Inspirado no meu post anterior, o Francisco publicou um texto verdadeiramente interessante onde problematiza o imaginário da cidade, concretizando a sua tese com o caso paradigmático da Invicta Cidade do Porto (título atribuído pela rainha D. Maria II em louvor à coragem com que defendeu os ideais do liberalismo oitocentista) e a forma como cada um de nós se dela enamorou, tendo em conta a nossa polaridade dominante: a feminina no meu caso, a masculina no dele.
O meu percurso tem-me levado a amar os lugares onde cruzo memória e afectos. Ruas muito específicas da cidade de Portimão que me falam de episódios da minha vida e das pessoas com quem tenho tido o privilégio de privar. O meu imaginário de Lisboa nasce da leitura. Há lugares onde respiro Cesário, Pessoa, Baptista-Bastos. Depois, os anos durante os quais lá estudei. Há lugares onde revisito o cheiro a livros, mas também um gesto, um beijo, um olhar.
Na sua Poética do Espaço, Gaston Bachelard sublinha o poder da repercussão e da ressonância sentimentais na criação de novas realidades que medeiam o sujeito e aquilo que lhe é exterior. Estas novas realidades resultam da transformação a que as coisas se sujeitam pela percepção de cada um de nós. Assim, as coisas passam a ser imagens.
Aquela rua, por exemplo, nunca poderá ser a mesma para cada uma das tantas pessoas por quem me cruzo todas as manhãs. Porque naquela rua, a minha rua, a imagem em que aquela rua se transformou, habitam os meus pensamentos matinais, os odores que testemunhei, os textos que li, as músicas que sei, as histórias como as vi e vivi.
Esta é uma forma poética, intimista e passista de viver os lugares, a cidade, o mundo. Bachelard alerta, porém, que a imaginação nos liberta do passado e se abre para o futuro. Existe, portanto, na imagem, a possibilidade de uma dinâmica interventiva e de uma abertura ao Outro. Uma possibilidade de pragmatismo.
Creio poder articular esta ideia com a imagem de casa explicada pelo filósofo francês. A casa como o nosso primeiro universo, espaço de ensaio do nosso movimento no mundo e ilusão de estabilidade.
Uma visão abrangente não permite que a casa se reduza a um espaço balizado por paredes. Mário Ventura, em Quarto Crescente, coloca o narrador-menino à janela e transforma a casa onde como um projecto estensível ao tempo e ao espaço. Em toda a sua obra, Baptista-Bastos apresenta uma visão cronótopa dos bairros de Lisboa e Lisboa passa a ser metonímia de não só de Portugal como também do mundo inteiro porque Lisboa se confunde com a própria Humanidade.
O meu amigo Francisco inova de forma interessante o modo como se tem vindo a percepcionar poeticamente a Cidade. Num gesto centrípeto, o Francisco concentra o mundo no Porto, no seu Porto, na imagem que tem vindo a construir do Porto. E desse seu centro eleito, em que quase se adivinha uma fusão entre este meu amigo e a sua cidade, se expande, em movimento centrífugo, o exemplum que na Invicta o Francisco conseguiu descobrir.
Se bem leio este meu amigo, o Porto é simultaneamente o Eu e o Mundo; o diagrama da intimidade, da identidade, mas também da alteridade; o ninho da dialéctica interioridade-exterioridade.
Há uma passagem que considero absolutamente fabulosa e que aqui destaco com um vivo convite à leitura do texto inteiro:
Eu habito o Porto como se habitasse o centro do mundo: o Porto é a minha casa, o meu lar, construído no centro do mundo pátrio, que quero partilhar com todos os cidadãos do mundo. E neste desejo - que recusa a imagem turística oficial e a imagem pública do Porto veiculada por forças inimigas e invejosas - a diferença sexual que esbocei dissolve-se: o Porto é a Pátria da Identidade, a Casa do Homem. O Porto é mundo.