segunda-feira, 21 de junho de 2010

Verão 2010

Disse-me ele aqui:

Umas Guinness, o relento da noite, uma skazada, e uma noite de sono, comigo costuma funcionar.

Portanto, muni-me de uma grade e rumei à noite na praia mais deserta que consegui encontrar por estas bandas. Não dormi. Muitas as borboletas que contei no meu pensar. As Guinness foram sorrateirando o seu efeito e, antes do orgasmo do dia seguinte, saudei a chegada deste Verão.

(... desequilibro-me no prumo da sanidade convencionada)



sábado, 19 de junho de 2010

Infidelidade?

Deixo Saramago para outro dia qualquer que qualquer outro dia é sempre muito bom para Saramago. Impõe-se agora, contudo, assunto diverso que ocupa a ordem dos dias da Deniblog. O tema é infidelidade e eu ando tremendamente baralhada, confusa, entupida. Em crise.
Conceituo a palavra como a quebra de um pacto, de um compromisso, à revelia da pessoa com quem se estabeleceu esse compromisso. No caso, de fidelidade.
À infidelidade praticada no seio de um relacionamento amoroso, íntimo, dá-se o nome de adultério. É esse tipo de infidelidade que me urge hoje clarificar.

Ensinou-me um amigo meu a distinção entre fidelidade e lealdade, assumindo-se um adepto convicto do segundo conceito. É esse o seu compromisso com quem se relaciona. Estar com quem quer estar e assegurar à pessoa com quem está que é precisamente com essa pessoa que nesse momento deseja estar. Não estar com quem no momento não deseja estar. Uma questão de honestidade, portanto, em contraponto com as pessoas que, estando com quem estão, têm na cabeça as pessoas com quem não estão e gostariam de estar. Fidelidade desleal. Conformismo. Um frete. ... Havendo, com certeza, e sempre, a possibilidade de se harmonizar fidelidade e lealdade. O ideal. Que existe. E que a grande maioria de nós almeja.

Tem-me ensinado a vida que há mais tonalidades que o preto e que o branco. No assunto que aqui abordo (como em muitos outros, reconheço), tenho vindo a descobrir uma série de variantes que me têm dado algum trabalho. É que pensar cansa. E às vezes não se aporta a conclusão nenhuma. Exercícios eventualmente estéreis. Admito. Mas se se coloca a hipótese de se arrolarem questões morais, talvez o esforço seja meritório. Para que se perceba em que medida uma acção de X e Y interfere com Z e, se se aceitarem derivas cármicas, com os próprios X e Y. Se o limite da liberdade de cada um se baliza no limite da liberdade de cada outro, como distinguir limite de vontade e vontade de legitimidade? Ou por outra, se há histórias onde a fidelidade e a infidelidade se escancaram, outras há cujas especificidades onde estas noções de movimentam são pantanosas.

Amáveis, os leitores do RG, dirão certamente quais das alíneas que passo a apresentar ilustram comportamentos de infidelidade e, porque também me interessa, de imoralidade (em directa ou indirecta articulação com o tema em debate).

1. Embora sem paixão nem amor, A assume relação monogâmica com B. Monogâmica e morna. A conhece C. A envolve-se com C . A oculta a B a experiência que viveu com C. A mantém a relação com B. C sente-se a maior bovina de toda a história da humanidade.

2. A assume relação aberta com B. A conhece C. A envolve-se com C. B sabe que A se envolve com terceiros sem necessariamente saber se é com C, se com D, se com H. A mantém a relação com B. C não sabe se está a ter comportamentos bovinos.

3. A envolve-se com B, sem assumir qualquer tipo de relação. O acto sexual pode ser episódico, circunstancial, ocasional, pode ser sempre o último. A conhece C. A envolve-se com C sem nunca colocar de lado a possibilidade de continuar a se envolver com B. C não sabe se está a ter comportamentos bovinos.

4. A assume relação com B sem a cláusula da monogamia por se saber incapaz de a cumprir. B dedica-se monogamicamente a A. B sabe, lamentando, que A não lhe retribui a exclusividade. A, até então amicíssimo de C, aproxima-se de C. A envolve-se com C sem assumir qualquer tipo de relação a não ser a da amizade. A mantém a relação com B e com B delineia um projecto de vida na esperança de um dia conseguir estabelecer um compromisso de fidelidade com B. C não sabe se está a ser a maior bovina de toda a história da humanidade.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

G de....

