leitura de que os néscios são incapazes.
Também eu, quando os meus verdes 14 anos não davam para mais, peguei n' Os Maias e li esta passagem de forma leviana, preocupada mais com a história do que, propriamente, com a forma como a história é contada, ou seja, com os procedimentos retóricos e as críticas que subtilmente se vão tecendo.
A seguinte passagem é um exemplo da mestria com que Eça de Queiroz cria um efeito estrondoso a que se dá o nome de Ironia. Descodificar a Ironia que se movimenta na estrutura profunda de um enunciado é tarefa árdua e exige uma competência tripla do leitor: linguística, enciclopédica e ideológica. Não sou eu quem o diz. Corroboro apenas o que defende Linda Hutcheon, ironóloga de referência.
Ao comentar este post, acabei por rever Torga e Eça e, entre googladas, tombei nesta página. Durante estes vinte anos que intermeiam a minha primeira leitura d' Os Maias, as posteriores e o momento em que reli este excerto algo maturou em mim. E fez-se um clique. Se no início eu lera a passagem como uma defesa inegável da tourada e aceitara essa interpretação sem reservas, a leitura mais demorada do romance e da restante obra queirosiana alertou-me para uma incoerência incómoda que eu não conseguia explicar: a divergência entre esta posição e os valores profundamente humanistas transmitidos de forma recorrente em toda a obra queirosiana. Eça de Queirós era um iluminado e via muito para além da época e da sociedade em que viveu. Um patriota incompreendido que, por tanto amar Portugal, o criticava . .. Atitude que provocou uma forte e azeda reacção de Pinheiro Chagas e outros seus contemporâneos.
Como poderia Eça, pois, fazer a apologia da tourada? Senti um clique. Não no fez. Eu é que o nunca lera como o merecia.
Afonso da Maia é uma personagem sólida, culta, de gostos requintados e de firmes princípios morais. Por isso, o leitor desprevenido toma as suas palavras como as do autor. Mas o velho Afonso, tal como o Ramalhete onde habita, representam o velho Portugal, em declínio, perante uma regeneração necessária mas que se avizinha repleta de defeitos. No romance transparece, pois, a ideia que Eça defendeu no ensaio que intitulou de "O nobre patriotiotismo dos patriotas", cuja leitura aconselho vivamente.
Assim, muito embora o narrador valorize o Afonso da Maia, não no torna numa personagem que concretiza a perfeição. Ao falar da tourada, Afonso da Maia ilustra o velho Portugal, arreigado às tradições, petrificado nas suas fronteiras e de costas para a Europa. Afonso da Maia defende convictamente as suas ideias, mas compreende-se uma fina e subtil ironia proveniente daquele que se silencia para lhe dar voz: o narrador.
Poderia demonstrar os procedimentos retóricos que criam o feito irónico. Poupo-vos a tamanha tortura. Mas convido-vos a atentar à relação de causa-efeito que se estabelece entre tourada, saúde física e coragem portuguesa. E à posição em que Portugal é colocado relativamente aos restantes países da Europa.

“O marquês arrastara uma cadeira para o pé de Afonso, para lhe fazer a confidência dos seus achaques; mas como Dâmaso se metia entre eles, falando ainda da Mist, decidindo que a Mist era chic, querendo apostar cinco libras pela Mist contra o campo - o marquês terminou por se voltar, enfastiado, dizendo que o Sr. Dâmasosinho se estava a dar ares patuscos... Apostar pela Mist! Todo o patriota devia apostar pelos cavalos do visconde de Darque, que era o único criador português!
- Pois não é verdade, Sr. Afonso da Maia?
O velho sorriu, amaciando o seu gato.
- O verdadeiro patriotismo talvez, disse ele, seria, em lugar de corridas, fazer uma boa tourada.
Dâmaso levou as mãos à cabeça. Uma tourada! Então o Sr. Afonso da Maia preferia touros a corridas de cavalos.
O Sr. Afonso da Maia, um inglês!...
- Um simples beirão, Sr. Salcede, um simples beirão, e que faz gosto nisso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então, me pôs fora do meu país... Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro touros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o touro: o touro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes... Mas sabe o Sr. Salcede qual é a vantagem da tourada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não há instituição que tenha uma importância igual à tourada de curiosos. E acredite uma coisa: é que se nesta triste geração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo músculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se isso ao touro e à tourada de curiosos...
O marquês entusiasmado bateu as palmas. Aquilo é que era falar! Aquilo é que era dar a filosofia do touro! Está claro que a tourada era uma grande educação física! E havia imbecis que falavam em acabar com os touros! Oh, estúpidos, acabais então com a coragem portuguesa!...
- Nós não temos os jogos de destreza das outras nações, exclamava ele, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o cricket, nem o footbal, nem o runing, como os ingleses; não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o alemão sólido... Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?
Craft, do canto do sofá, onde Carlos se fora sentar e lhe falava baixo, respondeu, convencido:
- O quê, o touro? Está claro! O touro devia ser neste país como o ensino é lá fora: gratuito e obrigatório.
Dâmaso no entanto jurava a Afonso compenetradamente que gostava também muito de touros. Ah, lá nessas coisas de patriotismo, ninguém lhe levava a palma... Mas as corridas tinham outro chic! Aqueles Bois de Boulogne, num dia de Grand-Prix, hein!... Era de embatucar!”
in Os Maias, Eça de Queirós

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Kunnbi - Fugddi Natch

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(Tenho saudades de Goa)

Goa













(Algumas das fotos com cheiro a cominhos que a mana me trouxe)

quinta-feira, 1 de abril de 2010