... generoso, galerno, gaudioso, genuíno, guapo, gaiato, galhardo, gracioso.
Gentil.
Brindo hoje, com alegria, o aniversário do paladino dos olhos doces, húmidos e traquinas. É o G., o meu amigo a quem gabo os braços mais bonitos do meu sempre. Belos. Firmes. Macios. Irresistíveis ao olhar. Com a vida nítida que se ramifica em relevo. Na têmpora esquerda pulsa. Na jugular também. E eu gosto.
O G. é delicado. E atencioso. E sorridente. É enxuto. Tranquilo. Nervosinho também. E cheira bem. Não fala muito, mas tem no olhar uma cumplicidade que dispensa as palavras.
É um prazer enorme quando conversamos sobre livros e quando lhe ouço episódios da infância e dos tempos da faculdade. Gosto quando me escreve em francês e quando o telemóvel acusa a mensagem das boas-noites. E dos bons-dias também.
O G. é uma alma muito boa. Boa mesmo. É sensível. É dedicado. Altruísta. Discreto. Meigo. Suave. Nuvem. Ar. Trata-me por Menina Denise. É paciente para comigo, quando tagarelo ou azelho nas pedaladas a que arrisquei. Sinto-me contente quando me desafia para a noite. Com ele sinto-me protegida e ouso aquele vestido ou aquela saia que pensei estarem destinados à traça faminta. Gosto de dançar com ele. Gosto de estar com ele, mesmo que em silêncio, e, se se prolonga em ausências, sinto uma saudade a derramar-se de mansinho numa fragilidade em que não me reconheço.
No dia em que eu decidi que deixaria de estar tão miseravelmente triste e não mais esperaria por não interessa quem, o G. estava lá e, mesmo sem saber, sacudiu-me de um torpor de onze meses. Com ele, Monsieur, le Monsieur. Os três formamos um grupo muito bonito, a que Monsieur apelida de Mosqueteiros.
Agonizo quando antecipo o dia em que regressará ao extremo diagonal do país, com a incógnita de cada fim de contrato sobre o seu regresso. Professor aqui e ali, de casa às costas e a saudade que vai semeando nele e em quem dele gosta.
Há quem defenda a impossibilidade de amizades virginais entre heteros de sexos diferentes. A que existe entre mim e o G. é o mais perfeito exemplum da minha vida. E eu sinto-me orgulhosa de ter uma amigo assim. Querido. Presente. Amigo. Irmão.
Parabéns, G.



quinta-feira, 3 de junho de 2010

Francisco: Eu, a Cidade e o Mundo

Inspirado no meu post anterior, o Francisco publicou um texto verdadeiramente interessante onde problematiza o imaginário da cidade, concretizando a sua tese com o caso paradigmático da Invicta Cidade do Porto (título atribuído pela rainha D. Maria II em louvor à coragem com que defendeu os ideais do liberalismo oitocentista) e a forma como cada um de nós se dela enamorou, tendo em conta a nossa polaridade dominante: a feminina no meu caso, a masculina no dele.
O meu percurso tem-me levado a amar os lugares onde cruzo memória e afectos. Ruas muito específicas da cidade de Portimão que me falam de episódios da minha vida e das pessoas com quem tenho tido o privilégio de privar. O meu imaginário de Lisboa nasce da leitura. Há lugares onde respiro Cesário, Pessoa, Baptista-Bastos. Depois, os anos durante os quais lá estudei. Há lugares onde revisito o cheiro a livros, mas também um gesto, um beijo, um olhar.
Na sua Poética do Espaço, Gaston Bachelard sublinha o poder da repercussão e da ressonância sentimentais na criação de novas realidades que medeiam o sujeito e aquilo que lhe é exterior. Estas novas realidades resultam da transformação a que as coisas se sujeitam pela percepção de cada um de nós. Assim, as coisas passam a ser imagens.
Aquela rua, por exemplo, nunca poderá ser a mesma para cada uma das tantas pessoas por quem me cruzo todas as manhãs. Porque naquela rua, a minha rua, a imagem em que aquela rua se transformou, habitam os meus pensamentos matinais, os odores que testemunhei, os textos que li, as músicas que sei, as histórias como as vi e vivi.
Esta é uma forma poética, intimista e passista de viver os lugares, a cidade, o mundo. Bachelard alerta, porém, que a imaginação nos liberta do passado e se abre para o futuro. Existe, portanto, na imagem, a possibilidade de uma dinâmica interventiva e de uma abertura ao Outro. Uma possibilidade de pragmatismo.
Creio poder articular esta ideia com a imagem de casa explicada pelo filósofo francês. A casa como o nosso primeiro universo, espaço de ensaio do nosso movimento no mundo e ilusão de estabilidade.
Uma visão abrangente não permite que a casa se reduza a um espaço balizado por paredes. Mário Ventura, em Quarto Crescente, coloca o narrador-menino à janela e transforma a casa onde como um projecto estensível ao tempo e ao espaço. Em toda a sua obra, Baptista-Bastos apresenta uma visão cronótopa dos bairros de Lisboa e Lisboa passa a ser metonímia de não só de Portugal como também do mundo inteiro porque Lisboa se confunde com a própria Humanidade.
O meu amigo Francisco inova de forma interessante o modo como se tem vindo a percepcionar poeticamente a Cidade. Num gesto centrípeto, o Francisco concentra o mundo no Porto, no seu Porto, na imagem que tem vindo a construir do Porto. E desse seu centro eleito, em que quase se adivinha uma fusão entre este meu amigo e a sua cidade, se expande, em movimento centrífugo, o exemplum que na Invicta o Francisco conseguiu descobrir.
Se bem leio este meu amigo, o Porto é simultaneamente o Eu e o Mundo; o diagrama da intimidade, da identidade, mas também da alteridade; o ninho da dialéctica interioridade-exterioridade.
Há uma passagem que considero absolutamente fabulosa e que aqui destaco com um vivo convite à leitura do texto inteiro:

Eu habito o Porto como se habitasse o centro do mundo: o Porto é a minha casa, o meu lar, construído no centro do mundo pátrio, que quero partilhar com todos os cidadãos do mundo. E neste desejo - que recusa a imagem turística oficial e a imagem pública do Porto veiculada por forças inimigas e invejosas - a diferença sexual que esbocei dissolve-se: o Porto é a Pátria da Identidade, a Casa do Homem. O Porto é mundo.